NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
4 Gincana com intruso especial
O clube comunitário tinha aquela energia boa de lugar frequentado por pessoas que se conhecem pelo nome: luzes quentes, barulho de crianças ao fundo e o cheiro de pipoca que parecia fazer parte da estrutura do prédio.
Sara estava estacionando quando viu Mary na porta, acenando com o sorriso de quem já estava esperando.
— Sara! — A mulher veio ao encontro dela com a energia de quem tem coisa para dizer e não vê a hora. — Você não tem ideia de como estou feliz que você tenha vindo.
— Não ia perder por nada. — Sara correspondeu ao abraço.
As duas caminharam em direção à entrada enquanto o barulho lá dentro crescia.
— Preciso te dizer uma coisa. — Mary diminuiu o passo levemente, o tom ficando mais sério do jeito de quem quer que a mensagem chegue de verdade. — Não tenho como te agradecer por toda a ajuda com o meu filho, Sara. A professora me ligou essa semana. — Ela pausou, e havia algo nos olhos dela que era orgulho puro. — Disse que ele é um dos mais empolgados com a montagem do projeto de ciências. Que participa, que lidera, que arrasta o grupo. E que o desempenho geral dele na escola melhorou muito.
Sara sentiu algo apertar no peito do jeito bom, aquele aperto que não dói, que aquece.
— Fico muito feliz em ouvir isso. — A voz saiu mais suave do que o habitual. — Ele tem um potencial imenso, Mary. Genuíno. Não é aquele entusiasmo de criança que passa — ele pensa. Questiona, testa, quer entender o porquê das coisas.
— É igualzinho desde que chegou para mim. — Mary riu baixinho, com aquela risada de mãe que carrega história. — Me deu muito trabalho do bom.
Sara sorriu.
Ficaram um momento em silêncio enquanto uma criança atravessou a porta em disparada e quase levou as duas junto.
— Posso te dizer uma coisa também? — Sara falou depois que o rastro de vento da criança passou.
Mary a olhou, atenta.
— Ele tem me ajudado bastante. — A frase saiu devagar, com o cuidado de quem está sendo honesta sobre algo que não costuma verbalizar. — Esses dias com ele... têm me feito muito bem. Mais do que eu esperava.
Mary inclinou a cabeça levemente, com aquele olhar de mulher que entende mais do que foi dito.
— Você estava precisando de algo assim?
Sara considerou a pergunta por um segundo.
— Estava precisando de algo real. — Disse por fim, com uma simplicidade que era a forma mais honesta que encontrou. — Sabe quando a vida dentro de quatro paredes começa a pesar demais? Ele apareceu e... — ela gesticulou levemente, sem conseguir terminar a frase do jeito que queria.
— E trouxe o mundo lá de fora. — Mary completou, gentil.
— Exatamente.
As duas se entreolharam por um momento com aquela cumplicidade silenciosa que às vezes aparece entre pessoas que não se conhecem há muito tempo, mas que já se reconhecem.
De dentro do clube, uma voz pequena e inconfundível explodia sobre o barulho geral:
— ELA CHEGOU!! SARA CHEGOU!!
As duas viraram ao mesmo tempo.
Augusto estava na porta com os braços abertos e uma energia que sugeria que havia estado monitorando a entrada nos últimos vinte minutos.
— Vem ver o projeto!! A gente montou mais uma parte hoje e eu tenho uma teoria nova sobre a trajetória que PRECISO que você valide!!
Mary olhou para Sara com uma expressão que dizia é isso o dia todo.
Pedrinho apareceu pela porta com a expressão de quem carrega o peso do mundo nos ombros ou pelo menos o peso de um projeto de ciências que não estava cooperando.
— Oi, Sara!! — Ele chegou ofegante, como se tivesse corrido. — Estamos com um problema.
Sara se virou, já em modo resolução.
— Qual, amigo?
