NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
32 Segredo desenterrado
A atmosfera no laboratório era de uma quietude desconfortável. Grissom, que sempre caminhava pelos corredores com uma segurança quase professoral, parecia agora carregar o peso de cada decisão errada nos ombros. Catherine o observava de soslaio enquanto organizavam os kits para a nova coleta; ela conhecia aquele olhar de Grissom, era o olhar de um homem que finalmente parou de analisar o mundo através de uma lente e começou a enxergar as rachaduras no próprio espelho.
Tendo a amiga como cumplice, ele resolveu repetir o exame de fertilidade.
— Sabe que este exame vai te dizer que você fez uma merda grande ao acreditar na sua amiga, não sabe? — Catherine perguntou, a voz firme, mas sem o tom de julgamento de antes. Agora, era apenas um fato científico sendo jogado na mesa.
Grissom suspirou, o olhar fixo no frasco de coleta sobre a bancada. — Sei. E posso te dizer que você estava certa quando disse que, ao ver a verdade, eu iria me tocar do que perdi. Tinha uma família linda e joguei fora, Cath. Eu tratei a biologia como uma sentença de morte para o meu casamento, em vez de ver o milagre que estava na minha frente.
— Não fale assim — Catherine interveio, aproximando-se dele. — O dano foi grande, Gil, mas o DNA não mente. Quando esse resultado sair e provar que você é fértil, você terá a ferramenta técnica para começar a reconstruir as coisas. Acho que ainda dá para consertar.
— Eu pedi perdão para a Sara hoje cedo e ela me negou — ele disse, com a voz embargada pela lembrança do choro no flat dela. — E ela tem toda a razão. Depois de tudo o que eu fiz... de ter duvidado da integridade dela... eu nem sei se eu me perdoaria.
Grissom mudou o tom de voz, assumindo a postura de investigador, a única coisa que ainda lhe dava algum senso de controle.
— Mas tem algo mais, Cath. Algo que está me corroendo por dentro. Quando estive na casa da Heather, uma criança me disse que viu um homem matar uma pessoa e colocar o corpo no carro. Ele atirou de dentro da casa dela.
Catherine parou o que estava fazendo, os olhos arregalados. — O quê? Uma testemunha ocular?
— Uma criança, mas o relato foi vívido demais para ser imaginação — Grissom continuou, a voz sombria. — Eu achei uma cápsula lá, uma evidência que não deveria existir em um ambiente "controlado" como o dela. Eu entreguei para a Sophia e contei a história. Se a Heather está acobertando um homicídio enquanto brincava com a minha mente...
— Então ela não é apenas uma distração, Grissom. Ela é uma suspeita — Catherine completou, a mente já processando as implicações legais. — Se ela está envolvida em algo desse nível, o vídeo e o exame de fertilidade adulterados são apenas a ponta do iceberg para manter você distraído e fora do caminho dela.
— Eu fui o peão perfeito para ela — Grissom murmurou.
Catherine pegou os documentos e os lacrou. — Eu vou averiguar isso com a Sophia agora mesmo. Vou pedir uma análise balística prioritária para essa cápsula comparando com algum homicídio. Se o calibre bater com alguma arma registrada no nome do Anthony ou da própria Heather, nós derrubamos aquela casa. Acreditamos que estejam envolvidos no desaparecimento Tito Nuñes, funcionário de Sanches.
Ela olhou para Grissom, que parecia exausto. — Agora, vamos trabalhar. O laboratório é o seu santuário, Gil. Use a ciência para consertar o que a sua intuição falhou em ver.
Grissom assentiu. Ele sabia que o caminho para o perdão de Sara seria longo e, talvez, sem volta, mas ele não pararia até que cada mentira de Heather fosse exposta sob a luz negra da verdade.
A mala já estava meio arrumada no canto do quarto. Anthony não era homem de deixar para última hora quando o vento mudava de direção e o vento estava mudando rápido demais.
