Notas iniciais
A relação do Tony e da Sofya foi de muito interesse pra mim nesse capítulo. Quero dizer, o relacionamento deles sempre teve um foco muito grande, tanto na antiga versão quando nessa, mas agora tudo está mais detalhado, bem mais escrito e com cenas a mais que me deixam muito orgulhosa do caminho que NS está traçando. Obrigado se você chegou até aqui e obrigada se você está relendo meu livrinho. Hahaha. Dá trabalho, mas vale a pena no final. Beijos a todos e boa leitura

HÁ DIAS EM que eu desejo poder esquecer certas memórias e deixar somente os bons momentos, sabe, aqueles para eu rir sozinha com algo bobo sobre o meu passado. Hoje não é muito fácil sorrir quando tudo sobre minha vida de antes remete a presença da minha mãe. A saudade ainda dói tão intensamente no meu peito que eu até mesmo sinto falta de ar. Perder alguém que você ama não é fácil. Às vezes você está bem, mas também tem aqueles dias que você acorda com o coração doendo de saudade.

E foi assim que eu acordei hoje.

Às quatro da madrugada de uma segunda-feira que deveria ter tudo para ser, pelo menos, um dia tolerável. Visto que seria também meu primeiro dia de aula na Universidade NYC.

Como se me sentir melancólica já não bastasse, eu também estava bem assustada com a ideia de chegar a um lugar em que não conheço quase ninguém e onde eu sabia que estariam sob o escrutínio de todos. Era o preço de carregar o sobrenome Stark, entendi depois desses meses. Sei que também não faz muito sentido eu estar tão nervosa, tipo: fugir de uma agência secreta? Bobagem. Ser sequestrada? Fichinha. Primeiro dia de aula? Um terror.

Não faz sentido, eu sei, mas eu sou confusa por natureza, então não fique tentando entender o que se passa na minha mente. Honestamente, sempre tive dificuldade em me socializar. As únicas amizades que tive foi por causa de um acidente que quase me matou. Poisé... Quando era mais nova mudava muito de lugar, pois quando minha mãe era chamada para outra cidade ela ia. Tinha que ir por causa do trabalho. E até os meus dez anos de idade, eu morava em um quarto de hotel pelas mudanças constantes que quase nunca permitia a gente de ter uma casa fixa, uma escola fixa. Nada fixo. Ai você junta isso, com o fato de eu ter que ser novata em uma escola nova por, pelo menos, duas vezes ao ano e a mistura não vai ser muito boa. E então tinha a triste história da minha infância: eu tinha por volta dos sete anos quando notei que meus colegas não acompanhavam a mesma linha de raciocínio que eu. Eles também viram isso. E todo mundo sabe como crianças podem ser cruéis, então eles começaram a me isolar. Foi muito mais difícil pra mim na época do que seria hoje, já que é bem mais fácil não me importar tanto com o que as pessoas pensam a meu respeito.

E sim, às vezes tenho minhas recaídas, mas o que posso fazer, não é mesmo?

É impossível acertar sempre.

Mas talvez, e só talvez mesmo, eu tenha ficado com uma pequena sequela de uma infância um tanto conturbada e isso esteja me deixando mais ansiosa do que deveria.

— Não tem porque eu ficar assim — murmurei ao revirar meus olhos e respirei profundamente.

Voltei minha atenção a tela do meu MacBook. Vagas de emprego. A maioria dessas vagas precisa de ensino superior completo e eu tinha acabado de destrancar o curso, então estava mandando meu currículo para estágios, de preferência, remunerado. Esperava que desse certo, eu estava precisando de alguma independência. Cresci aprendendo a ser assim. Minha mãe fazia questão de me ensinar tudo que eu deveria saber sobre me virar. Ela até mesmo me deixava com um de seus cartões para casos de emergência.

Aos meus treze anos, eu cheguei a trabalhar numa lanchonete mentindo sobre minha idade e entregando uma falsa identidade dizendo ter dezesseis anos. Não me pergunte como o dono acreditou em mim. Mas minha mãe ficou surpresa e furiosa quando descobriu que eu sabia como falsificar documentos. Não sei se ela queria me parabenizar pela engenhosidade ou bater. Fiquei de castigo por mais de dois meses. E ainda perdi o emprego.

— Foda — pensei em voz alta.

