Na Mira do Vampiro

17 A prova está no caixão


— Como é que é, moleque! — Duda abriu o caixão berrando de felicidade.

Toninho, levando um baita susto, deu um grito tão alto que provavelmente chamou a atenção da vizinhança toda.

Kid Pulga, depois do aparecimento do dono, latia ininterruptamente.

— Quieto, Kid! — ordenou Duda, saindo do caixão para confortar o cãozinho, que só parou de latir quando o dono lhe pôs a mão.

— Você e sua mania de detetive... — desabafou Toninho. — Vai se preparando, porque a sua mãe vai te arrancar o couro.

— Ela sabe que eu vim pra cá?

— Não...

Duda não deixou que Toninho explicasse; saiu correndo em direção à cozinha, seguido por Kid.

Toninho ficou parado, sem entender nada.

A porta dos fundos batia pela segunda vez.

Dois minutos depois, voltava Duda desanimado, Kid vinha logo atrás com a língua pendurada.

— A porta, Toninho...

— Que que tem a porta?

— Estamos trancados nesta porcaria.

— Que nada! Aquela porta abre por dentro; por fora é que ninguém pode abrir — explicou Toninho com total segurança.

— Não aquela porta lá. Você não viu quando entrou? A fechadura tá invertida...

— É? — espantou-se Toninho, perdendo a segurança anterior. — Droga! Que armadilha, hein!

Duda sentou num banco de madeira, pensativo.

— Você vai ficar aí parado sem fazer nada? — tornou Toninho, nervoso com a passividade de Duda.

— Vamos esperar pela minha mãe... — disse Duda conformado, riscando o chão com a chave de fenda.

— Mas eu não disse que ela estava vindo pra cá, seu burro! Eu falei aquilo porque ela já estava te procurando por todo lado e não te encontrara. Aí, quando percebi, peguei o Kid e ia saindo de mansinho quando topei com ela no portão. Ela estranhou quando me viu e perguntou por que eu não estava jogando bola com você. Aí falei que tinha vindo em casa beber água, mas que já tava voltando pra te chamar pra jantar. Aí ela perguntou por que eu estava levando o Kid para isso. Eu fiquei sem saber o que falar...

— Que tal você encurtar a história, Toninho?

— Bom, agora eu estou preso aqui dentro contigo. Pronto para servir de comida para o vampiro assassino.

Duda deu de ombros e continuou a riscar o chão com a chave de fenda...

Kid, como sempre, observava os dois, indiferente a tudo.

— Putz! Como isso aqui é grande! — volveu Toninho, esquecendo por instantes o medo e contemplando o local, admirado. — O que é aquilo? — perguntou, surpreso.

— Nada, é só o caixão do vampiro — respondeu Duda com ironia.

— Quê?!

— Você ficou surdo? É o caixão do vampiro!

— Você já sabia que o caixão dele ficava guardado aqui dentro? — indagou Toninho, voltando a inquietar-se.

— Não, não sabia, mas desconfiava; depois que eles limparam o apartamento, essa casa era a nossa única chance de conseguir alguma pista — explicou Duda, calmo, sem levantar-se do banco de madeira.

— Caramba! Então a gente tem que sair daqui depressa! — disse Toninho num medo crescente.

— Oh! Brilhante dedução — zombou Duda.

— Anda, mané! Você vai ficar aí parado como uma mula?

— Calma, meu irmão — replicou Duda com tranquilidade. — Nada de desespero. Antes de irmos embora, temos que conseguir alguma prova contra o vampiro... Se tivéssemos algumas estacas aqui com a gente...

— Estacas?

— É... Vai me dizer que você não sabe o que são estacas?

Toninho balançou a mão, como que querendo dizer "mais ou menos".

— Podemos levar algum pedaço de madeira daqui mesmo...

— Do que você está falando agora?

— Do modo como vamos fazer as estacas, Toninho!

— "Vamos?"

— Se você não quiser ajudar, ótimo! Vou fazer tudo sozinho. É até bom contarmos somente com profissionais nesses serviços — finalizou Duda com ar de superioridade.

— A gente tem é que dar o fora! Já passa da hora do jantar.

— Você só pensa em comer? Uma coisa de cada vez. O jantar que espere! Ô Toninho, você veio aqui pra quê? Não foi pra me ajudar?

— Não, foi pra levar você de volta...

— É? Como? Pode me dizer? Já se esqueceu que nós estamos trancados aqui dentro?

— E o que você quer que a gente faça, que fiquemos esperando pela volta do vampiro pra ele soltar a gente? — observou Toninho, irônico. — Vamos arrombar a porta, ué!

— Não antes de eu achar alguma prova...

Duda começou a procurar entre as coisas algum vestígio do vampiro.

Toninho aproximou-se do caixão, receoso, e disse:

— Se é uma prova contra o vampiro que você está procurando, o melhor lugar pra encontrar é este aqui...

Quando ele se preparava para abrir o caixão, Duda gritou:

— Não abra isso!

Com o grito, Toninho deteve-se.

— Eu não ia abrir — defendeu-se -, eu só ia pôr a mão. Assim...

— Não!!!

Toninho estacou.

— É melhor não — tornou a prevenir Duda, com a respiração pesada.

— Por quê, ele está aqui dentro?

— Claro que não! Se estivesse, ele não ia ficar escondido ouvindo a nossa voz sem fazer nada — respondeu Duda, iniciando nova demonstração de seu conhecimento. — Eu já não expliquei a você que ele age de noite para caçar suas vítimas?

Toninho limitou-se a confirmar com a cabeça.

— Então. Ele está perambulando por aí — completou Duda.

— Então digo eu! — retrucou Toninho, perdendo a paciência. — Então por que a gente não aproveita essa sorte e não caímos fora?

— Ainda não — volveu Duda, lacônico.

E continuou a vasculhar a oficina, tentando achar as tais provas...

Toninho, imóvel, olhava tudo à sua volta, desconfiado e temeroso.

— Duda, acho bom a gente dar no pé logo, antes que seja tarde — disse Toninho em tom de aviso.

Duda, indo até o banheiro, começou a remexer as tralhas espalhadas por lá e descobriu um pequeno baú prateado. Encheu-se de alegria e pavor ao mesmo tempo.

Como se estivesse hipnotizado, segurou o baú com as duas mãos e foi andando em direção a Toninho, sem tirar os olhos do objeto.

— Se nós vacilarmos, vamos... acabar... entrando.. pelo cano... — Toninho calou a boca. Olhava para o baú cheio de curiosidade, ainda que não soubesse do que se tratava.

Duda parou na frente do amigo e arrematou:

— Agora sim, Toninho. Agora podemos ir embora. Esse é o baú onde o criado do vampiro guardava as cinzas do seu mestre.

— Caramba! Está manchado de sangue!

— Claro que está! Para o criado do vampiro despejar o sangue da vítima dentro desse buraco não deve ter sido nada fácil...

— Ué, ele podia ter despejado as cinzas no chão. Ficava mais fácil...

Enquanto os dois discutiam a forma pela qual teria sido feita a ressurreição do vampiro, Kid ouviu alguma coisa fora da casa e latiu.

O ruído vinha dos fundos.

Todos se calaram.