— Temos que montar uma fazenda de formigas para incorporar ao projeto. — Augusto, ao lado de Pedrinho, estava com a mesma expressão grave de quem está relatando uma crise de proporções científicas. — É fundamental para demonstrar a parte de comportamento coletivo. Mas não estamos conseguindo montar direito e a apresentação está chegando e—
— Eu posso ajudar vocês.
A voz veio de algum ponto atrás do grupo.
Calma. Segura. Completamente inesperada.
Augusto parou no meio da frase.
Pedrinho piscou.
Sara ficou absolutamente imóvel.
Todos se viraram ao mesmo tempo em direção à voz.
Gilbert Grissom estava parado a alguns metros, de mãos no bolso, com aquela expressão serena de quem acabou de oferecer algo completamente razoável e não entende por que todo mundo está olhando assim.
— Eu sei montar. — Ele acrescentou, como se a explicação fosse necessária.
O silêncio durou exatamente dois segundos.
— Grissom. — A voz de Sara saiu num tom que era pergunta, afirmação e acusação ao mesmo tempo. — O que você faz aqui?
Ele abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
— Ahhh, tia— — Augusto já estava em movimento, os olhos acesos com a energia de quem acabou de receber um presente que não estava na lista — o que ele faz aqui eu não sei, mas vai ajudar a gente, isso ele vai. — Virou para o grupo com a autoridade natural de quem sempre lidera. — Vem logo, tio!! A fazenda não vai montar sozinha!!
E antes que Grissom pudesse dizer uma palavra sequer, quatro crianças o cercaram com a eficiência de uma operação planejada, cada uma puxando uma parte disponível do supervisor e o arrastaram para dentro do clube na direção do projeto com uma determinação que não aceitava negociação.
— Espera— eu— as crianças— — as palavras saíam fragmentadas enquanto ele desaparecia pela porta.
Sara ficou parada no corredor.
Olhando.
Com a boca levemente aberta e a expressão de quem tentou formular uma frase e desistiu.
— Quem é ele?
Mary estava ao lado dela observando a cena com curiosidade genuína.
Sara piscou. Voltou à Terra.
— Gilbert Grissom. — A voz saiu automática, ainda processando. — Meu supervisor.
— Ah. — Mary assentiu devagar, os olhos indo para a porta por onde o homem havia sido arrastado pelas crianças. — E o que ele faz aqui?
— Essa — Sara finalmente fechou a boca e inspirou — é uma pergunta excelente.
Mary esperou.
— Ele é entomologista. — Sara acrescentou, quase para si mesma, com o tom de quem está montando as peças enquanto fala. — Estuda insetos. — Uma pausa. — Vai salvar as crianças com certeza.
— E você? — Mary a olhou de lado, com aquele sorriso discreto de mulher que percebeu muito mais do que foi dito.
Sara virou o rosto para a amiga.
— O que tem eu?
— Não sei. — Mary encolheu os ombros com uma inocência completamente fabricada. — Você me diz.
De dentro do clube veio a voz inconfundível de Augusto:
— TIOOO!! VOCÊ É INCRÍVEL, JÁ SABIA TUDO ISSO DE FORMIGA??
Seguida da voz de Grissom surpreendentemente animada para alguém que havia sido sequestrado há menos de três minutos:
— Sabia, sim. Posso te contar muito mais se quiser.
— QUEROOO!!
Sara fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, Mary estava sorrindo abertamente.
— Entomologista. — A mulher repetiu, pensativa. — Interessante.
— Mary. — Sara foi seca.
— Estou só falando.
— Não está só falando.
— Estou principalmente falando. — Mary deu um tapinha no braço dela e começou a caminhar em direção à porta. — Vamos ver se seu supervisor sobrevive ao meu filho?
Sara ficou parada por mais um segundo olhando para a porta, ouvindo o burburinho animado lá dentro, processando o fato de que Gilbert Grissom havia aparecido do nada, sido adotado por crianças em menos de trinta segundos e estava agora explicando comportamento de formigas com entusiasmo genuíno.
Seguiu o lá dentro.
