Dois dias depois da caçada a Ted, orientada por Anthony, Heather convida Grissom para tomar café. Com intuito de poder acessar a casa, ele aceita.

Grissom estacionou o carro a meia quadra sem saber exatamente porque.

A rua tinha movimento de trabalho. Uma equipe de manutenção trocava calçamento do outro lado, cones laranjas, equipamentos, homens de colete amarelo. Grissom tinha vestido sem pensar uma jaqueta cinza escuro que não destoava muito do ambiente.

Estava andando em direção à mansão quando sentiu um puxão leve na manga.

Era um menino. Uns dez anos, mochila nas costas, uniforme de escola meio amassado de quem já tinha tido um dia longo. Olhou para Grissom com aquela avaliação direta que só crianças e detetives conseguem fazer.

Menino: Você trabalha pra policia?

GG: (parou) Sim. Por que?

O menino olhou para os dois lados da rua antes de falar, com uma cautela que parecia velha demais para a idade.

Menino: Porque dias atrás eu vi uma coisa estranha aqui, mas minha mãe disse pra não falar com estranhos então só falo com quem trabalha na polícia.

Grissom abaixou levemente, ficando na altura do menino.

GG: (voz calma) Pode me contar. Eu trabalho com a polícia.

Mostrou sua identificação e o menino o avaliou mais um segundo.

Menino: Eu vi um moço matar um homem. (disse com a objetividade perturbadora de quem ainda não processou completamente o peso do que viu) Deu um tiro com um negócio que fez pouco barulho e o homem caiu. Aí outro moço chegou de carro e eles colocaram o corpo no porta malas e foram embora.

Grissom ficou completamente imóvel.

GG: (cuidadoso) Você viu de onde eles saíram?

O menino apontou sem hesitar.

Para a mansão de Heather.

GG: (controlando a expressão) Você conseguiria descrever os dois homens?

Menino: O que atirou era careca e tinha um risco no queixo. (passou o dedo no próprio queixo indicando uma cicatriz) O outro era mais novo e parecia com medo.

Grissom assentiu devagar.

GG: Você contou isso pra mais alguém?

Menino: Pra minha mãe mas ela disse que eu devia ter sonhado. (a expressão deixou claro o que achava dessa teoria) Eu não sonhei.

GG: Onde você mora?

Menino: Naquela casa ali ( era duas a frente da de Heather)

GG: (se levantou, tirou um cartão do bolso) Você fez a coisa certa em contar. Se você ou sua mãe quiserem falar mais, liga pra esse número, tá?

O menino pegou o cartão, enfiou no bolso da mochila e saiu andando com a naturalidade de quem acabou de resolver um assunto pendente.

Grissom ficou parado por um momento com o peso daquelas informações.

Homem morto. Saindo da casa de Heather.

Foi quando viu Sofia Curtis do outro lado da rua, encostada no carro, uma das mãos tampando o ouvido enquanto falava no celular com a expressão concentrada de quem está recebendo informação importante.

Foi até ela.

Sofia desligou quando o viu se aproximar e a expressão foi de surpresa genuína.

SC: Oi Grissom! O que faz por aqui?

GG: Vim tomar café com Heather. (pausa, olhou ao redor) Algum caso por aqui?

Sofia cruzou os braços com uma expressão que ele conhecia bem. A de alguém pesando exatamente quanto podia dizer.

SC: Sim. Mas infelizmente não posso discutir com você já que está envolvido com uma suspeita.

GG: (franziu a testa) Sofia, por Deus. Heather não está envolvida neste caso... (parou, algo no rosto dela fez ele pausar) Ou está?

Sofia o olhou por um segundo longo demais para ser confortável.

SC: Ainda estou investigando. (pegou as chaves do carro) Tchau Grissom. (abriu a porta, parou) Ah. E silêncio.

Entrou no carro e foi embora.

Grissom ficou parado olhando para o carro de Sofia sumindo na esquina.

Ainda estou investigando.

Não era negativa. Era confirmação disfarçada de ressalva.

Virou para a mansão de Heather.

