NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
5 — Gincana —
— Laboratório — Início do Turno —
O corredor estava praticamente vazio quando Sara encontrou Catherine na sala, sozinha o suficiente para conversar sem audiência.
Não havia sido planejado exatamente assim, mas havia sido necessário. O peso do que havia descoberto na casa de Mary e Anthony não era do tipo que se carrega em silêncio por muito tempo sem consequências.
Catherine ouviu tudo sem interromper, uma raridade que indicava o quanto havia levado a sério desde a primeira frase.
Quando Sara terminou, a loira ficou em silêncio por um momento, os dedos tamborilando levemente sobre a pasta fechada na mesa.
— Pelo que entendi — ela começou, devagar, pesando cada palavra — os donos que foram lesados pelo vazamento de informações já estão procurando o responsável. Ativamente. — Pausou. — Grissom tem razão em dizer que essa família está em perigo. E não é um perigo pequeno, Sara. Estamos falando de cassinos. De dinheiro em escala que transforma pessoas em problemas a serem resolvidos.
— Eu sei. — Sara cruzou os braços, o olhar sério. — Por isso precisamos agir rápido. E com cuidado.
— É válido avisarmos ao Brass. — Catherine assentiu. — E tentar manter isso restrito ao menor número de pessoas possível dentro do laboratório.
Sara hesitou um segundo.
— Você acha que pode vazar informações daqui?
Catherine a olhou com aquela expressão direta de quem não tem tempo para respostas reconfortantes que não são verdade.
— Quando muito dinheiro está envolvido... — ela disse, simples e seca — ...tudo pode acontecer. Com qualquer pessoa. Em qualquer lugar.
O silêncio entre as duas tinha o peso específico de quem trabalha com evidências e sabe que a frase não é paranoia — é estatística.
— Então mantemos restrito. — Sara confirmou.
— Restrito e fora do laboratório. — Catherine fechou a pasta e se levantou. — Nada de salas de reunião, nada de arquivos no sistema por enquanto. — Ela olhou para Sara por um momento. — Você já falou com Grissom sobre onde nos reunirmos?
— Ainda não.
— Fala. — A loira pegou o jaleco. — E sugere a casa dele. Lugar neutro, sem câmeras de corredor, sem ouvidos que não foram convidados.
Sara assentiu.
— E Brass?
— Eu falo com ele. — Catherine já estava caminhando em direção à porta.
Parou na soleira e se virou uma última vez.
— Sara. — O tom havia mudado levemente — menos colega, mais amiga. — Essa família tem uma criança. Tudo que fizermos a partir de agora precisa ter isso em conta.
Não era uma instrução profissional.
Era um lembrete humano, do tipo que Catherine Willows sabia dar nos momentos em que precisava ser dado.
— Eu sei. — A voz de Sara saiu mais baixa. — Acredite. Eu sei e eu amo essa criança, Cath.
A reunião foi marcada para antes do início do próximo turno na casa de Grissom.
Brass recebeu o convite de Catherine com a sobrancelha levemente erguida e nenhuma pergunta feita em voz alta, o que, vindo do detetive, era o equivalente a um sim entusiasmado.
— Clube Comunitário — Manhã —
A gincana havia sido anunciada por Augusto com o entusiasmo de quem estava apresentando a maior novidade do século e um olhar que não aceitava recusa.
— Vocês VÃO participar. Os dois. É obrigatório para os padrinhos!!
— Obrigatório quem determinou? — Sara havia perguntado.
— Eu. — Simples assim.
E era por isso que Gilbert Grissom estava de pé numa quadra comunitária às dez da manhã lendo a lista de atividades da gincana com uma expressão que tentava ser neutra e não estava conseguindo muito.
Sara chegou ao lado dele e leu por cima do ombro.
— Escorrega com bandeja cheia. — Ela leu em voz alta, e havia uma alegria completamente não disfarçada na voz. — Ahhh. Isso vai ser muito divertido.
— Para um de nós. — Ele dobrou o papel.
— Para mim. — Ela confirmou com um sorriso largo. — Ver Gilbert Grissom descer um escorrega com uma bandeja cheia vai ser o ponto alto do meu ano.
