O vento frio do cais chicoteava os cabelos de Renesmee, trazendo o cheiro salgado do mar e o estalar suave das ondas contra a madeira antiga. Ela mantinha os olhos fixos no ponto onde a escuridão se tornava quase sólida, esperando… e então ele surgiu.

O Lobo da Noite emergiu das sombras como um espectro, os movimentos silenciosos, a máscara escondendo tudo — menos aquela presença que a arrebatava. Nessie sorriu, instintiva, e deu alguns passos na direção dele.

Jacob, por trás da máscara, sentiu o coração acelerar. Uma parte dele queria ficar, mergulhar no calor do olhar dela… mas outra gritava que estava fazendo tudo errado. Ele mesmo tinha criado aquela confusão, dividindo-a entre dois homens que, no fim, eram um só. Revelar a verdade agora seria expô-la a perigos que ele jurara manter longe dela.

— Ness… — sua voz veio baixa, carregada de algo entre afeto e culpa. — Nós não podemos continuar com isso.

Ela franziu o cenho, confusa. — O que quer dizer com não podemos?

— Quer dizer que… — ele respirou fundo, como se as palavras doessem — não é seguro.

— Não é seguro… ou você não sente nada por mim? — ela desafiou, encarando-o.

O silêncio dele foi resposta suficiente, mas, ainda assim, ele falou:

— Eu sinto. É justamente esse o problema.

Renesmee deu um passo mais perto, a maré batendo contra o cais como um tambor acelerado. — Então por que fugir?

— Porque se eu ficar, você se machuca — ele respondeu, a voz embargando. — Não vou mais vir aqui. É melhor assim.

Ele se virou para ir embora, mas ela não deixou. Segurou o braço dele com força e, num impulso, aproximou-se até sentir o calor dele. Os lábios dela encontraram os dele, num beijo intenso, urgente, cheio de tudo o que não podiam dizer. Ele retribuiu, prendendo-a contra si com força, como se quisesse memorizar cada segundo antes que acabasse.

Quando se separaram, o ar parecia rarefeito. Ele tocou o rosto dela com suavidade.

— Não me procure mais, Ness… por favor.

Sem esperar resposta, desapareceu novamente na escuridão, deixando-a sozinha com o eco do mar… e o coração despedaçado.




O rugido grave da moto ecoou pelo túnel estreito até que Jacob estacionou no fundo da toca do lobo — um refúgio subterrâneo construído sob a mansão Black, oculto por paredes reforçadas e passagens secretas. O ar ali era mais frio, carregado do cheiro de óleo, couro e metal.

Ele retirou a máscara, revelando o cansaço nos olhos, e jogou-a sobre a bancada de aço.

— Então… — a voz de Henry quebrou o silêncio — a senhorita Cullen está dividida entre o senhor… e o lobo?

Jacob ergueu uma sobrancelha, num meio sorriso irônico. — Desde quando você virou fofoqueiro, Henry?

O homem mais velho apenas cruzou os braços e sorriu de canto. — Desde que conheço o senhor desde bebê. E, depois que sua família… — fez uma breve pausa, como se respeitasse a dor do passado — depois que eles se foram, vi o senhor fechar-se completamente para qualquer sentimento.

Jacob suspirou e começou a desprender as partes do uniforme, cada peça pesada com mais do que apenas metal e tecido.

— É a primeira vez que o vejo apaixonado, Jacob — Henry completou, sem desviar o olhar.

— Apaixonado? — Jacob soltou um riso curto, sem humor. — Eu só sinto que estou enganando ela…

— Enganando? — Henry inclinou a cabeça. — Senhorita Cullen é inteligente. Forte. Por quanto tempo acha que vai esconder quem é de verdade? Talvez se contasse…

— Isso está fora de cogitação — Jacob cortou, a voz mais baixa e firme, deixando claro que não havia espaço para discussão.

Henry o observou por um momento, mas não insistiu. Apenas deu de ombros, como quem sabia que a verdade tinha prazo de validade… e que ele não seria o único a perceber isso.



Na manhã seguinte, a luz suave do sol entrava pela janela da sala quando Renesmee desceu as escadas, ainda ajeitando o cabelo preso de forma apressada. Ao entrar, encontrou seu avô Charlie sentado no sofá, conversando em tom baixo com Henry.

— Bom dia… — ela disse, um pouco surpresa com a visita.

Charlie levantou o olhar sério, mas suavizou a expressão ao vê-la. — Bom dia, Nessie. Precisamos conversar.

Ela assentiu e se sentou ao lado dele, cruzando as pernas no sofá.