— Isso não acabou. — Murmurou baixinho, sem especificar muito bem para quem.
Sara foi ao encontro de Grissom. Ele estava cercado pelas quatro crianças numa mesa coberta de materiais, gesticulando com as mãos enquanto explicava algo sobre túneis e colônias com um entusiasmo que ela raramente. Augusto estava sentado na ponta da cadeira, absorvendo cada palavra como se estivesse recebendo conhecimento sagrado.
Sara ficou parada por um momento, observando.
Ele seguiu você até aqui. O pensamento apareceu com uma clareza inconveniente. Saiu do laboratório, descobriu onde você estava e veio.
Grissom ergueu os olhos quando ela chegou. Algo no rosto dele relaxou levemente, do jeito de quem estava esperando sem querer parecer que estava esperando.
— Precisando de reforço? — Ela puxou uma cadeira com naturalidade, como se a situação toda fosse completamente normal.
— Sempre. — Ele disse, simples assim.
Augusto olhou de um para o outro com aquela perspicácia inconveniente de criança que percebe mais do que os adultos gostariam.
E então a competição começou e Sara não teve mais tempo para pensar em mais nada.
O clube havia se transformado.
Oito escolas. Oito projetos. Oito grupos de crianças com a seriedade de quem está disputando algo que importa de verdade.
Sara e Grissom ficaram ao lado do grupo de Augusto durante cada etapa — respondendo perguntas dos juízes quando solicitados, trocando olhares quando as crianças apresentavam algum conceito com uma precisão que claramente havia sido treinada, e segurando o riso quando Augusto, no meio da explicação sobre a fazenda de formigas, olhou para um dos juízes e disse com toda a convicção dos seus sete anos:
— O senhor pode conferir a bibliografia se quiser. Tenho as referências anotadas.
O juiz piscou.
Grissom tossiu para esconder o sorriso.
Sara olhou para o teto.
Quando o resultado foi anunciado, Augusto ouviu o nome da escola dele e ficou parado por exatamente um segundo — o tempo que o cérebro de uma criança leva para processar uma vitória — antes de explodir numa comemoração que envolveu pular, gritar e abraçar Sara e Grissom ao mesmo tempo com a força desproporcional de alguém muito menor.
— GANHAMOS!! EU SABIA!! EU FALEI!! — Ele se virou para Pedrinho. — FALEI QUE ÍAMOS GANHAR!!
— Você falou que provavelmente íamos ganhar. — Pedrinho ajeitou os óculos com dignidade.
— É A MESMA COISA!!
— Não é.
Mary estava ao fundo com os olhos brilhando e as mãos na boca, e Sara sentiu aquele aperto bom no peito de novo mais forte dessa vez.
O palco era pequeno mas suficiente.
O apresentador chamou o grupo e, quase como adendo, os dois padrinhos que haviam contribuído para a vitória. Augusto puxou Sara e Grissom pelo braço com a naturalidade de quem não aceita recusa, e os dois subiram ao palco entre aplausos e a energia elétrica das crianças no auge da felicidade.
As placas foram entregues uma para cada criança, uma para Sara, uma para Grissom e Augusto segurou a sua com as duas mãos como se fosse um troféu olímpico, o que, para ele, provavelmente era.
— Agora uma foto do grupo todo!! — O fotógrafo do evento organizou as crianças na frente e gesticulou para os dois adultos ficarem atrás.
Sara se posicionou. Organizou o sorriso. Segurou a placa.
E então sentiu.
Uma mão. Firme, segura, completamente sem cerimônia pousada na sua cintura com a naturalidade de quem tem todo o direito do mundo de estar ali.
Ela não se moveu.
Respirou uma vez.
E falou entre os dentes, com o sorriso fotográfico intacto:
— O que você está fazendo?
— Tirando foto com você. — A voz de Grissom chegou baixa, próxima demais da sua orelha, absolutamente tranquila.
— Não precisava grudar.
— A foto fica melhor assim. — A mão na cintura não se moveu um milímetro. — Bem juntinhos.