— Ano ainda está começando.
— E já tem ponto alto. Ótimo saldo.
Grissom virou o papel e apontou para o item seguinte com a calma de quem guardou a melhor carta para o momento certo.
— Dança da laranja. — Ele leu, pausando em cada palavra. — Dois participantes. Uma laranja. Não pode cair no chão. — Ergueu os olhos para ela. — Sabe como se joga?
Sara soube para onde estava indo antes que ele chegasse lá.
— Grissom—
— Vai ser maravilhoso dançar com você tentando manter uma laranja longe do chão. — A voz saiu baixa, com aquele tom que havia estreado no vestiário e claramente não ia embora mais. — Nossos corpos juntos... — ele pausou com o timing perfeito de quem ensaiou — ...vou ter que me controlar.
Sara ficou vermelha.
De verdade. Do pescoço para cima, sem pedir licença, sem possibilidade de negar.
Ela abriu a boca para responder com algo afiado e eficiente.
— Eu— você— isso é— — As palavras saíram na ordem errada e ela fechou a boca, respirou e tentou de novo. — Isso é assédio no local de trabalho.
— Estamos num clube comunitário. — Ele ergueu levemente as sobrancelhas. — Tecnicamente fora da jurisdição.
— Você rastreou meu celular.
— Já pedi desculpas por isso.
— Não pediu.
— Pretendia pedir.
Sara o olhou por um segundo com a expressão de alguém tentando manter uma posição que está escorregando.
Grissom se aproximou meio passo, só meio, mas o suficiente e a voz ficou mais baixa, mais direta, sem a moldura de humor que havia embalado tudo até então:
— Sara. A visão que tive de você no vestiário só fez aumentar o meu desejo. — Os olhos azuis não desviaram. — Estou louco para sentir de novo o sabor do seu beijo. O último foi em São Francisco e já passou tempo demais.
O barulho ao redor, crianças, monitores, a gincana se organizando ficou em segundo plano de um jeito que Sara não havia autorizado.
— De hoje não passa. — Ele disse, simples e direto. — Eu quero muito.
Sara ficou parada por um momento.
Depois encontrou a voz.
— Você só pode estar completamente doido. — A firmeza voltou, ainda que chegasse uns dois segundos atrasada. — Não vou te beijar. — Ela levantou um dedo. — Primeiro: você tem namorada.
— Não tenho.
— Ficante. Seja lá o que for a Heather pra você.
— Heather é minha amiga. Já disse isso.
— Com um beijo muito amigável na saída do restaurante.
— Ela me beijou. Eu fiquei parado.
— Ficar parado é diferente de recusou.
Grissom abriu a boca.
Fechou.
— Ponto válido. — Ele admitiu.
— Obrigada. — Sara cruzou os braços. — Segundo: você mesmo sempre deixou claro, em mais de uma ocasião, com mais de uma palavra, que entre nós não pode haver nada. Nada, Grissom. Foi você quem disse.
— Eu sei o que disse.
— Então—
— E sei que errei. — A voz saiu sem rodeio, sem armadura, com um peso que era diferente de tudo que havia dito antes. — Sara, o que eu disse no passado... eu estava com medo. Das regras, do trabalho, de estragar o que tínhamos. Mas ficar do jeito que estamos está estragando de qualquer forma. E agora...
— Agora o quê? — A voz dela saiu menor do que pretendia.
Grissom deu mais meio passo.
Os corpos estavam próximos o suficiente para que ela sentisse o calor dele — e para que ele visse, com a precisão de quem passa a vida lendo detalhes, que a respiração dela havia mudado de ritmo.
— Agora eu sei que não quero mais ficar longe de você. — Simples. Direto. Sem ornamento nenhum. — E que—
— PADRINHOS!! — A voz do monitor explodiu pelo espaço com o entusiasmo de alguém com um megafone e zero consciência de timing. — A GINCANA VAI COMEÇAR EM DOIS MINUTOS!! TODOS NO PONTO DE LARGADA!!
O momento quebrou.
