NOSTALGIA (VERSÃO 2026)

29 Ficha caindo ( Finalmente)


Por anos, Grissom se orgulhou de sua objetividade. Ele sempre acreditou que a ciência era a única verdade absoluta, mas o tom de desprezo na voz de Catherine, alguém que o conhecia melhor do que quase ninguém, plantou uma semente de dúvida.

Sozinho, ele olhou para o monitor do computador. O relatório que ele tentava terminar parecia irrelevante. Ele começou a se dar conta de que, enquanto se perdia em probabilidades genéticas e mágoas feridas, o mundo real estava desmoronando ao seu redor:

O flat que Sara alugou não era apenas um endereço; era o símbolo físico de que ele falhou em prover a segurança que ela, com seu histórico de rejeição, mais precisava.

Ele se olhou na superfície metálica de um equipamento. Catherine tinha razão; ele mal se reconhecia. O homem que buscava a justiça para estranhos estava cometendo uma injustiça brutal dentro de casa.

A sirene foi desligada a poucos metros da cena. Nick Stokes e Warrick Brown desceram do carro, observando o movimento incomum ao redor do Cassino de Sanches.

O lugar ainda funcionava, luzes acesas, clientes entrando e saindo, mas havia algo fora do padrão. Havia seguranças demais, olhares atentos demais.

— Isso aqui não é só mais uma cena qualquer — murmurou Nick, ajustando as luvas.

Warrick concordou com um leve aceno, já analisando o ambiente.

— Vamos ver o que eles sabem.

Minutos depois, os dois estavam nos fundos do cassino, conversando com alguns dos homens de Sanches. A tensão era evidente. Ninguém queria falar demais… mas também não queriam esconder tudo.

Um dos seguranças, visivelmente nervoso, acabou soltando:

— Olha… vocês não ouviram isso de mim, mas… tem gente dizendo que o tal do Anthony Hentz tá escondido.

Nick e Warrick trocaram um olhar rápido.

— Escondido onde? — perguntou Warrick, direto.

O homem hesitou, olhando ao redor antes de responder, mais baixo:

— Na casa da Heather.

O nome caiu como uma peça que finalmente encaixava no quebra-cabeça.

— Tem certeza disso? — insistiu Nick.

— Não… mas aqui dentro, quando começam a falar esse tipo de coisa… geralmente não é à toa.

Do outro lado do salão principal, em uma área mais reservada, o próprio Sanches observava a movimentação, com um copo de bebida na mão e expressão carregada.

Um de seus homens se aproximou, inclinando-se para falar em tom discreto.

— Chefe… confirmaram. A polícia já tá farejando o Anthony.

Sanches estreitou os olhos.

— E a Heather?

— Ainda na casa dela.

Ele deu um sorriso frio.

— Então está na hora de convidar a senhorita Heather para uma conversa.

O homem assentiu.

— Quer que a gente traga ela?

Sanches balançou a cabeça negativamente.

— Não. Nada de força… ainda. Quero que ela venha por vontade própria.

Ele terminou a bebida de uma vez, colocando o copo sobre a mesa com firmeza.

— Liga pra ela. Diz que eu quero ver ela… hoje.

Enquanto isso, do lado de fora, Nick fechava o bloco de anotações.

— Se o Anthony tá mesmo com a Heather… isso liga tudo.

Warrick cruzou os braços, pensativo.

— E complica ainda mais pro Grissom.

Nick soltou um suspiro.

— Isso não tá mais só no campo pessoal… virou caso.

Os dois se entreolharam.

E sabiam exatamente o que aquilo significava.

Agora… não tinha mais volta.

Sara estava no avião, olhando pela janela as luzes de Las Vegas ficarem para trás. Ela sentia o peso do novo filho em seu ventre e a dor de ter deixado Augusto com a avó em uma casa que não era mais dela.

Ela pegou o celular e viu a mensagem de Daniel Thorne. Havia uma mensagem de Daniel Thorne: "Soube que você está voltando. O seu lugar no curso está garantido, e eu reservei um jantar tranquilo para comemorarmos sua permanência em D.C. por mais uns dias. Você precisa de paz, Sara."

