— Escritório do Juiz Phillips —

O escritório tinha aquela austeridade específica, estantes de processo, mesa larga, uma iluminação que não era fria mas tampouco convidativa. O tipo de ambiente que lembra a todos os presentes que o que acontece ali tem peso.

Sara havia entrado com Jack com a postura de quem se preparou não para impressionar, mas para ser levada a sério. Que era, no fundo, a mesma coisa.

O juiz Phillips era um homem de meia idade com o jeito direto de quem já ouviu histórias suficientes para não precisar de rodeios e havia ouvido Sara com atenção que ela reconheceu como genuína.

O que havia dito não era o que ela queria ouvir completamente, mas era honesto.

— Sendo solteira, morando sozinha, com turno noturno... — ele havia pesado cada palavra — ...vai ser difícil. Não impossível. — Uma pausa. — Mas se algum casal aparecer disputando a guarda, a situação complica consideravelmente. O sistema tende a favorecer estrutura familiar constituída. É uma realidade que a senhorita precisa saber.

Sara havia ouvido sem desviar o olhar.

— Entendo. — A voz havia saído firme. — O que precisamos fazer primeiro?

E ali havia começado o que havia começado. A retirada da tutela de Anthony como primeiro passo, o processo subsequente, os documentos, os prazos, a lista de coisas que precisavam acontecer numa ordem específica antes que qualquer outra conversa fosse possível.

Do lado de fora do escritório, a tarde de Las Vegas estava naquela temperatura que sugeria que o dia havia decidido ser razoável por uma vez.

Sara e Jack desceram as escadas do tribunal lado a lado com o ritmo de quem acabou de sair de uma conversa importante e ainda está processando.

— Jack. — Ela parou na calçada e se virou para ele. — Muito obrigada pela ajuda. Sério. Não sei como agradecer.

— Me pagando uma pizza um dia. — A resposta saiu com um sorriso que tinha genuinidade suficiente para não ser só figura de linguagem. — Fico feliz em ajudar, Sara. — Ele pausou, e havia algo no tom que era mais do que colega sendo educado. — O mais legal do meu trabalho é quando consigo um lar para essas crianças. Quando vejo que vai dar certo.

Sara o olhou por um segundo.

— Vai dar certo?

Jack a olhou de volta com aquele olhar de quem avalia processos há tempo suficiente para ter intuição sobre eles.

— Você veio até aqui com os argumentos certos, as perguntas certas e o olhar de quem não vai desistir. — Ele encolheu os ombros levemente. — Na minha experiência, isso conta muito. — Uma pausa. — Não prometo nada que não depende só de mim. Mas vou fazer minha parte.

— Obrigada. — A palavra saiu menor do que as anteriores — do tipo que carrega mais.

— Então. — Jack pegou a pasta debaixo do braço e gesticulou em direção ao estacionamento. — Pizza. Quando quiser combinar, é só ligar.

— Vou ligar sim. — Sara acompanhou o passo dele por um trecho. — Assim que tiver novidades do processo.

Ele acenou e foi em direção ao carro.

Sara ficou parada na calçada por um momento.

Pegou o celular.

Tinha uma mensagem de Grissom enviada há quarenta minutos, curta como sempre:

Augusto e Hank estão bem. Como foi?

Ela ficou olhando para a mensagem por um segundo.

Digitou: Difícil, mas não impossível. Já conto.

Guardou o celular.

A volta do parque havia sido diferente da ida.

Na ida, Augusto havia falado o tempo todo sobre Hank, sobre o sorvete que queria.

Na volta, silêncio.

Hank andava ao lado do menino com aquela atenção de cachorro que percebe quando algo mudou, colado, sem puxar a coleira, sem a energia dispersiva de antes.

Grissom havia notado no banco do parque. Havia notado no caminho. Havia notado quando Augusto entrou no apartamento, largou a mochila no canto e foi sentar no sofá com o caderno de anotações no colo sem abrir.

Só o segurando.

Grissom foi até a cozinha, fez dois copos de suco, voltou e pousou um na mesa de centro na frente do menino.

Sentou na poltrona ao lado.

