NOSTALGIA (VERSÃO 2026)

6 Entre uma Porta e Outra


Sara voltou à consciência gradualmente da forma boa, sem alarme, sem aquela sensação de urgência que acompanhava a maioria dos seus dias.

Ficou de olhos fechados por um momento, deixando o cérebro fazer o inventário básico da situação.

Cama confortável. Travesseiro que cheirava bem. Luz filtrada por uma persiana que havia sido pensada para bloquear o sol de Las Vegas com eficiência.

Casa de Grissom.

Ela abriu os olhos.

E então o cheiro chegou.

Não era só café, era café e alguma coisa mais. Manteiga. Ervas. Algo que o estômago reconheceu antes do cérebro e respondeu com uma eloquência que não deixou margem para ignorar.

Sara se sentou, se espreguiçou, olhou para o teto por um segundo.

Havia dormido bem. Genuinamente bem, do tipo de sono que só aparece quando o corpo finalmente baixa a guarda.

Ela se arrumou no banheiro ao lado, jogou água no rosto, passou os dedos pelo cabelo e foi seguindo o aroma pelo corredor como se tivesse um fio invisível puxando.

A cozinha estava no fim do corredor.

Sara virou a esquina.

E parou.

Gilbert Grissom estava de costas para ela, de bermuda, sem camisa, completamente concentrado em algo que estava na frigideira e que era claramente a origem de todo aquele aroma. Os ombros largos, a postura relaxada de quem está em território familiar completamente alheio, na aparência, à chegada dela.

Que visão maravilhosa é essa.

O pensamento apareceu antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

Sara ficou parada por um segundo a mais do que pretendia — e então, com o controle que havia aperfeiçoado ao longo de semanas de prática, recompôs a expressão para algo que esperava ser neutro e caminhou até a entrada da cozinha.

— Boa tarde, Grissom.

Ele virou o rosto por cima do ombro com um sorriso tranquilo de quem claramente já sabia que ela estava lá.

— Boa tarde, Sara. — Voltou para a frigideira sem pressa. — Conseguiu dormir?

— Sim. — Ela se apoiou levemente na soleira, tentando muito ativamente não processar a visão de frente que estava prestes a chegar quando ele se virasse. — Sua ideia foi... ótima. Estou bem descansada.

— Fico feliz.

Então ele se virou com a frigideira na mão, completamente de frente, completamente sem camisa, com aquela expressão de quem está simplesmente cozinhando e não tem absolutamente nenhuma intenção.

Sara estudou o ponto fixo levemente acima da cabeça dele com uma dedicação considerável.

— Vendo você tão compenetrado aí... — ela começou, e havia algo na voz que era esforço disfarçado de leveza — me lembro de quando em São Francisco você preparou um café da manhã pra gente.

Grissom pousou a frigideira e se virou completamente para ela.

— Então. — O sorriso chegou devagar, com aquela qualidade de quem guardou algo e está gostando de revelar. — Lembrando daquele dia é que estou fazendo o mesmo cardápio.

Sara piscou.

— O mesmo cardápio.

— O mesmo. — Ele gesticulou para a mesa, já posta. — Senta. Já está pronto.

O omelete era, objetivamente, perfeito.

Sara comeu o primeiro garfo e fechou os olhos por um segundo involuntário.

— Grissom. — Ela apontou para o prato com o garfo. — Esse omelete está divino.

— Que bom que gostou. — Ele disse, com a simplicidade de quem recebe elogios sobre cozinha da mesma forma que recebe conclusões de análise forense — como dado confirmado.

— É o mesmo de São Francisco?

— Mesmas ervas. Mesma proporção. — Ele sentou do lado oposto da mesa com o próprio prato. — Memória fotográfica tem suas utilidades.

— Para omeletes e para rastrear celulares. — Ela disse, doce demais.

— Entre outras coisas. — Ele correspondeu, igualmente doce.

Sara tomou um gole de café para esconder o sorriso.

A conversa foi tomando o rumo das coisas que não pesam — Augusto e sua fazenda de formigas que havia sido classificada pelo próprio como a melhor do bairro, provavelmente do estado. A expressão de Pedrinho durante a gincana. O momento em que Grissom havia descido o escorrega e chegado ao final com um copo e meio de suco na manga.