— Por favor, não me diga que você tem um amigo imaginário — a voz de Tony me deixou sobressaltada, eu dei um pulinho de susto com o coração acelerado.

— Merda! Quer me matar? — resmunguei com a mão no peito. Tony caiu no sofá bem ao meu lado, rindo fraco e bebendo o leite direto da garrafa. Pepper o mataria se visse ele fazendo isso — E amigo imaginário é coisa do capeta. Nunca assistiu Supernatural?

— Não.

Oi?

— Tá brincando, né? — virei e o olhei, agora pasma pasma.

Ele ergueu uma sobrancelha ao assistir minha expressão exageradamente desacreditada.

— O que? Eu prefiro viajar pelo mundo do que ver o mundo através de uma tela — retrucou e apontou meu computador.

Fiz careta, por que porra, tá. Ele meio que deu uma boa razão, masss...

Inclinei a cabeça pro lado e bufei:

— Você tem um ponto válido — admiti a contragosto e Tony sorriu todo metido — Mas estamos falando de Supernatural! A melhor série de todos os tempos! E nenhum argumento no mundo vai te safar contra esse crime horrendo, senhor Stark — arregalei os olhos enquanto falava. Ele riu do meu drama, resmungando um "aham" sem me dar muito credito, enquanto espiava a tela do meu aparelho. Tão intrometido — Quer saber? Vamos assistir isso agora, e eu me voluntário a ver tudo do começo pelo bem maior — disse e minimizei a tela.

— Por que cê tá procurando emprego? — é claro que ele tinha visto. Pensei e virei meus olhos.

— Independência financeira — respondi num murmúrio e dei um sorriso de canto.

— Alguém já te disse que você tem sérios problemas de aceitação? Seu pai é bilionário! — ele acenou para si mesmo e eu bufei, de novo — Vou começar a te dar uma mesada. Quanto você quer? Vou fazer um cheque.

— Tony, por favor...

— Melhor! Jarvis, faça uma transferência...

— Stark, para — arregalei meus olhos e tapei sua boca, vendo suas sobrancelhas franzidas. Ele resmungou, mas a voz saiu abafada. Eu tirei minha mão e suspirei — Eu quero trabalhar. Não é apenas pela grana... — parei e pensei — Quero dizer, é... Mas é também por mim. Gosto da ideia de conquistar e ter minha própria renda. Queria muito que você respeitasse isso — pedi com seriedade, abandonando as brincadeiras e falando muito sério.

Stark me olhou. Olhou. E olhou. Ficamos encarando um ao outro em espera pela sua resposta, até que ele por fim assentiu. E eu respirei fundo com um sorriso pequeno.

— Você sabe, a Stark tem um dos melhores programas para jovens que estão entrando no ramo da tecnologia — Tony disse de um jeito tão profissional que até me fez achar graça e sorrir — Se eu te abrisse uma oportunidade, seu orgulho te permitiria aceitar? — e então ele sorriu cheio do sarcasmo, me fazendo fechar o meu sorriso e olhar feio pra ele.

— Não sou orgulhosa — neguei na hora e cruzei os braços.

— É claro que não, anjinho — concordou de um jeito tão inocente que qualquer um a milhas de distância poderia farejar seu deboche. Ele é tão irritante, cara.

De quem você acha que puxou essa personalidade estonteante? Meu subconsciente me lembrou e eu me indignei com a forma como minha própria mente estava contra mim.

Cala a boca. Rebati.

Juro que não sou louca.

Insuportável — revirei meus olhos ao resmungar e para provar que ele estava errado, emendei: — E eu aceitaria sim!

— É mesmo? — disse satisfeito e eu resisti a vontade de me bater por cair nessa merda de psicologia reversa — Isso é bom, por que...

— Espera, espera, espera — eu o interrompi, afobada. Stark parou franzindo ambas as sobrancelhas — Eu não disse minhas condições — ergui um dedo a riste para enfatizar. Tony virou os olhos como se fosse me ignorar, mas esperou eu falar — Primeiro que eu não quero nenhum favoritismo por ser sua filha.

— Eu poderia te prometer isso — Tony disse de uma vez — Mas então eu estaria mentindo.

Franzi minha testa de forma tão forte que senti uma pontada na cabeça.