Ficou um tempo sem falar do jeito que havia aprendido que funcionava melhor com Augusto.

Depois de alguns minutos:

— Quer me contar o que está acontecendo aí dentro?

Augusto olhou para o caderno.

— Não é nada, tio.

— Tá. — Grissom tomou um gole de suco com a calma de quem tem tempo. — Só que você foi pro parque falando sem parar e voltou sem dizer uma palavra. — Ele pousou o copo. — Não precisa falar se não quiser. Mas não é nada a gente sabe que não é verdade, né?

O menino ficou em silêncio por um momento.

Passou o dedo pela capa do caderno sem abrir.

— Tio Gil.

— Hm?

— Você gosta da tia Sara?

Grissom ficou quieto por um segundo.

— Gosto. — A resposta saiu direta, sem hesitação.

— Muito?

— Muito.

Augusto assentiu devagar como se estivesse arquivando a confirmação de algo que já sabia mas precisava ouvir.

— Então tá bom. — Ele disse, baixinho.

— Augusto. — Grissom inclinou levemente o tronco para frente, os cotovelos nos joelhos, chegando mais perto da altura do menino. — Olha pra mim.

O menino ergueu os olhos do caderno.

— Pode falar comigo. Qualquer coisa. Tá?

Augusto o olhou por um momento: — Tô bem, tio.

— Tá bom. — Grissom não forçou. — Mas se quiser conversar, pode ser comigo, pode ser com a Sara. Não precisa guardar sozinho, combinado?

Augusto assentiu.

Heather Kessler conhecia o poder de uma entrada bem calculada.

Não era sobre roupa ou postura, embora ambas estivessem sempre no lugar certo. Era sobre timing. Sobre chegar no momento em que a porta ainda estava aberta e antes que alguém mais ocupasse o espaço.

A secretária do juiz Phillips havia anunciado sua chegada com a deferência de quem reconhece um nome e a porta havia se aberto em menos de dois minutos.

— Heather. — O juiz Phillips se levantou com o sorriso de encontro genuinamente agradável. — Que prazer em te ver.

— O prazer é todo meu, Richard. — Ela entrou com aquela desenvoltura de quem tem uma intimidade com a pessoa ali presente. — Vim falar sobre uma questão que me é muito cara.

— Em que posso te ajudar? — Ele se sentou, entrelaçando os dedos sobre a mesa com aquela atenção de quem está disposto a ouvir.

— Gilbert Grissom é meu namorado. — A voz saiu com a solidez de quem diz algo estabelecido há tempo. — Temos um relacionamento sério. Mas vim até você porque quero que você tenha o quadro completo.

— Que quadro seria esse, Heather?

Ela encontrou o olhar do juiz com a serenidade de quem chegou preparada para essa pergunta específica.

— O quadro de que Augusto não precisa crescer num lar de mãe solteira com turno noturno e uma rotina instável. — A voz continuou calma, sem crueldade aparente — apenas apresentando variáveis. — Ele precisa de estrutura. De família. De dois adultos presentes que possam oferecer estabilidade real. — Uma pausa. — Gil e eu podemos oferecer isso. Juntos.

Phillips ficou em silêncio por um momento.

— Você está me dizendo que pretende entrar com pedido de guarda conjunto com Grissom.

— Estou dizendo que estamos considerando essa possibilidade. — Ela não fechou completamente, não abriu completamente — deixou no espaço exato onde ficaria mais útil. — E vim até você antes de qualquer formalidade porque nos conhecemos há tempo suficiente para que eu possa ser honesta.

O que era, por si só, uma construção interessante — apresentar uma jogada calculada como gesto de honestidade.

— O que você quer de mim, Heather? — Phillips foi direto, como costumava ser quando havia ouvido o suficiente.

— Que você tenha mente aberta quando o momento chegar. — Ela pousou as mãos na mesa com aquela compostura de sempre. — Que avalie todos os pedidos com a mesma atenção. — Uma pausa suave. — Inclusive o nosso.

Era suficiente.

Heather se levantou com o sorriso de quem plantou o que veio plantar.

— Obrigada, Richard. Como sempre, um prazer.

O carro estava no estacionamento onde havia deixado.

