Na Mira do Vampiro

23 Dois gatos com uma cajadada só


Toninho puxou a tampa com uma rapidez fantástica. Havia algo no interior.

Duda começou a bater com a estaca dentro do caixão, sem perceber em que estava gastando toda a sua fúria.

— Chega, Duda! — gritou Toninho, tentando arrancar o amigo de perto do caixão.

— Não, Toninho, deixa eu acabar com a raça dele! Me larga!

Excitado, Duda não parava de bater, até que Toninho conseguiu afastá-lo.

— Não tem nenhum vampiro aí, mané! — disse Toninho, segurando-o.

Cansado do grande esforço, Duda sentou no chão quase sem fôlego:

— Eu matei ele? — quis saber.

Toninho também se recuperava.

— Hem, Toninho?... — insistiu Duda.

Toninho retirou do caixão uma pequena estatueta.

— Olha o "vampiro" que você matou... — mostrou Toninho.

Duda levantou-se e olhou o caixão, esquecendo o cansaço.

Lá dentro havia dezenas de embrulhos com diversos tipos e tamanhos de estatuetas. Os meninos, sem compreender o porquê de tudo aquilo, começaram a remexer as peças, que estavam devidamente embaladas com jornal.

Em dado momento, Duda, ao sacudir uma delas, percebeu alguma coisa dentro; revirou-a de todo jeito, mas não descobriu nenhuma abertura por onde pudesse ter sido introduzido algo. Largou-a no chão com força...

A estatueta, feita de louça fina, espatifou-se em mil pedaços, revelando várias pedras que pareciam ser preciosas.

— Caramba, Toninho! Olha só, moleque!

Duda parecia ter descoberto um tesouro, tamanho seu entusiasmo diante daquelas pedras. Tinha até esquecido o vampiro.

Toninho, sem entender bulhufas, perguntou, admirado:

— Que que é isso?

— Não tá vendo, moleque? São pedras preciosas!

Duda pegou outra peça, que também jogou no chão. Ao quebrar-se, as pedras deslizaram pelo taco do salão...

— São diamantes? — perguntou Toninho, curioso.

— Diamantes? Claro que não!

— E como você sabe que são pedras preciosas?

— Se não fossem, você acha que estariam escondidas? — retrucou Duda, demonstrando a lógica do seu raciocínio.

Toninho pegou outra estatueta, balançou-a e ameaçou atirá-la no chão, mas foi impedido por Duda:

— Não precisa. Todas elas devem estar cheinhas.

Toninho parou com o braço levantado, segurando a estatueta no ar.

Duda tomou-a da mão dele e balançou a peça para se certificar.

— E agora? — perguntou Toninho.

— Sei lá. Nós temos é que cair fora. Eu sabia que esse sujeito era suspeito desde o início... Quem diria, hem! Contrabandista de pedras preciosas.

— Não vai me dizer que você sabia que o cara era contrabandista? — ironizou Toninho.

— Claro que não sabia, mas todo grande detetive tem que ter faro para reconhecer um criminoso, senão ele nunca terá sucesso na profissão.

— E aquelas histórias sobre o camarada que chupa o sangue dos outros? — volveu Toninho, provocativo. — E as mulheres assassinadas?

— Tudo isso só aumenta a culpa deles. O contrabando deve ser a forma que o vampiro encontrou para patrocinar suas atividades demoníacas; afinal, nesse mundo de trevas em que vivemos, precisamos de dinheiro...

— Como é que é? — volveu Toninho, sem entender nada.

— Deixa pra lá!

Súbito, a atenção dos meninos voltou-se para a loja. Havia uma movimentação suspeita.

— É melhor a gente dar no pé logo, Duda.

— Peraí! Acho que nós devíamos levar uma dessas estatuetas com a gente, para mostrar para o Ferretti.

Enquanto os dois se preocupavam com sua descoberta, o criado do vampiro e Paco entravam na loja.

No momento em que transpôs a porta de ferro, com as luzes ainda apagadas, o agente funerário percebeu que uma luminosidade vinha do salão secreto.

Não pestanejou. Entrou correndo, foi até sua escrivaninha, pegou a chave da porta camuflada e dirigiu-se à passagem escondida pela pintura.

— O que o senhor vai fazer aí dentro, chefe? — perguntou Paco, intrigado.

— A luz está acesa — respondeu o criado do vampiro, preocupado.

Dentro do salão, os meninos haviam emudecido. Só tiveram tempo de se esconder atrás de um dos caixões.

Uma porta que parecia não estar ali antes se abriu, e o criado do vampiro apareceu. Com a fisionomia tensa, passou os olhos por todo o salão...

— Engraçado, é a segunda vez que eu encontro luz acesa tendo certeza de ter apagado!

Os meninos estavam absolutamente quietos. Não davam o menor sinal de vida. Dessa vez não tinham o Kid para atrapalhar.

O criado do vampiro foi até o interruptor fosforescente e, quando ia apagar a luz, ouviu cochichos. Parou instantaneamente.

— Cadê a estátua? — sussurrou Duda.

— Eu não peguei nada — respondeu Toninho no mesmo tom.

— Mas eu falei pra você pegar!

— Não falou não... — replicou Toninho, ainda sussurrando.

Duda e Toninho tentavam chegar a um denominador comum quanto às estatuetas.

— Desculpem interromper a conversa, mas por acaso foram vocês que deixaram os caixões abertos?

Os dois gelaram.

A história parecia ter chegado ao seu término. Tinham sido apanhados, sem nenhuma chance de escapar.

Os dois, mudos, limitavam-se a encará-lo, com os olhos petrificados. Não ousavam dizer coisa alguma.

Segundos antes de se esconderem, quando perceberam que alguém estava para entrar no salão, eles trataram de correr sem se preocupar em fechar os caixões; isso para não falar nas estatuetas desembrulhadas, nos cacos de louça e nos pedaços de jornal largados no chão.

O caixão escancarado e remexido foi a primeira coisa que o criado do vampiro notou, logo que assomou ao salão.

— Vocês vão ficar aí calados, sem me dizer nada? — perguntou o criado do vampiro com certa ironia. — Ou vocês me contam como vieram parar aqui, ou não saem vivos desta joça! — berrou de raiva, mudando de tom bruscamente.

Os meninos encolheram-se ainda mais.

— O que que está acontecendo, chefe? — disse Paco, aparecendo na porta do salão.

— Olhe aqui o que eu encontrei.

Paco aproximou-se do local onde os meninos estavam e disse:

— Mas são dois garotos.

— É evidente que são dois garotos — falou o criado do vampiro, impaciente. — Quem diria que nossa atividade ia ser descoberta por dois meninos abelhudos, hem? Eles conseguiram o que a polícia vinha tentando há meses. Mas digam como chegaram até aqui?

— Será que foram esses moleques que invadiram nossa oficina e arrombaram a fechadura? — supôs Paco.

— Pode ser...

Duda e Toninho se entreolharam. Continuavam imóveis e calados.

— O senhor não acha que devemos chamar a polícia pra prender esses garotos por invasão de domicílio? — falou Paco inocentemente.

— Tá louco?! Vamos é fazer esses guris confessarem tudo o que sabem, aí depois damos um jeito neles... Vamos, seus espertinhos, a brincadeira acabou.

Os dois saíram do esconderijo acompanhados de perto por Paco, que os conduziu à loja.

O criado do vampiro, muito dono da situação, arrumou a bagunça, apagou a luz e dirigiu-se para lá também.

Restava aos dois detetives mirins esperar pelo fim...