Sara recuou meio passo — inconscientemente, automaticamente — e piscou como alguém saindo de um transe leve.
Grissom fechou os olhos por um segundo com a expressão de alguém que tinha muito a dizer para um megafone muito inoportuno.
— PADRINHOS DO GRUPO AZUL!! — O monitor insistiu, olhando na direção deles. — VAMOS!!
De longe, Augusto acenou com os dois braços no ar com a energia de uma usina.
Sara respirou fundo, ajeitou o cabelo e começou a caminhar em direção ao ponto de largada com passadas que eram um pouco mais rápidas do que o necessário.
— Essa conversa não acabou. — Grissom disse, acompanhando o passo dela.
— A gincana está começando.
— A conversa não acabou, Sara.
— Escorrega é aquele ali. — Ela apontou sem olhar para ele. — Boa sorte com a bandeja.
— Dança da laranja é depois. — Ele respondeu, e havia um sorriso na voz que ela optou por não confirmar virando o rosto. — Nossos corpos vão agradecer a oportunidade.
— Grissom.
— Estou só informando o cronograma.
Sara caminhou mais rápido.
E o sorriso que apareceu no canto da boca, aquele, o que ela esperou virar de costas para deixar aparecer foi a evidência mais clara da tarde.
— Outro Ponto de Las Vegas — Mesmo Dia
O armazém ficava numa rua pouco movimentada do lado industrial da cidade, o tipo de lugar que Las Vegas esconde bem atrás das luzes e do barulho, onde ninguém olha duas vezes para um carro parado ou uma conversa rápida entre dois homens.
Anthony chegou pontualmente.
O outro homem já estava lá apoiado na lateral de um veículo escuro, braços cruzados, com o ar de alguém que preferia estar em qualquer outro lugar.
O envelope trocou de mãos em silêncio. Anthony falou baixo, rápido, com a desenvoltura de quem já fez isso vezes suficientes para não tremer mais.
O que nenhum dos dois sabia, o que nenhum dos dois poderia imaginar era que cada palavra estava sendo registrada.
O outro homem dobrou o envelope sem abrir e o colocou no bolso interno do casaco. Ficou em silêncio por um momento, do tipo que antecede algo que não foi planejado dizer mas precisa ser dito.
— Amigo. — A voz saiu baixa, com um cuidado que não era profissional — era humano. — Um conselho. De graça.
Anthony ergueu os olhos.
— Dá um tempo nesse negócio. — O homem não desviou o olhar. — Os donos dos cassinos já estão desconfiados. Não sei de onde veio a informação, mas veio. — Uma pausa. — Pode dar muito ruim pra você.
Anthony ficou imóvel por um segundo.
Depois assentiu — uma vez, seca, com a expressão de alguém que ouviu o que não queria ouvir e não tem o luxo de ignorar.
— Certo. — A voz saiu controlada, mas havia algo por baixo — uma tensão que ele administrava há tempo demais. — Melhor fazer uma viagem. Dar um tempo de Vegas. — Ele estendeu a mão. — Obrigado pelo aviso.
O aperto de mão foi breve.
Os dois se separaram sem mais palavras, cada um para o próprio carro, em direções diferentes, como se a conversa nunca houvesse acontecido.
Do outro lado da rua, dentro de um veículo com os vidros escuros e o motor desligado, dois homens observavam.
Um com binóculos.
O outro com um celular já desbloqueado, esperando.
O homem com os binóculos os baixou devagar, com o sorriso satisfeito de quem passou tempo demais procurando e finalmente encontrou.
— Finalmente. — A voz saiu quase suave, o que a tornava mais perturbadora do que se fosse raivosa. — Descobrimos quem é o safado.
O outro já estava discando.
— Vou avisar ao chefe.
A ligação conectou em menos de dois toques.
— Chefe. — A voz foi direta, sem introdução. — Encontramos ele.
Do outro lado da linha, uma pausa curta.
E então uma resposta de três palavras que o vento não carregou longe o suficiente para ser ouvida por ninguém de fora do carro.
O homem com o celular desligou. Guardou o aparelho devagar.
