Sento-me na parte de traseira do carro junto do Stark e viro-me para a janela, observando as ruas desconhecidas por mim ganharem vida conforme o carro seguia em direção ao meu destino final. Happy, o motorista e alguém de confiança do Stark, dirige até a casa do mesmo trocando algumas palavras com o poderoso chefão.

Toda interação que tivemos desde que pousamos na Califórnia foi o Stark me oferecendo uma água e eu balançando a cabeça negação. E, sinceramente, espero que continue assim. Não posso fugir de Tony para sempre, é um fato, nós iremos morar sobre o mesmo teto. Entretanto, o que disse a ele antes continua de pé. Eu não estarei fazendo parte disto. No que depender da minha pessoa, eu o evitarei com todas minhas forças.

Meu corpo inclina para trás quando o carro inicia uma subida levemente pedregosa. É possível ouvir o som dos pneus passando sob elas e reparo quando os arredores se tornam mais fechados e discretos. Algo que somente é reservado a terrenos particulares, suponho.

Estamos chegando.

Eu levanto meus lábios num sorriso contemplativo e aperto o botão para abaixar mais o vidro do carro, querendo sentir o ar litorâneo bater no meu rosto.

Sim, eu tô ligada de que morava em Nova York, a uma pegada de metrô até a praia, porém, eu estava no Brooklin e nunca parei, realmente, para desejar somente colocar um biquíni e tomar um banho de mar. Deuses, faz anos que não piso meus lindos pezinhos sobre a areia da praia. O pensamento saudoso unido a vista belíssima das tão faladas palmeiras da Califórnia me deixa com uma vontade ainda maior de me aproveitar da situação. Se a vida te der um limão, esqueça a limonada, é ruim. Faça um mousse, eu adoro mousse. Aprecio a vista levemente animada com a idéia de um mergulho.

Tiro meus olhos da paisagem ao ouvir uma voz. Stark falava comigo, sabia disso pois sua entonação ficava tensa quando o assunto era eu.

— Pedi a Pepper que arrumasse um quarto para você — fala me olhando daquele jeito dele. Eu arqueio a sobrancelha — Ela é minha namorada e mora comigo — continuou e eu balanço a cabeça — E planejou um jantar de boas vindas.

Ele ia insistir mesmo?

— Estou sendo obrigada a isso também?

Meu tom sai leve, mas ergo uma sombrancelha para dar ênfase. Sim, eu não estou aqui por vontade própria. Eu digo nas estrelinhas. Espero qualquer tipo de sensação em mim, menos essa ruim, que aperta meu estômago e faz eu querer me retratar. Seu silêncio trás-me uma sensação ainda mais incomoda e aquilo se segue por uns bons segundos. Claro, até o Stark sorrir sem parecer achar graça alguma. O sentimento ruim desaparece e outro mais desagradável me envolve.

— Não, Sofya. Sinta-se a vontade para se trancar no quarto e morar lá pelos próximos cinco meses.

Raiva. Eu podia ir de calma a irritada em segundos, e Tony Stark sabia como apertar meus botões. Sua complacência me enfurece e eu viro meu corpo com tudo, encarando-o zangada.

— Você não me deu muita escolha, não é? E agora quer que eu te receba de braços abertos e chore de felicidade por o encontrar, quando eu obviamente não estou!?

— Para ser bem sincero, poderíamos começar apenas com pouco de respeito — devolve sarcástico e eu zombo ruidosamente — Vamos, tente, não deve ser muito difícil.

— Não se pede respeito, o conquista — balanço a cabeça em negação, chateada de alguma forma. Ainda que eu não compreenda exatamente com o que ou porquê.

Eu sou tão confusa.

Stark respira fundo, deixando de lado sua pose para me encarar seriamente.

— Estou tentando.

É claro que sim, roubando meu direito de emancipação como se eu fosse seu novo brinquedo. Talvez um problema que ele precisa solucionar.

— Eu não me importo.

Mais silêncio, exceto pelo som do carro andando. E agora o clima pesado está tão denso que eu me surpreendo de não estar engasgando. Torno a olhar a janela dizendo a mim mesma de que eu estou certa. Sim, eu estou, não preciso me convencer dessa merda.

— Você pode viver dentro daquele quarto ou fora dele, ir para esse jantar ou não. De toda forma, isso não vai mudar as coisas e eu não estou voltando atrás, Sofya — eu não o encaro quando Anthony Stark volta a falar, continuo com o olhar preso na vista, embora toda minha atenção esteja em suas palavras — Você irá descobrir que eu sou bem persistente.