A tensão no laboratório atingiu um novo patamar. Em um canto reservado da sala de descanso, longe dos ouvidos curiosos e das câmeras do corredor, o grupo se reuniu com expressões sombrias. O Capitão Brass, com os braços cruzados e o semblante fechado, ouvia atentamente o relato dos rapazes.

Nick tomou a frente, abaixando o tom de voz enquanto Warrick vigiava a porta.

— Brass, a conversa com o pessoal do Sanchez foi clara — Nick começou, gesticulando com as mãos. — Eles não estão para brincadeira. Segundo os informantes deles, o Anthony não saiu da cidade como a gente pensava. Ele está sendo protegido.

— E a proteção tem um endereço bem sofisticado — completou Warrick, olhando diretamente para Catherine. — O rastro termina na propriedade da Heather. Os homens do Sanchez viram o carro dele entrando pelos portões laterais durante a madrugada. Ele está lá, Brass. Escondido sob a "asa" dela.

Catherine sentiu um calafrio. Ela acabara de sair da sala de Grissom e a confirmação de que Anthony e Heather estavam fisicamente no mesmo lugar era a peça que faltava para provar a conspiração.

Brass tirou os óculos e esfregou a ponte do nariz, suspirando. — Se o Anthony está na casa da Heather, ele está em solo sagrado. Vocês sabem como é difícil conseguir um mandado para aquela propriedade sem provas materiais de um crime em andamento. Ela tem os melhores advogados da cidade e conhece metade dos juízes.

— Mas capitão, o Anthony é um fugitivo em potencial e está manipulando evidências federais! — Nick insistiu. — Se ele está lá, ele está usando a infraestrutura dela para continuar atormentando a Sara e o Grissom.

CW: Precisamos de provas disso.

Todos concordaram em uma coisa: Grissom não poderia saber desse movimento ainda. No estado emocional em que estava, ele poderia confrontar Heather de forma imprudente e colocar toda a investigação a perder.

CW: Mas vai precisar ser impedido de supervisor este caso. Vou falar com Ecklei.

A noite já tinha caído quando Heather chegou ao Cassino de Sanches. Luzes douradas, música baixa e um luxo calculado — tudo pensado para impressionar… e intimidar.

Ela atravessou o salão com elegância, postura impecável, como se nada a abalasse. A “máscara” estava perfeita.

Foi conduzida até uma área reservada, onde Sanches já a aguardava, sentado, observando cada movimento dela com atenção quase predatória.

— Heather… — disse ele, com um meio sorriso. — Que bom que veio.

— Convites seus são difíceis de recusar — respondeu ela, sentando-se com naturalidade.

Nem cinco segundos de conversa trivial.

Sanches não era homem de rodeios.

Ele se inclinou levemente à frente, apoiando os braços na mesa.

— Você está dando abrigo ao Anthony Hentz?

Direto. Frio.

Heather sustentou o olhar sem hesitar, mas por dentro cada detalhe daquela pergunta acendia um alerta.

— Não — respondeu, firme. — Não estou.

O silêncio entre os dois foi pesado, carregado de avaliação.

Sanches não piscou.

— Tem certeza?

Heather cruzou as pernas com calma, como se estivesse completamente à vontade.

— Tive contato com ele, sim — admitiu. — Mas por outro motivo.

Ele arqueou levemente a sobrancelha.

— Que motivo?

— Durante alguns dias, eu fiquei com a guarda do Augusto. Filho dele.

Sanches recostou-se na cadeira, absorvendo a informação. O nome não parecia novo para ele.

— Então você se envolveu… com a família dele.

— Circunstancialmente — corrigiu ela, rápida. — Nada além disso.

Ele tamborilou os dedos na mesa, pensativo.

— Engraçado… — murmurou. — Porque estão dizendo coisas diferentes.

Heather inclinou a cabeça, mantendo a calma.

— Pessoas dizem muitas coisas quando estão com medo.

Os olhos dele se estreitaram, analisando cada palavra, cada microexpressão.

— E você está com medo, Heather?

Por um segundo… quase imperceptível… houve uma pausa.

Mas ela sorriu.

— Deveria estar?