Heather entrou, fechou a porta, ficou parada com as mãos no volante por um momento.

Não ligou o motor imediatamente.

Havia algo que precisava ser revisado, não o plano em si, que estava funcionando dentro dos parâmetros calculados. Era a arquitetura por baixo do plano. A parte que ela não havia verbalizado para ninguém, nem para si mesma em voz alta, porque algumas coisas funcionam melhor quando ficam apenas em pensamento.

A questão da guarda de Augusto.

Havia apresentado ao juiz Phillips a possibilidade de um pedido conjunto, ela e Grissom. Uma família constituída, estrutura sólida, dois adultos presentes. Tudo verdadeiro na aparência. Nada verdadeiro na intenção.

Porque Heather sabia com a clareza de quem havia passado anos lendo pessoas que se Grissom soubesse que havia entrado com pedido de guarda de Augusto junto com ela, sem que ele houvesse pedido, sem que houvesse conversado, sem que houvesse concordado a reação não seria de surpresa agradável.

Seria o fim.

Da amizade. Da ajuda. Do depoimento. De tudo.

Então o pedido conjunto não era o objetivo final.

Era a ferramenta.

O que Heather precisava era simples na estrutura e complexo na execução: precisava de Grissom livre.

Livre de Sara.

Porque enquanto Sara Sidle existisse como possibilidade real na vida dele não como colega, não como subordinada, mas como aquela pessoa que ele havia chamado de querida com aquela voz que Heather havia ouvido e arquivado e não conseguia completamente ignorar, o plano tinha uma variável que não controlava.

E Heather Kessler não trabalhava bem com variáveis que não controlava.

O pedido de guarda conjunto era a fissura.

Quando chegasse ao conhecimento de Sara e chegaria, porque essas coisas sempre chegavam, a interpretação seria inevitável. Grissom havia entrado com pedido de guarda de Augusto com Heather. Havia planejado com ela. Havia tomado uma decisão sobre o futuro do menino que Sara estava lutando para adotar sem sequer mencionar para ela.

Traição.

Não seria verdade. Mas pareceria.

E na experiência de Heather, parecer era frequentemente mais poderoso do que ser.

Sara se afastaria.

E Grissom confuso, sem entender completamente o que havia acontecido, sem saber que havia sido usado como peça ficaria num espaço vazio que Heather conhecia bem como preencher.

O plano era limpo.

O problema e havia um problema, Heather era honesta suficiente consigo mesma para reconhecer isso era Augusto.

Eu não vou morar com você. Vou morar com a tia Sara.

Dito com a certeza de quem não está negociando.

Heather ligou o motor.

Havia uma coisa que havia aprendido em anos navegando situações que a maioria das pessoas evitaria, os planos mais vulneráveis não eram os que enfrentavam oposição de adultos.

Eram os que subestimavam crianças.

E ela havia subestimado Augusto.

Sara havia chegado antes do necessário.

Não havia planejado, havia simplesmente percebido que estava pronta mais cedo do que precisava e que ficar no apartamento olhando para o relógio não estava sendo produtivo para ninguém.

O corredor do laboratório tinha aquela iluminação constante que não distinguia manhã de noite, início de turno de fim de turno. Mas havia uma energia diferente nas primeiras horas, mais quieta, mais fresca, antes que os casos do dia tomassem conta de tudo.

Catherine estava na sala de descanso com o café na mão e aquela expressão de quem havia chegado cedo por razão similar.

— Chegou cedo também, Sara?

— Estou com saudades do Augusto. E quero contar a novidade pra ele logo.

— Que novidade? — Nick apareceu na porta da sala com o casaco ainda na mão, os olhos acendendo com o interesse específico de quem chegou na hora certa.

— Cheguei na hora da novidade. — Ele anunciou, se instalando com a desenvoltura de quem foi convidado.

— Nós também!! — Warrick e Greg chegaram praticamente juntos pelo corredor, com aquela sincronia não combinada que só acontece quando duas pessoas têm o mesmo hábito de chegar no momento em que algo interessante está acontecendo.

Sara os olhou de um para o outro com a expressão de quem está acostumada com a equipe, mas às vezes ainda se surpreende.