— Você perdeu dois copos. — Sara disse, com a seriedade de quem está apresentando evidência.

— Mantive um. Em condições adversas. — Ele ergueu o garfo como ponto de argumentação. — Isso é resultado positivo.

— É derrota com narrativa criativa.

— É adaptação sob pressão.

Sara riu — e era a risada de verdade, a que não precisava de esforço, a que simplesmente aparecia.

Grissom a observou. Sem camisa de propósito. Ele havia decidido isso enquanto ela ainda dormia. Se havia chegado a um ponto em que precisava agir, que pelo menos fosse com todas as cartas na mesa.

O efeito havia sido exatamente o que ele calculou — ela havia chegado na cozinha e parado. Ele havia sentido antes de ver.

E estava, discretamente, muito satisfeito consigo mesmo.

— O menino tem um ritmo de descobertas que vai ser difícil de acompanhar quando tiver dez anos. — Falou Grissom.

— Vai ser gênio.

— Já é. Só tem sete. — Ele tomou um gole de café. — Está te adotando, sabe.

Sara ergueu os olhos.

— E a você também. — Ela apontou. — Tio Grissom.

— Não me opus ao título.

— Notei.

Os dois ficaram em silêncio por um momento.

Sara olhou para o prato, depois para ele.

— Grissom.

— Hm?

— Por que o mesmo cardápio?

Ele a olhou por um momento.

— Porque foi um bom dia. — A resposta saiu simples, direta, sem ornamento. — E quero que este também seja.

Sara ficou com o garfo parado no ar por um segundo.

Então voltou ao omelete sem dizer nada.

Mas o ponto fixo que havia escolhido para olhar desta vez era o prato e não porque estava evitando o rosto dele.

Era porque estava evitando sorrir de um jeito que entregaria muito mais do que estava pronta para entregar.

— Casa da Família Hentz

A casa estava quieta do jeito que fica quando as crianças dormem e os adultos precisam conversar.

Augusto havia sido colocado para descansar depois de um dia que havia drenado até a energia considerável de um menino de sete anos e dormia com o caderno de anotações ainda aberto ao lado, a caneta encostada na página como se tivesse sido largada no meio de um pensamento importante.

Na sala, Anthony estava sentado no sofá com aquela postura de quem não está descansando, está esperando.

Mary chegou da cozinha com duas xícaras e pousou uma na frente dele antes de sentar do lado oposto, lendo o rosto do marido com os olhos de quem já aprendeu que o silêncio dele tem tipos diferentes.

Esse era um que ela não gostava.

— Mary. — Ele começou, com uma leveza forçada que não enganou ninguém. — Que tal fazermos uma viagem?

Ela ficou com a xícara parada a meio caminho da boca.

— Uma viagem.

— Sim. Sair um pouco de Las Vegas, conhecer um lugar novo, descansar. — Ele encolheu os ombros como se estivesse propondo um fim de semana na praia. — O que acha?

Mary pousou a xícara devagar na mesa.

— Adoraria. — A voz saiu calma, medida. — Mas o Augusto está em período escolar. Não vamos poder simplesmente—

— Pedimos liberação dele da escola. — Anthony cortou, rápido demais. — É só falar com a diretora, explicar que é uma situação de família. Eles entendem.

O silêncio que se seguiu durou o suficiente para ter peso.

Mary olhou para o marido — sem pressa, sem desviar — com aquele olhar que vinte anos de convivência constroem e que não precisa de palavras para fazer perguntas.

— O que aconteceu de verdade, Anthony?

Ele abriu a boca.

Fechou.

Olhou para as mãos.

— Bom... é que... — a voz perdeu a leveza forçada e ficou no lugar algo mais cansado, mais honesto do que ele havia planejado ser. — Algumas coisas no meu trabalho não deram certo.

— Algumas coisas. — Ela repetiu, devagar.

— É uma situação temporária. Só preciso de um tempo fora para as coisas se resolverem por aqui e depois voltamos normalmente e—

— Anthony. — A voz de Mary saiu baixa, mas tinha um fio de aço por baixo. — Nós vamos precisar fugir? É isso?

Ele ergueu os olhos rapidamente.

