NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
13 Aviso do amigo imaginário
O Borboletário continuava com seu ritmo próprio ao redor deles.
Sara foi a primeira a recuar com as mãos ainda no casaco dele, a respiração que não havia voltado completamente ao normal.
— Espera, Griss.
Ele parou.
Ficou olhando para ela com aquela atenção que não perdia detalhe.
— Eu te amo, Sara. — A voz saiu baixa, direta, apenas a frase e o que ela carregava. — Quero ficar com você. — Uma pausa. — Aceita?
Sara ficou olhando para ele.
Havia uma resposta. Ela sabia qual era, havia sabido desde antes de querer admitir. Mas havia também tudo o mais. Heather, os beijos que ela havia visto, o selinho no corredor, o apartamento, o não posso Sara dito numa lanchonete enquanto ela esperava uma resposta diferente...
Driiim.
O celular de Grissom.
Ele fechou os olhos por exatamente um segundo com a expressão de alguém chegando no limite da paciência com o universo e atendeu.
Ouviu.
O rosto mudou levemente não dramaticamente, mas o suficiente para Sara reconhecer que era algo sério.
— Entendido. — Foi tudo que disse antes de desligar.
Ficou com o celular na mão por um momento.
GG: Era meu advogado!!
— Seu advogado?
— Pedindo presença urgente no escritório. Não sei sobre o quê ainda.
— Você não vai falar com ele logo??
— Não. — A resposta saiu imediata, sem hesitação. — Só segunda-feira.
Sara ergueu uma sobrancelha.
— Grissom, se é urgente...
— Sara. — Ele a olhou com aquela expressão que havia aprendido a usar quando havia decidido algo e não estava negociando. — Quero aproveitar o dia todo com vocês. — Uma pausa. — Acredite em mim quando digo que te amo.
Ela ficou olhando para ele.
Havia verdade ali. Ela conseguia ver.
Mas havia também tudo que ainda não sabia. Tudo que estava confuso. Tudo que Heather representava e que ela não conseguia arquivar por mais que tentasse.
— Grissom. — A voz saiu mais suave do que havia planejado. — Eu... tenho minhas dúvidas. — Ela foi honesta, porque não sabia ser outra coisa. — Tudo está muito confuso ainda. Vamos levar o Augusto pra casa. E eu prometo conversar com você depois. De verdade.
Grissom ficou em silêncio por um momento.
Não com aquele silêncio de decepção ou de argumento sendo formulado.
Com o silêncio de quem ouviu, processou e aceitou porque respeitar Sara Sidle havia sido uma das poucas constantes que ele havia mantido mesmo quando havia errado em tudo o mais.
— Certo. — Ele assentiu. — Mas vou cobrar, tá?
O canto da boca dela subiu antes que ela pudesse fazer alguma coisa a respeito.
— Tá.
Naquele momento Augusto voltou com três potes de sorvete.
— Trouxe pra todo mundo!! — Anunciou, depositando os potes na mesa com o orgulho de missão cumprida. — Tia Sara, o seu é de morango porque é o seu favorito. Tio Gil, o seu é de baunilha porque você parece de baunilha.
Grissom olhou para ele.
— Pareço de baunilha?
— Clássico, confiável, combina com tudo. Minha mãe dizia isso.
— Obrigado, Augusto.
— De nada, tio Gil. — O menino abriu o próprio, chocolate, naturalmente e olhou de um para o outro com aquela expressão de quem está satisfeito com o estado geral das coisas. Hoje foi um bom dia.
Sara olhou para Grissom e lhe deu um sorriso e recebeu outro em troca.
O celular de Heather vibrou enquanto ela estava em casa revisando os documentos para o processo.
Olhou para a tela.
Marcus Vail. Assessor do juiz Walters e um dos contatos que havia cultivado com o cuidado de quem sabe que informação é moeda e relacionamentos são investimento. Ele esta a ajudando para montar seu processo com teses falsas.
Atendeu.
— Marcus.
— Heather. — A voz do outro lado tinha aquela qualidade de quem está entregando algo e quer que o valor da entrega seja reconhecido. — Estava no Borboletário hoje com minha filha.
Heather ficou quieta.
