Dois meses para a explosão do

acelerador de partículas

EU TINHA CERTEZA que havia levado um soco no rosto.

E a prova disto é a dor forte em minha bochecha direita. Soltei um gemido um tanto sonolento e com relutância abri meus olhos. Procurei a volta o motivo de ter me acordado. Como se eu fosse encontrar Alina Sykes bem na minha frente. Contudo, apenas encontrei minha mãe olhando fixamente para a estrada. Um copo descartável de café balançando no painel do carro sem nunca cair.

Apesar dos olhos vermelhos, percebo que ela está mais desperta que nunca. Efeito da cafeína, acho.

Coloquei a mão no rosto dolorido e fiz uma careta. Que doideira, à um instante atrás eu discutia com Alina nos corredores da minha antiga escola e agora eu estou no carro, olhando o painel e pensando. Definitivamente, eu tenho sonhos reais demais.

Voltando a parte em que minha bochecha está doendo, eu finalmente descobri que a dor foi causada por um solavanco do carro. Resumindo: eu caí de cara no vidro da janela. O karma é uma merda mesmo. Que minha mãe nunca ouça eu falando merda, que segundo ela é um palavrão.

— Já chegamo? — resmunguei sonolenta e soltei um bocejo enquanto esticava as pernas.

Minha mãe me olhou de relance, sorrindo minimamente. O cansaço era visível no seu olhar.

— Hey, bom dia pra você também — ela disse com ironia. Depois reclamava quando eu era irônica, mas aprendi isso com ela.

— Mamãe — resmunguei.

Dona Lígia riu e tirou uma das mãos do volante, agarrando o copo anexado no painel e tomando um gole de seu café.

— Estamos quase lá, bebê, só mais alguns quilômetros até Central City. Umas meia hora de estrada ainda.

Soltei um gemido doloroso.

— Ainda? — mamãe se limitou em dar de ombros — Por que mesmo que estamos nos mudando? — perguntei novamente e suspirei pelo que parecia ser a milionésima vez.

A mesma pergunta que venho feito desde que recebi a gloriosa notícia. Esperei sua mesma resposta, enquanto olhava distraída o caminhão da mudança que viajava em nosso encalço. A paisagem lá fora passava em um borrão conforme o carro seguia em alta velocidade, e a floresta que nos rodeava era de um tom verde escuro que fazia um contraste muito bonito com o céu azul.

— Você sabe o porquê, querida.

— Bobeira! Você bem que poderia ter arrumado um emprego muito melhor que este em Washington, mãe. Não precisávamos nos mudar.

Braços cruzados, bico na boca e voz birrenta: atitude comprovada de uma criança mimada. Mas qual é! Tenho só treze anos. Eu sou uma criança. Sou livre pra fazer birra a vontade. E sou mimada mesmo, os incomodados que se mudem.

— Essa foi uma oportunidade única, querida. Eles vão até mesmo pagar sua escola. E dessa vez nós não vamos ficar em um dos hotéis da empresa — minha mãe sorri animada, antes de voltar sua atenção pra estrada — E a casa que estão financiando é muito melhor que a nossa em Washington.

Desdenhei de tal informação e voltei a olhar para fora do carro, o bico prevalecendo na boca.

Até parece que não sabe o que vai acontecer, porque é a mesma coisa em todo lugar. Eu nunca consigo arrumar amigos e sempre faço inimigos. Talvez por minha inteligência fora do normal ou minha beleza única? — Não sou conhecida pela minha modéstia, obrigada. Mas nunca, ninguém gosta de mim. Minha mãe nunca entendeu meus problemas escolares e acho que nunca vai entender. O ponto aqui é, eu não quero me mudar de novo. Entende? É isso mesmo, de novo. Eu já até mesmo perdi a conta de quantos hotéis eu morei, ou quantas escolas já fui matriculada, e talvez eu esteja sendo um pouco — ou muito — dramática, mas não aguento mais ter que passar por toda aquela chatice de ser a novata. Queria poder parar em um único lugar. Queria finalmente arrumar amigos. Queria que as coisas fossem diferentes. Queria que minha situação mudasse, e não eu.

Suspirei desanimada. Poderia até não gostar dos meus antigos colegas, mas pelo menos eu já os conhecia.

Senti sua mão quente segurar a minha e me obriguei a levantar o olhar.

— Vai dar tudo certo, bebê, você vai ver — o brilho em seus olhos deixou mamãe tão bonita que não tive coragem de retrucar e espalhar ainda mais meu mau humor. Por isso resmunguei um "beleza" e passei o resto da viagem em silêncio, olhando a paisagem já conformada com a situação.

