Agente da SHIELD.

Emito um ruído do fundo da minha garganta ao zombar com a ideia maluquinha.

Fazia poucos minutos que sai da sala do diretor, e, ainda sim, a surpresa por receber tal proposta prevalece. Tenho apenas dezessete anos, sou nova, irresponsável e odeio receber ordens. A última coisa que eu quero é me tornar uma agente. Ter que seguir as regras e dar exemplos nunca foi a minha praia. Droga. Não, definitivamente não são os meus planos. Isso não está acontecendo.

Suspiro fundo quando chego ao quarto que me foi designado, sorte a minha que era próximo da sala do diretor, na qual me faz pensar que o mesmo não confia em mim e está atento aos meus movimentos friamente calculados, dou risada com pensamento. Afeganistão, porra? Piada. Abro a porta do cômodo ainda corroendo o interrogatório — meu primeiro interrogatório, fofo! — evitando claramente qualquer coisa relacionada ao cara que provou-se ser o meu pai quando tomo um susto daqueles.

Ele está aqui; sentado na cama que não é minha, mas que é; com aquele olhar sério como se, pasmem, tivesse algum direito sobre mim.

Ótimo.

Inspira, expira. Ouço a voz calmante de Harrison na minha cabeça.

Entro e fecho a porta atrás de mim, então, encosto as costas nela e cruzo os braços para o encarar, querendo ter a velocidade do flash neste momento para fugir dessa situação chata e incômoda.

Um minuto. Dois. Três.

— Então... — respiro fundo com um pouco de irritação quando ele não diz nada e apenas me encara — O que você quer?

— Isso é você quem precisa me dizer.

Tá legal. Acho que temos um problema por aqui. Sintam o tom de ironia.

Eu ergo a sombrancelha com um sorriso sarcástico: — Olá-á? Foi você quem invadiu meu não quarto como um psicopata. Vamos lá, diga para o que veio pra cada um seguir o seu caminho.

— É isso que você quer?

Pisco confusa.

— O que?

— Seguir o seu caminho e eu o meu, fingir que nada aconteceu ou mudou.

E mudou? Me bate o desejo de o questionar, mas mantenho a minha pose.

— Nah, isso é mais a sua cara, Homem de Ferro — dou mais um sorriso, mas não há nenhum retrucar seu de volta.

Aquilo estava começando a me enervar. Cadê o homem que zombou "os grandes" em rede nacional quando exigiram dele sua armadura? Cadê o mesmo homem que deu uma festa foda pra caralho e destruiu tudo depois das coisas esquentarem? Estou procurando este homem. Não o Tony Stark sério, perspicaz e corajoso — mais do que eu jamais serei — à minha frente. Esse não, eu não estou preparada pra ele.

— É o seguinte Sofya — ele levantou-se ajeitando sua roupa chic, tomando toda aquela postura arrogante que, ele pode não estar tentando usar agora, mas que era presente em cada movimento como sua marca registrada. Uma coisa assim não desaparece mesmo que se tente — As coisas são fáceis de descobrir quando se tem recursos e dinheiro... — e ali estava! Pensei ao revirar os olhos. Se ele reparou, ignorou-me — E, enquanto você talvez pense que eu desejo sua ida, eu não o faço. Conversei com alguns amigos no consulado que falou com outros que trabalham no tabelinato e esse é o novo redigir de seus documentos — estendeu-me um papel branco que eu não peguei de primeira.

Eu tinha um sentimento nervoso sobre o que estava escrito ali. E a sensação era semelhante a que passei cerca de quase uma hora atrás. Eu tomei a folha dele quando minhas mãos pararam de tremer e segurei o fôlego, passando os olhos por cada linha em completa descrença.

— Eu sou emancipada — disse espantada por dentro, mas tentando aparentar o mais calma que fosse possível em tal cenário.

Eu quis sair berrando todo tipo de palavreado enquanto ponho esse prédio ao chão.

Inspira, expira.

Que lhe foi concedida por sua mãe em caso de morte. Eu não tive voz na época por que não sabia de sua existência. Agora sei e um advogado ajeitou os trâmites para mim — responde seriamente, franzindo a testa e esperando por uma réplica e eu fico ainda mais desacreditada.