Ted chegou tenso, bateu duas vezes na porta e entrou antes de ser chamado.
Ted: Já sabem que o homem sumiu. Dois investigadores estiveram no cassino hoje fazendo perguntas. Sanchez está na cidade.
Anthony não parou de dobrar as roupas.
AH: Quanto tempo acha que temos?
Ted: O tempo de acharem o corpo, que espero nunca acharem.
AH: (jogou uma camisa na mala) Sara voltou para Vegas?
Ted: Hoje à tarde. Está no flat.
Anthony parou.
Ficou em silêncio por um momento com aquela expressão de quem está reorganizando um plano em tempo real.
AH: Então mudamos a abordagem. (virou para Ted) Não temos tempo para esperar divórcio, guarda definitiva, mudança para São Francisco. Nada disso. (pausou) Vamos direto ao ponto.
Ted: (a expressão fechou) O que significa direto ao ponto?
AH: Significa que Sara Sidle vale muito mais como moeda de troca do que como ex esposa morando em outra cidade. (direto, sem rodeio) Vamos sequestra-la. Pedimos o dinheiro do seguro como resgate. Sumimos antes que Sanchez nos encontre.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ted ficou olhando para Anthony como se estivesse vendo pela primeira vez quem estava do outro lado dessa parceria.
Ted: (voz baixa) Ela está grávida, Anthony.
AH: (continuou arrumando a mala) Eu sei.
Ted: Você não vai fazer mal a ela né?
Anthony jogou mais uma coisa na mala antes de responder.
AH: O marido dela não está nem aí pra ela. (encolheu os ombros) Se eu fizer algo com ela será quase um favor.
Ted: (se adiantou, colocou a mão na mala fechando) Para. (a voz tinha algo diferente, mais firme do que Anthony esperava) Por favor não faça mal a ela. Ela não tem nada a ver com isso. O bebê não tem nada a ver com isso.
Anthony olhou para a mão de Ted na mala.
Depois olhou para o rosto dele.
Avaliou por um momento.
AH: (afastou a mão com calma) Ok. (fechou a mala) Você fica responsável por ela então. Garante que ninguém se machuca e eu garanto que saímos de Vegas com o dinheiro.
Ted não pareceu aliviado. Parecia um homem percebendo que havia descido degraus demais para conseguir subir de volta.
AH: (pegou o celular, abriu um mapa) O flat dela fica na Strand Avenue. Prédio pequeno, térreo mais três andares, portaria simples. (ampliou o mapa) Ela sai cedo para o laboratório. Volta por volta das seis. (olhou para Ted) Vamos monitorar a rotina dela hoje e amanhã. Na primeira oportunidade executamos.
Ted: (sentou pesado na cadeira) E se Grissom...
AH: Grissom não está nem aí pra ela. Você mesmo me contou. (fechou o mapa) Mas teremos que ser rápidos de qualquer forma. Sanchez não vai esperar e eu não pretendo estar em Vegas quando ele resolver fazer perguntas pessoalmente.
Ted ficou olhando para o chão.
Havia começado tudo isso por quatrocentos mil dólares que pareciam fáceis.
Agora havia um homem morto no deserto, Sanchez farejando, e uma mulher grávida prestes a virar refém.
Ted: (baixinho, quase para si mesmo) Como chegamos aqui?
Anthony pegou a mala e foi para o quarto.
AH: (sem olhar para trás) Pelo dinheiro. Como sempre.
O carro estava estacionado a meia quadra com os faróis apagados.
Anthony tinha os olhos no espelho lateral. Ted olhava para o celular sem ver nada.
A janela do segundo andar do flat estava iluminada.
Sara estava em casa.
AH: (anotando algo num papel) Entra às oito no laboratório. Almoça fora às vezes. Volta entre seis e sete. (olhou para o prédio) Rotina previsível.
Ted: (sem levantar os olhos do celular) Ela está grávida, Anthony. Duas vezes te disse.