***

Um mês e seis dias para a explosão do

acelerador departículas

Mamãe diz que não podemos odiar as pessoas, mas espero que ela me perdoe, por que eu odeio Ana Müller. Muito.

— Chata, idiota, mal-amada... — fui xingando Ana, a garota mais insuportável que eu já tive o desprazer em conhecer, enquanto andava a passos duros a caminho da direção. Por causa daquela... daquela...

— Eu sei, ela pode inspirar o pior das pessoas — parei abruptamente e minha respiração ficou presa em meu peito. Consegui voltar ao normal depois de ver que o autor do meu quase ataque cardíaco é uma garota. Com certeza uma aluna, e não o diretor.

Dã. Claro que não né Sofya, o diretor está na diretoria, gênio.

Assim que meu coração volta a bater em segurança no meu peito e meu pulmão faz seu serviço normalmente, é que enfim eu me permito reparar no ser que quase me matou.

Loira, alta, olhos azuis, roupas chique: Jessica Müller, irmã gêmea da minha atual inimiga, VadiAna.

Fiquei em silêncio e a olhei com desconfiança. Nada de bom vem de uma Müller. A prova disso tá dentro da sala de aula, rindo da minha cara enquanto eu me ferrava todinha.

Peste bubônica, cão do inferno....

— Meu nome é Jessi... — a Müller dois é interrompida por mim, que ainda xingava Müller um mentalmente, porque eu não sou obrigada a ficar ouvindo história da carochinha. Hm!

— Eu sei quem você é — cortei seu barato e cruzei meus braços.

— Hey! — Jessica Müller exclamou, levantando as mãos em rendição — Tô tentando ser legal, não precisa dessa marra toda não.

Ergui uma das sobrancelha, cética.

— Claro, acredito em você — soltei um suspiro dramático. Aliás, ser dramática é o que eu sei ser melhorAgora, se você não se importa, tenho assuntos para resolver.

— Nossa, você falou igualzinho ao meu pai — a loira disse em tom crítico, fazendo careta desgostosa — Temos que mudar isso em você.

Pisquei os olhos sem entender e até mesmo um pouco indignada.

— Mudar...? — confusa, chacoalho a cabeça — Você não tem nada que mudar em mim — Oxi! Onde já se viu, me mudar.

Müller dois parece não se importar com meu olhar raivoso, e que, diga-se de passagem, eu considerava bastante intimidador. Ela passou os braços ao redor dos meus ombros me puxando para andar ao seu lado.

— Gostei de você, Sofya. Vamos ser grandes amigas.

Não havia palavras para descrever o tamanho da minha perplexidade, e só por esse motivo que eu me deixei levar por ela pelo caminho contrário ao que eu estava indo.

Tá, tá!

A quem eu queria enganar, não é mesmo? No fundo, beeemmm no fundinho, eu estava era eufórica, porque pela primeira vez alguém não me tratou com hostilidade e quis ser meu amigo de verdade. E não porque eu sabia as resposta da prova ou coisas do tipo. Quero dizer, Jessica Müller era irmã da minha inimiga e podia muito bem estar tentando algo para depois tirarem sarro da minha cara. Mas eu observei o suficiente das duas pra saber que as gêmeas não se davam muito bem. Então, me fazendo de difícil no refeitório, depois de ser praticamente arrastada por ela, eu não pude deixar de me perguntar.

Eu tinha realmente arrumado uma amiga?

***

Duas semanas para a explosão

do acelerador de partículas


Quando ficava empolgadacom algum assunto,eu não conseguia parar de falar. Sério, eu virava uma máquina.

— Tudo será diferente. Tudo que achamos que sabemos, não vai ser nada comparado ao que vamos aprender com o acelerador. Entende como isso é importante? Oh myGod! Eu tenho que ir, a gente tem que ir — virei-me para olhar Jessica.

É muito provável que eu esteja com uma aparência de cientista louca ou coisa do tipo, levando em conta pelo olhar preocupado que minha amiga me lançava, mas é quase impossível não ficar eufórica. O laboratório Star é meio que meu sonho de consumo. Desejo andar por aqueles corredores e quem sabe conhecer...

Hãã... não sei, não. Acho que não é permitida a entrada de menores — Jessica comentou me olhando estranho.

Balancei a cabeça, saindo de meus pensamentos e me obrigando a traduzir sua fala.