Os dois ficaram em silêncio por um momento, observando o carro de Anthony desaparecer no trânsito de Las Vegas completamente alheio aos olhos que o haviam acompanhado cada segundo dali.
— Clube Comunitário
Ninguém havia avisado Grissom sobre o escorrega.
Não o tamanho dele, não o ângulo, e definitivamente não o fato de que a bandeja com três copos plásticos de suco precisaria chegar intacta ao final o que era, do ponto de vista físico, um desafio considerável para qualquer adulto acima de um metro e oitenta.
Augusto estava na base do escorrega com os braços abertos em posição de torcida.
— VAI, TIOOO!!
Grissom olhou para o escorrega. Olhou para a bandeja. Olhou para Sara.
Sara estava com a mão na boca e os ombros visivelmente tremendo.
— Se você rir — ele disse, com toda a dignidade que a situação permitia — eu vou lembrar disso na dança da laranja.
— Não estou rindo. — A voz saiu com três pausas que eram claramente risadas contidas. — Estou torcendo. São coisas diferentes.
Grissom subiu a escada da plataforma com a postura de alguém encarando uma cena de crime particularmente desafiadora, sentou, ajustou a bandeja no colo com precisão...
E desceu.
A bandeja sobreviveu até a curva do meio.
O restante foi uma negociação física entre a gravidade, o suco e o que havia sobrado da dignidade de um entomologista de quase cinquenta anos que chegou ao final do escorrega com um copo na mão, dois no chão e a expressão de alguém que está recalculando algumas escolhas de vida.
Augusto aplaudiu de qualquer jeito.
— QUASE TIOOO!! QUASE!!
Sara não segurou mais. A risada saiu inteira, de verdade, do tipo que dobra o corpo e Grissom, ainda sentado na base do escorrega com suco na manga do casaco, ficou olhando para ela por um momento.
E sorriu.
Não o sorriso de supervisor. O outro, o que aparecia raramente e durava pouco.
— Próxima é você. — Ele disse, levantando.
— Eu nasci para escorrega.
Nasceu, de fato. Sara desceu com os braços levantados, bandeja intacta, e recebeu uma ovação do grupo azul que foi desproporcional e completamente merecida.
Grissom aplaudiu com todo mundo.
— Sorte de principiante. — Ele murmurou quando ela chegou ao lado dele.
— Habilidade.
— Vamos ver na corrida do ovo.
A corrida do ovo foi um desastre produtivo para os dois — Sara perdeu o ovo na segunda curva, Grissom segurou o dele até a linha de chegada por pura teimosia científica e chegou em terceiro lugar com uma expressão de satisfação desproporcional ao resultado.
O cabo de guerra colocou os dois no mesmo time contra outro grupo de pais e a combinação de Sara puxando com técnica e Grissom com força resultou numa vitória que Augusto comemorou como se o grupo houvesse ganho outro troféu.
A brincadeira da estátua pegou Grissom no momento mais inoportuno no meio de um passo que não era exatamente digno e ele ficou congelado naquela posição por trinta segundos enquanto Sara ficava ao lado dele sem conseguir olhar para o rosto do supervisor sem perder a compostura completamente.
— Não olha pra mim. — Ela avisou, a voz falhando.
— Não estou olhando. — Ele estava olhando.
Os dois perderam a estátua simultaneamente.
A dança da laranja chegou inevitavelmente.
Grissom pegou a fruta com uma seriedade que não combinava com o contexto e se posicionou na frente de Sara com aquele olhar que ela havia aprendido a identificar como tenho um plano.
— Regras são regras. — Ele disse, inocente demais.
— Grissom. — Ela apontou um dedo. — Profissional.
— Estamos numa gincana. — Ele abriu as mãos. — Tecnicamente—
— Não termina essa frase.
A música começou.
A laranja foi posicionada e Grissom, com a naturalidade calculada de um homem que havia pensado nisso desde que leu a lista de atividades, se aproximou o suficiente para que o espaço entre eles fosse estritamente o necessário para a fruta e nada mais.
Sara olhou para cima por um segundo.
Paciência.