— Grissom.
— Sorriam!! — O fotógrafo avisou.
Os dois sorriram.
— Você veio até aqui só para me seguir. — Ela continuou, imóvel, voz baixíssima.
— Vim para ajudar as crianças com a fazenda de formigas. — Uma pausa calculada. — O fato de você estar aqui foi uma feliz coincidência.
— Que coincidência conveniente. Para Grissom que você nem conhecia as crianças.
— A vida é cheia delas. — Os dedos dele acomodaram levemente na cintura dela, como se estivesse encontrando a posição certa. — Relaxa, Sara. Está ficando tensa e vai estragar a foto.
— Estou tensa por causa de você.
— Isso — ele disse, e havia algo no tom que era definitivamente mais do que supervisão — é um progresso considerável em relação a me ignorar.
Sara abriu a boca.
— Mais uma!! — O fotógrafo pediu.
Augusto, que estava na frente completamente alheio à negociação adulta acontecendo atrás dele, levantou a placa mais alto e sorriu com todos os dentes.
Grissom aproveitou a distração e puxou Sara imperceptivelmente meio centímetro mais perto.
Ela sentiu.
Não disse nada.
Mas o sorriso na foto — aquele, o da segunda foto — era ligeiramente diferente do primeiro.
Quem conhecia Sara Sidle bem o suficiente saberia dizer que era o sorriso de alguém que está perdendo uma batalha e começando a achar que tudo bem.
— Casa de Mary e Anthony — Tarde —
O almoço havia sido ideia coletiva e simultânea de pelo menos quatro mães ao mesmo tempo — o tipo de decisão que não aceita recusa porque vem acompanhada de braços abertos e travessas já sendo preparadas antes mesmo de alguém concordar oficialmente.
Sara e Grissom concordaram.
Um porque foi convidado com genuína gratidão e não teve coração de recusar.
A outra porque Augusto havia segurado sua mão com as duas mãos dele e puxado na direção do carro da mãe com uma determinação que tornava qualquer argumento irrelevante.
A casa de Mary e Anthony tinha aquela energia de lar de verdade, cheiros bons vindo da cozinha, fotografias nas paredes, uma leveza nos espaços que se constrói ao longo do tempo e não tem atalho.
A sala estava cheia de conversas paralelas, crianças circulando entre os adultos e o barulho gostoso de uma tarde que não tinha pressa.
Sara estava ajudando Mary a organizar as travessas quando sentiu uma ausência.
Olhou ao redor.
Grissom havia sumido.
Augusto também.
Ela encontrou os dois no corredor, o menino puxando o supervisor pela manga com passos apressados e Grissom acompanhando com aquela expressão de quem foi convocado para algo importante e entende que não há opção de recusa.
— Vem, tio!! Preciso te mostrar uma coisa!!
— Estou vindo, estou vindo.
Sara os seguiu discretamente.
O pequeno laboratório de Augusto ficava num cômodo dos fundos — não grande, mas organizado com o cuidado de alguém que leva o espaço a sério. Prateleiras com materiais etiquetados, um caderno de anotações aberto na bancada, alguns experimentos em andamento em fases diferentes e, no canto, a fazenda de formigas que havia sido a estrela do projeto — agora com o dobro de atividade depois do dia agitado.
Augusto entrou com os braços abertos como um cientista apresentando seu instituto de pesquisa.
— E então?! — Ele olhou para Grissom com expectativa total. — O que achou?
Grissom ficou parado na entrada por um momento, varrendo o cômodo com os olhos.
E então aconteceu algo que Sara, parada no corredor observando pela porta entreaberta, não havia antecipado.
O supervisor relaxou.
Não o relaxamento educado de alguém sendo gentil com uma criança, o relaxamento genuíno de alguém que chegou num lugar que reconhece. Os ombros desceram, a expressão abriu, e quando ele caminhou em direção à bancada foi com o passo de quem está em terreno familiar.