— Eu ainda nem falei nada.

— Por isso chegamos agora. — Greg foi para a cadeira com a lógica impecável de quem não vê problema nenhum no raciocínio.

Antes que Sara pudesse responder, ouviu-se o som familiar de passos no corredor.

A porta da sala se abriu.

Grissom entrou primeiro.

Augusto entrou atrás e o segundo em que seus olhos encontraram Sara foi suficiente para que toda a contenção fosse descartada como política desnecessária.

— TIAAA!!

Ele atravessou a sala e pulou com a confiança absoluta de criança que sabe que vai ser pego, direto para o colo de Sara, que o recebeu com os braços já abertos antes mesmo de processar completamente o que estava acontecendo.

— Ei!! — Ela riu, fechando os braços ao redor dele. — Que susto bom.

— Estava com saudades!!

— Eu também estava com muita saudade, lindão.

Grissom ficou parado perto da porta com aquela expressão de quem observa uma cena e não tem pressa de ser incluído nela.

— Você estava todo triste mais cedo. — Ele disse, para Augusto, com o tom casual de quem está comentando o tempo. — Agora entendo o motivo.

Augusto, com o rosto enterrado no ombro de Sara, ficou por um segundo.

O motivo real, Heather, o parque, o segredo que pesava desde ontem ficou guardado onde estava.

Ver Sara feliz era mais importante do que qualquer outra coisa naquele momento.

— Eu estava com muita, muita saudade. — Ele disse, com a convicção de quem está dizendo a parte verdadeira de uma resposta maior.

Sara o apertou um pouco mais.

— Então. — Ela se afastou levemente para conseguir olhar para o rosto dele com aquele brilho que ele reconheceu como novidade boa. — Tenho uma coisa importante pra te contar.

Augusto endireitou a espinha no próprio colo dela.

— Já falei com o juiz hoje. — Sara foi direta, com aquela objetividade cuidadosa de quem não quer criar expectativa maior do que o momento permite mas também não quer diminuir o que é real. — E ele disse que tenho chances. Boas chances.

O silêncio durou exatamente o tempo que Augusto precisou para processar.

— YES!!!! — A palavra explodiu com um volume que o laboratório claramente não havia sido projetado para receber, os braços foram para cima e ele escorregou do colo de Sara com a agilidade de quem tem energia urgente para gastar. — VOU LÁ NO TIO ECKLEI!!

A sala ficou em silêncio por um segundo.

— Ele gosta mesmo do careca. — Greg disse, com a admiração genuína de quem está vendo algo que não entende completamente, mas respeita.

— Impressionada ainda. — Catherine balançou a cabeça, o sorriso no rosto. — O detalhe é que o Conrad adora ele de volta. — Ela virou para Sara com aquele olhar de amiga que estava torcendo desde o começo. — Sara. — A voz ficou mais suave, mais direta. — Fico muito feliz que está dando certo. Logo, logo o Guto vai ser seu filho oficialmente.

— Ainda tem um caminho. — Sara foi honesta, mas havia algo no rosto dela que era diferente do início da semana — uma leveza que não estava fingindo.

— Tem. — Catherine concordou. — Mas você começou a andar.

Nick ergueu o café numa espécie de brinde informal.

Do corredor chegou a voz inconfundível de Conrad Ecklie:

— Augusto, quantas vezes eu disse pra não correr no corredor?

— O senhor nunca disse isso pra mim especificamente, tio Ecklei!!

— Eu— — Uma pausa. — Isso é verdade.

A sala inteira riu ao mesmo tempo.

Grissom ficou onde estava.

Encostado na soleira da porta, braços cruzados, observando.

Era o que ele fazia bem, observar. Catalogar. Ler o que estava acontecendo numa sala antes que a maioria das pessoas percebesse que havia algo para ler.

E o que havia naquela sala era simples e genuíno o suficiente para não precisar de análise forense.

Sara no centro com aquele sorriso que ela não distribuía para qualquer ocasião, o tipo que chegava quando algo real havia acontecido e o corpo simplesmente não conseguia conter. Catherine ao lado dela com a energia de amiga que estava torcendo antes mesmo de saber que havia algo pelo qual torcer. Nick e Warrick com aquela solidez tranquila de pessoas que aparecem quando importa. Greg já em movimento mental para alguma forma de contribuir que ninguém havia pedido, mas que chegaria de qualquer forma.