Eles dançaram ou algo que se aproximava disso com a laranja firmemente no lugar e uma proximidade que estava fazendo Sara desenvolver um interesse súbito e profundo no ponto fixo acima da cabeça dele.
— Está bem. — A voz dele chegou baixa, próxima. — Tem que admitir que a laranja foi uma boa ideia dos organizadores.
— Cala boca, Grissom.
— Nossos corpos agradecem—
— Cala boca.
Ele calou, mas o sorriso ela sentiu sem precisar ver.
A laranja não caiu. Eles terminaram a dança no lugar, a fruta intacta.
O almoço coletivo depois da gincana tinha aquela energia boa de fim de atividade, mesas juntas, comida compartilhada, crianças ainda com energia sobrando enquanto os adultos começavam discretamente a procurar cadeiras.
Sara estava ajudando a organizar os pratos quando uma mulher que não havia visto antes chegou ao lado dela com um sorriso simpático.
— Desculpa interromper. — A mulher olhou de Sara para Grissom, que estava alguns metros adiante ajudando Augusto a equilibrar um copo grande demais para as mãos do menino. — Precisava falar com os pais do Augusto para verem se seguem o exemplo de vocês.
Sara abriu a boca.
— Eles não são tão dedicados com ele quanto vocês. — A mulher continuou, genuinamente aquecida. — A gincana toda, os projetos de ciência... — ela sorriu. — Vocês parecem mais os pais dele do que qualquer outra coisa. Essa criança tem muita sorte.
E foi embora antes que Sara conseguisse formular uma resposta.
Sara ficou parada com o prato na mão.
Parecem mais os pais dele.
Ela olhou para Grissom — que naquele exato momento estava ajoelhado na altura de Augusto, explicando algo com gestos animados enquanto o menino ouvia com os olhos arregalados e a cabeça inclinada, aquela postura específica de quem está absorvendo cada palavra.
Algo pousou no peito de Sara de um jeito que ela não havia antecipado.
Não era desconfortável.
Era exatamente o oposto e isso, de certa forma, era muito mais difícil de administrar.
Grissom ergueu os olhos naquele momento como se sentisse o olhar e a encontrou olhando para ele.
Nenhum dos dois disse nada.
Augusto olhou de um para o outro com a perspicácia de sempre.
— Por que vocês dois estão se olhando assim?
— Estamos não. — Os dois responderam juntos.
O menino piscou.
— Pareciam.
— Come seu lanche, Augusto. — Sara foi a primeira a se mover, voltando a atenção para os pratos.
Grissom levantou devagar, ainda com o sorriso discreto que ela havia optado por não comentar.
O comentário da mulher ainda estava pousado no ar entre os dois sem endereço, sem dono, sem ninguém disposto a ser o primeiro a comentar quando a chegada de Mary os salvou do silêncio.
Ela vinha sorrindo, com Anthony ao lado.
O marido era um homem de presença física considerável, ombros largos, postura que tentava transmitir segurança e conseguia transmitir tensão para quem sabia ler. Sara notou imediatamente. Grissom também, a julgar pelo jeito que ficou quieto um segundo antes de falar.
— Sara, Grissom — Mary gesticulou com o carinho natural de quem está apresentando pessoas que já deveriam ter se conhecido — quero apresentar meu marido. Anthony Hentz.
— Muito prazer, senhor Hentz. — Sara estendeu a mão com um sorriso que não entregava absolutamente nada do que estava pensando.
— Prazer em conhecê-lo pessoalmente. — Grissom apertou a mão com firmeza e então, com aquela diretividade que era marca registrada, acrescentou sem preâmbulo: — Aconteceu alguma coisa? Está com algum problema? Me parece nervoso.
Anthony não piscou.
Mas havia algo no meio segundo antes da resposta pequeno demais para ser notado por quem não estava procurando que dizia tudo.
— Prazer em conhecê-los. — A voz saiu controlada, quase perfeita. — Nervoso? Não, não estou não. Deve ser impressão sua, senhor Grissom. — Um sorriso que chegava até a boca mas não até os olhos. — Mas agradeço pela preocupação.