— Não. — A resposta veio rápida demais para ser completamente convincente. — Claro que não. É só... daremos um tempo de Vegas. Temporariamente. Amor, fica tranquila — ele se inclinou para frente, pegou a mão dela com as duas mãos — está tudo bem. Eu prometo.

Mary olhou para as mãos dele cobrindo as suas.

Ficou assim por um momento longo.

Não disse nada.

Mas havia algo nos olhos dela, uma mistura de medo que já existia há tempo e de resposta para perguntas que ela havia feito apenas para si mesma durante meses que era mais eloquente do que qualquer palavra que pudesse ter dito.

Algumas coisas no trabalho não deram certo.

Ela sabia, há mais tempo do que Anthony imaginava, que algumas coisas era uma forma muito pequena de descrever algo muito grande.

E sabia, com aquela certeza silenciosa que as mães desenvolvem quando têm algo a proteger, que o tempo que tinham estava diminuindo.

Do quarto, o som da respiração tranquila de Augusto chegava pelo corredor.

Mary retirou a mão devagar, pegou a xícara e tomou um gole de café frio.

— Tudo bem. — Ela disse.

Só isso.

Anthony relaxou os ombros visivelmente, aliviado por ter sido acreditado.

Ele não viu ou não quis ver que Mary não havia dito que acreditava nele.

Havia dito apenas que estava bem.

E as duas coisas, naquele momento, não eram nem de perto a mesma coisa.

— Casa de Grissom — Cozinha —

A louça havia sido uma desculpa razoável para continuar na cozinha.

Grissom lavava. Sara enxugava. A conversa havia cedido espaço para um silêncio que era confortável do jeito que poucos silêncios conseguem ser.

Sara alcançou a última tigela, se virou para colocá-la na prateleira atrás dela e o pé escorregou na água que havia pingado no chão sem que nenhum dos dois notasse.

O movimento foi rápido demais para ser controlado.

As mãos de Grissom foram mais rápidas.

Ele a segurou pelo braço e pela cintura com a firmeza de quem agiu por instinto e quando o mundo parou de se mover, Sara estava com as costas levemente inclinada para trás, os dois braços de Grissom ao redor dela, e os rostos separados por uma distância que havia deixado de ser razoável.

Nenhum dos dois se moveu.

Um segundo.

Dois.

E então sem que nenhum dos dois pudesse dizer quem havia chegado mais perto... o beijo aconteceu.

Não foi urgente no começo. Foi do tipo que começa devagar porque os dois têm consciência do peso do que está acontecendo e não querem desperdiçar nenhum segundo sendo descuidados. Lento, certo, com anos de não dito se dissolvendo em algo que finalmente tinha forma.

E então deixou de ser devagar.

Sara soltou a tigela — que por alguma graça não quebrou — e as mãos foram para o rosto dele com uma determinação que não tinha nada de hesitação. Ele a puxou mais perto e o beijo ficou mais quente, mais fundo, com a qualidade específica de algo represado por tempo demais.

Grissom a moveu até o balcão sem quebrar o contato e ela, sem pensar, o prendeu com as pernas com a naturalidade de quem está exatamente onde deveria estar.

Os beijos desceram para o pescoço e as mãos de Grissom encontraram a barra da blusa dela com uma pergunta silenciosa que ela respondeu levantando os braços.

— Você é linda, Sara. — A voz chegou rouca, próxima demais da pele dela para ser processada com clareza. — Sou louco por você.

— Você é que me enlouquece. — As palavras saíram contra o ombro dele, sem distância nenhuma.

As mãos de Sara foram para a nuca dele — dedos enredando no cabelo — e o som que ela arrancou dele foi suficiente para tornar tudo ainda mais inevitável.

As mãos de Grissom trabalhavam com uma atenção que não deixava nada passar — e os dois estavam visivelmente a poucos decisões de um ponto sem volta quando—

Diiim. Dom.

A campainha.

Grissom parou.

Sara parou.

Os dois ficaram absolutamente imóveis por um segundo como se o universo inteiro houvesse dado um pause inconveniente e cruel.

— Não. — A voz dele saiu baixa e fervorosa. — Não, não, não. Agora não.

Sara soltou um ar que era metade suspiro e metade risada involuntária.