O clima esfriou ainda mais.

Sanches deixou escapar um leve riso, sem humor.

— Depende do que você está escondendo.

Heather não recuou.

— Eu já respondi sua pergunta.

Por fim, Sanches fez um gesto discreto, chamando o garçom, como se nada tivesse acontecido.

— Vamos jantar — disse, como se a conversa anterior fosse apenas um detalhe. — Ainda temos a noite inteira.

Heather assentiu, mas por dentro sabia:

Aquilo não tinha terminado.

Grissom estava sozinho com o relatório e os próprios pensamentos, que ultimamente eram companhia péssima, quando a porta abriu.

Conrad Ecklie entrou sem bater, o que por si só já era incomum o suficiente para Grissom levantar os olhos.

CE: Soube que você e Sara se separaram.

GG: (voltou os olhos para o relatório) Sim. Não demos certo juntos. Mas não se preocupe, nada mudou no trabalho.

CE: Não vim falar com você por causa do trabalho.

Grissom levantou os olhos de novo. Dessa vez ficaram lá.

GG: Não?

CE: Não.

Ecklie puxou a cadeira e sentou com aquela postura formal dele que às vezes parecia colada no corpo. Mas havia algo diferente na expressão. Menos diretor, mais homem.

CE: Você sabe que eu nunca fui seu amigo, Grissom.

GG: Estou ciente.

CE: Mas ao conhecer o Augusto... (pausa, escolheu as palavras com cuidado) aquele menino me mostrou algo. Como é importante dar valor à família. (olhou para as próprias mãos por um segundo) Me reconciliei com minha filha por causa disso.

Grissom ficou quieto. Não sabia dessa reconciliação.

CE: Não sou o maior fã de Sidle. Nunca fui. Mas posso te dizer com convicção que acredito que a criança crescendo naquele ventre é sua.

GG: (fechou o relatório devagar) Ecklie, acredito que você já ouviu sobre o meu exame.

CE: Ouvi. (direto) Já pensou que seu exame pode ter sido adulterado?

GG: (franziu a testa) Não pensei porque acho improvável. Pra que alterar meu exame? Quem ganharia com isso?

CE: Quem sabia que você faria o exame?

Grissom abriu a boca. Fechou.

Ficou em silêncio processando.

GG: Somente a...

CE: (assentiu devagar) Viu. Temos uma pessoa.

O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros. Era o silêncio de uma peça encaixando no lugar errado e certo ao mesmo tempo.

Ecklie se levantou, ajeitou o paletó.

CE: Queria te informar que a supervisão do caso dos cassinos está passando para Catherine. Você está fora por estar envolvido com uma das suspeitas.

Você está fora por estar envolvido com uma das suspeitas.

GG: (se levantou imediatamente) Ecklie, você não pode me tirar do caso assim.

CE: Não só posso como já tirei. (pausou na frente da mesa) Pense na sua família, Grissom. E no que pode perder com essas decisões.

Olhou para ele com uma expressão que não era de autoridade. Era quase pessoal.

CE: Uma das coisas que mais lamentei na vida foi não ter acompanhado a gravidez da minha ex mulher como deveria. (pausa) Não perca isso.

GG: (mais baixo) Ecklie...

CE: (continuou como se não tivesse ouvido) Sabe, sempre vi Sara Sidle como uma mulher fechada. Explosiva. Difícil. (olhou para o lado por um momento) Mas ao ver o jeito dela com Augusto... ao prestar atenção no modo como ela te olha quando você não está vendo... vi uma mulher amorosa. Acolhedora. Amiga.

Grissom não disse nada.

CE: Acho que você está fazendo uma troca muito errada. E sendo profundamente injusto com ela que apesar de tudo que você já fez, ainda não matou o amor que sente por você. (parou na porta) Pense nisso.

Saiu.

A porta fechou com um clique suave e definitivo.

Grissom ficou parado no meio da sala por um longo tempo.

Todos do lado dela.

Brass. Catherine. Ecklie. Sua própria mãe.

Pessoas que não concordavam com suas decisões, alinhadas na mesma direção apontando para o mesmo lugar.

E ele. Do outro lado.