É, talvez eu estivesse sendo muito ingênua ao pensar que trabalhar na Stark não teria esses tipos de problemas. A própria Pepper disse que depois que seu relacionamento com Tony veio a tona, muitas das suas relações com os funcionários e sócios da empresa mudou. Foi inevitável. Ela disse. Não são todos, mas muitos pensam que podem crescer se aproximando de mim. Me incomoda sim que as pessoas venham me tratar diferente só pra estar bem com o chefe. Para mim, seria melhor que nem falasse comigo. E agora eu já tinha dito que aceitaria. Claro que eu poderia simplesmente voltar atrás na minha palavra e dizer que não queria mais trabalhar lá, mas senti um incomodo muito grande ao pensar nessa ideia. Orgulho. Me recusei em reconhecer esse sentimento.

— Eu deveria saber — dei ombros, voltando os olhos para a tela do meu aparelho — Eu vou falar com a Pepper sobre o programa. Eu já li sobre isso. Vocês investem em cursos, moradia para aqueles que vem de longe e outros benefícios. É muito legal — disse, dando um olhada de esguelha nele.

— Na verdade, eu tenho uma coisa em mente.

— O quê? — ele tinha toda minha atenção a partir do momento que eu senti um tom estranho na sua voz. Anthony tinha o olhar na tela do Mac também, mas me encarou assim que eu virei.

— Conhece Bruce Banner?

Imediatamente, uma imagem do monstro verde que protegeu os cidadãos de New York, durante o ataque daquele cara muito louco que usava chifres, me veio a mente.

— Pessoalmente? Claro que não — balancei a cabeça, sentindo um claro sentimento de fã começar a se apossar do meu corpo — Mas já ouvi falar. Acho que tudo mundo sabe dele — disse mais animada — Ele vira esse super monstro verde. É muito maneiro, mas acho que ficaria com medo se visse pessoalmente — Tony sorriu pra mim com um olhar ainda mais estranho — O que cê tá aprontando, Stark?

— Nada demais — ele pareceu inocente, mas não acreditei muito — Só que eu soube que ele estava precisando de um assistente — ele faz uma pausa, me analisando antes de sorrir — O que você acha de trabalhar para um vingador?

O que eu acho!?

Me movi até estar totalmente de frente com Tony, agora mil vezes mais agitada.

— Tá falando sério? — o indaguei, sem crer no que tava ouvindo.

— Muito.

— Aí meu Deus! — respirei fundo pra me acalmar, mas acho que não consegui muito não — Isso é muito legal. O cara é um gênio, seria demais trabalhar com ele, Tony.

Stark se fez de ofendido enquanto eu continuava a elogiar a mente brilhante do homem que se transforma no Hulk. Claro que eu nem liguei de tão animada que fiquei, e ele acabou entrando na minha onda. Depois de conversarmos mais e dele combinar de sentar comigo pra me apresentar ao doutor Banner, a gente assistiu três episódios seguidos de Supernatural. E Tony ficou fingindo que não, mas eu sei que ele gostou da série. Claro que ele também não admitiu que tomou uns sustinhos. Depois eu sou a orgulhosa.

O sol nasceu conosco ali presos pelos irmãos Winchester, tanto que eu tive que correr pra me arrumar para o meu primeiro dia de aula.

Depois de pronta e arrumada, foi que o nervosismo decidiu voltar e dar o ar da graça fazendo meu estômago revirar como louco. Droga! Mais cedo na sala eu tava bem, mas é só lembrar que eu vou estar cercada por uma multidão de desconhecidos que meu instinto anti-social vem a tona.

Respirei fundo.

Tentei parecer que não, mas quando juntei-me a Anthony e Pepper no café da manhã, eu sabia que estava estampado no rosto o meu desespero.

Depois de deixar a minha bolsa na sala, eu sentei no meu lugar de sempre, desejando um bom dia ao casal que conversava antes de eu chegar.

— Bom dia — disseram em uníssono enquanto eu desejava do fundo do coração que fosse mesmo um bom dia.

Mesmo ansiosa, estou feliz por iniciar essa nova etapa na minha vida. Sempre gostei de estudar. Adoro aprender algo novo, obter mais conhecimento e esse foi um dos motivos que me levou a estar aqui hoje.

Observando minha apreensão, Pepper diz numa tentativa de me acalmar: — Vai dar tudo certo, não precisa ficar nervosa.