— Pode ser. — Grissom correspondeu ao sorriso com um igualmente educado e igualmente calculado. — Mas se precisar de ajuda com qualquer coisa... pode nos procurar. Sem cerimônia.
A frase havia sido dita no tom de sempre gentil, direta.
Mas havia um segundo significado ali que apenas três pessoas na roda entenderam.
Anthony olhou para Grissom por um segundo mais longo do que o necessário.
— Obrigado. — Pausou. — Se me derem licença, vou ali com meu filho.
E foi com passadas que eram um pouco rápidas demais para serem relaxadas.
Mary o acompanhou com os olhos por um momento antes de voltar a atenção para os dois com aquele sorriso que era real mas carregava cansaço nas bordas.
Sara foi a primeira a falar.
— Nossa participação aqui já terminou então. — O tom era leve, natural. — Vamos aproveitar para ir embora e descansar antes do turno.
— Claro. — Mary começou a dizer alguma coisa mas foi interrompida.
— TIA SARAAAA!!
Augusto chegou em velocidade, com Anthony dois passos atrás e a expressão de quem havia tentado segurar o filho sem sucesso. O menino freou na frente dos dois com os braços já abertos, olhando de um para o outro com uma intensidade que não era de criança de sete anos ou talvez fosse exatamente de criança de sete anos, que ainda não aprendeu a esconder o que sente.
— Obrigado por virem. — A voz saiu menor, mais séria do que o habitual. — Os dois.
Sara se abaixou até a altura dele.
— Foi um prazer enorme, cientista. — Ela o abraçou com uma força que surpreendeu a ela mesma. — Estou orgulhosa de vocês.
Augusto apertou o abraço.
E então, com a voz abafada no ombro dela:
— Amo vocês, tia Sara.
Sara fechou os olhos por um segundo.
— A gente também ama você. — A voz saiu um pouco menos firme do que ela pretendia.
Quando se levantou, Grissom já estava na altura do menino — ajoelhado, mão no cabelo bagunçado de Augusto com aquele gesto que havia surgido naturalmente ao longo das últimas semanas.
— Não foi nada, garotão. — A voz estava mais suave do que o habitual do supervisor. — Também amamos você.
Augusto sorriu daquele jeito dele, inteiro, sem reserva nenhuma.
Anthony observava a cena alguns passos atrás, com uma expressão que Sara não conseguiu catalogar completamente.
Mary abraçou os dois rapidamente, com aquele calor que já havia se tornado familiar.
— Obrigada mais uma vez. Pelo carinho com ele. Por tudo. — Ela segurou por um segundo antes de soltar. — Tchau. Descansem.
— Tchau, Mary. — Sara sorriu.
Os dois se afastaram em direção ao estacionamento lado a lado, sem pressa, sem falar.
Foi só quando chegaram aos carros que Grissom quebrou o silêncio.
— Anthony Hentz. — Grissom disse, baixo, como se estivesse arquivando o nome com cuidado. — Aconteceu algo que o assustou. Estava muito nervoso.
— Estava. — Sara confirmou, braços cruzados, olhando para o clube. — Aquele olhar... é o de alguém que sabe que foi descoberto e ainda não sabe o tamanho do problema que tem pela frente. E quando percebeu que notamos algo, resolveu sair da conversa o mais rápido possível.
— Comportamento clássico de quem está escondendo coisa séria.
— E com medo. — Ela virou para ele. — É melhor irmos logo. Está quase na hora de encontrarmos o Brass.
Grissom assentiu. Ficou em silêncio por um segundo — o tipo de silêncio que antecede algo que foi pensado com cuidado.
— Sara. — Ele se apoiou levemente no carro, o tom mudando para algo mais prático, mais cuidadoso. — Você não quer descansar lá em casa? Minha casa, quero dizer.
Ela ergueu os olhos.
— Vai ficar pesado ir até o seu apartamento e depois voltar para o meu lado da cidade antes da reunião. — Ele continuou, antes que ela pudesse responder. — Tenho um quarto de hóspedes. Você pode descansar por mais tempo para o encontro com Brass e Catherine.