— E vi uma cena interessante. — Marcus continuou, com aquela pausa calculada de quem gosta de construir o momento. — Um homem e uma mulher. Numa mesa. Com uma criança. — Outra pausa. — O homem eu reconheci. É o perito que você citou para o juiz Walters. Gilbert Grissom.
O nome pousou na conversa com um peso que Marcus claramente havia antecipado.
— E? — A voz de Heather saiu neutra — o tipo de neutralidade que custa.
— E eles se beijaram, Heather. — Simples, direto. — Demorado o suficiente para não ser ambíguo.
O silêncio durou três segundos.
— Obrigada por me avisar, Marcus.
— Imagina. — A voz tinha aquele tom de quem espera algo em troca mas é sofisticado o suficiente para não dizer diretamente. — Só achei que você devia saber. Porque se isso chegar ao juiz Walters antes que você controle a narrativa... — ele deixou a frase incompleta com a precisão de quem sabe que o silêncio termina o argumento melhor do que qualquer palavra.
— Chega ao Walters e ao Phillips e a história que você contou sobre o relacionamento desmorona. — Heather completou, em voz alta, para si mesma tanto quanto para ele. — Mentira provada diante de dois juízes. Credibilidade destruída. Processo comprometido.
— Exatamente.
— Entendido. — Ela desligou.
Ficou parada com o celular na mão.
Do outro lado da janela, Las Vegas começava a acender as luzes do fim de tarde aquela transição específica da cidade que não tinha meio termo entre dia e noite, que ia de um para o outro com a convicção de quem não conhece o conceito de hesitação.
Heather pousou o celular na mesa.
Sara Sidle e Gilbert Grissom num Borboletário, num sábado, com Augusto entre eles e um beijo que havia sido visto pelo assessor do juiz errado.
Ela havia calculado muitas variáveis.
Havia calculado Sara como obstáculo emocional, algo que Grissom precisaria decidir, no tempo dele, numa direção ou outra.
Havia calculado Augusto como complicação gerenciável.
O que não havia calculado era velocidade.
Grissom havia se movido mais rápido do que ela havia previsto. E agora havia um beijo documentado por um testemunho inoportuno que transformava a narrativa cuidadosamente construída em papel molhado se chegasse às mãos certas antes que ela fizesse alguma coisa.
Heather se levantou.
Foi até a janela.
— Ahh, Sara. — A voz saiu baixa, sem raiva — com algo mais frio, mais resolvido do que raiva. — Você não vai me atrapalhar.
Ficou olhando para a cidade por um momento.
O plano precisava ser acelerado.
Buscar Hank havia sido missão simples.
O que não havia sido simples era o que aconteceu depois.
Porque Hank no parque com Augusto e Sara havia se transformado com a inevitabilidade das melhores tardes em algo que não estava no roteiro original de ninguém.
Augusto havia descoberto que Hank adorava perseguir gravetos arremessados e havia dedicado os últimos vinte minutos a aperfeiçoar o ângulo de lançamento.
Sara havia descoberto que Hank, quando cansado de perseguir gravetos, redirecionava a energia para perseguir pernas humanas e havia passado os últimos dez minutos rindo enquanto tentava andar em linha reta com um cachorro convicto de que os próprios tornozelos dela eram o destino final de alguma jornada importante.
— HANK!! — Ela riu, tentando parar. — Para!!
Hank não parou.
Augusto atirou outro graveto na direção oposta com estratégia clara de distração.
Hank olhou para o graveto.
Olhou para os tornozelos de Sara.
Escolheu os tornozelos e os dois caíram na risada.
Grissom estava parado alguns metros atrás.
Olhando.
Havia chegado naquele estado específico que as pessoas descrevem como abobalhado quando não têm palavra melhor que é, no fundo, o estado de alguém que está vendo algo tão bom que o cérebro simplesmente para de fazer qualquer outra coisa e fica só nisso.
Sara com o cabelo levemente desgrenhado pelo vento e pelo Hank, rindo de um jeito que não precisava de nada além de si mesmo para existir. Augusto completamente presente no momento de uma forma que só crianças conseguem quando estão genuinamente felizes.
Ele não havia percebido o homem se aproximar.
— Com licença.
Grissom se virou.
Era um homem de idade indefinida nem jovem nem velho. O olhar era direto, sem pressa, com aquela qualidade específica de quem chegou para dizer algo e sabe exatamente o que é.