AH: E duas vezes ouvi. (ligou o carro) Amanhã voltamos. Na quinta executamos.
Saiu devagar sem chamar atenção.
A janela iluminada do segundo andar ficou para trás.
A chegada de Sara ao laboratório foi marcada por uma mistura de sentimentos. O ambiente familiar do CSI, que antes era seu refúgio, agora parecia carregado pelas tensões não resolvidas com Grissom. No entanto, o reconhecimento profissional veio de onde ela menos esperava.
Ecklie, com seu habitual tom formal, mas visivelmente impressionado, aproximou-se da bancada onde a equipe estava reunida.
— Sidle! — ele exclamou, atraindo a atenção de todos, inclusive de Grissom, que estava ao fundo analisando um relatório. — Meus parabéns pelo desempenho em Washington. O relatório que recebi do FBI foi impecável. Você elevou o nome deste laboratório.
Sara forçou um sorriso, ainda se sentindo um tanto deslocada. — Obrigada, Conrad. Foi um curso intenso.
— Tão intenso que o Xerife faz questão de celebrar — continuou Ecklie, ajeitando os óculos. — Estão todos convidados para um jantar oficial oferecido por ele em sua homenagem. É uma raridade ele abrir a agenda para um perito, sinta-se prestigiada.
Ele consultou o tablet, sem notar o desconforto de Sara com tanta exposição. — E prepare-se, sua semana está cheia. No dia seguinte ao jantar, você tem um encontro agendado com o Prefeito. Ele quer discutir as novas diretrizes de cooperação federal que você trouxe na bagagem.
Sara suspirou, sentindo o peso da responsabilidade aumentar. — E quando eu volto ao trabalho de campo, Conrad? — ela perguntou, ansiosa para trocar os holofotes pelas luzes das lanternas em uma cena de crime.
— Logo — respondeu Ecklie com um aceno curto. — Mas, por enquanto, o departamento precisa da sua imagem e do seu conhecimento. Aproveite o prestígio, você mereceu.
Do outro lado da sala, Grissom ouvia tudo em silêncio. Ele sentia um orgulho imenso da competência de Sara, mas a menção ao "prestígio" e aos encontros políticos o faziam lembrar que, enquanto ela ascendia profissionalmente e era acolhida pela cidade, ele estava afundado em uma investigação que poderia destruir sua reputação e sua conexão com ela.
Ele trocou um olhar rápido com Catherine, que apenas balançou a cabeça.
Enquanto a equipe comemorava e Greg já fazia piadas sobre qual roupa usaria no jantar do Xerife, Sara sentiu o peso do olhar de Grissom.
O burburinho no laboratório continuava, mas o espaço entre Sara e Grissom parecia ter se tornado um campo magnético. Ela viu o supervisor, geralmente tão articulado, parecendo subitamente pequeno diante daquela nova realidade de prestígio que a envolvia.
Lembrando-se da vulnerabilidade dele no flat, das lágrimas sobre o ultrassom e daquelas ligações matinais que faziam seu estômago dar voltas, Sara decidiu que o "homem de gelo" precisava de um choque térmico.
Com um sorriso enigmático, ela caminhou devagar até a bancada de Grissom, parando perto o suficiente para que ele pudesse sentir o perfume que Daniel Thorne tanto elogiara, mas que só Grissom sabia decifrar.
— O Greg está muito preocupado com a gravata dele — Sara começou, a voz baixa, num tom que só chegava aos ouvidos de Gil. — Mas eu estou mais preocupada com o transporte. O Xerife espera que a homenageada chegue em grande estilo.
Grissom levantou os olhos, cauteloso. — Tenho certeza de que o departamento pode providenciar uma viatura oficial, ou talvez o seu amigo do FBI tenha contatos com motoristas diplomáticos.
Sara soltou uma risada curta, inclinando-se levemente sobre a mesa, os olhos fixos nos dele.