— Deve ser eles. — Ela conseguiu articular.

— Já chegaram? — Ele ergueu a cabeça com a expressão de alguém que está seriamente reconsiderando a decisão de ter amigos. — Não tinham outra hora para aparecer?!

— Grissom. — Ela o olhou com os olhos ainda escuros e a respiração que não havia voltado completamente ao normal. — Nós marcamos com eles.

— Erro de julgamento.

Diiim. Dom.

A campainha de novo — mais insistente, com a energia de alguém do lado de fora que não tem a menor ideia do que está interrompendo.

— Melhor você abrir. — Sara disse.

Grissom olhou para ela. Olhou para si mesmo. Olhou de volta para ela.

— Melhor você abrir. — Ele disse, com uma expressão que misturava sem graça genuína com algo que era quase humor. — Eu vou ao quarto colocar uma camisa e... — ele pausou, pesando as palavras — ...me recompor.

Sara abriu a boca.

Fechou.

Olhou para baixo. Olhou para ele.

— Certo. — A palavra saiu com uma seriedade que durou exatamente um segundo antes de rachar. — Vai.

Ele a beijou de novo, rápido, fundo, do tipo que é promessa e foi pelo corredor.

Sara ficou parada na cozinha por três segundos.

Respirou fundo.

Depois mais uma vez.

Ajeitou o cabelo, que havia decidido tomar vida própria em algum momento dos últimos quinze minutos, passou as mãos na blusa que havia sido devolvida e foi em direção à porta com os passos mais controlados que conseguiu.

Catherine. Brass. Reunião. Trabalho. Foco.

Ela abriu a porta.

E parou.

Do outro lado não estava Catherine.

Não estava Brass.

Era uma figura que ela não esperava — de pé na soleira, com um olhar de surpresa.

— Casa da Família Hentz

A mala estava aberta sobre a cama do casal.

Mary dobrava as roupas, cada peça colocada no lugar certo, com o cuidado de quem precisa que as mãos façam alguma coisa enquanto a cabeça processa o que não consegue verbalizar.

Anthony estava do outro lado do quarto, inclinado sobre o notebook com o telefone no ouvido, a voz baixa demais para ser ouvida com clareza, apenas o tom, tenso e apressado, chegava até ela.

Ela continuava dobrando.

Os passos no corredor chegaram antes da voz.

— Mamãe?

Augusto apareceu na porta do quarto com o cabelo ainda amassado do descanso da tarde, olhando para a mala aberta com aquela atenção de criança.

Os olhos foram da mala para a mãe. Da mãe para o pai. Do pai de volta para a mala.

— Por que precisamos viajar?

Mary se virou com um sorriso que havia sido preparado para esse momento.

Augusto prestava atenção.

— O papai tem um trabalho importante pra fazer longe daqui. — Ela explicou, com aquela leveza cuidadosa das meias verdades que os pais contam para proteger. — E ele precisa que a gente vá junto.

— Por que?

— Porque somos uma família. — Ela abriu as mãos levemente. — A gente não fica separado quando não precisa.

Augusto considerou isso por um momento com a seriedade dos seus sete anos.

— Mas a escola—

— A gente resolve a escola. — Anthony se virou do computador, o telefone já guardado, com um sorriso que fazia mais esforço do que o de Mary mas chegava num rosto mais cansado. — Não vai demorar, filhão. Vai ser rápido.

— Vai ter piscina?

Mary piscou.

— No lugar que vamos?

— Sim. — Anthony não hesitou. — Vai ter piscina.

Augusto pesou a informação com a objetividade de um cientista avaliando variáveis.

— Posso levar o caderno de experimentos?

— Pode levar o que quiser. — Mary voltou para a mala, as mãos retomando o movimento. — Vai arrumar seus pertences?

O quarto do casal ficou em silêncio.

Mary parou de dobrar.

— Anthony. — A voz saiu baixa, sem raiva, sem drama. Só peso. — Onde vamos de verdade?

Ele cruzou o quarto e parou ao lado dela. Pousou a mão no ombro dela com um cuidado que dizia mais do que havia dito a tarde toda.

— Consegui um lugar. É seguro. — A voz estava séria agora, sem a leveza fabricada que havia usado com Augusto. — Vamos terminar as malas e saímos ainda hoje.