— É verdade — concordei. Felizmente, eu tinha um plano.

— O que você vai aprontar? — seus olhos azuis me ficavam com desconfiança.

— Por que sempre acham que eu vou aprontar alguma coisa? — exclamei com ofensa.

Eu estava sendo dramática, de novo. Jess apenas revirou os olhos para minha indignação.

— Anda, começa a falar — ela gesticulou com a mãos — Que merda você vai fazer agora? — me pressionou.

Com Jess falando assim, até parecia que ela era a responsável de nós duas. Mas, apesar dela ser quatro anos mais velha, era eu quem sempre tentava impedir ela de se meter em algum problema. Tá que eu era meio impulsiva. E que gostava de meter o bedelho onde não era chamada. Assim como também me divertia junto com Jess ao hackear as pessoas e saber seus segredos mais sombrios. Mas em geral, é ela quem gosta de me arrastar para festas, tentando me fazer beijar garotos para aproveitar nosso último ano na escola.

— Nada — não resisti e abri um sorrisinho travesso.

Talvez eu fosse fazer merda, mas em minha defesa: eu não poderia passar por uma data como está sem presenciar o que aconteceria.

O olhar persistente de Jessica, dizia que ela não sairia do meu quarto enquanto eu não falasse. Claro que não foi muito difícil eu decidir incluir ela nessa comigo.

— Tá legal, eu vou aprontar alguma coisa — deixei meu sorriso se abrir por completo. Eu agora tinha toda a atenção de Jessica — E você vai me ajudar.

***

1 dia e uma hora para a explosão do acelerador de partículas

Está levando escova?

O olhar preocupado da minha mãe quase me fez chorar e admitir minha mentira e tudo que eu ia fazer. Eu nunca tinha feito nada disso, sabe, mentir pra minha mãe. Ela sempre prezou por sinceridade e eu aprendi a falar de tudo com ela. Problemas na escola ou meninos. Qualquer coisa. Então a doença do arrependimento começava a embrulhar o meu estômago.

— Sim — disse num tom agudo e engoli em seco.

— Não esqueceu da toalha, né? — mamãe mexeu na minha bolsa, tirando tudo que eu guardei. Confirmando consigo mesma e murmurando coisas, para então pôr tudo dentro novamente.

— Não esqueci de nada, mãezinha, vou ficar bem — tentei dar um sorriso, enquanto minha mente repetia uma única palavra. Mentirosa. Mentirosa. Mentirosa. Deuses. Tive que parar e entrar em um acordo comigo de que valeria a pena no final — Não tô indo viajar para o outro lado do país — brinquei, tentando aliviar as coisas.

— É tanto tempo — ela murmurou tristonha, que eu comecei a sentir o nó na minha garganta me fazer ter falta de ar. Tudo bem, vai dar tudo certo, eu acho...

— Vou ficar bem — prometi, segurando suas mãos nas minhas. Minha mãe me abraçou e me apertou, quase quebrando meus ossos. Mesmo assim, eu me deixei abraçar e retribui com o mesmo fervor.

Seria no dia seguinte que eu iria presenciar o marco na história da humanidade. Sem exagero. O acelerador de partículas ia mudar vidas, eu acreditava nisso. Acreditava que era possível criar uma máquina poderosa o suficiente para fazer a diferença. Jessica e eu combinamos de dormirmos na casa dela no fim de semana, assim poderíamos desaparecer o dia todo sem mamãe nos seguindo. Quer dizer, mais ou menos, pois ela ia me ligar de minuto em minuto. Mas enquanto eu atendesse, ela não saberia de nada.

E por estar me sentindo culpada, eu me consolava com o fato de estar sendo obrigada a esconder isso dela. Afinal, se mamãe tivesse permitido eu ir com alguém de maior, não haveria motivo para mentir, certo?

Já estava feito, eu iria para aquele evento!

Uma buzina soou e minha mãe me soltou.

— Bem — ela respirou fundo — Acho bom ir descendo suas coisas, vamos? — me chamou e pegou minha pequena maleta, saindo do quarto com a cara mais triste do mundo. Tá vendo? Tá aí o porquê do meu lado dramático.

Balancei a cabeça e sorri, olhando minha cama uma última vez para certeza de que não estava esquecendo nada. Então apaguei a luz do ambiente pelo interruptor na parede. Fechei a porta depois que saí. Me esperando no andar debaixo, eu encontro Jessica teclando no celular e minha mãe batendo papo com o motorista da minha amiga.