A mesma porta. A mesma fachada elegante e fechada. O mesmo lugar onde havia estado semanas atrás com a camisa aberta arrependendo antes de chegar ao fim.

A casa tinha aquele silêncio cuidadoso de lugares onde cada coisa está no lugar exato por escolha e não por acaso. Grissom entrou e ficou na sala enquanto Heather foi buscar o chá, os olhos já fazendo o que faziam automaticamente em qualquer ambiente.

Varrendo.

Catalogando.

A janela da sala dava para a rua onde Sofia havia estacionado. Ângulo perfeito para observar movimento externo. Grissom foi até ela naturalmente, como se estivesse apenas olhando para a rua.

Foi quando viu.

No canto do rodapé, parcialmente escondida pela cortina, havia uma cápsula. Pequena, de latão, inconfundível para quem passou décadas em cenas de crime.

Cápsula de arma.

Na direção exata de onde o menino havia apontado.

Tirou o lenço do bolso com o movimento discreto de quem está apenas ajeitando a roupa. Pegou a cápsula sem tocá-la com os dedos, embrulhou com cuidado e guardou no bolso interno do casaco.

Estava de volta ao centro da sala quando Heather entrou com a bandeja.

LH: (animada, sorrindo) Consegui visitar minha neta semana passada. Você precisava ver o quanto ela cresceu, está falando cada vez mais e tem um jeito de olhar que me lembra muito a mãe dela quando era pequena. Levei aquelas bonecas que ela adora e ficamos a tarde toda brincando. Foi a melhor tarde que tive em muito tempo...

A voz de Heather continuava. Grissom ouvia o som sem processar o conteúdo.

A cápsula no bolso pesava mais do que seu tamanho físico.

Um homem morto na frente dessa casa. Sofia investigando na rua. A cápsula na janela. O menino com a descrição precisa de um homem que poderia ser Anthony Hentz.

E no meio de tudo isso.

Sara.

Grávida, fazendo curso em Washington. Procurando apartamento. Carregando mala de novo como tinha feito a vida inteira.

Todos estavam do lado dela... menos ele.

Brass. Catherine. Ecklie. Sua própria mãe. Pessoas que discordavam em tudo o que ele havia feito nesse caso, todas apontando para a mesma direção.

Você está escolhendo o lado errado.

Até Ecklie. Conrad Ecklie que nunca tinha sido seu amigo e que foi até seu escritório sem obrigação nenhuma para dizer o que todo mundo estava pensando.

Era caso pra se pensar.

LH: Grissom!!

Ele piscou.

GG: Oi?

Heather estava olhando para ele com uma expressão entre divertida e levemente irritada.

LH: Você ouviu alguma coisa que eu falei aqui?

GG: (sem fingir que ouviu) Heather, estou cansado. Precisava realmente ir. (se levantou, pegou o casaco com cuidado para não deixar a cápsula cair) Fico feliz pelas suas conquistas.

LH: (se levantou junto, foi até ele) Você veio até aqui e mal ficou vinte minutos.

GG: Peço desculpas. Foi mal da minha parte.

Heather se aproximou. Ele reconheceu o movimento tarde demais para desviar completamente.

Os lábios dela encontraram os dele por um segundo.

Grissom recuou. Não bruscamente. Mas com uma clareza que não deixava margem para interpretação.

GG: Não, Heather.

Ela ficou olhando para ele com uma expressão que tentou ser neutra e não conseguiu completamente.

GG: Tchau.

Virou e foi em direção à porta. Desceu os degraus da entrada sem apressar o passo mas sem parar.

Entrou, fechou a porta, ficou parado sem ligar o motor por um momento.

Tirou o lenço do bolso com cuidado. Abriu levemente para confirmar.

A cápsula estava lá.

Fechou de novo.

Ligou o carro.

Tinha dois telefonemas para fazer.

O sol mal tinha começado a iluminar os monumentos de Washington quando o celular de Sara vibrou sobre a mesa de mármore do hotel. Ela estava sozinha, saboreando o silêncio e uma xícara de café que, finalmente, não parecia brigar com seu estômago. Daniel tinha saído cedo para uma reunião no QG do FBI.