— Ainda hoje. — Ela repetiu, devagar.

— Quanto antes, melhor.

Mary ficou olhando para a mala por um momento. Continuou arrumando a mala enquanto lá fora Las Vegas brilhava como sempre, indiferente, sem saber que em algumas horas uma família inteira estaria tentando desaparecer dentro dela.

— Casa de Grissom — Porta da Frente —

Sara ficou parada na soleira por um segundo — processando a figura do outro lado com aquela velocidade de raciocínio que o trabalho havia aperfeiçoado mas que, naquele momento específico, estava sendo usada para gerenciar algo bem menos profissional.

Lady Heather.

De pé na porta. Elegante como sempre. Com aquele olhar que lia ambientes em frações de segundo e claramente já estava lendo este.

— Sara? — A voz de Heather saiu com uma surpresa genuína que logo cedeu espaço para algo mais calculado. — O que você está fazendo aqui?

Sara respirou. Uma vez. Controlada.

— Boa tarde, Heather. — O tom saiu profissional com uma fluidez que ela considerou uma vitória pessoal considerável, dado o estado em que estava trinta segundos atrás. — Vim para uma reunião de trabalho com Grissom, Brass e Catherine. Estamos aguardando os dois chegarem. — Ela abriu a porta um pouco mais, recuando para dar espaço. — O Grissom está no quarto...

Passos no corredor.

— Sara, eles chegaram? — A voz de Grissom chegou antes dele — e então ele dobrou a esquina da sala e parou.

Os olhos azuis fizeram o percurso em menos de um segundo: Sara. Porta. Heather.

E então, pela segunda vez em poucos dias, Gilbert Grissom ficou sem palavras na própria casa.

— Heather.

— Oi, Grissom. — O sorriso de Heather tinha aquela qualidade específica de quem chegou sem avisar e está perfeitamente consciente disso. — Preciso falar com você.

O silêncio durou exatamente o tempo suficiente para ser notado por todos os três.

Grissom estava sem graça de um jeito que Sara havia visto poucas vezes e que, em outras circunstâncias, teria achado fascinante. Naquelas circunstâncias específicas, achava apenas insuportável.

Ela tomou a decisão antes de pensar muito.

— Olha. — A voz saiu leve, prática, sem drama. — Vou fazer o seguinte: fico lá embaixo esperando o pessoal. — Pegou a bolsa do gancho perto da porta com movimentos que eram calibrados para parecer casuais. — Quando for possível subir, só me avisem. Com licença, gente.

E foi.

Não correu, mas o passo tinha aquela energia de quem precisa sair de um espaço antes que o espaço fique pequeno demais.

Grissom a acompanhou com os olhos até ela desaparecer pela escada e havia algo no rosto dele que Heather leu com a precisão de sempre.

— Sara tem costume de te visitar? — A pergunta saiu delicada, quase casual.

— Estamos esperando mais pessoas para uma reunião de trabalho. — A voz de Grissom voltou ao tom controlado, embora com uma camada de desconforto que ele não conseguiu remover completamente. — Sara foi a primeira a chegar.

— Hm. — Heather entrou quando ele recuou para dar passagem, percorrendo a sala com os olhos com aquela atenção que não perdia detalhes. — Demoraram um pouco a abrir a porta. Suponho que...

— Eu estava me trocando. — Grissom foi direto, antes que ela terminasse. — E Sara esperou minha autorização para abrir. — Uma pausa pequena, deliberada. — Mas se tivesse acontecido algo entre nós, não haveria problema nenhum.

Heather o olhou por um momento.

E então sorriu — não o sorriso calculado, o outro. O genuíno.

— Não disse que haveria.

Grissom ficou em silêncio por um segundo.

— Heather. — A voz mudou de tom — menos defensivo, mais direto. — Aconteceu algo urgente para você vir até minha casa sem avisar?

A pergunta recolocou as coisas no lugar e Heather, que sabia muito bem quando uma conversa precisava mudar de direção, deixou o sorriso diminuir e ficou séria.

— Desculpe o abuso. De verdade. — Ela sentou na poltrona com a postura de quem carrega algo há tempo e chegou num ponto em que precisava pousar. — Acontece que...