Dou um sorriso que eu acredito que seja animado, torcendo para que ele não pareça tão forçado como eu acho que está. A ideia de ter meu medo estampado no rosto não me agrada. Eu tinha me acostumado a deixar minhas emoções escondidas e saber que tô tão transparente me deixa ainda mais apreensiva.

— Não estou — menti descaradamente.

Agora é oficial mesmo.

Estou de volta aos estudos e na Universidade de Nova York.

Após passar todo o fim de semana empenhada em descobrir quem era a pessoa disposta a ter armas Stark em mãos, eu acabei tão distraída que só fui lembrar na noite anterior — o que foi a causa da minha insônia — que eu teria aula hoje.

O tempo passou tão rápido que em primeiro momento eu fiquei — e tenho de admitir pelo menos pra mim — aterrorizada. Como eu disse, poucas coisas me assustam, mas escola era uma delas. Faz tanto tempo que não piso em um ambiente tão cheio de gente da minha idade. Tudo que me vem a mente é aquele monte de alunos amontoados, andando pelos corredores falando da vida dos outros, cada um em seus círculos de amizades e, enfim... É, eu acho que adquiri mesmo um pouco de trauma de quando era criança.

Claro, qualquer um em meu lugar gostaria de receber um incentivo para, no mínimo, sentir-se parcialmente mais calmo. Entretanto, com minha vida tão fora dos padrões, incentivos foi o que menos recebi:

— Pela sua cara, parece que está sendo levada a forca — Tony comentou, e tenho certeza de que vi certo brilho maldoso no olhar dele.

Como ele consegue ser tão legal em um momento, e irritante em outro?

Como eu disse, é sempre bom receber palavras encorajadoras como essa.

Sentiram a ironia, não é?

Como em todas as vezes que Tony Stark apronta, Pepper briga com ele como uma mãe chamando a atenção do filho. Crianção.

— Tony! — Pepper lançou um olhar matador na direção do homem.

— O que? — ele encarou sua namorada com um sorrisinho, tentando tragicamente parecer inocente — Mas parece.

Abri o maior sorriso falso já visto na face da terra:

— Muito obrigada, apoio é essencial na vida de um jovem — meu pai sorriu de volta, claramente se divertindo com a situação.

— De nada, querida. É um prazer ajudá-la — respondeu solícito.

Reviro os olhos:

— Idiota — murmurei baixinho, mas alto o suficiente para ele ouvir.

— Chata — ele sussurra de volta.

E lá vamos nós...

— Besta — eu disse mais alto.

— Irritante — Tony cantarola.

— Arrogante! — eu exclamei, semicerrando os olhos em sua direção.

— Patricin...

Sim, eu sei. Nem parece aquelas duas pessoas de hoje de madrugada.

Era assim que se resumia nossas brigas.

Juro que eu não tenho culpa. Meu pai, sim, é o culpado de iniciar todas as nossas discussões, sem... Perai, ele ia me chamar de patricinha?

— Gente...

— Você ia me chamar de patricinha? — se olhar matasse, ele estaria esticadinho no chão mortinho da Silva.

Tony riu, achando tudo muito engraçado.

— Chega, vocês dois! — o tom cortante na voz de Pepper me fez parar de imaginar mil e uma maneiras de enforcar Tony, e sair como vítima.

— Eu não fiz nada — eu disse.

— Foi ela quem começou — Tony se defende no mesmo instante que eu, ou melhor, me acusa.

— Eu comecei? — arregalei meus olhos — Para de ser mentiroso! — apontei dedo em sua direção. Ele continuou a sorrir.

— Humpf, eu realmente não sei como aguento vocês.

— Ei! — reclamei, indignada.

Afinal, eu sou um anjo.

— Você não tem que estar na escola às sete horas? — perguntou Pepper, ignorando minha indignação.

— Não é escola, Pepper. E sim, tenho que estar esse horário aí — confirmei e dei uma mordida numa torrada.

— Bom... então é melhor se apressar, já são seis quinze.

A ruiva mal termina de falar e eu estou saindo em alta velocidade, enfiando o restante da torrada na boca enquanto corro até meu quarto para escovar os dentes, pegar minha bolsa e documentos.

Sempre atrasada, né! Não importa o horário que eu acorde.