Ao atender, ela não ouviu o barulho de bipes de laboratório ou o tom sério de um supervisor. Ouviu apenas o som de um sorriso do outro lado da linha.

— Bom dia, Sara. Eu andei pesquisando sobre os índices de criminalidade em D.C. esta manhã — a voz de Grissom veio baixa, aveludada, com aquela cadência que ele só usava quando queria desarmar todas as defesas dela. — E cheguei à conclusão de que o maior crime cometido na capital hoje é você estar tomando café sem a minha companhia.

Sara sentiu um calor subir pelo pescoço, uma sensação que não tinha nada a ver com o café quente.

— É mesmo, Gil? — ela respondeu, tentando manter o tom casual, embora o sorriso fosse inevitável. — E qual seria a punição para esse crime de "abandono de supervisor"?

— Bom, como eu sou o investigador-chefe deste caso, eu diria que a sentença envolve uma compensação sensorial obrigatória — ele continuou, a voz ficando ainda mais profunda. — Eu estava aqui imaginando... você deve estar usando aquele roupão branco do hotel, com o cabelo ainda um pouco úmido, e aquele olhar de quem está prestes a decifrar um enigma difícil.

Sara olhou para baixo, para seu vestido leve de algodão, e mordeu o lábio. — Suas habilidades de observação à distância estão ficando perigosamente afiadas, mas você errou o roupão. Estou sozinha no restaurante agora e de vestido.

— No restaurante? — Grissom fez uma pausa, e o tom de provocação voltou. — Então quer dizer que o "Grilo de Harvard" não está aí para te distrair com estatísticas de eficiência governamental? Que desperdício de simetria mandibular.

Sara soltou uma risada baixa, sentindo-se estranhamente leve. — Daniel teve um compromisso. Estou aproveitando a paz para pensar um pouco.

O tom de Grissom mudou instantaneamente, suavizando-se para algo mais íntimo. — Sara, esta ligação é para o seu coração. Eu quero que você sinta a verdade do que eu vou dizer. Eu peço perdão por tudo e te digo... Eu te amo. Eu quero que você sinta falta da única pessoa que conhece o mapa de todas as suas reações. Lembra de quando ficávamos no jardim, no escuro, e eu não precisava dizer nada porque a sua mão na minha já explicava tudo?

Sara fechou os olhos por um momento, transportada de volta para Las Vegas. — Eu lembro, Gil.

— Guarde essa memória para o café da manhã de amanhã — ele disse, voltando ao tom sedutor. — Porque, enquanto o seu amigo agente planeja o próximo relatório, eu estou aqui planejando como vou te convencer de que Washington é apenas um cenário bonito, mas o seu lugar é onde o meu microscópio aponta para você.

— Você está impossível hoje — ela murmurou, sentindo uma saudade física que a pegou de surpresa.

— Eu estou motivado, Sara. A ciência me deu as provas, mas o amor está me dando a estratégia. Tome seu café, aproveite seu dia... mas saiba que eu estou contando os minutos para o próximo "bom dia".

Ao desligar, Sara olhou para a xícara de café. O hotel era luxuoso, a cidade era linda e Daniel era perfeito. Mas ninguém, absolutamente ninguém, conseguia fazer o mundo dela vibrar com apenas uma frequência de voz como Gilbert Grissom.

SS: Bebê seu pai é terrível!!

Ao desligar, o supervisor fez sua segunda ligação e foi marcando um encontro com Sofia.

O lugar era neutro o suficiente. Longe do laboratório, longe do Strip, o tipo de lanchonete que existe em todas as cidades americanas e que por isso mesmo não chama atenção de ninguém.

Sofia já estava lá quando Grissom chegou, numa mesa do fundo com dois cafés na frente e aquela expressão de quem queria entender o que estava acontecendo.

Grissom sentou na frente dela sem cerimônia.

SC: Você disse que era urgente.

GG: É. (colocou o lenço dobrado na mesa entre os dois, abriu com cuidado)

Sofia olhou para a cápsula sem tocar. Os olhos foram imediatamente para ele.