— Aquela é sua família? — Ele gesticulou levemente em direção a Sara e Augusto.
Grissom olhou para os dois.
Respondeu antes de pensar.
— Sim. — A palavra saiu com uma naturalidade que o surpreendeu — não pela resposta em si, mas pela facilidade com que havia chegado. — Aquela é minha família.
O homem assentiu devagar, como se a resposta confirmasse algo que já sabia.
— Vejo que os ama muito.
— Amo.
— Então os proteja. — A voz ficou mais séria, mais direta, sem perder a calma de quem não está ameaçando, está alertando. — De todo o mal. Principalmente de quem está muito perto de você.
Grissom ficou imóvel.
— Se não se afastar dela — o homem continuou, sem desviar o olhar — terá problemas. E poderá perder essa família. — Uma pausa. — Existem amizades muito falsas. A sua é sombria. Tem gente que só visa o próprio interesse e usa sua bondade como ferramenta. — Ele olhou para Sara, depois para Grissom. — Você tem um coração bom. Não merece isso. E ela também não. — Pausa menor, mais pesada. — Aquela mulher te ama de verdade.
Grissom sentiu algo se movimentar por dentro que não era bem desconforto e não era bem revelação era algo entre os dois, do tipo que aparece quando uma palavra pousa num lugar que já estava preparado para recebê-la mas ainda não havia sido tocado.
— Quem é você? — A voz saiu mais baixa do que pretendia. — Por que está me falando tudo isso?
— Para você refletir. — Simples. — E ter atenção ao que acontece ao seu redor. — O homem olhou uma última vez para Sara e Augusto. — Olhe para eles. Veja o que é mais importante para você. — Uma pausa final. — Se é a família. Ou a amizade.
Grissom virou o rosto por um segundo em direção a Sara que havia finalmente rendido Hank com um graveto e estava comemorando com Augusto com entusiasmo.
Quando voltou o olhar.
O homem não estava mais lá.
Grissom ficou parado, olhando para o espaço vazio ao lado, para a grama, para o caminho, para o parque que seguia seu ritmo com a indiferença de sempre.
Não havia para onde o homem houvesse ido em tão pouco tempo.
— Aconteceu alguma coisa, Griss??
Sara estava a dois metros, com Hank finalmente calmo ao lado e Augusto atrás com o graveto vencedor ainda na mão.
— Estava conversando com um homem. — Grissom olhou para o espaço vazio uma última vez. — Que de repente sumiu.
Augusto chegou ao lado dele e olhou para o mesmo ponto.
— Eitaaa. — A palavra saiu com o peso adequado à situação. — Fantasma.
— Augusto. — Sara foi seca.
— É a explicação mais lógica, tia.
— Não é a explicação mais lógica.
— É a mais interessante então. — Ele fez a concessão com dignidade. — Tio Gil, o Hank está cansado.
Grissom olhou para Hank que estava, de fato, deitado na grama com a expressão de animal que havia esgotado a cota de energia disponível e não pretendia negociar.
— Vamos pra casa então. — Ele disse.
Começaram a caminhar, Augusto na frente com Hank na coleira, Sara ao lado de Grissom, o parque ficando para trás com a luz do fim do dia.
Grissom ficou em silêncio por um momento.
Existem amizades muito falsas. A sua é sombria.
Aquela mulher te ama de verdade.
Ele olhou para Sara ao lado dele.
Ela sentiu o olhar e virou com aquela expressão de o que foi?
A proposta havia chegado no elevador.
Augusto havia esperado as portas fecharem com o timing de quem calculou que espaço fechado reduzia as chances de recusa e então apresentado o plano com a objetividade de executivo de sete anos:
— A gente não podia aproveitar que vocês dois estão de folga e fazer uma sessão de cinema? Com pizza.
Sara havia aberto a boca.
— Nós vamos embora, meu amor.
— Fica, Sara. — Grissom havia sido imediato, sem cerimônia. — Vamos seguir a ideia do Guto.
— Vamos, tia!! — Augusto havia completado, já posicionando os olhos.
Sara havia olhado de um para o outro.
Dois pares de olhos grandes. Levemente úmidos. Com aquela energia coordenada de operação que havia sido planejada, ela estava quase certa, antes do elevador.
