— Rápido, Toninho! Ali atrás...

Esconderam-se atrás de uma pilha de tábuas. Toninho carregava Kid no colo, e Duda segurava o pequeno baú prateado.

O criado do vampiro entrou na casa e seguiu direto para o caixão negro. Ele trajava o mesmo terno preto de sempre.

Deu uma ajeitadinha no imenso objeto, como se quisesse tirá-lo dos cavaletes. Logo depois, chegava Paco.

Em silêncio, cada homem segurou numa das extremidades do caixão e, juntos, transportaram-no sem dificuldades. Ele estava realmente vazio, como Duda previra.

Duda observava tudo através de uma frestinha entre as tábuas.

— Eles levaram o caixão, Toninho — sussurrou para o amigo, narrando a cena.

— Eles quem? — indagou Toninho, curioso e excitado ao mesmo tempo.

— O criado do vampiro e aquele ajudante dele — disse Duda, ainda de olho na saída do grande salão. — O vampiro deve ter prometido vida eterna para os dois. É assim que ele faz para convencer as pessoas a ajudar, sabia? Depois que os idiotas realizam todos os desejos dele, se danam. Aí vão ficar uma eternidade esperando pela vida eterna... — finalizou em tom profético.

— Amém — completou Toninho, fazendo o sinal da cruz.

Duda calou-se, pois o criado do vampiro acabava de entrar novamente na casa.

Aproximou-se do lugar onde estivera o caixão e olhou em volta para certificar-se de que não havia esquecido nada; depois, começou a examinar todo o salão. Subitamente, despertou:

— As luzes não estavam acesas hoje de manhã... Eu apaguei quando saí...

Dirigiu-se para o interruptor e desligou a luz; porém, quando se preparava para sair, Kid latiu.

O criado do vampiro parou instantaneamente na soleira da porta, voltou a acender a luz, virou-se e tentou localizar a origem do latido.

Puxou o canivete portátil, que retirou do bolso do paletó preto, e vasculhando o salão à procura do cão atrevido que havia invadido a sua oficina.

Toninho tapava a boca de Kid para que ele não voltasse a latir, enquanto o animal se debatia para livrar-se da mão do garoto. Duda, assistindo a tudo, suava frio...

— Onde está o vira-lata miserável que invadiu a minha oficina? — praguejou o homem, rosnando de raiva.

Era um homem esquentado, o criado do vampiro.

— Que que foi, patrão? — perguntou Paco, chegando no salão.

— Algum vira-lata do bairro entrou aqui e vai acabar emporcalhando a oficina toda. Depois, ninguém vai aguentar trabalhar aqui com o fedor.

— Vamos embora que estamos atrasados, patrão — observou Paco, sem ligar para a implicância do chefe.

— Deixe estar, seu cão danado! A partir de amanhã, as imundícies desse mundo não vão me chatear mais...

Foram saindo. O criado do vampiro, gargalhando sinistramente.

Bateu a porta dos fundos e passou a chave.

Os meninos permaneceram quietos até ouvirem o barulho do carro se afastando.

— Vamos, Toninho, vamos tentar fugir daqui agora — disse Duda resoluto, saindo do esconderijo. — Eu acho que eles devem estar preparando algum plano diabólico...

— É? — retrucou Toninho, mecanicamente, sem entender onde Duda queria chegar com aquelas palavras.

— Mas é claro! Você não notou pelas palavras dele? Se eles levaram o caixão do mestre deles daqui, boa coisa não é.

— Será?

— Pode ter certeza... Vamos, Toninho, temos que correr contra o relógio. — E encaminhou-se para a porta dos fundos da casa.

Toninho também saiu do esconderijo, acompanhando-o. Libertou Kid, que se sacudiu e começou a se coçar todo.

— Vampiro usa relógio? — retrucou Toninho, intrigado.

— O quê? — Duda cutucava a fechadura com a chave de fenda, mas esta não cedia.

— Ué, se vamos correr contra o relógio, só pode ser o relógio do vampiro!

— Não é nada disso, Toninho! O que eu quero dizer é que eles estão levando vantagem em relação à gente; estão tralhando rápido e nós temos que reagir.

Toninho ergueu as sobrancelhas, como se tivesse entendido. Ele observava com desdém a tentativa do companheiro de arrombar a fechadura.

Duda, olhando para o amigo, que esboçava um sorriso maroto, disse:

— Você vai ficar aí me olhando com essa cara de pateta?

Muito dono da situação, Toninho rebateu:

— Por que você não tenta com um pé-de-cabra? É o troço ideal pra isso.

— Pé-de-cabra? — indagou Duda, admirado.

Toninho foi até um dos armários da cozinha e trouxe um enorme pé-de-cabra para apresentar ao amigo.

Dito e feito. Bastou forçar um pouco a fechadura para que ela cedesse.

Duda olhava despeitado para Toninho, que se divertia com o xeque-mate aplicado no amigo.

Assim, uma vez aberta a porta, os três ganharam a rua e voltaram para casa.