— Hey! — Jess chamou olhando minha forma imóvel no meio da sala — Vamo?

— Oi — a abracei — Vamo — e confirmei. Dei mais um abraço em minha mãe que continuou seu mesmo monólogo do quarto, fazendo-me decidir em apenas confirmar para deixá-la calma.

Entrei no carro junto de Jessica depois de quase uma aula de primeiro socorros que mamãe deu, o que eu achei bem bobo, não que eu tivesse dito isso a ela.

— Tchau mamãe, beijos e até segunda — abri um sorriso que me foi retribuído e voltei rapidamente para dentro do carro. Somente pelo seu olhar, percebi que estava prestes a chorar e eu não podia vê-la chorar, se não iria fraquejar.

— Pronta para embarcar em uma aventura? — minha amiga me perguntou com voz animada.

— Aventura? — dei risada.

— É. Tipo aqueles filmes de agente secreto. Você é a nerd gata e eu a fodona ninja — Dei uma risada escandalosa. Ai Deus, tinha que ser a Jéssica.

— Só vamos entrar escondido, nada demais — disse pra ela um pouco mais baixo para o motorista não ouvir.

— Bem, nesta aventura teremos contratempos — a loira disse, ignorando meu olhar zombador — Como minha irmã.

Tenho certeza que naquele instante eu fazia uma careta.

Argh.

Olha que engraçado! Minha inimiga é irmã da minha amiga. Coincidência, não? Afs!

Aquele fim de semana seria longo, e eu torcia para que Ana Müller não tentasse estragar meus planos.

Porque seria só isso que ela faria. Tentaria.

***

Uma hora para a explosão do

acelerador de partículas.

Todos batem palmas, enquanto minha maior vontade era de sair daquele canto afastado de todos e ir conversar pessoalmente com Harrison Wells.

— É só isso? — perguntou Jessica com a voz um tanto decepcionada.

Dei uma risada animada.

— Não, não é só isso. É apenas o começo. O acelerador de partículas é um equipamento muito importante, imagine vários elementos que podem ser descobertos e reduzidos em laboratórios com o auxílio do acelerador!? — disse quase em uma exclamação.

Minha amiga me encarava com um olhar entediado.

— Acabou o assunto de nerd? — perguntou com desinteresse.

Ignorei seu comentário e puxei ela dali. Era melhor sairmos, antes que nos vissem, já que ainda era proibida a entrada de menores. O que é bem injusto. Nós somos pessoas também, temos nossos direitos! Pensei, me imaginando protestando a frente daquele evento.

— Ain, não acredito que todo nosso disfarce do fim de semana foi para isso — Jessica reclamou.

— Achei tudo emocionante — eu disse com voz encantada.

— Claro né, nerd — ela disse em um tom provocativo.

— Tá, tá! Agora vamos embora — ignorar sua provocação era o melhor a se fazer. Jessica conseguia ser um saco quando queria.

— Nerd — ela cantarolou, como se soubesse a forma de me chatear. E bom, ela meio que sabia. Nos somos amigas a meses, então era certo que ela me conhecesse o suficiente durante esse tempo. Encarei ela com os olhos semicerrados, começando a me irritar. Como eu suportava ela mesmo?

Shiu — eu mandei. Admito que estava energética. Eu pude estar presente num momento tão importante para a cidade e estava muito animada para as descobertas que viria, mas naquele instante precisávamos sair dali primeiro.

— O que? Se eu...

— Jess, fica quieta — me virei, pronta calar ela eu mesma — Vamos acabar sendo pegas por culpa sua — reparei que minha amiga não rebateu e ainda mais, olhava para algo atrás de mim com os olhos arregalados — Hm, tem alguém atrás de mim, né?

Ela assentiu, nervosa.

Ótimo, maravilhoso.

Me virei e encontrei um homem muito sério parado a nossa frente, um segurança, trajado com roupas escuras e armado. Ele mantinha ambas as sobrancelhas erguidas, obviamente, esperando alguma explicação.

Abri o maior sorriso que eu tinha.

— Olá, senhor guarda.

***

Cinco minutos para a explosão do

acelerador de partículas.

Dei mais uma volta na sala, agoniada.

— Você tá me deixando tonta andando de um lado pro outro assim — minha amiga reclamou, esparramada no chão da sala.

— Minha mãe vai me matar — murmurei, por que aquilo era tudo que eu conseguia pensar — Nunca mais vai me deixar sair de casa, nunca mais verei a luz do sol.

Me joguei em uma cadeira que havia ali, olhando para o teto com muito desespero.