SC: Onde você achou isso?

GG: Casa de Heather. Perto da janela da sala, encostada no rodapé atrás da cortina. (pausa) Na direção exata onde você estava estacionada agora de manhã.

Sofia ficou completamente imóvel por um segundo.

SC: Você foi lá pra tomar café.

GG: Fui. (direto) E coletei evidência. (a voz não tinha defesa nem desculpa) Eu sei que estou fora do caso, Sofia.

SC: Sabe e foi assim mesmo.

GG: Porque o caso foi até mim antes de eu ir até ele.

Sofia olhou para a cápsula de novo. Tirou uma sacola plástica de evidências do bolso da jaqueta, o que disse a Grissom que ela não tinha chegado ali completamente desprevenida.

Colocou a cápsula dentro com cuidado.

SC: Me conta tudo. Desde o começo.

Grissom juntou as mãos em cima da mesa.

GG: Antes de entrar na casa de Heather, fui abordado por um menino na rua. Uns dez anos, uniforme de escola. (pausou) Me perguntou se eu trabalhava na policia.

SC: O que ele disse?

GG: Que dias atrás viu um homem matar outro na rua. (Sofia não piscou) Um segundo homem chegou de carro logo depois. Colocaram o corpo no porta malas e foram embora.

SC: (voz controlada) Saindo de onde?

GG: Ele apontou para a casa de Heather sem hesitar.

Sofia girou o café na frente dela sem beber.

SC: Descrição dos homens?

GG: O atirador era careca com cicatriz no queixo. O segundo era mais novo e segundo o menino parecia com medo.

Sofia anotou algo num bloco pequeno sem comentar.

GG: Você já sabia do homicídio.

Não era pergunta.

SC: (sem levantar os olhos do bloco) Temos um homem desaparecido. Funcionário de Sanchez. Não temos corpo ainda, mas temos a última localização sendo ali na rua.

GG: Sanchez. (deixou o nome no ar por um momento) O caso dos cassinos que tiraram de mim?

SC: O mesmo. (finalmente levantou os olhos) Grissom, você entende que o que me trouxe hoje complica muito a situação de Heather.

GG: Entendo.

SC: E mesmo assim trouxe.

GG: (direto) Porque é o que é certo fazer. (pausa) E porque acho que fui colocado no meio disso com uma função muito específica e estou cansado de cumprir essa função sem saber que estava cumprindo.

Sofia o estudou por um momento longo.

SC: O menino vai falar com a polícia?

GG: Deixei meu cartão. A mãe vai ligar quando ele convencer ela de que não sonhou. (pausa) Ele não sonhou. Eu sei onde ele mora.

SC: Não. (guardou o bloco, pegou a sacola de evidências) Isso vai para balística hoje. Grissom?

GG: Sim?

SC: Você fez a coisa certa em me ligar. (pausa na saída) Mas fica longe da Heather a partir de agora. Não como ordem. Como conselho de alguém que está vendo o tamanho dessa teia.

GG: (assentiu devagar) Sofia. O que você acha que ela sabia?

A investigadora ficou em silêncio por um momento com a jaqueta na mão.

SC: Acho que Lady Heather entrou num jogo achando que controlava as peças. (pausa) E acho que está descobrindo agora que é uma delas.

Saiu deixando Grissom com o café esfriando na frente.

Ficou olhando para a mesa vazia do outro lado.

Uma peça.

Se Heather era uma peça, havia alguém movendo o tabuleiro.

O aeroporto de Washington parecia mais brilhante sob a luz daquela manhã. Sara carregava sua mala com uma energia que não sentia há semanas; o cansaço da gravidez e do curso intensivo fora substituído pela expectativa vibrante de reencontrar Augusto e, finalmente, ver a vida que crescia dentro dela.

Daniel a acompanhou até o portão de embarque. Ele observava o sorriso dela, um sorriso que, ele sabia, não era mais o de uma mulher em fuga, mas o de uma mulher retornando ao seu centro.