— Isso é muito bem organizado, Augusto. — A voz tinha algo que raramente aparecia no laboratório criminal — admiração direta, sem filtro profissional. — Quem te ensinou a etiquetar os materiais assim?
— A Sara!! — O menino foi imediato. — Ela falou que laboratório sem organização é bagunça com nome bonito.
Grissom virou levemente o rosto em direção ao corredor como se soubesse que ela estava lá e o canto da boca subiu antes de ele voltar a atenção para a bancada.
— Ela tem razão.
— Você também acha?! — Augusto abriu os olhos. — Porque o Pedrinho falou que eu exagero na organização e—
— O Pedrinho — Grissom puxou um banquinho e sentou na altura do menino com a naturalidade de quem faz isso sempre — vai agradecer a organização do seu laboratório quando crescer. — Pausou. — Ou vai continuar sendo o Pedrinho e não vai agradecer nada.
Augusto caiu na risada.
Sara, no corredor, colocou a mão na boca.
O que se seguiu durou quase uma hora.
Grissom percorreu cada centímetro do pequeno laboratório com Augusto ao lado, e transformou o que poderia ser uma visita educada numa aula que a criança claramente não queria que terminasse, mas ajustando cada palavra, cada exemplo, cada comparação para um menino de sete anos que devolvia perguntas na mesma velocidade que recebia respostas.
Sara encostou de lado na parede do corredor, braços cruzados, observando.
Mary chegou silenciosamente ao lado de Sara no corredor, segurou um prato de sobremesa e ficou observando a cena junto com ela por um momento.
— Ele é bom com crianças. — A voz saiu baixa, observacional.
— É. — Sara não desviou os olhos da cena. — Não sabia disso.
— Aprende uma coisa nova por dia. — Mary lhe ofereceu o prato com um sorriso.
Sara pegou a sobremesa sem pensar, ainda olhando para dentro do laboratório onde Grissom estava ajudando Augusto a registrar uma observação no caderno de anotações.
Mary estava olhando para dentro do laboratório com aquele sorriso de mãe que carrega orgulho e melancolia ao mesmo tempo.
— Fico tão feliz em ver a alegria do Augusto. — A voz saiu baixa, quase só para ela mesma. — Queria que o Anthony tivesse essa paciência. Esse cuidado. — Uma pausa pequena. — Reclamo muito da ausência dele, mas é mais do que ausência. É... distância. Mesmo quando está aqui.
Sara abriu a boca para responder.
— Seu namorado é ótimo com ele. — Mary continuou, os olhos ainda na cena lá dentro. — Augusto vai ficar apegado, já estou vendo.
Sara fechou a boca.
Namorado.
A palavra pousou no ar com uma clareza inconveniente. Ela virou levemente o rosto em direção ao laboratório onde Grissom estava ajudando Augusto a registrar uma observação, completamente alheio à classificação que acabara de receber.
Ela respirou fundo para corrigir o equívoco.
E então Mary continuou — e o tom mudou.
— Anthony trabalha fazendo negócios para cassinos. — A mulher abraçou o próprio prato levemente, como se precisasse de algo para segurar. — Mas desconfio que nem sempre segue de forma certa. Honesta. — Uma pausa mais longa dessa vez. — Tenho medo que um dia essas atitudes acabem muito mal.
Sara esqueceu completamente o equívoco do namorado.
— Ele faz algum tipo de sabotagem? Algo parecido?
Mary olhou para os lados antes de responder — um gesto pequeno, quase instintivo, de quem já aprendeu a ter cuidado com certas conversas dentro de casa.
— Não tenho certeza de tudo. Mas acho que ele oferece um produto para os cassinos e na hora de instalar coloca outro de qualidade inferior. — Ela pausou. — E além disso... desconfio que coleta informações. Para vender para os rivais.
O silêncio entre as duas durou um segundo.
A mente de Sara já estava trabalhando aquela engrenagem que não desligava mesmo fora do laboratório, que via padrões onde outros viam conversas.