— Eu não quero uma viatura oficial, Gil. E o Daniel... bom, ele não conhece os meus atalhos favoritos. Eu estava pensando em alguém que saiba dirigir com uma mão enquanto analisa a trajetória de um projétil com a outra. Alguém que conheça cada curva do meu... trajeto.
Grissom sentiu a garganta secar. O jogo tinha virado. Aquela não era a Sara ferida, era a perita no controle da cena.
— Você está me pedindo para ser seu motorista, Sidle? — ele perguntou, tentando recuperar a voz de supervisor, mas falhando miseravelmente diante do olhar dela.
— Eu estou te dando a oportunidade de ser o homem que vai abrir a porta do carro para a mulher mais importante da noite — ela murmurou, a voz carregada de uma promessa sutil. — Mas tem uma condição: nada de falar sobre besouros durante o trajeto. Eu quero que você se concentre apenas na... mecânica do movimento.
Grissom deu um meio sorriso, aquele que raramente aparecia, mas que desarmava Sara completamente.
— A mecânica do movimento é uma das minhas especialidades, Sara. Mas você sabe que eu sou um observador de detalhes. Se eu for te levar, vou ter que analisar o caimento do seu vestido com a precisão de um microscópio eletrônico.
— Considere isso um convite para uma inspeção minuciosa, Gil — ela rebateu, com um brilho desafiador. — Mas cuidado para não se perder nos detalhes e esquecer o caminho do restaurante.
— Eu nunca perco o meu norte, Sara — ele respondeu, agora com uma voz mais rouca, levantando-se e ficando a poucos centímetros dela. — Especialmente quando ele aponta exatamente para onde eu nunca deveria ter saído.
Greg, passando por perto com uma amostra, parou por um segundo e olhou para os dois.
— Ei, o clima aqui esquentou ou alguém esqueceu o bico de Bunsen ligado? — Greg brincou, quebrando a tensão.
Sara piscou para Grissom, ignorando Greg. — Esteja na minha porta às oito, Grissom. E tente não chorar se eu estiver bonita demais.
— Eu não prometo nada, Sara — ele sussurrou enquanto ela se afastava. — Algumas reações biológicas são simplesmente incontroláveis.
Sara atravessou as portas de vidro com um balanço nos quadris que não exibia há meses, deixando para trás um rastro de confiança e o silêncio atordoado da sala de descanso.
Catherine e Warrick estavam estáticos, como se tivessem acabado de processar uma cena de crime particularmente bizarra. Catherine ainda segurava sua caneca de café no ar, a meio caminho da boca, enquanto Warrick apoiava o peso do corpo na bancada, com as sobrancelhas quase encostando na linha do cabelo.
— Alguém anotou a placa desse caminhão? — Warrick foi o primeiro a quebrar o silêncio, a voz carregada de incredulidade. — Porque eu tenho quase certeza de que acabei de ver a Sara dar um "xeque-mate" no Grissom usando apenas o tom de voz.
Catherine finalmente baixou a caneca, soltando um suspiro longo e um sorriso de puro deleite.
— Aquilo não foi um xeque-mate, Rick. Aquilo foi uma demonstração de força — comentou Catherine, olhando para a porta por onde Sara saíra. — Ela o desarmou, o calibrou e o deixou em órbita. E o melhor de tudo? Ele adorou cada segundo.
Warrick virou o rosto para o fundo do laboratório, onde Grissom ainda estava parado, olhando para o vazio com uma expressão que misturava choque, admiração e uma pitada de "o que foi que aconteceu aqui?".
— Olha para ele — sussurrou Warrick, rindo baixo. — O homem que consegue identificar uma subespécie de mariposa pela asa está tentando lembrar como se respira. Acho que a Sara de Washington é perigosa para a saúde cardíaca do Gil.