— Tá de sacanagem? — bufo em desacordo — Eu sou emancipada — repito exasperada — Passei por um processo dos infernos com um juiz casca dura! Você não pode simplesmente... anular isso de uma hora para a outra!

— Eu sou Tony Stark — devolve com altivez, como se o fato dele ser ele... resolvesse tudo. E talvez o fizesse, mas não com isso. Não comigo — Então, eu meio que posso sim.

Argh, eu deveria ter ficado quieta no aconchego do meu apartamento com nada menos do que Lamen para eu comer. Por que qualquer coisa, qualquer coisa era melhor do que... do que isso! Amasso a folha em branco entre meus dedos e a bato contra seu peito, cheia de raiva.

— Nem fudendo, esqueça!

Stark franze ainda mais o rosto ao me encarar e suspira.

Suspira.

Quem deveria estar suspirando sou eu!

— Tanta época boa e eu peguei a rebelde — murmura irônico e eu engasgo enraivecida. Eu vou matá-lo. Sim, posso me visualizar cometendo o ato — Você ainda é de menor, portanto...

— Ah, cale a boca! Você nem se importa comigo! O que está querendo provar com essa merda!? Seja lá o que for, eu não sou seu novo projeto, Stark. Parabéns, conseguiu me prender a você, mas não conte comigo para fazer parte disso.

Pela segunda vez naquele dia, eu o deixo para trás sem chances de responder meu ataque verbal, batendo a porta para deixar as coisas mais dramáticas, sim, não nego, mas também pra mostrar que estou falando muito sério.

Sigo caminhando para longe e paro, quando não estou mais sobre a visão do corredor de onde eu vim. Jogo meu ombro contra a parede com minhas palpitações ecoando fortemente no ouvido. Tudo indo por água baixo. Estou cara a cara com a pessoa que eu desejei tanto quando criança conhecer. E está tudo dando errado. Que ódio. Quero berrar e soltar para fora toda a frustração, ao tempo que um anseio antigo de que minha mãe estivesse aqui comigo bate com força total. O que você me diria, mãe? Ordenaria que eu voltasse e me desculpasse pela forma que tratei o mesmo homem que você escondeu minha existência? Talvez... talvez ele... Não, você não vai fazer isso consigo mesma. Mais uma discussão entre meu subconsciente e eu. Porém, desta vez, eu dou razão a voz na minha mente e mantenho a esperança bem longe do meu coração.

Apago o rosto repreendedor da minha mãe dos meus pensamentos e seco minha mão na calça jeans, enquanto meus ombros sobem e descem com uma respiração profunda.

Eu segui sozinha até agora e estou bem. Não preciso dele.

Assentindo comigo mesma, eu decido que após toda a ação das últimas horas é preciso um descanso para manter minha mente sã. E não há nada melhor do que uma bela refeição em horas como essas. Comida, comida resolve tudo.

Não é átoa que Vlad, o empalador, convidava seus inimigos para banquetes... se bem que tem aquele detalhe sórdido e nem um pouco bonito de que ele os matava e comia enquanto assistia o sangue escorrer. Macabro, mas, afs, acho que vocês entenderam a minha intenção aqui.

Então, meu plano consistia em encontrar um refeitório ou a saída desse lugar. De preferência a segunda opção. Talvez com alguma chance de fuga disponível? Não precisa dizer que eu sonhei alto agora. Entretanto, o esquema deu um tanto quanto errado quando acabei perdida dentro da imensa SHIELD.

Viro a direita e tenho quase certeza que ja passei por esse corredor.

Maldição!

Sério, está começando a me bater um desespero aqui.

Tudo bem. Eu não vou ficar presa aqui, morrer de fome e dissecar até a morte.

Tuuudo Beeem.

Respiro fundo e quando estou pronta para gritar "HELP!" loucamente pelos corredores, até que alguém me ajude, bato de frente à uma alma viva.

— Ei! — grito aliviada, chamando a atenção da pessoa.