— Dois com cara de cachorro pidão? — Ela havia dito, com a firmeza de quem ainda tem posição.
E então Hank havia olhado para ela do chão do elevador.
Com os olhos.
— Na verdade três. — Ela havia olhado para o cachorro. — Até você, Hank?
Os latidos haviam sido resposta suficiente.
— Ok. — Ela havia soltado o ar com a rendição de quem perdeu, mas não está exatamente triste com isso. — Homens e cão. Eu fico.
O abraço havia sido coletivo, simultâneo e ligeiramente caótico: Augusto pelos braços, Hank pelas pernas, Grissom com a mão nas costas dela com aquela leveza que havia deixado de tentar administrar naquele dia.
O apartamento havia retomado aquela qualidade de lugar habitado: casaco jogado na poltrona, mochila de Augusto no canto, Hank já instalado no sofá com a propriedade de quem não foi convidado, mas também não foi proibido.
— Vou tomar banho!! — Augusto anunciou, desaparecendo pelo corredor com a energia renovada de criança que havia conseguido o que queria e estava em excelente humor consigo mesma.
A sala ficou mais silenciosa.
Grissom e Sara ficaram de pé perto do sofá com Hank entre eles como árbitro involuntário e havia aquele silêncio específico de duas pessoas que passaram o dia inteiro juntas e de repente estão sozinhas pela primeira vez.
— Você quer tomar um banho também? — Grissom disse. — Tem uma roupa sua aí. Ficou aqui naquele dia.
Sara ficou parada por um segundo.
Naquele dia. A roupa do dia em que havia dormido no quarto de hóspedes e acordado com cheiro de café e Grissom sem camisa na cozinha.
— Quero sim. — Ela foi honesta porque estava cansada demais para não ser. — Preciso de um banho.
— Vamos lá no quarto que te dou a roupa e mostro o banheiro.
— Já conheço o banheiro, Grissom.
— Pode ter mudado alguma coisa desde a última vez.
— Banheiros não mudam.
— O meu pode ter melhorias recentes.
Sara o olhou com a sobrancelha no lugar específico que ele havia aprendido a reconhecer como estou tentando não rir e não estou conseguindo muito bem.
— Melhorias recentes no banheiro?
— Nunca se sabe.
Hank abriu um olho do sofá.
Fechou.
Sara foi em direção ao corredor.
— Vamos ver essas melhorias então. — A voz saiu com uma leveza que não havia planejado e que ficou no ar depois que ela passou por ele em direção ao quarto.
Grissom ficou parado por um segundo.
Sorriu — discretamente, para o apartamento vazio — com a expressão de quem está tendo um dia muito melhor do que havia antecipado quando acordou.
Ele havia ido buscar a roupa com a intenção honesta de buscar a roupa.
Voltou ao quarto e parou.
A porta do banheiro estava entreaberta não intencionalmente, havia ficado assim porque o trinco havia decidido não cooperar, como trincos fazem às vezes com o silêncio específico de coisas inanimadas que têm péssimo timing.
O espelho estava na posição errada para ser ignorado.
Grissom ficou parado no meio do quarto por um segundo.
Depois por mais um.
A roupa que havia buscado continuou na mão por aproximadamente cinco segundos antes de ser pousada na cama com muito mais cuidado do que a situação exigia.
Havia tomado decisões mais difíceis do que aquela em décadas de carreira.
Nenhuma havia sido tão fácil.
A porta se abriu devagar.
Sara ouviu e se virou, e ficou parada com a mesma imobilidade específica de quem está processando a cena a sua frente.
Grissom estava na entrada do box com aquela expressão sexy e que agora estava despido de qualquer outra coisa além do que era.
— Griss. — A voz saiu pequena, com mais pergunta do que repreensão. — O que você faz aqui?
— Sara. — A voz dele chegou rouca, direta, com o peso de coisa que não estava sendo mais administrada. — Sou louco por você. Fica comigo?
O vapor do banheiro existia ao redor dos dois com a indiferença da água que não entende de decisões humanas.
Sara ficou olhando para ele.
Para os olhos azuis que havia aprendido a ler em anos de corredor de laboratório e que agora estavam dizendo uma coisa só, sem subtexto, sem protocolo, sem nada que não fosse exatamente o que era.
Havia resistido a muita coisa.