Sozinho com um exame de papel e uma dúvida que estava ficando cada vez menos dúvida e cada vez mais certeza de que havia errado de um jeito monumental.

Foi até a janela. Las Vegas lá embaixo pulsava como sempre, alheia a tudo.

O silêncio que se instalou na sala após a saída de Ecklie era quase ensurdecedor. Grissom sentia o peso de cada palavra proferida pelo diretor, um homem que ele raramente respeitava por suas visões políticas, mas que agora parecia ter uma clareza humana que o próprio Gilbert Grissom, com todo o seu intelecto, havia perdido.

Ele olhou para a mesa, agora limpa dos arquivos do caso dos cassinos. Estar fora do caso era um golpe em seu ego profissional, mas o aviso de Ecklie sobre "perder a gravidez" foi um golpe em sua alma. Ele se lembrou da primeira vez que Sara mencionou estar grávida; o brilho nos olhos dela que ele, sistematicamente, apagou com sua frieza.

Pela primeira vez, o supervisor sentiu o que Augusto tentara explicar: a dor da rejeição. Ele não estava apenas atacando Sara; ele estava destruindo a única fundação sólida que já teve na vida por causa de uma prova que ele, agora, suspeitava ser plantada.

Washington parecia conspirar a favor de Daniel Thorne. O clima da capital, com seus monumentos imponentes e parques tranquilos, era o cenário perfeito para o plano de "reabilitação emocional" que ele havia traçado para Sara.

Daniel, sendo o mestre da estratégia que era, sabia que não deveria pressioná-la. Em vez disso, ele usava as horas vagas após o curso para oferecer exatamente o que Grissom havia tirado dela: presença e leveza.

Sabendo dos enjoos de Sara, ele não a levava a restaurantes fechados. Em vez disso, organizava piqueniques sofisticados ao ar livre, perto do Lincoln Memorial, onde o ar era fresco. Ele aparecia com cestas cheias de frutas cítricas, biscoitos integrais e chás gelados, tudo o que ajudava a acalmar o estômago dela.

Daniel a levava para caminhar por Georgetown ao entardecer. Ele falava sobre os tempos de Harvard, contava histórias engraçadas de professores que ambos detestavam e, por alguns instantes, fazia Sara esquecer que era uma perita criminal em meio a um divórcio turbulento em Las Vegas.

Em uma dessas tardes, sentados em um banco de frente para o Reflecting Pool, Daniel observou Sara sorrir enquanto olhava uma foto de Augusto que Beth havia enviado.

— Você tem uma luz diferente quando fala dele, Sara — Daniel comentou suavemente. — É uma pena que nem todo mundo consiga enxergar a clareza do que está na frente dos olhos.

Sara suspirou, guardando o celular. — Às vezes as pessoas ficam tão presas aos detalhes microscópicos que perdem a visão do conjunto, Daniel.

— Bem, eu sempre fui melhor com a visão panorâmica — ele respondeu, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse o perfume dele, uma fragrância de sândalo e confiança. — E o que eu vejo aqui é uma mulher extraordinária que merece ser celebrada, não questionada.

Do outro lado do país, Grissom tenta ligar para Sara, mas cai na caixa postal. Ele imagina o pior: ela e Daniel, o "grilo de Harvard", criando uma conexão que ele talvez nunca mais consiga quebrar.

O silêncio do quarto de hotel em Washington foi quebrado pelo toque insistente do celular. Sara, que acabara de entrar, tirando os sapatos e sentindo o alívio de estar longe dos enjoos por algumas horas, viu o nome de Grissom na tela.

Dessa vez, ela não hesitou. Atendeu com um "Alô" calmo, mas o que veio do outro lado não foi a calma científica de sempre.

— Ele levou você para jantar, não foi? — A voz de Grissom veio sem preliminares. — Eu liguei três vezes, Sara. Três vezes. O cálculo de probabilidade para você não atender em uma zona de cobertura perfeita indica que você estava... distraída. Ou em um porão de concreto, o que eu duvido muito.

Sara arqueou as sobrancelhas, sentando-se na beira da cama. — Gil? Você está cronometrando meu tempo de resposta agora?