Dentro do elevador, lembrei-me de quando me atrasava pra escola, mamãe odiava quando eu corria pela casa, principalmente, quando descia as escadas assim.

Eu estava atrasada, e não me importava nem um pouco.

SOFYA!

Ouvi o grito da mamãe do andar de baixo, e fui até ela.

Aqui! me ponho ao seu lado batendo continência, um sorriso malandro querendo aparecer.

Mamãe respira fundo.

Você está atrasada, mocinha. E quantas vezes já te falei para não descer as escadas correndo, hein?

Um milhão de vezes? sorri sapeca.

Na época, eu tinha apenas 7 anos e já deixava minha mãe de cabelo em pé. Não me surpreenderia se ela tivesse cabelos brancos ameaçado aparecer.

Ela bufou: Vai pegar sua mochila e escovar os dentes mandou e eu fiz biquinho.

Mas pra quê? ergui as mãos ao alto, fazendo manha.

Escola, mocinha. Você sabe disso, Sofya. Agora anda. E não corre na escada.

Mas mamãe, não vai dar mais tempo.

Minha mãe ainda não entendia o porquê deu não querer ir a escola, sempre me mostrei uma menina inteligente e me interessei pelos estudos desde cedo. Então o fato de eu fazer de tudo para fugir da escola era algo que ela não compreendia.

Querida, você sabe que tem que estudar, não é? ela passou a mão em meu rosto carinhosamente, a voz suavizando.

Mas meus colegas são muito burros, não suporto eles minha eu antiga bufou e cruzou os braços, malcriada.

Você não pode falar isso dos seus amiguinhos, querida. E muito menos bufar pra mim mamãe brigou.

Desculpa, mamãe.

Um tempo mais tarde, ela descobriu o problema. Eu era muito mais avançada do que meus colegas de turma, e já sabia tudo o que eles ainda estavam aprendendo. A escola teve que me adiantar um ano e mesmo assim eu avancei rápido demais. Também teve o problema de eu não me entrosar com as crianças mais velhas. Mesmo diante de todas estas preocupações, eu não pude fugir do bullying que sofri quando criança.

Vamos fazer assim... ela propôs para o meu eu criança emburrado Hoje você fica, mas amanhã quero você arrumada cedinho para ir à escola.

ISSO! ISSO!eu gritava enquanto dona Lígia ria de mim Podemos tomar sorvete e passear no parquinho? pedi com cara fofa e as mãos juntas a frente do rosto.

Só por que hoje eu tô boazinha ela apertou meu nariz de leve, então se ergueu de seu lugar abaixada no chão Vai escovar os dentes pra gente sair.

Eu balancei a cabeça, concordando com um sorrisão feliz.

TE AMO MAMÃE! saí gritando pela casa, enquanto subia a escada correndo.

NÃO SOBE A ESCADA CORREN... não ouvi mais nada.

Já estava dentro do quarto correndo para o banheiro, com pressa de me arrumar e sair logo.

Ri baixinho com a lembrança e entrei em meu quarto.

Arrumava meus documentos, enquanto mais lembranças assolavam minha mente. A risada da mamãe, seus conselhos, sua voz suave quando cantava para mim dormir, seu jeito carinhoso de me consolar quando eu voltava chorando da escola. Eu deveria estar correndo para meu primeiro dia de aula, mas em vez disso, eu abri uma gaveta da minha cômoda e tirei de lá uma foto da minha mãe.

Deus, ela era tão linda. Sério, os anos nunca pareceu afetar Lígia Denova.

— Queria que estivesse aqui, mãe — murmurei com um suspiro pesado e uma dor conhecida na garganta, sinal que eu prendia o choro. Era sempre assim que eu me sentia quando me lembrava dela. Sempre aquele aperto no peito, a dor e a culpa.

— Ela pode até não estar aqui, mas tenho certeza que se estivesse, estaria orgulhosa de você. Assim como eu estou — levei um susto com a súbita fala de Tony. Ele está encostado na soleira da porta do meu quarto e mesmo de lá, tenho certeza que poderia ver a foto que eu segurava.

Tony nunca falou da minha mãe. Sobre como eles se conheceram. Quero dizer, eu sabia por alto por causa da carta que recebi, mas gostaria de saber a versão dele. Não sei como ele se sentiria falando sobre ela comigo. Nem ao menos sei como ele se sentia em relação a ela. Talvez ele nem se lembre.