— Não exagera, Sô.

— Foi bom te conhecer, Jess — continuei, ignorando sua última fala. Eu já imaginava o olhar decepcionado de mamãe. Meu estômago revirava de nervoso. Eu até mesmo pedia pra qualquer divindade que estivesse me ouvindo, que me tirasse dali — Você é uma amiga legal.

— Para de bobagem — ela veio para perto de mim — Sua mãe é legal, vai te perdoar — e sentou ao meu lado, colocando os braços ao meu redor.

Eu era mais baixinha que ela, então não era muito difícil. Na verdade, era um pouco estranho que Jess, mesmo sendo mais velha que eu, quisesse ser minha amiga. Ninguém gostava de me ter muito perto, me chamando de pirralha e zombando de mim. Não importa que o motivo para que eu tivesse pulado anos na escola fosse por que eu era avançada demais, mesmo para o terceiro ano. Não via a hora de terminar e poder ir para a faculdade. Acho que as coisas seriam melhor.

Ficamos as duas abraçadas, olhando a parede.

— Sabe o que é pior?

— Hm? — ela murmurou, a cabeça encostada na minha enquanto eu repousava em seu ombro direito.

— É que eu nem consegui conhecer o Dr. Wells — disse melancólica — Foi ele quem criou tudo isso e eu gostaria de ter conhecido ele.

Mais silêncio.

Fiquei pensando em como minha mãe reagiria depois de receber uma ligação avisando que sua filha, que deveria estar no cinema com a amiga, foi pega num evento proibido para menores de dezoito.

Mal senti quando o peso em meu ombro desapareceu e, tarde demais, vi Jessica em frente a porta da sala em que estávamos.

— Ei, tem alguém aí!? — ela gritava enquanto batia na porta — Não podem nos trancar aqui! Eu tenho os meus direitos, babacas!

Fiquei alguns minutos estática e de boca aberta vendo a louca da minha amiga esmurrar a porta.

— Jessica! Para! — levantei e puxei a loira para trás depois que meu corpo voltou a ter ação. Eu a virei pelos ombros para olhar diretamente em seus olhos — Tá maluca!?

— Não podem nos trancar aqui — ela deu de ombros, indiferente.

— É, mas podem acabar nos encaminhando para uma instituição de jovens delinquentes se continuar fazendo barrado desse jeito! — retruquei, nervosa.

Mal acabo de falar e a porta da sala abre.

— Meninas, podem me acompanhar? — o mesmo segurança que nos levou até aquela sala estava ali novamente, nos convidando à sair.

Eu e Jess encaramos uma a outra, em um debate interno, e por fim acompanhamos ele para longe daquela cômodo.

— Será que vão nos mandar para a tal instituição? — Jess perguntou com ansiedade.

— Talvez — disse num tom sério.

Ela me olhou com os olhos arregalados, mas revirou quando viu que eu estava sorrindo.

— Idiota — ela disse, e eu ri levemente.

— Tô brincando. Acho que não. Nossos pais devem estar em alguma sala muito bravos com a gente — comentei, mas por dentro eu me tremia igual um pincher pensando na minha mãe. Ela ia ficar tão chateada.

Enquanto pensava nisso, senti um toque no meu ombro e vi Jess acenar ao nosso redor, me fazendo perceber o movimento estranho que tinha por ali. As pessoas estavam correndo de um lado ao outro. Pareciam nervosas. O que acabou refletindo em mim. E em Jess também, se o olhar ansioso dela dizia alguma coisa.

— Ei, senhor guarda, o que tá rolando? — eu perguntei e parei no meio do corredor, não confiando em seguir ele quando não sabia o que tava acontecendo. Vendo isto, o segurança também parou e olhou pra mim.

— Evacuação — respondeu. Evacuação? Me perguntei, confusa. Quando não dissemos mais nada, ele voltou a andar e nós também.

— Quê? Porquê? — Jess perguntou tarde, parecendo tão perdida quanto eu. Ela tentou andar ao lado do homem mal encarado.

— Estou aqui somente pra tirá-las em segurança do prédio, não para responder suas perguntas.

— Nossa... — minha amiga olhou feio pra ele, voltado a ficar do meu lado — Cavalo — resmungou baixinho, parecendo irritada.

Soltei um riso baixo e ambas continuamos a seguir ele em silêncio.

Foi ai que tudo começou.