Sara ficou olhando para ele por um momento.
A lógica era impecável.
O problema era que lógica impecável não desligava o que havia sido dito horas antes num estacionamento, com aquela voz baixa e deliberada — de hoje não passa, eu quero muito — ainda circulando em algum lugar que ela preferia não mapear com precisão.
Quarto de hóspedes. Casa de Grissom. Os dois. Sozinhos.
— Não sei se é uma boa ideia. — A voz saiu mais devagar do que pretendia.
Grissom a olhou e ela soube, pela forma como os olhos azuis leram o rosto dela com aquela atenção de sempre, que ele entendeu exatamente o que estava por trás da hesitação.
Ele não sorriu. Não aproveitou.
— Sara. — A voz saiu diferente — mais séria, mais direta, sem nenhuma das camadas sedutoras que havia usado a manhã toda. — Eu sei o que você está pensando. E entendo. — Uma pausa. — Mas dentro da situação grave em que estamos, o nosso assunto pode esperar. — Ele a olhou diretamente. — Vamos resolver essa situação primeiro. — Pausa menor. — Não vou fazer nada que você não queira. Palavra.
Sara o olhou por um momento longo.
Havia algo diferente quando ele falava assim — sem armadura, sem o jogo de aproximação que havia durado a manhã inteira. Era o Grissom que ela conhecia antes de tudo ficar complicado. Direto. Honesto. Confiável.
Aquele ela nunca havia conseguido ignorar direito.
— Certo. — Ela assentiu, pegando as chaves. — Aceito.
Grissom assentiu de volta, simples, sem comemorar, como quem recebeu algo que vai guardar com cuidado.
A porta se abriu para um espaço que era, de alguma forma, exatamente Grissom.
Sara entrou devagar. Livros em toda parte, organizados com um critério que ela precisaria de mais tempo para decifrar completamente. Uma iluminação baixa e quente que não havia sido planejada para impressionar ninguém, estava assim porque era assim que ele gostava.
Havia algo perturbadoramente familiar no espaço. Como se ela já soubesse como ele respirava dentro de casa, como organizava o silêncio, onde colocava as coisas que importavam.
Estava tão concentrada na inspeção que não ouviu.
— Sara.
Ela virou de um salto, a mão no peito.
Grissom estava a um metro surgido do corredor sem fazer barulho, com a expressão levemente arrependida de quem não foi discreto o suficiente.
— Ops. Desculpa se te assustei. — A voz estava suave. — Vim te avisar que ao lado do quarto de hóspedes tem um banheiro. Pode ficar à vontade. — Ele gesticulou levemente em direção ao corredor. — No meu quarto tem outro, então não vou precisar usar aquele.
— Certo. Obrigada. — Sara respirou, a mão ainda vagamente no peito.
— Está com fome? Posso fazer alguma coisa rápida antes de—
— Não, Grissom. Estou bem. — Ela o olhou com um sorriso pequeno e cansado que era genuíno. — Estou só cansada. Foi um dia longo.
— Foi. — Ele concordou.
Uma pausa pequena se instalou entre os dois.
— É melhor nos recolhermos então. — Ele disse por fim.
Deu um passo em direção ao corredor. Parou. Se virou levemente.
— Bom descanso, querida.
A palavra saiu com uma naturalidade que a surpreendeu, não calculada, não parte do jogo de conquista da manhã. Apenas... saiu. Como se fosse o jeito que ele sempre a chamaria dentro de casa, se as coisas tivessem sido diferentes desde o começo.
Sara ficou parada por um segundo.
— Bom descanso, Grissom.
Ele foi pelo corredor.
Caminhou até o quarto de hóspedes, fechou a porta com cuidado e ficou sentada na beira da cama por um momento no escuro.
Do outro lado da parede, ela ouviu passos. Uma porta. Silêncio.
Sara se deitou, olhou para o teto.
Bom descanso, querida.
Ela fechou os olhos.
E o sorriso que apareceu no escuro — aquele, que ninguém viu — ficou por um tempo considerável antes de deixá-la dormir.
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