— Do lado de fora do Prédio —

O ar de Las Vegas nunca havia sido tão bem-vindo.

Sara saiu pelo saguão e ficou parada na calçada por um momento — deixando a tarde bater no rosto, deixando o espaço aberto fazer o trabalho que quatro paredes não estavam conseguindo fazer.

Respira.

Ela respirou.

Do outro lado daquela porta havia uma cozinha com louça lavada e um balcão e um beijo que havia durado tempo suficiente para reorganizar completamente algumas certezas que ela havia construído com cuidado ao longo de semanas.

E então havia uma campainha.

E então havia Heather.

Heather.

Sara fechou os olhos por um segundo.

A imagem chegou sem ser convidada — ela abrindo a porta, o rosto de Heather, a própria expressão que não havia conseguido controlar completamente, Grissom voltando do quarto com a camisa abotoada às pressas e o cabelo ainda levemente fora do lugar—

Ela abriu os olhos.

Constrangedor era uma palavra pequena para o que havia sido aquilo.

Estava tão perdida dentro dos próprios pensamentos que não ouviu os passos se aproximando.

— Está tudo bem, Sara?

Ela se virou num salto pela segunda vez no dia, o coração adiantando um batimento.

Jim Brass estava a dois metros, com a expressão de quem acabou de ver alguém parecer muito culpado sem motivo aparente, e aquela sobrancelha levemente erguida que era marca registrada do capitão.

— Oi, Brass. — Ela recompôs. — Está sim. Foi só um susto que tomei. Já passou.

Brass a olhou por um segundo com o olhar treinado de quem passou décadas lendo pessoas e claramente decidiu, pela bondade que raramente admitia ter, não investigar mais.

— Vamos subir?

— Catherine vem chegando ali. — Sara apontou com um alívio que não era só pela chegada da colega.

A loura descia da viatura com a energia de quem estava atrasada e sabia disso — pasta debaixo do braço, chaves na mão, cabelo perfeito apesar da pressa.

— Oi, gente!! — Ela chegou até os dois com um sorriso que logo avaliou a cena — Sara do lado de fora, expressão controlada demais, Brass com a sobrancelha no lugar suspeito. — Me esperando pra subir? Então vamos!!

— Na verdade — Sara começou, com uma neutralidade que custou — vamos ter que esperar um pouquinho.

Catherine parou.

— Esperar por quê?

— Grissom está com visita.

Brass franziu o cenho.

— Visita? Que visita?

Uma pausa de meio segundo.

— Lady Heather.

O silêncio durou exatamente o tempo que Catherine precisou para processar a informação — e então o rosto da loura percorreu aquela jornada específica que ia de surpresa para incredulidade para uma indignação que era cinquenta por cento profissional e cinquenta por cento pessoal em nome de Sara.

— Que? — A palavra saiu com um volume moderado que claramente havia feito esforço para não ser maior. — Isso não é hora de namorar, Grissom!! — Ela apontou para cima na direção do apartamento como se o supervisor pudesse ouvir. — Daqui a pouco vai dar a hora do nosso plantão, estamos aqui para falar de um assunto sério e ele está lá em cima recebendo visita?!

— Catherine. — Brass foi seco.

— Não, Jim, sério!!

Ela virou para Brass. — Jim, você tem como ligar pra ele e falar que temos uma reunião marcada e que a namorada dele pode visitar em outro horário?

— Não vou fazer isso, Catherine.

— Por quê?

— Porque sou capitão da polícia, não assistente pessoal do Grissom.

— Mas você poderia—

— Não vou fazer isso.

Sara olhou para os dois e sentiu, pela primeira vez desde que havia saído do apartamento, algo que era quase humor.

— Posso mandar mensagem para ele. — Ela disse.

Catherine virou para ela imediatamente.

— Manda.

Sara pegou o celular, mas ele tocou.

Ela olhou para a tela e algo no rosto mudou antes mesmo de atender.

— Com licença. — Ela aceitou a chamada e colocou no viva voz com um instinto que fez Brass endireitar a postura automaticamente.

— Augusto? É você?

— Sim, Sara!! — A voz do menino chegou pequena e animada, com aquela energia de sempre que desta vez tinha alguma coisa diferente por baixo. — Te liguei pra te dizer que vou viajar. O papai disse que é urgente e que eu e mamãe precisamos ir com ele.