E do corredor, a voz de Augusto negociando com Conrad Ecklie os limites da proibição de correr, usando a brecha dada pelo diretor de mima-lo.

Grissom ficou olhando para Sara.

Para o sorriso dela.

Para a forma como havia recebido Augusto com os braços já abertos antes de processar completamente como se o corpo houvesse aprendido, em poucas semanas, que aquele menino era dela de uma forma que não precisava de sentença judicial para ser real.

Havia algo no peito de Grissom que era quente e pesado ao mesmo tempo.

Quente porque era aquilo, exatamente aquilo, que havia estado esperando acontecer com ela. Ver Sara Sidle feliz de verdade, com aquela leveza que ela carregava tão raramente e que ficava tão bem nela.

Pesado porque havia, enterrada sob a superfície daquele momento bom, uma informação que ele não tinha ainda.

Não sabia o que Heather havia apresentado ao juiz Phillips naquela tarde.

Não sabia que o sorriso que estava olhando agora , aquele, o genuíno, o que custava caro e aparecia pouco tinha um prazo de validade que estava sendo determinado, naquele exato momento, por uma série de decisões que ele não havia tomado, mas que carregavam o próprio nome.

Gilbert Grissom, que havia passado décadas encontrando o que estava escondido sob a superfície das coisas, estava parado na porta observando a pessoa que amava ser feliz.

Sem saber que, através de sua amiga, seria o causador da tristeza dela.

O turno transcorreu tranquilo e Augusto ficou o tempo todo na sala de Ecklei. Ao final do turno Sara foi busca-lo na sala do Diretor, mas antes disso ele apareceu.

Do corredor, Augusto voltou, sem correr, desta vez, com passos que eram a versão mais lenta que ele conseguia produzir, o que ainda era consideravelmente mais rápido do que a maioria das crianças em velocidade normal.

— Tia Sara!! O tio Ecklei disse que vai torcer por você no processo!!

Sara abriu a boca.

— Conrad Ecklie disse isso?

— Disse!! Com essas palavras!! — Augusto levantou a mão como testemunho.

— Juro que esse menino vai mudar Las Vegas. — Greg murmurou, com reverência genuína.

Grissom olhou para Augusto.

O menino estava sorrindo para Sara com aquela alegria toda.

Conrad Ecklie estava na soleira com uma expressão que Sara levou um segundo para catalogar porque não era nenhuma das expressões que havia aprendido a associar ao chefe administrativo do laboratório nos últimos anos.

Era... relaxada.

— Bom dia, Ecklie. — Sara chegou ao lado de Augusto com um sorriso cuidadoso. — Ele não te atrapalhou, né?

— Imagina. — A resposta saiu com uma naturalidade que Sara definitivamente não havia antecipado. — Adoro ele.

Sara ficou parada por um segundo.

Conrad Ecklie. Adoro ele.

Duas palavras que ela não havia esperado ouvir naquela sequência, sobre aquele sujeito, saindo daquela boca.

Ecklie notou a expressão dela e algo no rosto dele mudou levemente não constrangimento, mais próximo de uma honestidade que ele raramente deixava aparecer em corredores de laboratório.

— Sara. — A voz ficou um tom mais direta, mais séria, mas sem perder o calor inesperado que havia aparecido com Augusto. — Sei que pode não acreditar, mas admiro o trabalho de vocês. — Uma pausa. — De todos do turno noturno. O empenho, os resultados, a forma como a equipe funciona. — Ele olhou para ela com aquele olhar de quem decidiu dizer algo que estava guardado há mais tempo do que o momento sugeria. — Queria dizer que se precisar de ajuda para a adoção do Augusto, pode contar comigo.

O silêncio durou dois segundos.

Sara abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Fico... — ela começou, com aquela honestidade que não sabia fingir bem — ...feliz e surpresa ao mesmo tempo. — Ela o olhou diretamente. — Mas agradeço de verdade.