— Ele merecia — sentenciou Catherine, voltando à seriedade, mas com um brilho divertido nos olhos. — Depois de toda a frieza que ele demonstrou, a Sara resolveu lembrar a ele que, embora a ciência seja a base dele, ela é a variável que ele nunca vai conseguir controlar.
Grissom finalmente se moveu, ajeitando o jaleco de forma mecânica. Ele sentiu os olhos dos amigos pesando sobre ele. Sem dizer uma palavra, ele caminhou em direção ao seu escritório, mas parou no meio do caminho, voltando-se para os dois.
— Catherine — ele chamou, a voz ainda um tom mais grave que o normal. — Onde estão os formulários de inspeção de viaturas?
— Para quê, Gil? — perguntou ela, segurando o riso.
— Para garantir que a "mecânica do movimento" esteja impecável para as oito horas — ele respondeu, com uma seriedade fingida que não enganou ninguém, antes de desaparecer corredor adentro.
Warrick balançou a cabeça, batendo no ombro de Catherine. — Sabe o que é o mais engraçado? Eles estão tecnicamente separados, em crise, no meio de um escândalo de troca de exames e com um fugitivo à solta... e mesmo assim, eles ainda são o casal mais estranhamente eficiente desse prédio.
— O amor é a única evidência que não precisa de luminol para brilhar, Rick — concluiu Catherine. — Agora vamos voltar ao trabalho. Temos uma cápsula de bala para ligar a uma certa "amiga" antes que o Grissom precise buscar a Cinderela para o baile.
O turno continuava, mas a energia do laboratório havia mudado. A contagem regressiva para as oito horas havia começado, e a cidade de Las Vegas estava prestes a ver o retorno de sua dupla de peritos mais poderosa.
O corpo tinha chegado com o relatório de campo descrevendo o estado de decomposição típico de quem passou dias no deserto de Nevada. Al Robbins trabalhou em silêncio com a eficiência de décadas, David ao lado auxiliando e catalogando.
Al: (sem tirar os olhos do trabalho) Duas perfurações. Entrada limpa, saída limpa. (ajustou a lupa) Projétil de pequeno calibre. Atirador sabia o que fazia.
David fotografou tudo sem comentar.
Al: Manda os projéteis para o Greg. (olhou para o nível de decomposição) E vai precisar de ajuda nas digitais. Chama o Nick.
David assentiu e saiu.
Nick e David tinham trabalhado em silêncio e concentração, a decomposição exigindo paciência e técnica que só vinha com anos de prática. Greg ficou com os projéteis no laboratório de balística cruzando cada detalhe.
Quando os resultados chegaram Greg ficou parado olhando para a tela por um momento.
Pegou o papel e foi direto encontrar Nick.
Foram juntos.
Grissom e Catherine estavam com arquivos espalhados pela mesa, fotos, relatórios, a teia que Catherine vinha montando nos últimos dias ganhando forma e conexões novas a cada hora.
A porta abriu.
Nick e Greg entraram lado a lado com aquela expressão específica de quem traz informação importante e sabe disso.
NS: Temos ID no corpo do deserto.
Catherine largou a caneta.
GG: Quem é?
Greg: (colocou o relatório na mesa) Tito Nuñez. Funcionário registrado nos cassinos de Sanchez há quatro anos. Desaparecido há 12 dias.
Catherine e Grissom trocaram um olhar rápido.
NS: (colocou o segundo relatório em cima do primeiro) E a bala retirada do corpo...
Greg: (terminou a frase) Bate com a cápsula recolhida na casa de Heather. Confirmação de noventa e nove ponto sete por cento.
O silêncio que se seguiu durou apenas dois segundos mas pesou muito mais.
Catherine se levantou devagar.
CW: (para Grissom, a voz controlada e direta) Temos base para mandado na casa dela.
GG: (assentiu, olhando para os relatórios) Sim. Temos.
CW: Vou fazer a solicitação em sigilo. Não quero que chegue ao ouvido errado antes de executarmos. (olhou para Nick e Greg) Isso fica entre nós quatro por enquanto.