Valeu Deus. Estou pensando enquanto apresso o passo até o desconhecido, quando reparo em seus trajes. Espera... E então ele vira e... bem, bem. As informações surgem na minha mente antes que eu possa impedir: Steve Rogers. Capitão América. 27 anos físicos e 94 anos biológicos. Jesus, para um senhor até que ele está com tudo em cima. 1.83 de altura. Okay, talvez eu tenha hackeado a SHIELD antes numa busca besta e indiferente pelo Stark e acabei caindo, acidentalmente, na pasta dos outros Vingadores.

Eu só dei uma olhadinha, juro, não vi nada muito íntimo. Portanto, por conhecimento eu digo que Steven Rogers era gato nas fotos, mas pessoalmente... paizinho do céu. Que homem é esse?

Me encontro diante de um par de olhos azuis que me tiram o ar.

— Olá — ele me comprimenta, um olhar confuso e lábios numa linha fina ao observar eu me aproximar. Fico encarando o ser lindo em minha frente por longos minutos até que sua expressão se torne ainda mais fechada.

Não tenho culpa, ele todo gato com aqueles olhinhos azuis. E digamos que eu tenha uma pequena quedinha por caras de olhos claros. Você está encarando demais.Meu subconsciente alerta, mas meu corpo não obedece. Encarando não, você está comendo ele com os olhos.

— Está tudo bem?

Sua face está mais inexpressiva e não sei como o interpretar, apesar da entonação em sua voz entregar um requisito de preocupação. Somente assim percebo que eu tô babando nele descaradamente. Vergonha na cara é o que não me falta, no entanto.

Droga.

— Er... — solto um riso sem graça.

O que eu ia fazer mesmo?Pergunto-me mentalmente.

— Você gritou. Está com algum problema? Posso ajudar de alguma forma? — ele pergunta novamente e eu acho que até um tanto sem jeito.

Talvez por eu estar dando de Bella Swan e olhando-o como uma psicopata. Mas é quase impossível não observar seus olhos cor do oceano e aquela boca rosada. E ainda é um cavalheiro. Ai ai, deixa eu parar por aqui.

— Tô ótima — respondi quando finalmente pude parar de encarar ele como uma maluca — Eu só tô meio perdida — admito desviando o olhar, mas sentindo que ele mantém a atenção diretamente em mim.

— Bom, onde você tem que estar no momento?

— Aonde tiver comida, para mim, está otimo.

Então ele acena e sorri de leve. Quase não dá pra notar, mas... que sorriso lindo. Okay mundo, posso partir dessa para melhor.

— Eu irei te acompanhar até o refeitório — ele fala apontando o corredor vazio com a mão.

— Eu agradeceria — automaticamente abro um sorriso grande e animado — A propósito, Sofya Denova — estendo-lhe minha mão, apresentando-me.

Ele hesita por um instante, imagino eu que deliberando contar seu verdadeiro nome a uma desconhecida — uma vez que ele está trajando o uniforme do Capitão América — mas, aparentemente, algo o faz tomar uma decisão, pois, Rogers então toma minha mão num aperto firme enquanto também dizia seu nome verdadeiro.

— Steve Rogers — ele repete o gesto.

Eu sei, lindo.

Sua mão larga a minha e ele espera eu estar ao seu lado para começar a andar.

— Não estou atrapalhando, né? — eu indago, depois de aceitar sua ajuda, o que não foi lá um enorme sacrifício.

Steve Rogers nega com um acenar.

— Eu estava de saída.

— Então eu te atrapalhei, me parece um bom negócio sair daqui levando em conta a vida integral de herói.

— Você parece saber muito do assunto — seu semblante muda para desconfiado.

Eu dou de ombros desviando o olhar do seu e focando a minha atenção em qualquer ponto a frente.

— Um pouco — talvez eu estivesse sendo evasiva demais e, levando em conta que eu adiei seu descanso em pró do meu estômago, decido aliviar um pouco a pressão — Conheço Fury — eu disse, por que explicar que meu pai é o homem na qual ele trabalhou em conjunto na treta de Nova York não me pareceu uma boa ideia. Também por que eu estou evitando o Stark até mesmo em meus pensamentos. Não se irrite. Não se irrite.

Agora você me deixou curioso — ele admitiu com um olhar analisador, tentando ler atravéz do meu falso olhar calmo.