Sara trocou um olhar rápido com Catherine.

Brass ficou completamente imóvel.

— Tá bom, amiguinho. — A voz de Sara saiu aquecida, sem deixar transparecer nada do que estava sentindo. — Se conseguir me dizer pra onde vai depois, me liga, tá? E se precisar de qualquer coisa — ela pausou só um segundo — de qualquer coisa que for, você me liga também. Combinado?

— Sim, Sara!! — Uma pausa pequena, e então, com aquela espontaneidade que era só dele: — Tchau!! Amo você!!

— Tchau, meu amor.

A ligação caiu.

O silêncio na calçada durou menos de dois segundos.

— Pelo jeito a identificação foi descoberta. — Catherine falou primeiro, a voz baixa e séria, sem nenhum dos traços da indignação de três minutos atrás. — E ele provavelmente já sabe que foi descoberto. Por isso a viagem urgente.

— Se saírem de Las Vegas agora — Brass cruzou os braços, o olhar mudando completamente para o modo profissional, ficamos sem acesso direto à família. E eles ficam sem proteção nenhuma.

— Precisamos subir. — Sara já estava se movendo em direção à entrada do prédio, o celular na mão. — Agora.

— Concordo plenamente. — Catherine já estava acompanhando o passo, a pasta firme debaixo do braço. — E o Grissom que namore depois.

As portas do elevador se abriram no andar de Grissom.

Os três saíram — e o timing foi tão preciso que pareceu ensaiado por alguém com senso de humor particularmente cruel.

Lady Heather estava saindo do apartamento no mesmo momento.

Ela os viu. Avaliou a cena em menos de um segundo — Brass, Catherine, Sara — com aquele olhar que não perdia muito. E então, com a compostura elegante de sempre e um lampejo de algo que era deliberado demais para ser inocente, se virou para Grissom.

— Tchau, Grissom.

E depositou um selinho que durou um segundo a mais do que um selinho de despedida precisaria durar, com a mão pousada levemente no peito dele, os olhos indo rapidamente para Sara antes de se afastar.

— Boa tarde, pessoal.

Grissom ficou parado na soleira.

Não havia dito nada. De novo.

Catherine acompanhou Heather com o olhar até ela alcançar o elevador — e então se virou para o supervisor com a expressão de quem guardou o comentário até o momento certo e o momento havia chegado.

— Desculpa interromper o namoro de vocês, Heather. — Ela disse, doce demais, já entrando no apartamento. — Mas temos trabalho a fazer, senhor Grissom.

Brass passou por ele com um tapinha no ombro que não tinha compaixão nenhuma.

Sara foi a última.

Ela caminhou com os olhos à frente, não desviou para ele, não diminuiu o passo, não deu nenhum sinal de que havia visto absolutamente nada daquilo.

O que era, de certa forma, muito pior do que qualquer reação.

A mão de Grissom fechou levemente ao redor do braço dela quando passou.

— Sara...

Ela parou.

Ficou de costas para ele por um segundo — com aquela imobilidade específica de quem está escolhendo muito cuidadosamente o que vai dizer a seguir.

— Você poderia me soltar, Grissom? — A voz saiu baixa, controlada, sem raiva aparente. — Temos trabalho.

Ele soltou.

Sara entrou no apartamento e foi direto se juntar a Catherine e Brass, que já haviam se instalado na sala com a naturalidade de quem tem assunto sério para tratar e não tem tempo para o que ficou do lado de fora.

Grissom ficou parado na porta por um momento.

Fechou a porta.

Estava colhendo exatamente o que havia plantado.

E o pior não era o olhar fechado de Sara.

Era a ausência de olhar. A forma como ela havia entrado na sala e se integrado ao grupo como se ele fosse apenas o supervisor, como se os últimos acontecimentos antes da campainha fossem um arquivo que havia sido fechado e arquivado numa gaveta sem etiqueta.

Ele conhecia esse mecanismo.

Era o mesmo que ela usava quando estava se protegendo de verdade.

— Grissom. — A voz de Brass chegou da sala, seca e direta. — Temos um problema sério para discutir.

Ele respirou fundo.

E foi.