Passamos por uma sala cheia de computadores, aparentemente, vazia. Dentro da tal sala tinha outra porta e eu juro por Deus que tinha visto alguém lá dentro. Talvez um funcionário preso? Olhei estranho para o guarda. Será que aquela pessoa sabe sobre a tal evacuação, mas e se tudo for mentira e na verdade estivermos sendo levadas por algum sequestrador?

Voltei a olhar para o guarda, depois pra minha amiga que andava mais a frente de mim e para a sala.

Respirei fundo, estiquei o braço e agarrei o pulso da minha amiga, correndo e puxando-a comigo em direção a sala. A gente passou por uma das porta do laboratório e quando estávamos para passar por outra, eu senti um puxão que me fez soltar Jess.

— O que você tá fazendo? — ela gritou comigo.

— Acho que eu vi alguém — resmunguei.

— Quê? E daí?

— Jess, se tem alguém aqui, então a gente precisa avisá-lo sobre a tal evacuação — encarei ela — Você também já pensou que esse homem pode estar mentindo para a gente? — lhe lancei um olhar sabido.

Jessica tentou lutar contra meu olhar fatal, mas perdeu. Bufando ela perguntou:

— Onde?

Eu abri um sorriso.

***

Um minuto para a explosão do

acelerador de partículas.

Corremos até entrarmos em um corredor. Ambas vimos a pessoa andando mais a frente, tranquilamente. Em sincronia, Jéssica e eu nos encaramos debatendo e, por fim, eu dei uma corridinha na direção da pessoa.

— Ei! — gritei, chamando sua atenção. A pessoa parou no meio do caminho, virou e me olhou. Eu? Eu estanquei naquele lugar, com a boca aberta e muito... abismada? Assustada? Feliz? Nem eu sei.

— O que vocês fazem aqui? — ele me perguntou — É proibida a entrada de qualquer um que não seja um funcionário.

Arregalei meu olhos.

— Ããã, a evacuação... éééé... o senhor aqui — balbuciei como uma idiota.

Eu não acreditava no que meus olhos viam.

— O que a minha amiga aqui quis dizer, é que parece tá havendo uma evacuação. Vimos o senhor sozinho e viemos avisá-lo — Jéssica explicou com certa indiferença.

— É, isso mesmo — confirmei bobamente.

— O qu... — ele não teve tempo de terminar sua interrogação, pois um alto alarme começou a soar por todo o local.

— Acho que essa é uma boa hora para rapar o fora daqui — minha amiga comentou.

Doutor Wells nos olhou por breves instantes antes de falar.

— Venham por aqui— ele chamou, apontando uma direção — Há uma saída mais próxima.

Sem muito tempo a perder, Jess e eu o seguimos e corremos para sairmos o mais rápido do lugar. A gente estava em um extenso com muitas portas. A medida que passávamos por uma e não entrava, meu desânimo aumentava.

Foi tudo muito rápido. O chão tremeu tão fortemente que poderia ser confundido com um terremoto. Tentei me segurar em uma parede assim como Jéssica e Wells fizeram mais a frente, mas azarada como sou eu acabei me escorando em uma porta aberta. Me desequilibrei e caí dentro da sala. Em desespero, eu tentei me segurar em uma mesa tentando me firmar, mas o tremor que se seguiu me derrubou.

Um barulho alto chegou em meus ouvidos e todos os computadores que estavam em cima da mesa foram caindo de forma desgovernada.

— Sofya! — ouvi o grito da minha amiga ao longe.

Tentei gritar de volta, mas um monitor caiu diretamente em minha cabeça, me arrancando um gemido.

Como eu disse, azarada.

Fui para debaixo da mesa para me proteger e, infelizmente, não fui rápida o suficiente.

Não sei da onde veio, mas senti todo meu corpo receber uma grande descarga de energia. Foi tão poderoso que senti meu cérebro fritar.

Gritei de dor.

Sentia meu corpo a convulsionar. Abri a boca e nada saiu e em meio aquela névoa de dor e desorientamento, tentei fugir.

Tinha que sair dali, tinha que me salvar.

Consegui tirar metade do meu corpo de debaixo da mesa, mas me tudo sumiu da minha visão quando senti outra pancada no topo da minha cabeça. É, definitivamente azarada.

O ar parou de entrar em minhas narinas e minha visão foi se apagando aos poucos, logo, eu já não conseguia ouvir mais nada. Meu corpo ainda doía, mas conforme o tempo passava, menos eu conseguia sentir.

Não consegui me desesperar com minha morte iminente, nem me debater em busca de ar. Apenas aceitei, fechei meus olhos e morri.

CE