— Você está radiante, Sara — disse Daniel, mantendo uma distância respeitosa, mas com um olhar que carregava um misto de admiração e uma ponta de melancolia. — Acho que a ideia de ver essa "primeira evidência" na ultrassonografia superou qualquer aula que tivemos esta semana.

Sara riu, ajeitando a alça da bolsa. — Superou tudo, Daniel. Sinto que finalmente vou conseguir respirar fundo quando ouvir aquele batimento cardíaco. É o que vai tornar tudo real, sabe?

Daniel assentiu e segurou a mão dela por um breve momento, um gesto de despedida silencioso. — Me prometa que vai se cuidar. Las Vegas é uma cidade dura, e você tem muita gente jogando contra. Mas, se o barulho ficar alto demais, se precisar de um lugar onde o mundo seja apenas... calmo... você sabe que eu estarei aqui. Apenas um voo de distância.

Sara olhou nos olhos dele, sentindo uma gratidão genuína. — Foi muito bom esse tempo com você aqui, Daniel. De verdade. Você me lembrou de quem eu era antes da tempestade. Vou sentir sua falta, da sua gentileza... mas preciso voltar para junto do meu filhote. Ele é a minha bússola agora.

Enquanto o avião ganhava altitude, Sara olhava pela janela, já imaginando a reação de Augusto ao recebê-la. Ela sabia que a consulta com o obstetra seria o divisor de águas.

Grissom estava no laboratório, mas sua mente estava no cronômetro do voo vindo de D.C. Havia pedido para Greg busca-la no aeroporto.

Ele comprou uma pequena camiseta de "Irmão Mais Velho" para o menino, que estava em êxtase com a volta da mãe.

O desembarque em Las Vegas foi acompanhado pelo choque térmico habitual do deserto, mas, para Sara, o ar seco parecia carregar o cheiro de casa. Enquanto descia a escada rolante, seus olhos percorreram a multidão, metade esperando ver o rosto de Grissom, a outra metade temendo que o encontro fosse doloroso demais antes de uma conversa real.

No entanto, quem ela avistou, agitando os braços com um entusiasmo impossível de ignorar, foi Greg Sanders.

— Bem-vinda de volta à civilização, Sidle! — Greg exclamou, pegando a mala dela antes mesmo que ela pudesse protestar. — Washington é muito cinza para o seu brilho, admita.

Sara riu, sentindo o peso da viagem diminuir ao ver o amigo. — Greg! Que surpresa. Onde está... — Ela hesitou, olhando em volta.

— O Grissom? — Greg completou, adotando um tom um pouco mais suave enquanto caminhavam para o estacionamento. — Ele queria vir, Sara. De verdade. Mas ele achou que seria... "estatisticamente imprudente" forçar a barra logo no desembarque. Ele sabe que vocês têm uma montanha de coisas para conversar e não queria que o aeroporto fosse o cenário de um possível momento tenso.

Sara sentiu um aperto no peito, uma mistura de alívio e uma pontinha de decepção que ela não queria admitir. — Ele pensou nisso, é?

— Ele está sendo o Grissom, Sara. Analisando cada passo para não cometer mais erros.

— Greg, me leva para o meu flat? — Sara pediu, a voz baixa, sem olhar para ele. — Se não for te incomodar... você poderia buscar o Augusto na casa do Gil? Eu preciso de um momento sozinha antes da consulta.

Greg hesitou, sabendo que Grissom estava contando os segundos para vê-la, mas a determinação no rosto de Sara não dava margem para discussões. — Claro, Sara. O que você precisar.

Sara não foi com Grissom. Ela foi acompanhada por Beth e o pequeno Augusto. Na sala de exames, enquanto o gel gelado tocava sua barriga, o som preencheu o ambiente: um galope rápido, rítmico e forte. O som da vida. Augusto segurava a mão dela, os olhos arregalados de fascinação.

— Ouviu, mamãe? — o menino sussurrou. — É o coração dele! Parece um tambor.

Sara sorriu, mas sentiu um vazio. Aquele som deveria ter sido compartilhado com o homem que agora parecia um estranho em sua própria história.