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz chamou Mary do outro lado da casa, uma visita chegando, um abraço sendo trocado e a mulher se desculpou com um sorriso e foi receber.
Sara ficou parada no corredor com o prato na mão e os pensamentos acelerados.
Não demorou muito para sentir uma presença ao lado.
— Você sumiu. — Grissom chegou com a tranquilidade de quem acabou de passar uma hora explicando biologia de formigas para uma criança e está genuinamente satisfeito com isso.
— Estava conversando com a Mary. — Sara se virou para ele, e havia algo diferente no rosto dela agora, a leveza da tarde havia cedido espaço para o olhar que ela usava no trabalho. — Griss.
Ele reconheceu o tom imediatamente.
— O que foi?
— Lembra do que a Cath falou outro dia? Que havia ouvido Sam Braun reclamar de um espião passando informações para cassinos rivais?
Grissom ficou quieto por um momento.
— Sim. — A voz saiu mais baixa, mais cuidadosa. — Lembro. Por que isso agora?
Sara olhou rapidamente para o corredor. Augusto ainda estava no laboratório, Mary ainda estava com a visita e então falou baixo e direto:
— Pelo que entendi da história que a Mary estava me contando... o espião pode ser o pai do Augusto.
O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade diferente de todos os outros da tarde.
Grissom processou. Rapidamente, como sempre fazia, encadeando informações, pesando implicações, chegando a conclusões que a maioria das pessoas levaria muito mais tempo para alcançar.
— Sara. — A voz saiu séria, com aquela camada de urgência controlada que ela conhecia bem. — Essa família pode estar em perigo. E não falo só por causa de Sam Braun. Os donos de cassinos de Las Vegas são extremamente perigosos. Alguns violentos de formas que já vimos de perto. Se descobrirem o que o Anthony está fazendo—
— Precisamos falar com ele. — Sara concordou antes que ele terminasse.
— Sim. Logo. — Ele pausou. — Você tem alguma outra informação?
Sara hesitou um segundo.
— Tenho uma suspeita. — A voz ficou ainda mais baixa. — O corpo encontrado no parque semana passada. O caso que ficou com o turno do dia como assalto seguido de morte.
— Sim?
— Da última vez que estive aqui, vi uma foto na sala. Anthony com o homem morto. Perguntei à Mary quem era. Ela me disse que era colega de trabalho do marido. Que havia morrido num assalto.
Grissom ficou imóvel.
— Você acha que não foi assalto.
— Acho que foi recado. — Sara o olhou diretamente. — E se for isso, o recado já foi dado. A questão é se o Anthony entendeu e se quem mandou ficou satisfeito com um recado só.
Os dois ficaram em silêncio por um momento — lado a lado no corredor de uma casa aconchegante, com cheiro de almoço e barulho de crianças ao fundo, carregando o peso de uma informação que mudava completamente o significado de tudo ao redor.
— Vamos com calma. — Grissom falou primeiro, baixo. — Não sabemos tudo ainda.
— Mas sabemos o suficiente para não ignorar. — Sara respondeu.
Ele assentiu.
— Vamos falar com o Anthony. Em breve.
A tarde estava cedendo espaço para o fim do dia quando Sara pegou a bolsa e foi se despedir de Mary e Augusto — que segurou seu braço por um bom minuto explicando as próximas etapas do projeto como se ela fosse desaparecer do planeta se saísse sem saber de tudo.
— Augusto. — Mary foi gentil mas firme. — Deixa a Sara descansar.
— Mas mãe, eu precisava só falar mais uma coisa—
— Augusto.
Ele soltou o braço com a resignação dramática.
Sara o abraçou com um sorriso genuíno, se despediu de Mary com carinho e caminhou em direção à saída.
Grissom foi junto, naturalmente, como se fosse óbvio.
Do lado de fora, a tarde de Las Vegas tinha aquela luz dourada de fim de dia que tornava tudo levemente irreal.
Sara parou na calçada, organizou a bolsa no ombro e se virou para ele com o tom prático de quem está encerrando o dia.