Àquilo não resistiu.
O que aconteceu a seguir não foi calculado por nenhum dos dois e foi exatamente por isso que foi o que foi.
Não havia cerimônia nem hesitação. Havia dois adultos que haviam passado tempo demais chegando até aquele momento e que, finalmente no mesmo lugar ao mesmo tempo sem interrupção e sem campainha e sem o universo conspirando contra, simplesmente foram.
Grissom havia decidido, em algum ponto do Borboletário ou do parque ou do quarto de hóspedes ou da cozinha com o omelete do café da manhã de São Francisco, que se chegasse uma oportunidade de mostrar a Sara Sidle o que sentia sem palavras que sempre saíam tortas, ia usar cada segundo disponível.
E usou.
Com a atenção específica de alguém que não estava com pressa de chegar ao fim — estava presente em cada detalhe, em cada resposta que ela dava, em cada som que arranhou do silêncio com a paciência e a intensidade de quem estava fazendo aquilo pela primeira vez e pela única vez ao mesmo tempo.
Sara havia correspondido.
Completamente. Sem reserva. Com as mãos no cabelo dele e a certeza de quem havia esperado sem saber que estava esperando e então chegou o momento e o corpo soube antes da cabeça que era isso.
Chegaram juntos com aquela sincronia que não se ensaia, que simplesmente existe quando dois corpos estão verdadeiramente presentes um para o outro e ficaram abraçados sob a água que havia decidido ser quente na hora certa.
O silêncio depois tinha uma qualidade diferente de todos os outros silêncios do dia.
Era do tipo que não precisa de preenchimento.
— Fazer amor com você — a voz de Grissom chegou baixa, perto da têmpora dela, com aquela rouquidão que não era de esforço, mas de emoção — foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Eu te amo muito, Sara.
la ficou com o rosto no ombro dele por um momento.
— Você foi demais. — A voz saiu com aquele humor que era dela e que aparecia nos momentos mais inesperados e mais precisos. — Entrar desse jeito no box. — Ela se afastou levemente para conseguir olhar para ele, com os olhos ainda escuros e o sorriso que chegou sem avisar. — Não deu pra resistir a esse corpo gostoso.
Grissom a olhou com aquela expressão de quem está recebendo um elogio e não sabe completamente o que fazer com ele mas está achando ótimo.
— Eu também te amo. — Ela disse, mais baixo. — Muito.
Ele fechou os olhos por um segundo do jeito de quem guardou algo importante no lugar certo.
— Então vamos ficar juntos. — A voz voltou com aquela firmeza gentil. — Namora comigo, meu anjo?
Sara ficou olhando para ele.
Com o vapor ao redor, a água morna, os braços dele ainda ao redor dela, o apartamento com Augusto cantando desafinado em algum ponto do corredor e Hank provavelmente ocupando metade do sofá.
Havia uma resposta.
Ela soube qual era.
— Grissom. — A voz saiu com um sorriso que ele sentiu antes de ver. — Vamos nos vestir.
Ele abriu a boca.
— Sara—
— Nos vestir. — Ela repetiu, com aquela firmeza que tinha humor e afeto e ainda não terminei de processar tudo mas estou chegando lá nas bordas. — E pedir pizza.
— Você está desviando.
— Estou priorizando. — Ela se afastou com um agilidade que claramente havia sido calculada para não dar tempo de contra argumentar. — Vai buscar as roupas, Grissom.
Ele ficou parado no box por um segundo.
Com aquela expressão de homem que perdeu o argumento mas ganhou algo consideravelmente mais importante.
— Vou buscar as roupas. — Ele confirmou.
— Obrigado.
— Mas a conversa continua.
— Continua.
— Vou cobrar.
— Já sei. — A voz chegou de trás da porta que ela havia fechado desta vez — com o trinco funcionando de forma impecável agora, naturalmente. — Vai buscar as roupas, Gil.
Gil.
Grissom ficou parado por mais um segundo.
Havia passado anos como Grissom nos corredores do laboratório.
Gil, na voz dela, tinha ouvido a última vez em SF. Tudo o que ocorreu naquele banheiro, naquela noite, tinha uma qualidade completamente diferente.
Foi buscar as roupas com o passo de quem está tendo o melhor sábado em memória recente.
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