Mordo meu lábio inferior e pisco os olhos, respirando profundamente. Quero dizer algo, mas nada sai. Então, torno a encarar o Stark esperando que as palavras viessem, mas sou pega ao assistir ele descer do carro e assim percebo que havíamos parado. Respiro fundo descendo e batendo a porta do carro, vendo que somente o motorista encontrava-se dentro do veículo. Ótimo, ele ouviu toda aquela discussão. A evidência me deixa parcialmente envergonhada. Eu repassei a coisa toda na minha cabeça e cogitei que, possivelmente, eu pareci uma adolescente mimada que não ganhou seu carro caro de presente. Legal. No entanto, ignoro a situação e deixo um suspiro surpreso escapar da minha boca, que ganha vida sem que eu possa impedir.

— Uau... não duvido de que meus olhos estejam arregalados.

Caraca! Isso aqui é enorme.

Dou alguns passos para longe do automóvel quando um homem e uma mulher, na faixa dos seus quarenta anos, passam por mim silenciosamente e retiram minhas coisas do porta-malas, carregando-as para dentro do casarão. Em seguida, o carro dá ré para sair da propriedade. Todo o momento comigo parada encarando a fachada da mansão com certa apreensão. Eu podia ver uma fração do lado interior do imóvel, uma vez que grande parte das paredes eram de vidro. Bem estilo aquelas casas praianas de gente rica. Porra, tem até cascata aqui na frente e pinheiros plantados de um lado ao outro. Todas essas coisas que deixam uma casa muito foda.

Tomo uma golada de ar quando finalmente sigo para dentro da mansão em silêncio. Adentro em uma sala super chique, iluminada pela luz do dia através daquela parede de vidro. Há também uma mesa no centro e um sofá virado na direção da entrada. E é exatamente onde Anthony esta sentado. Eu não sei para onde encarar, então olho todo o redor com real interesse quando o Stark subitamente levanta vindo até mim, por um momento apenas me observando, deixando-me desconfortável.

— Você não quer estar aqui, entendi — Stark assente e eu logo imagino que ele deseja terminar aquela discussão aqui. Eu desviei o rosto para que ele não visse nada atravéz dos meus olhos — Mas quero que saiba de que eu não sabia, Sofya, sequer imaginei que sua mãe tivesse ficado grávida na época. Eu era jovem e irresponsável e ela nunca me procurou — observou, atento as minhas reações — Eu falei sério quando disse que não estou voltando atrás na minha decisão. Seja o que você passou durante esses anos, não vai mais acontecer. E pode ser um tanto cedo para dizer isso, mas agora que sei a verdade, quero tentar ser o pai que precisa.

Fito o herói num misto de ansiedade, surpresa e medo. Eu não esperava por tal declaração. No mínimo, achei que ele diria para que eu não quebrar nada ou que não lhe enchesse o saco. Engulo à seco sem saber o que dizer ou como reagir. Stark pegou-me completamente desprevenida. Ele quer tentar ser o meu pai. Talvez... talvez ele realmente me queira como filha dele. É tão cansativo quando se está sozinha. Contudo, minha reação é contrária dos meus pensamentos. Um instinto protetor toma conta de mim, e faz com que eu afaste qualquer pensamento esperançoso.

— Está mentindo — minha voz sai fraca. Estar lutando contra tantos sentimentos consegue desestabilizar todo o controle que me esforço tanto em manter.

— Não, não estou — ele tenta uma aproximação, mas dou um passo para trás e balanço a cabeça negando.

Inspira, Sofya. Se acalme. Odeio ser vulnerável e neste momento, eu estou muito vulnerável. Não mostre, você está bem sozinha, lembra? Como? Como alguém pode estar bem tão solitária? Respiro fundo e me forço a tomar uma postura indiferente.

— Onde irei ficar? — eu pergunto numa tentativa de fugir desse assunto que tanto me perturba.

Stark me olha e suspira.

— Sofya, apenas...

O som de passos interrompe o quer que ele vá dizer, e eu respiro aliviada, agradecendo mentalmente o meu salvador. Ou salvadora. Corrijo-me, quando movo o corpo para observar a bela e elegante mulher de cabelos ruivos, vestindo roupas sociais, descer as escadas. Sua atenção presa no Stark com um olhar... o tipo de olhar que a gente só vê alguém receber nas telas de tv.