— Os homens casam-se por fadiga, as mulheres por curiosidade; ambos se desiludem. Curiosidade nunca é bom — cito aleatoriamente em conhecimento. Pois sou muito curiosa e só me ferro. Ele me olha ainda mais curioso. Dou uma risada — É um poema de Oscar Wilde — explico, apenas para ter a certeza de que ele não reconhece o nome.

— Ele me parece cético.

— Levando em conta que ele foi preso por causa de seu relacionamento com outro homem, eu diria que estava no seu direito — medito com um sorriso e lhe dou uma olhada com sobrancelhas erguidas — Mas você não parece concordar com o pensamento.

O homem me encara sério, então move a mão em uma direção e eu o segui, esperando por sua resposta.

— Talvez Oscar Wilde tivesse seus motivos, mas ainda existe amor em um casamento. Minha mãe amou meu pai e eu vi isso por tempo o suficiente para acreditar.

— As mulheres eram dadas em casamentos, os homem pagavam por elas — comento, sendo que o Capitão veio de um tempo em que isso ainda era muito recorrente. Tento suavizar a revolta na minha voz. A ideia de que tantas mulheres antes tivessem vivido uma vida que não queriam sempre me deixou transtornada.

— Não posso argumentar contra isto e eu tenho a sensação de que estaria correndo um risco se o fizesse — pontuou, me olhando firmemente para destacar e eu ri. O homem sorriu acenando — As coisas estavam mudando... Elas mudaram — ele olha ao redor e eu aceno.

— Ainda há muito a ser feito, mas eu diria que melhoraram sim.

— Ah, não em tudo, acredite — foi a primeira vez que vi um requisito de imodéstia em sua atitude.

Eu fiquei ainda mais instigada para ver quem era o Capitão América por trás do uniforme e escudo. Passamos por uma porta grande de duas folhas. Somente então vi onde estávamos quando a porta fechos atrás de mim e eu me vi parada na entrada de um refeitório.

— Mas como...? — fico desacreditada. Havia poucas pessoas presentes, todas vestidas de social. Tínhamos alguns olhares sobre nós, mas eu os ignorei e voltei-me para o Capitão ao meu lado.

Ele solta uma risada discreta após me observar.

— Não é tão complicado. Com o tempo é possível memorizar os numeros e nomes de cada corredor — comenta.

Tô fora. Penso rindo internamente.

— Então... — Rogers inicia e eu, pensando que ele está preste a se despedir, o interrompi.

— Não gostaria de me acompanhar, claro, se não tiver nada pra fazer. Digo, não quero te atrapalhar. Se estiver ocupado, tudo bem. Posso comer sozinha, obvio — balbucio apressadamente e dou uma risada sem graça. Que porra — Queria saber se gostaria de comer comigo — completo.

Droga.

Me atrapalhei toda! Ele agora vai perceber que estou nervosa. Quero dizer, ele vai pensar que estou nervosa, pois não estou. Parece, mas não estou.

— Acabei de ser dispensado e você não tem atrapalhado. Eu aceito — ele diz relaxado. Eu suspiro aliviada tanto pela aceitação, quanto por ele não notar meu falso nervosismo, por que eu não tô nervosa. Hpuf, jamais.

— Ótimo — sorri timidamente.

Vamos até um pequeno balcão afastado de todos e eu faço meu pedido a uma mulher, Clarissa, que eu suponho ter uns quarenta anos. Ela acenou, antes de se afastar dizendo que logo traria as nossa refeições. Eu suspirei satisfeita com a ideia se comer, ouvindo meu estômago roncar. Opa.

— Espero não estar sendo inoportuno — Steve Rogers inicia num tom cauteloso e eu viro o rosto para o encarar — Mas o que alguém tão jovem faz na SHIELD? — Rogers indaga curioso.

— Jovem?

— Não entenda mal — ele pediu — Mas essa base é logística. Se Fury está recrutando agentes...

Movo a cabeça de um lado ao outro em negação, divertindo-me.

— Ah, não, eu não sou uma agente — jogo o cabelo por sobre o ombro e me aproximo dele para que ouvisse quando eu falasse baixo. O Capitão arqueia uma sombrancelha, achando graça de toda a minha atuação — A verdade é que eu sou uma criminosa.