— Bom. Vou pra casa descansar. Mais tarde nos falamos no laboratório.
— Sara.
O jeito que ele disse o nome era diferente. Ela notou e detestou ter notado.
Grissom se aproximou um passo. Só um. Mas o suficiente para mudar a distância entre os dois de profissional para outra coisa inteiramente.
— Fiquei muito feliz de passar esse tempo com você hoje. — A voz estava baixa, sem a armadura do supervisor. — De verdade. — A mão foi ao rosto dela com uma leveza que não pediu licença, apenas pousou, quente e cuidadosa, na lateral do rosto.
Sara ficou imóvel.
Não. Não, não, não.
— Grissom. — A voz saiu firme, mas custou. — Por favor. Vamos seguir como supervisor e subordinada. Do jeito que você quis.
— Foi uma ideia idiota. — Ele disse, sem hesitar, sem recuar a mão.
Ela piscou.
— O quê?
— Quando sugeri isso. — Os olhos azuis não desviaram um milímetro. — Foi uma ideia idiota e eu não quero ficar longe de você. Nunca quis.
Sara ficou olhando para ele por um segundo e havia algo perigoso acontecendo no peito dela que ela precisava administrar antes que ficasse maior.
— Posso saber — a voz saiu num tom que era metade irritação, metade tentativa de recuperar o controle da situação — como você descobriu onde eu estava?
Uma pausa.
— Rastreei seu celular.
O silêncio durou três segundos completos.
— Rastreou. — Ela repetiu. — Meu. Celular.
— Estava morrendo de ciúmes. — Ele disse isso com a mesma seriedade com que diria a conclusão de uma análise forense. — Pensei que você tinha um encontro.
Sara abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
— Oii?? — A palavra saiu sozinha, num tom que continha uma vida inteira de incredulidade. — Não vou nem perguntar o que faria se fosse isso. — Ela levantou uma mão. — Até porque você não tem nada a ver com a minha vida, Gilbert Grissom.
— Ainda. — Ele disse, quieto.
— O quê?
— Não tenho nada a ver com sua vida ainda.
Sara o encarou.
Ele a encarou de volta sem piscar, sem recuar, com aquela calma que sabe esperar o momento certo.
— Olha. — Ela pegou a bolsa com firmeza renovada, deu um passo para o lado. — Vamos descansar, tá? Os dois. Separados. Em nossas respectivas casas.
Virou-se e começou a caminhar.
Foi quando ele falou baixo, próximo demais porque havia acompanhado o passo dela sem avisar, a voz chegando quase no ouvido:
— Não vou desistir de você, Sara.
Ela não parou.
— E quero — ele continuou, com aquele tom que havia estreado no vestiário e claramente havia chegado para ficar — ter todos os dias a visão que tive sua essa manhã.
Sara parou.
Ficou de costas para ele por um segundo.
O calor subiu pelo pescoço antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito.
Ele estava próximo. Ela sabia sem precisar ver. Sentia o calor da proximidade dos corpos, o espaço entre eles reduzido a algo que não era mais profissional por nenhum critério razoável. A voz chegava baixa, deliberada, com a segurança de alguém que finalmente decidiu parar de fingir que não sabe exatamente o efeito que causa.
Ela precisava sair dali.
Agora.
Antes que a parte dela que estava achando tudo aquilo muito, muito convincente, tomasse alguma decisão que a parte racional ainda não havia aprovado.
— Bom descanso, Grissom. — A voz saiu surpreendentemente estável para alguém no estado em que ela estava.
E foi embora.
Sem olhar para trás porque olhar para trás estava completamente fora de cogitação.
Grissom ficou parado na calçada, observando ela se afastar, com o sorriso discreto de quem jogou uma carta e viu o efeito exato que esperava.
— Quase. — Ele murmurou para ninguém, satisfeito.
E foi para o carro com o passo leve de quem, pela primeira vez em muito tempo, estava otimista com as evidências disponíveis.
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