Nick e Greg assentiram sem precisar de explicação.
Catherine começou a organizar os papéis com aquela eficiência de quem já está três passos à frente mentalmente quando parou e olhou para o relógio.
CW: (a expressão mudou levemente, ficou mais leve) Enquanto isso precisamos nos preparar para esta noite.
GG: Vou me arrumar pois tenho uma dama para buscar.
Grissom parou diante da porta do flat, ajustando a gravata borboleta pela décima vez. Ele, que já havia encarado as cenas de crime mais grotescas com uma calma glacial, sentia agora as mãos levemente úmidas. Quando a porta finalmente se abriu, o ar pareceu ser sugado para fora do corredor.
Sara estava deslumbrante. O vestido, de um corte impecável que valorizava suas curvas com uma elegância sutil, parecia ter sido esculpido nela. O cabelo e a maquiagem ressaltavam o brilho nos olhos que o curso em Washington parecia ter intensificado.
Grissom abriu a boca para dizer algo, mas as palavras, aquelas que ele geralmente dominava com precisão científica simplesmente desapareceram.
— O entomologista ficou mudo? — Sara perguntou, com um sorriso de canto, enquanto terminava de prender um brinco. — Alguma anomalia biológica que eu deva saber?
Grissom finalmente recuperou o fôlego, aproximando-se um passo, o olhar percorrendo-a com uma intensidade que fez Sara estremecer.
— Eu estava tentando catalogar a espécie de beleza que estou vendo, mas temo que a ciência ainda não tenha dado um nome para algo tão... estonteante — ele sussurrou, a voz rouca. — Se o objetivo do Xerife era que você fosse o centro das atenções, ele subestimou o efeito. Você não é o centro, Sara. Você é o eclipse.
Sara aproximou-se, ajeitando a lapela do paletó dele, deixando os dedos roçarem propositalmente no seu pescoço. — E você está perigosamente charmoso, Gil. Quase o suficiente para me fazer esquecer que ainda temos muito o que conversar depois desse jantar.
— Considere o trajeto como uma introdução ao que eu pretendo provar a você — ele rebateu, pegando a mão dela e depositando um beijo demorado na palma. — Que a minha observação sobre nós nunca foi falha, apenas... temporariamente obscurecida.
O trajeto até o local do jantar foi regado a trocas de olhares pelo retrovisor e frases ditas em tom baixo, carregadas de uma eletricidade que nenhum dos dois conseguia esconder.
Quando o carro parou diante do tapete vermelho do evento, os flashes dos fotógrafos da prefeitura começaram a disparar. Grissom deu a volta e abriu a porta para ela. No momento em que Sara saiu do carro, houve um burburinho imediato entre as autoridades presentes.
Mas Sara não olhou para os fotógrafos ou para o Xerife que a esperava nos degraus. Ela se virou para Grissom e segurou a mão dele com firmeza, entrelaçando seus dedos nos dele. Era um gesto de posse, de proteção e, acima de tudo, um sinal para todos em Vegas: eles eram uma unidade, apesar das tempestades.
— Pronta para ser a estrela da noite? — Grissom perguntou, sentindo a força do aperto dela.
— Só se você prometer não soltar a minha mão — ela respondeu, caminhando com ele em direção à entrada. — Porque, por mais que o Prefeito queira falar comigo, é o seu olhar que eu quero sentir durante o brinde.
Grissom sorriu, caminhando ao lado dela com uma postura orgulhosa. Ele sabia que muita coisa ainda pairava sobre eles, mas ali, naquele momento, sob as luzes de Las Vegas, a única evidência que importava era o calor da mão de Sara na sua.
O jantar estava prestes a começar, e enquanto o Xerife iniciava o discurso, Catherine observava o casal do outro lado do salão, pensando: "É, a verdade está vindo à tona, e ela é mais forte do que qualquer sabotagem".
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