— Difícil acreditar — retrucou e agora eu fiquei indignada.

— Mas eu sou — falo rindo. Não sabendo o que exatamente o que estava querendo provar, eu continuo: — Digamos que eu cometi alguns delitos que chamou atenção da SHIELD. E, por Nick Fury, eu estaria ferrada agora se não fo... — parei — Fosse meus contatos com o governo — assinto animada com a mentira descabida e deixado de lado o incômodo com as consequências de meus atos.

Se o homem notou a mudança na minha postura, ele não disse, dando-me meu espaço e eu gostei ainda mais dele. Na verdade, ele sorriu para mim com um olhar de quem não acreditava em uma palavra, mas que se divertia ainda sim. A mulher, Clarissa, chegou nesse momento deixando nossos pratos a nossa frente, tudo bonitinho. Enquanto isso, eu pensava em como esperava uma reação mais tensa do patriota, sendo que ele permaneceu relaxado ao meu lado.

Estranho. Respiro fundo, querendo negar a mim mesma que gostei daquela reação incomum.

— Como dizia minha mãe — continuei quando fomos deixados a sós — Se arrependimento matasse, eu estaria mortinha da Silva — brinquei com a minha desgraça, fazendo o homem sorrir.

— Silva?

— É um sobrenome brasileiro — expliquei — Minha mãe adorava a cultura brasileira e lembro dela dizer que visitou o país, uma vez, antes deu nascer. Ela gostava de me contar suas aventuras da juventude e eu amava ouvir cada uma dela.

— Ela parece ser uma boa mulher.

— Parecia — eu o corrijo com certo pesar.

— Sinto muito — Capitão me olha mais sério, certamente arrependido pelo furo.

— Tudo bem, Steve. Você não sabia — eu sorri para mostrar que estava tudo bem. Então, mudei de assunto — E então, o que faz aqui? — observo enquanto ele me olha entender, erguendo as sombrancelhas em uma silênciosa resposta. Você me convidouNão aqui comigo — fico um pouco envergonhada, mas decido ser mais ousada ao indagar — Ao que parece você está de folga. E está aqui,l quando pode estar em qualquer outro lugar.

Rogers entendeu aonde eu quis chegar, mas permaneceu em silêncio. Começo a me arrepender de ter aberto a boca por causa da minha bendita curiosidade. Não estava reclamando da presença do homem, mas estou realmente curiosa. Afinal, estamos em Nova York, a cidade que nunca dorme. Aparentemente, com minha curiosidade eu apenas consegui deixar um clima tenso no ar.

— Desculpe — peço com mais delicadeza que sou acostumada a usas — Não tem que me responder, eu costumo não frear minha língua quando algo me intriga e faço perguntas impertinentes — franzo o cenho.

— Contando que eu trouxe dois assuntos que te incomodava a tona, acho justo você ter sua resposta — ele comenta e me olha erguendo o canto dos lábios.

Respiro aliviada e concordo.

— Okay, justo.

— Eu esperava que você discordasse e negasse — surpreendente, ele interpreta um ar desolado com o corpo mais relaxado.

Eu abro um sorriso malicioso e nego com a cabeça: — Sem chance, Rogers — falo divertida — Não sou assim tão benigna — ele concorda.

— Eu notei — murmura e eu exclamo um Ei. Nós dois rimos.

Ficamos um tempo em silêncio, eu, esperando que ele diga algo.

— É complicado — Steve franze o nariz e eu não consigo dizer nada por alguns instantes, observando-o.

— Pula a parte de ser descongelado após anos desaparecido — eu disse.

Steve não mostra-se surpreso por eu saber sobre seu passado. E eu não vejo motivo algum para esconder que sabia.

— São raras minhas folgas — ele diz — A SHIELD me rouba um bom tempo... — ele não parece lamentar — O que, de certa forma, eu agradeço.

Ouvindo-o explicar, eu reparei em mais um motivo para não ser uma agente. E agradece? Amo liberdade, ficar presa em um trabalho não está em meus planos.

— Agradece?