Mais tarde, Sara chegou ao flat, exausta. Ela tirou a roupa pesada da viagem e vestiu apenas um roupão de seda branca, tentando relaxar. Foi quando ouviu batidas na porta. Grissom estava parado ali, com as mãos no bolso.

Ele entrou em silêncio. Ao vê-la apenas de roupão, com a pele ainda quente do banho, Grissom desviou o olhar, um esforço hercúleo de autocontrole travando seus músculos. — Eu preciso conversar, Sara.

— Eu vou trocar de roupa, Gil. Por favor, espere aqui — ela disse, entrando no quarto e fechando a porta.

Grissom suspirou, sentindo o peso do mundo nos ombros. Ele caminhou até a cozinha, serviu-se de um café frio e voltou para a sala. Foi então que ele viu, sobre a mesinha de centro: a imagem granulada, em preto e branco, da ultrassonografia.

Ele pegou o papel com as mãos trêmulas. As palavras de Augusto ao telefone, horas antes, ecoaram em sua mente: "Papai, eu ouvi o coração! É muito rápido!".

Enquanto analisava cada detalhe anatômico daquela vida microscópica, as palavras de Catherine voltaram para assombrá-lo como uma profecia: "Uma hora a verdade aparece, Grissom... e você vai ser um homem sozinho, cercado apenas pelas suas atitudes impensadas".

Ele pensou na cápsula de bala que encontrara secretamente na mansão de Heather. Pensou no depoimento da criança que dizia ter visto um homem matar alguém naquela casa. As evidências estavam se acumulando contra Heather, e Grissom sentiu o chão sumir. Ele havia defendido a mulher errada. Ele havia duvidado da mãe do seu filho por uma ilusão de controle.

— Eu acho que posso ter feito uma grande merda na minha vida — ele sussurrou para o vazio, a voz embargada.

As lágrimas, raras e pesadas, começaram a cair, manchando levemente a borda do exame. Ele ficou ali, paralisado, olhando para o reflexo do seu erro e da sua esperança em uma única imagem de ultrassom.

Sara voltou para a sala, já vestida, pronta para a conversa difícil. Ela parou no batente da porta, o coração disparando ao ver a cena. Grissom não percebeu sua presença. Ele estava curvado sobre a mesa, os ombros sacudindo levemente, o papel entre os dedos como se fosse a coisa mais frágil do universo.

Sara sentiu um nó na garganta. O homem de gelo, o supervisor inabalável, o cientista que exigia provas... estava desmoronando diante de uma imagem de cinco centímetros.

"Ele está chorando???", ela pensou, a raiva que sentia sendo lentamente substituída por uma dolorosa compaixão.

— Gil? — ela chamou, a voz quase sumindo.

Ele não se virou de imediato. Limpou o rosto com as costas da mão, tentando recuperar a postura, mas a emoção era grande demais para ser escondida. Quando ele finalmente olhou para ela, seus olhos estavam vermelhos e carregados de uma dor que nenhuma ciência poderia explicar.

Sara ficou olhando para ele sem conseguir falar por um momento.

SS: (baixinho) Grissom... está tudo bem?

Ele balançou a cabeça positivamente sem levantar os olhos da ultrassom.

Não convenceu nenhum dos dois.

Sara se aproximou devagar. Pegou o envelope da mesa.

SS: Com licença, preciso guardar...

GG: (sem largar a imagem, a voz saiu rouca) Está tudo bem com o bebê?

Ela parou.

SS: Sim. Está sim.

GG: (finalmente levantou os olhos para ela, não limpou o rosto, não fingiu nada) Três meses de gestação. Não sentiu nada? Nenhum sintoma?

Sara ficou olhando para ele por um momento. Para o rosto molhado. Para as mãos que ainda seguravam a ultrassom com aquele cuidado todo.

Algo apertou no peito dela que ela não tinha autorização para sentir ainda.

SS: (voz mais controlada do que estava) Algumas tonturas. Poucos enjoos. (pausa, a cautela voltou) Por que quer saber disso? Não foi você que disse que queria distância? Que nada dessa criança era do seu interesse?