— Eu ando preocupado com essa… aproximação sua com o tal Lobo da Noite — ele começou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Sam Uley e a equipe dele estão investigando o sujeito. Não quero que a polícia ligue você a ele. Pode ser um criminoso, Renesmee.

Nessie suspirou, desviando o olhar para o tapete. — Não existe ligação, vô. Eu apenas fiz meu trabalho como repórter.

— Mesmo assim… — Charlie estreitou os olhos. — Quero que me prometa que vai se afastar desse justiceiro.

As palavras a atingiram com um peso amargo. A lembrança da noite anterior veio como um golpe — o Lobo dizendo que não a procuraria mais, desaparecendo nas sombras e deixando seu coração despedaçado.

Ela forçou um sorriso leve, tentando não transparecer. — Eu prometo, vô.

Charlie pareceu aliviado, tocando de leve a mão dela antes de se levantar para continuar a conversa com Henry, enquanto Nessie se recostava no sofá, sentindo que aquela promessa já estava quebrada antes mesmo de ser feita.



Renesmee mal percebia o tempo passar. Desde cedo estava afundada no trabalho, digitando sem parar, revisando frases e buscando dados para a matéria sobre o aumento da criminalidade em Seattle. Não havia saído nem para almoçar.

A certa altura, seus olhos caíram sobre duas capas expostas na prateleira lateral de seu escritório improvisado: uma com Jacob Black, imponente e carismático, e outra com o misterioso Lobo da Noite, a máscara e a silhueta escondendo o que ela já sabia ser… algo muito mais próximo dela do que deveria.

Com um suspiro, largou o jornal sobre a mesa e forçou os olhos de volta à tela, mas a mente teimava em vagar.

— Boo! — a voz de Paul surgiu atrás dela, quase fazendo-a derrubar o mouse.

— Paul! — ela reclamou, levando a mão ao peito.

Atrás dele, Embry soltava uma gargalhada nada discreta. — Cara, sua cara valeu a pena.

Paul apoiou o ombro no batente da porta. — Você passou o dia aqui, sabia? O jornal vai fechar em uma hora.

Renesmee piscou algumas vezes, surpresa, e olhou para o relógio no canto da tela. Ele tinha razão — o dia havia desaparecido sem que ela notasse.

Nesse momento, Claire apareceu, segurando um copo de cappuccino fumegante. Colocou-o sobre a mesa de Nessie com um sorriso suave. — Aqui, você precisa disso.

— Obrigada, Claire… — Renesmee envolveu o copo quente com as mãos.

A amiga se inclinou um pouco. — Você tá bem?

Renesmee tentou sorrir, mas seus olhos carregavam aquela mesma inquietação que vinha tentando enterrar desde a noite anterior.


Renesmee deu um gole no cappuccino e forçou um sorriso.

— Eu tô bem, Claire. Só… cansada. — E desviou o olhar para o computador, como se quisesse encerrar o assunto.

Paul, que ainda estava encostado na porta, bateu palmas uma vez. — Ótimo, porque já que você, Claire e Embry estão aqui, podem me ajudar a organizar o andar de materiais.

Renesmee arqueou uma sobrancelha. — Andar de materiais?

— Sim, aquele depósito no segundo andar — explicou Paul. — Quil pediu pra deixar tudo pronto antes da auditoria.

Renesmee suspirou, mas acabou assentindo. — Tudo bem. Não tô muito afim de ir pra casa ouvir as lamentações políticas do meu pai mesmo.

— Ótimo, então vamos — disse Paul, já pegando uma caixa.

Subiram juntos, e o “andar de materiais” realmente parecia ter passado por um furacão. Caixas abertas, pilhas de jornais velhos, cartazes promocionais e até manequins de vitrines improvisadas estavam amontoados pelos cantos.

Começaram a organizar a bagunça: Renesmee empilhava jornais, Claire etiquetava caixas, e Embry guardava materiais de fotografia.

Foi então que Claire franziu o nariz. — Espera… vocês estão sentindo isso?

Renesmee parou e olhou para ela. — O quê?

— Cheiro de queimado — respondeu Claire, já se virando em direção à porta.

Paul e Embry trocaram um olhar rápido.

— Vou dar uma olhada lá embaixo — disse Embry, saindo às pressas, com Paul logo atrás.

Quando chegaram à sala principal, o choque foi imediato: chamas se espalhavam rapidamente pela lateral do prédio, engolindo móveis e papéis, iluminando tudo com um laranja intenso. O calor era sufocante.

— Droga! — gritou Embry, levando o braço ao rosto para se proteger da fumaça. — Paul! Vai lá em cima e tira as meninas de lá, agora!

Paul não pensou duas vezes e correu de volta para o segundo andar.