Steve fixa a atenção diretamente em meus olhos. Provavelmente, pensando entre o que me contar, enquanto eu mergulho naquele mar azul, cheio de tristeza e saudade. Acabamos de nos conhecer, eu sei. Mas sinto uma espécie estranha de conexão nos ligar. Penso eu que por reconhecer alguém como eu: que esconde seus sentimento atrás de uma máscara feliz.

Steve decide confiar em mim, pois, um pouco tímido ele continua:

— Eu... humm... não sou muito bom em entreter alguém — dá de ombros, parecendo indiferente — Então eu mantenho longe de encontros ou situação semelhante — comenta, fazendo pouco caso.

Steve é um homem muito bonito, — lindo, maravilhoso... — mas não sei dizer se o que vejo nele seja insegurança, talvez auto proteção. Eu entendia muito bem o sentimento. Maneio a cabeça concordando. Surpresa, mas de alguma maneira o compreendia.

— Posso não ter passado pelo que passou, mas eu meio que entendo. Sei o que é se sentir deslocado — eu não fazia ideia do que estava fazendo, mas senti que tinha que falar algo — É difícil encontrar alguém que queira te conhecer da maneira que é.

— O mundo mudou demais — comenta.

Abro um sorriso lembrando de um assunto anterior.

— Como era? — Steve franze o cenho, confuso — Eu só sei o que vejo através dos livro e telas, então, como era o mundo de antes?

— Diferente — arregalo os olhos com o óbvio e ele torna a explicar, rindo — As roupas eram diferentes. A música, não tem comparação com o que ela é hoje — afirma com causa e conhecimento. E eu, como uma boa apreciadora de Cindy Lauper, não posso discordar — A tecnologia hoje é tão avançada, demorei um tempo até aprender ligar o celular — dou risada e ele acompanha.

— Sem internet, sem celular. Que horror!

— Não — Rogers discorda — As pessoas viviam mais, conversavam mais. Não tinham tantos problemas com a visão e não eram isolados uns dos outros como acontece hoje.

—Pensando por esse lado... — olho em seus olhos — Deve ter sido difícil, acordar em outro tempo.

— Foi — concorda — É uma aprendizado novo, todo dia.

Sorrio minimamente para esse homem que mesmo tão forte, era gentil em igualdade. Ele sorri de volta.

— Steve — uma voz chama nossa atenção eu desvio minha atenção do outro, um tanto acanhada com o possível deslumbre que ele deve ter visto em meu olhar.

Viro-me para ver a dona da voz que interrompeu, e, de frente a nós, encontro-me com Natasha Romanoff. Ou como eu prefiro, Fire hair.

— Natasha — ele comprimenta de volta.

Os dois se olham com certa intimidade.

— Fury requer sua presença na sala dele.

De agente a pombo correio. Seu posto despencou, Viuva Negra. Zombo em minha mente. Como se ouvisse meus pensamentos — o que eu garanto ser absolutamente impossível — ela virou-se para mim, direcionando-me um olhar duro como wurtzita e frio como cobre de coure.

— Agente Romanoff — a comprimento com um sorriso irritante nos lábios.

— Sofya Stark — ela cospe as palavras em minha cara, tocando na ferida com certo prazer ao ver minha cara se converter em uma careta.

Que caralhos. Como ela descobriu?

— Stark? — ouço Steve perguntar.

— É Denova, Sofya Denova — sibilo em sua direção.

Ela me encara com um olhar divertido e apesar de não demostrar, tenho certeza que ela ria por dentro. Maldita.

— Não é o que o exame e o próprio Stark diz — retruca passiva agressiva.

Argh! O que o Stark pensa que está fazendo? Tomando meu direito de emancipação. Espalhando aquela notícia como uma velha fofoqueira. Em minha mente, imagino mil e uma formas de estrangulamento. Sou de menor, será que irei presa por homicídio? Apesar dos pensamentos um tanto sombrios, a unica coisa que faço no momento é respirar fundo.

Beeem fundo.

Não se descontrole, Sofya. Digo a mim mesma.

1. 2. 3.

Encaro a mulher e deixo um sorriso provocante aparecer. É, eu sempre arrumo briga com gente da pesada, mas nunca me imaginei aqui, prestes a irritar a famosa Viuva Negra.