— Falei com o juiz Phillips hoje cedo. — Ecklie disse, como se fosse informação corriqueira. — O conheço há anos. Bom homem, criteriosos nas decisões. — Ele encolheu os ombros levemente. — Se precisar que eu diga uma palavra, é só falar.

Sara ficou olhando para ele por um momento.

Conrad Ecklie. Que mandava memorandos de três páginas sobre o uso incorreto da cafeteira. Que havia passado anos sendo o obstáculo administrativo padrão do turno noturno. Que tinha uma relação com Grissom que era, na melhor das hipóteses, de respeito tenso.

Oferecendo ajuda. De forma genuína.

Augusto havia feito isso em menos de quarenta e oito horas.

— Certo. — Sara recuperou a voz. — Obrigada, Ecklie. Sério.

— De nada. — Ele acenou levemente, recompondo a postura habitual de chefe administrativo como se houvesse concedido tempo suficiente para o lado humano aparecer e agora fosse hora de voltar ao padrão. — Bom descanso.

— Bom descanso Ecklei. — Sara correspondeu.

— Vamos, Augusto.

O menino se virou para Ecklie com o sorriso inteiro.

— Tchau, tio Conrad!! Até depois!!

Ecklie ficou parado por um segundo.

Tio Conrad.

Sara e Augusto foram pelo corredor — e quando dobraram a esquina Sara olhou para baixo para o menino ao seu lado com uma expressão que misturava admiração e diversão em proporções iguais.

— Augusto.

— Hm?

— Como você faz isso?

— O quê, tia?

— Conquistar todo mundo em dois minutos.

Augusto considerou a pergunta com a seriedade de cientista avaliando metodologia.

— Acho que é porque eu falo o que penso. — Ele disse, por fim. — As pessoas gostam quando fazem isso.

Sara ficou olhando para ele por um segundo.

— É. — Ela concordou, baixinho. — Acho que sim.

— Estacionamento do Laboratório —

Grissom os viu antes de chegar perto.

Sara estava agachada na altura de Augusto, ajeitando o zíper da mochila do menino com aquela atenção de quem já fazia isso no automático e Augusto estava falando, com gestos, sobre algo que claramente havia acontecido na conversa com Ecklie e que precisava ser narrado com todos os detalhes disponíveis.

Sara ria.

Grissom ficou parado por um segundo no meio do estacionamento.

Havia coisas que ele havia catalogado ao longo de décadas: comportamento de insetos, padrões de cena de crime, as formas variadas como as pessoas escondiam o que sentiam. Havia ficado bom em ler o que estava sob a superfície das coisas.

O que havia sob a superfície daquela cena era simples demais para precisar de análise.

Ele respirou fundo.

E foi.

— Sara.

Ela ergueu os olhos, ainda com o sorriso.

— Vamos aproveitar que é sábado — ele disse, com aquela casualidade que havia aprendido a usar quando na verdade havia pensado no assunto — e que o Guto não tem aula, para irmos ao Borboletário? — Uma pausa. — Podemos almoçar lá.

Augusto ficou completamente imóvel por um segundo.

Então se virou para Sara com uma velocidade que sugeria que havia entendido imediatamente que aquela era uma questão importante e que a resposta certa precisava ser incentivada.

— SIM. — Ele disse, com convicção. — Vamos, tia??

E então — com uma consciência de causa que Sara jamais admitiria ter subestimado — fez os olhos.

Os olhos grandes. Levemente úmidos. Com o queixo um pouco para baixo e as mãos juntas numa postura que era a síntese visual de por favor destilada em sua forma mais pura.

Sara olhou para ele.

Olhou para Grissom.

Voltou para Augusto.

— Fazendo olhinhos de cachorro pidão?? — A voz tentou ser firme e não chegou perto. — Certo. Vamos.

Augusto começou a pular de alegria no meio do estacionamento.

Deixaram o carro de Sara no prédio dela e partiram no carro de Grissom com Augusto no banco de trás fazendo perguntas sobre borboletas que Grissom respondia com a seriedade de entomologista, e Sara no banco do passageiro ouvindo os dois com aquela expressão de quem está num lugar que não havia planejado estar e está achando difícil se importar.