Acenei com a cabeça e evitei seu olhar. Eu não tenho tanta certeza assim. Tony fica em silêncio por tanto tempo que chego a pensar que foi embora, mas então ouço seus passos se aproximando e ergo o rosto para o encarar quando sinto a cama afundar bem ao meu lado. Tony passa a mão no meu cabelo e tira uma mexa do meu rosto. Um gesto simples, mas que me deixa mais calma. Eu gostava de estar perto de Tony. Se tem uma coisa que amo, é que sejam carinhosos comigo. Eu posso ser sarcástica, posso brincar e até mesmo te dar um coice de palavras se me irritar, mas sou carinhosa com as pessoas que amo. E gosto que sejam comigo também.

— Só passei pra te desejar uma boa aula — ele disse ao me abraçar — Vai lá e arrasa, garota — levanto um rosto para sorrir largo e Tony sorri de volta.

— Obrigado.

— Hm, também tenho que me desculpar pelo ocorrido no café: ordens da Pepper. Ela ameaçou me expulsar do meu próprio quarto — dessa vez eu dou risada mesmo, revirando os olhos durante o processo.

— Claro que tem dedo dela nisso. Você nunca pediria desculpas por me provocar — comentei, sorrindo — Acho muito bem feito você dormir no sofá hoje!

— Acha que eu não venho te perturbar? Se eu não dormir no meu quarto, você também não dorme no seu — me ameaçou e eu desacreditei da sua palavra com o meu típico deboche.

Ergui o braço para ver a hora e vi que faltava meia hora para as sete. Levantei e quando fui guardar a foto na gaveta, pensei seriamente em perguntar a Tony. Indagar a ele sobre como era Lígia Denova naquela época. Entretanto, desisti segundos depois. Fechei a gaveta como se encerrasse um assunto que somente eu sabia, determinada a não mexer com o passado. Afinal, ele não poderia ser modificado, então por que ficar pensando, não é mesmo?

— Happy vai estar te esperando lá em baixo — Anthony me avisou, afagando meu braço e se afastando — Mostra pra todo mundo de quem é filha — disse em uma piscadela.

— Nem vou precisar fazer esforço para isso — comentei, imaginando como seria a reação das pessoas somente de ouvir o nome Stark — Tenho que ir — murmurei apressada.

— Corre Forest, corre! — acabei rindo enquanto me apressava pelo corredor, ouvido a risada de Tony ecoar também.

Caminho em direção ao lado oposto a ele, num tic irritante de levantar o braço para ver a todo momento o horário no meu relógio. Seis e trinta e cinco.

Dou uma corridinha até o elevador, mas no meio do caminho lembrei que não havia escovado os dentes.

— Merda! — praguejei e dei meia volta.

***

Era sete horas em ponto quando o carro parou em frente a Universidade.

— Quer que eu lhe acompanhe, Sofya? — Happy, quem estava atrás do volante, perguntou.

— Precisa não, Happy. Valeu por me trazer — sorri em agradecimento. Eu não estava com cabeça para dirigir e gostava da companhia do motorista. Ele também pareceu não se importar de me levar quando perguntei ontem, então tudo bem.

— Às ordens! — ergueu a mão no ar e fizemos um toquinho todo errado e sem coordenação nenhuma.

Rindo, eu desci do carro e acenei para ele. Assisti o mesmo manobrar o carro e voltar para a estrada depois que eu passei pelos portões. Quando o enorme campus da universidade me recebeu, cheio de gente andando de um lado ao outro, foi que eu senti o nervosismo voltar a fazer meu estômago embrulhar.

— Calma, calma... — disse a mim mesma.

Respirei fundo enquanto atravessava o campus, felizmente, passando despercebida pelas pessoas. Observei os alunos conversarem sentados em bancos ou na grama mesmo. Comendo, outros com um livro em mãos estudando. Ao chegar a secretaria, eu andei até o balcão para pegar meus horários.

— Bom dia — uma garota um pouco mais velha do que eu, loira e de aparência desinteressada, desejou mecanicamente.