— Se isto é porque consegui te derrubar, por favor, siga em frente. Pense pelo lado positivo, fui eu quem te derrubou, e acredite, isso é um prêmio — falo amigavelmentee recebo em retorno um olhar mortal sobre a minha inocente pessoa.

— Eu não sabia que o Stark tinha uma filha — Steve comenta, ignorando nossa discussão.

Desvio o olhar da agente para ele, encolhendo os ombros e fazendo uma careta que apareceu mesmo com sob minhas falhas tentativas de evitá-la.

— Pois é, parece que o Stark andou espalhando esperma pelo mundo. Minha mãe foi a sortuda da vez — eu murmuro em um tom amargo e descontente.

Ninguém diz nada ao absorver aquele clima ruim que veio para ficar. Instantes depois, Tony Stark entra no refeitório, olhando ao redor em busca de algo. Ou no caso: eu.

Falando no diabo...

O que ele faz aqui? O que acha, idiota? Involuntariamente, eu me encolho, como se fosse conseguir de alguma forma passar despercebida pelo seu olhar. O que prova-se ser claramente inútil quando ele me vê e caminha nesta direção.

Droga.

— Dona Aranha, Picolé.

— Stark.

Eles respondem o comprimento, cada um expressando de maneiras diferentes o quanto detestavam os apelidos que o Stark os havia dado.

—Sofya.

— Oi — minha voz sai num sussurro. Estou irritada o suficiente para estrangular alguém nesse exato momento. E meu alvo principal encontra-se a frente, a poucos metros de distância. Para ser mais especifica, meu alvo do momento é Anthony Stark. Aperto minhas mãos em punhos. Tenho que começar a ter mais controle em relação aos meus sentimentos, ou irei explodir.

— O carro está nos esperando lá fora, nosso voo para Malibu está marcado para daqui uma hora — ele avisa.

— Como assim, Malibu?

Assim, eu sabia o que significado daquilo, mas era como se eu precisasse de uma prova verbal da minha desgraça. O que é prontamente respondido pelo Homem de Ferro.

— Onde eu moro.

É sua unica resposta.

Inspira. Expira.

Inspira. Expira.

Nos encaramos por alguns minutos. Tenho certeza que o olhar que direciono ao ser a minha frente não é nada amigável. Suspiro em derrota. Eu não tinha chances, Tony tinha a minha guarda e eu ainda era de menor, ou seja, legalmente forçada a morar com ele até completar meus dezoitos anos, o que demoraria cinco meses para acontecer. Eu tive de recuar e aceitar aquilo, ao menos por enquanto. E, embora a idéia cheia de ação de fugir mundo a fora fosse interessante, eu sabia que não conseguiria ir muito longe. Dinheiro sempre moveu o mundo. E Tony fuckedStark tinha dinheiro. Todavia, o que mais me irrita a um nível quase anormal, é saber que Romanoff e Steve estão assistindo minha rendição.

Argh. Que raiva!

Virei-me na direção deles, ou melhor, del. Eu suspiro novamente e abro o melhor sorriso que posso oferecer e ergo o braço.

— Foi um prazer conhecê-lo, Steve Rogers.

Seus olhos azuis me encaram com atenção e ele sorri mais reservado, apertando brevemente a minha mão s fazendo-me perder naqueles lab...

— Digo o mesmo — responde.

Respirando fundo e andando até a saída do refeitório, eu ignoro a presença detestável das outras duas pessoas presentes, sem me importar se estarei ou não sendo educada. Contudo, somente quando passo pelas portas do lugar que eu lembro de que havia deixado toda a minha refeição para trás, tendo comido quase nada. E, sinceramente... meu apetite se foi. Restando-me apenas aquela fagulha de irritação.

Só para variar.

CE

Notas finais
1. Wurtzita de nitrato de boro é tão dura quanto o diamante, mas quando colocada sob pressão fica mais resistente. 2. O bloco de cobre do CUORE é a coisa mais fria que existe no mundo hoje, de que temos conhecimento. Até o próximo capítulo. Beijos seus lindos. SaahAlyne