— Eu não estou cronometrando, estou analisando o contexto! — Grissom disparou, e Sara podia quase ouvi-lo andando em círculos no escritório de Vegas. — Catherine me disse que o tal Daniel Thorne tem um "charme clássico". O que isso significa, Sara? Que ele usa gravatas borboleta que combinam com o intelecto? E aquele queixo? Vi fotos dele. Aquele ângulo mandibular é excessivamente simétrico. É biologicamente suspeito! Ninguém é tão simétrico sem um esforço consciente ou uma genética ofensiva!

Sara tentou segurar, mas a imagem de Grissom, o homem que decifra crimes brutais com a frieza de um iceberg, perdendo o controle por causa da "simetria mandibular" de outro homem foi demais. Ela soltou uma gargalhada alta, límpida, que ecoou pelo quarto.

— Você... você está com ciúmes do queixo do Daniel? — Ela perguntou entre risos, as lágrimas de diversão começando a brotar.

Do outro lado, Grissom parou de andar. O som da risada dela o atingiu como um choque elétrico. Fazia semanas que ele não ouvia aquele som. Era o som da "sua" Sara, não da mulher ferida que saíra de casa.

— Não é engraçado, Sara. É uma questão de... território — ele resmungou, embora o tom tivesse perdido um pouco da agressividade e ganhado uma nota de vulnerabilidade quase infantil. — Ele é um "grilo" de Harvard, Sara. Grilos fazem barulho, exibem as asas, tentam impressionar com sons repetitivos. Eu sou um... eu sou...

— Você é um urso pardo com doutorado, Gil — ela completou, ainda rindo baixinho, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo. — E para sua informação, o jantar foi ótimo. O Daniel é muito gentil. Ele tem uma conversa leve.

— Gentil? Gentileza é o disfarce dos predadores sociais! — Grissom rebateu, agora mais animado por ter a atenção dela. — E o que ele sabe sobre a estrutura social das abelhas? Nada! Eu aposto que ele não diferencia uma Apis mellifera de uma jaqueta amarela!

— Gil, pare! — Sara riu de novo, deitando-se na cama. — Você é impossível.

— Eu só quero que você saiba que... simetria não é tudo. E que Washington é uma cidade úmida, faz mal para o cabelo — ele soltou a última cartada, tentando ser racional dentro do seu caos de ciúmes.

A risada de Sara foi diminuindo, tornando-se um sorriso suave. A mágoa ainda estava lá, guardada no fundo, mas aquele momento de absurdo, de ouvir o grande Gilbert Grissom se comportando como um adolescente inseguro, criou uma ponte que parecia impossível horas atrás.

SS: Ok Grissom... olha vou desligar... depois conversamos melhor.

— Sara, não desligue ainda — Grissom insistiu, a voz agora descendo para um tom mais baixo e rouco, aquele que ele costumava usar quando estavam a sós tarde da noite. — Você disse que ele é gentil e fala sobre "coisas normais". Mas ele sabe do que você gosta às três da manhã quando perde o sono?

Sara sentiu um calafrio familiar, mas tentou manter a pose. — Gil, não comece...

— Ele sabe que você só consegue relaxar quando alguém traça círculos na base da sua nuca porque é lá que você guarda toda a tensão do dia? — Grissom continuou, ignorando a interrupção. — Duvido que esse "grilo de terno" tenha a paciência de um entomologista para observar cada detalhe seu, Sara. Ele provavelmente te oferece um café caro e acha que decifrou você. Mas ele sabe que você prefere o silêncio compartilhado ao barulho de uma conversa vazia? Ele sabe o ponto exato entre a sua omoplata que te faz perder o fôlego?

Sara mordeu o lábio inferior, o sorriso de antes dando lugar a uma respiração mais profunda. O ciúme de Grissom estava migrando da comédia para algo muito mais perigoso: a lembrança da intimidade absoluta que só eles compartilhavam.

— Você é muito convencido, sabia? — ela sussurrou, fechando os olhos.

— Eu sou um observador de campo, Sara. E eu observei você por anos. Eu conheço as reações do seu corpo melhor do que conheço o ciclo de vida de uma Calliphoridae. Aquele agente pode ter o queixo perfeito, mas ele nunca vai saber ler você nas entrelinhas como eu leio.