— Bom dia — respondi, não muito afetada por sua indiferença. Acho que eu quase poderia sentir empatia por ela: ter que ficar o dia inteiro ali sentada, sem nada pra fazer além de atender outras pessoas que nem sempre deve ter tratado ela bem — Vim pegar meus horários — minha voz sai calma e eu me parabenizei por tal ação.

Conforme o tempo passava, mais no controle eu me sentia. Minha mente pensava em mil e uma maneiras de eu passar esse dia sem imprevistos, e de contornar qualquer situação desconfortável caso acabasse em uma.

— Ah tá, caloura — comentou mascando chiclete de forma bem nojenta. Evitei fazer careta — Nome completo, por favor.

Suspirei profundamente. E lá vem...

— Sofya Katherine Denova Stark — como o esperado, a garota arregalou os olhos ao ouvir meu último nome.

Se pudesse, eu evitaria esse tipo de situação. Entretanto, no momento é impossível já que é preciso dizer meu nome completo. A loira se ajeitou na cadeira e tomou uma postura ereta, como se estivesse diante da porra da rainha da Inglaterra. Parou, né? Ela jogou o chiclete que mastigava em algum lugar embaixo do balcão, lugar esse que eu nem quero imaginar. Argh.

— É um prazer recebê-la em nossa instituição, senhorita Stark — o sorriso plastificado nasceu em seu rosto. Quase bufei, porém entrei no meu papel e segui o roteiro, dando-lhe um sorriso sem humor. Ela capturou alguns papéis toda desajeitada e os colocou em minha frente — Por favor, assine aqui — aponta para uma linha em branco, leio o documento rapidamente e assino em seguida — E aqui — me mostrou outro ponto na folha e eu repeti o processo anterior.

Após assinados eu peguei meus horários, materiais e a chave do meu armário.

Minha primeira aula seria de Álgebra Linear seguida de Física I e Cálculo II.

Juro que não é exagero quando digo que leva quase mil anos até encontrar meu armário, mais mil para arrumar minhas coisas e outros mil para finalmente encontrar minha sala. Aquele lugar é grande demais, cara. Sabe o pior nessa demora? Todos já estarem em suas respectivas salas, e eu ter que bater e passar pela entrada sentindo aquela vergonha dos infernos que é ser observada por todos.

Bati na porta e abri, percebendo que ela estava encostada. O professor que escrevia algo na lousa parou e olhou para o responsável de atrapalhar sua aula. Eu.

— Licença — peço com receio. Estava esperando um professor rígido, que não aceitasse nem um segundo de atraso em sua aula. Andei até ele, não deixando o nervosismo transparecer.

Meus passos são contados na minha mente. Um passo a frente do outro. Um, dois, três, quatro... O queixo erguido. Sei que meu jeito aparenta arrogância, minha própria expressão deve talvez transparecer tal sentimento. Tenho também uma breve noção dos olhos dos outros sobre mim. Para eles eu provavelmente devo parecer apenas mais uma garota mimadinha que tem tudo o que quer. No entanto, acredite quando eu digo que se eu fosse tímida e recatada, poderia sofrer mais para frente. As pessoas podem ser cruéis e gananciosas, e eu já sou muito bem vacinada a tipo de gente como essa. Esse é o porquê de toda essa atitude um tanto prepotente. Gosto de segurança ainda que com isso, eu tenha que criar um muro me separando dos outros.

A sala permanece em silêncio. Eu sinto minha pele queimar com toda a atenção. Me senti intimidada? Claro, mas fingi que não. Sou boa em fingir. O tempo pareceu se arrastar até eu finalmente chegar e deixar meus documentos sobre a mesa do professor. Ele imediatamente, os pegou e leu para em seguida me lançar um olhar surpreso.

— Sofya Stark — obrigado por me explanar, cara.

Alguém pode me tirar uma dúvida colossal e que me incomoda desde quando Tony apareceu em minha vida? Porque as pessoas sempre pulam meu nome do meio? Sério, o que há de errado com o Denova?

Saco.

— É — confirmo de forma vaga.

— Pois bem — o professor sorri — Mr Fitz, a seu dispor. Pode se sentar e fique a vontade. Após nosso período de aula, eu te devolvo esses documentos — sem devolver o sorriso, virei-me e andei até uma cadeira vaga, próxima à janela. Mesmo no devido lugar, eu ainda podia sentir os olhares das pessoas em mim.

Isso que dá ser filha do meu pai.

CE