GG: (não desviou o olhar) Sim. Disse.

SS: Então...

GG: Sara.

Ela parou.

Grissom pousou a ultrassom na mesa com o mesmo cuidado com que a tinha pegado. Se levantou. Ficou de pé na frente dela numa distância respeitosa de quem sabe que não tem direito de chegar mais perto ainda.

GG: Eu preciso resolver umas coisas antes de qualquer conversa maior. Mas eu... (a voz falhou, recomeçou) de antemão queria te pedir perdão. Pelo que te falei. Por ter te ofendido. (olhou diretamente para ela) Fui um idiota com você mesmo ciente de tudo que você já sofreu na vida.

Sara ficou imóvel.

GG: Você recebeu apoio e carinho de todos. Brass. Catherine. Ecklie. Minha própria mãe. (pausa longa) Menos de mim. Do seu marido. Deste idiota só vieram ataques e ofensas.

A voz estava baixa mas firme. Sem rodeio. Sem justificativa embutida.

GG: Desculpa. Na verdade... (respirou) peço perdão.

O flat ficou completamente silencioso.

Sara estava com o envelope apertado na mão sem perceber. A expressão era de alguém que estava ouvindo palavras que o coração reconhecia, mas que a cabeça ainda não tinha autorizado processar.

— Grissom, não sei o que ocorreu para você estar falando isso tudo comigo — Sara começou, a voz oscilando entre a cautela e uma mágoa que ainda não havia cicatrizado. — No telefone você parecia sedutor, mas aqui... diante de mim... você parece um homem que acabou de ver um fantasma.

— Eu vi — ele admitiu, a voz rouca. — Eu vi o quanto eu estava cego por uma estrutura que eu mesmo criei para me proteger de sentir medo. Eu me refugiei na lógica, na dúvida... enquanto você estava lidando com a vida real. Sozinha.

— Você disse que quer distância, e eu respeitei isso mandando o Greg ao aeroporto — continuou ele, os olhos encontrando os dela com uma sinceridade cortante. — Mas ver essa imagem... ouvir o que o Augusto me contou sobre o coração... Sara, a verdade está gritando na minha cara e eu fui o único que se recusou a ouvir. Eu me tornei o tipo de homem que eu desprezo: aquele que usa a sua própria dor como desculpa para ferir quem ama.

Sara cruzou os braços, o nó na garganta apertando. — Você foi cruel, Gil. Você me fez sentir como se eu fosse a vilã de uma história que nós dois escrevemos. O Daniel... o Daniel me deu o apoio que você me negou. Ele não fez perguntas, ele só estava lá.

Ao ouvir o nome de Daniel, Grissom fechou os olhos por um segundo. A pontada de ciúme ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de uma vergonha profunda.

— Eu sei. E isso é o que mais me dói. Que um estranho de Harvard tenha tido mais humanidade com a minha esposa do que eu. Eu estava tão ocupado tentando provar que você estava errada que esqueci de ser seu parceiro. — Ele respirou fundo, as lágrimas que Sara notara antes deixando rastros de vulnerabilidade em seu rosto cansado. — Eu tenho um caso agora, um caso que envolve a Heather e... algo muito sério. Eu preciso terminar isso, Sara. Preciso limpar a sujeira que eu deixei entrar nas nossas vidas.

— Do que você está falando? — Sara perguntou, a curiosidade de perita vencendo a barreira emocional por um momento.

— De que eu posso ter sido cúmplice de um monstro enquanto tentava punir um anjo — ele respondeu, caminhando em direção à porta, mas parando antes de sair. — Não aceite minhas desculpas agora. Eu não mereço. Mas, por favor... não esqueça que, mesmo no meio da minha pior idiotice, esse som que você ouviu hoje no consultório... é a única coisa que ainda me mantém conectado à realidade.

Ao sair, o silêncio que ficou no flat era pesado. Sara olhou para a porta e depois para o exame. Grissom estava finalmente desmoronando, e ela não sabia se aquele era o fim do casamento deles ou o início de uma verdade que ela ainda não estava pronta para enfrentar sozinha.