— Gil... eu estou exausta — Sara interrompeu, sentindo que se continuasse ouvindo aquela voz, sua resolução de morar no flat começaria a derreter. — O dia foi longo, e a gravidez não está facilitando. Eu preciso dormir.

Grissom parou na porta do laboratório, vendo Nick e Greg acenarem para ele. Ele suspirou, sentindo uma urgência de atravessar o país e tirá-la daquele hotel.

— Tudo bem. Descanse. Eu vou entrar no turno agora, mas vou te ligar pela manhã. Quero saber se você sonhou com grilos ou com ursos.

— Boa noite, Gil — ela disse, com um tom que beirava o carinho.

Ao desligar, Grissom olhou para o telefone. Ele sabia que tinha feito papel de bobo, mas o som daquela risada valia qualquer perda de dignidade. Em Washington, Sara dormiu com um sorriso no rosto, pensando que, talvez, o "urso pardo" ainda tivesse salvação.

Anthony estava incomodado pela lentidão do plano de Heather e não queria esperar mais. Resolveu ir atrás de Ted, mas ao sair acabou por ser descuidado. Um dos homens de Sanches o viu.

O homem de Sanchez tinha sido descuidado também. Ficou parado demais sob o mesmo poste, o celular colado no ouvido, os olhos fixos demais em Anthony quando deveria ter fingido que estava passando.

Erro amador.

Anthony percebeu antes mesmo de ouvir o primeiro toque da ligação. Vinte anos nas bordas do crime ensinavam a reconhecer esse olhar.

Não pensou duas vezes.

O silenciador abafou o som o suficiente. O homem escorregou pela parede e foi ao chão com a naturalidade perturbadora de quem simplesmente parou de funcionar.

Anthony guardou a arma com a calma de quem fechou uma janela.

Faróis apareceram na esquina.

Ted parou o carro, desceu, viu o corpo no chão e ficou completamente imóvel por três segundos.

Ted: (voz estrangulada) Você o matou?? Ficou maluco??

AH: (já olhando para os dois lados da rua) Abaixa a voz. (direto, sem emoção) Ele estava ligando pra Sanchez. Se completasse a ligação estaríamos mortos antes do amanhecer.

Ted: Isso é um homicídio, Anthony. Isso é...

AH: (virou para ele com uma expressão que cortou o argumento no meio) Isso é um problema que precisa sumir nos próximos dez minutos. (olhou para o carro de Ted) Abre o porta malas. Anda.

Ted: (não se moveu) Eu não me meti nisso pra...

AH: (se aproximou, voz baixíssima) Você se meteu nisso pelo dinheiro do seguro. (pausa) O dinheiro não mudou. O plano não mudou. O que mudou é que agora temos um contratempo. (olhou para o corpo) Então ou você abre o porta malas ou eu te deixo aqui pra explicar isso pra polícia sozinho.

Ted ficou olhando para ele por um momento.

Abriu o porta malas.

Não havia lua suficiente para atrapalhar e não havia ninguém por quilômetros. Anthony conhecia esse trecho do deserto fora de Vegas melhor do que devia.

Desovaram o corpo com eficiência fria e sem palavras.

Na volta Ted dirigiu em silêncio absoluto por uns vinte minutos antes de falar.

Ted: Sanchez vai perceber que o homem sumiu.

AH: Sanchez perde um homem por semana. (olhou pela janela) Vai levar tempo.

Ted: E se não levar?

AH: (virou para ele) Então precisamos fechar esse negócio antes que ele comece a fazer perguntas. (bateu levemente no painel) O divórcio de Grissom precisa andar. A guarda precisa sair.

Ted: Você disse que ia pressionar Heather.

AH: Vou. Amanhã cedo. (pausa) Essa mulher está devaneando achando que vai casar com o entomologista. Precisa entender que o papel dela aqui foi destruir um casamento e nada mais.

Ted: E se ela não cooperar?

Anthony olhou para o deserto escuro passando pela janela.

Não respondeu.

Não precisava.

Ted entendeu e não perguntou mais nada.