O Borboletário era exatamente o tipo de lugar que Grissom havia escolhido com precisão, não um parque de diversões, não um shopping, nada que fosse sobre barulho e velocidade. Era sobre detalhe. Sobre parar e olhar.

Augusto entrou pela primeira porta e ficou parado.

Completamente parado.

Com borboletas em cada direção possível: azuis, laranjas, transparentes, do tamanho de uma palma e do tamanho de uma unha pousando em flores, em folhas, em grades, em pessoas que ficavam quietas o suficiente para merecer a visita.

— Tio Gil. — A voz saiu em sussurro pela primeira vez no dia. — Isso é incrível.

— É. — Grissom ficou ao lado dele, igualmente parado, com aquela expressão de quem está num lugar que escolheria voltar. — Cada espécie tem um padrão de voo diferente. Se olhar com atenção, consegue distinguir.

Augusto começou a olhar com atenção imediatamente.

Sara ficou atrás dos dois por um momento olhando para o entomologista e o menino lado a lado, com o mesmo ângulo de cabeça levemente inclinada, estudando o mesmo ponto no ar.

Idênticos.

Ela sorriu para si mesma e foi junto.

A visita havia tomado a forma natural das melhores tardes sem roteiro fixo, sem pressa, cada setor revelando algo que Augusto precisava examinar com atenção científica antes de seguir para o próximo.

Houve o setor das borboletas tropicais, onde uma azul enorme pousou no ombro de Sara por tempo suficiente para Augusto conseguir tirar uma foto.

Houve o setor interativo, onde Grissom segurou uma borboleta na mão aberta e explicou para Augusto com aquela paciência infinita, e onde Sara ficou olhando para os dois com uma expressão que havia deixado de tentar administrar.

Houve o momento em que Grissom pousou a mão nas costas de Sara enquanto apontava algo para Augusto sem intenção aparente, sem cerimônia, apenas lá e ela não se afastou.

E houve o almoço num espaço aberto no meio do Borboletário, com borboletas circulando e Augusto pedindo o cardápio todo feliz.

— Você acertou em cheio na escolha do passeio. — Sara disse, enquanto Augusto havia ido examinar uma borboleta que havia pousado numa mesa próxima com o caderno já aberto. — Ele está eufórico.

— Fico feliz que gostou. — Grissom estava olhando para ela, não para Augusto. — O que mais quero é fazer você e ele felizes.

Sara abriu a boca.

— Eu amo vocês dois. — A frase saiu com aquela simplicidade que só as coisas verdadeiras têm — sem construção, sem armadura, sem o peso de tudo que havia ficado sem ser dito por tanto tempo.

Sara ficou olhando para ele.

Havia uma resposta formada ela sabia exatamente o que era, havia sabido desde a cozinha, desde o querida dito no corredor, desde um banco de parque numa praça onde uma mãozinha havia enxugado lágrimas que não eram as dela.

— Grissom, eu...

Ele a beijou.

Não foi o beijo calculado do vestiário ou o beijo provocador da cozinha.

Foi direto. Começou calmo e ficou frenético com a velocidade das coisas represadas por tempo demais, com a qualidade específica de algo que havia esperado o momento certo e chegou num sábado num Borboletário.

Sara não recuou.

Correspondeu.

Com as mãos no casaco dele e os anos todos de não pode e as regras e em Vegas não se dissolvendo num único ponto de contato que era honesto de uma forma que nenhuma conversa havia conseguido ser completamente.

Do outro lado do salão, Augusto havia parado de escrever.

Estava olhando para os dois com o caderno aberto na mão e uma expressão que era a síntese de toda a torcida desde o primeiro dia em que havia chamado Grissom de tio e Sara de tia com a convicção de quem sabia antes de qualquer um dos dois.

Ele olhou para a borboleta azul que havia pousado na mesa ao lado.

Augusto abriu um sorriso daquele jeito dele, inteiro, sem metade.

E escreveu no caderno, com a letra aplicada das ocasiões sérias:

Observação do dia: Quero tia Sara junto com tio Gil. Para sempre.

Sublinhou duas vezes.

Fechou o caderno.