— Tony — ela chama o homem antes de me perceber no lado oposto de Anthony, desconfortável com a situação que foi-me imposta.

— Pepper, querida — Stark se aproxima da mulher com a voz transmitindo um carinho que até então, eu não imaginei o homem ser capaz de oferecer além de sarcasmo e sorrisos idiotas. Ele inclina para beija-la e eu viro o rosto, me movendo para longe e sentindo-me cada vez mais uma intrusa dentro daquele lugar enorme.

Entretanto, eles se afastam rápido e eu respiro fundo e aliviada. A ruiva, Pepper, caminha até mim:

— Você deve ser Sofya — ela sorriu. Eu acenei. E foi impossível não sentir uma simpatia instantânea pela mulher — Sou Pepper, namorada de seu pai.

De seu pai.

Tento suavizar minha carranca e não digo uma palavra. A mulher se aproxima e segura minhas mãos, olhando-me de uma maneira carinhosa e difícil de não retribuir. É possível notar apenas com o olhar o quão boa ela é. Eu costumo acreditar nos meus instintos.

— Quer que eu lhe mostre seu quarto, querida? — a ruiva pergunta de forma gentil — Você deve estar cansada da viagem. De Nova York até aqui tem chão.

Eu assinto.

— Eu agradeceria, se não for incomodar — respondo, toda educadinha.

Pepper abre mais um sorriso.

— De maneira alguma... Imagine o meu alívio quando soube que essa casa não estará mais tão vazia — não acredito totalmente quando ela diz isso, mas não digo — Venha, irei te mostrar o caminho — e me arrasta até o andar de cima.

Tony e sua história de querer ser meu pai é deixado para trás e eu sinto que poderia dar o mundo para a mulher, somente por ter me tirado daquela situação.

— Espero que goste, foi eu quem o decorou de última hora. Então, caso não seja de seu agrado basta dizer que posso providenciar o quarto a seu gosto — a ruiva avisa e vai explicando mais algumas coisas, porém, eu não presto muita atenção.

Aprecio e memorizo o caminho até o meu futuro e temporário quarto. A namorada de Tony abre uma ultima porta no fim do corredor, dando espaço para minha passagem e seguindo-me logo depois.

Assim que entro a minha atenção é voltada ao cômodo, tenho quase certeza de que estou com a expressão mais idiota do mundo. O quarto é grande, contendo uma enorme cama king size e uma pequena varanda de frente a cama, dando a oportunidade de uma vista incrível para a praia. Na parede esquerda, há duas portas, acredito que seja onde se encontra o banheiro e closet. De ambos os lados da cama; dois criados mudos com abajures brancos com estampa simples de flores azuladas. A parede da porta de entrada contém um painel com uma grande televisão de plasma, alguns eletrônicos lhe fazendo companhia em cima de uma mesa embutida à parede.

A cor das paredes são uma união uma cor pastel e de um tom azul cor do mar. Sem que eu perceba, aquela última cor em especial faz minha mente traiçoeira lembrar-me de um par de olhos azuis lindos, suaves e gentis. O que eu tô pensando? Pergunto-me confusa, balançando minha cabeça e tentando apagar a imagem da minha cabeça.

— O que achou? — Pepper pergunta sorrindo e tirando-me de meu devaneio.

— É... — pigarreio desconcertada — Muito lindo, eu adorei, obrigada — abro um sorriso pequeno, me emocionando ao ver sua sinceridade genuína com a minha aprovação.

Sofya Denova emocionada, é... o mundo pode acabar de vez. Meu subconciente impertinente zomba de mim e eu seguro o impeto de revirar os olhos.

— Eu apenas posso imaginar o quando tudo isso deve ser novo e confuso para você, mas espero que possamos ser amigas — Pepper tem uma de suas mãos no meu ombro.

Eu fito a mulher com calma, enxergando a verdade em seus olhos. Admito que eu não esperava tudo isso. Sinceramente, eu não estava com muitas espectativas de ir morar com o Stark. Um milhão de ideias vieram a minha mente, uma que a namorada de Tony não fosse muito certa a minha presença. Talvez até mesmo hostil. Mas tudo o que recebi foi gentileza. O Stark é um homem muito sortudo. Penso olhando Pepper. É bom que ele saiba disto.

— Também espero — eu ergo o canto dos lábios, me sentindo um tanto idiota. Maltratei Tony e sorri pra sua namorada como se nada tivesse acontecido — Muito obrigado por se preocupar.

— Que isso... — Pepper abana uma mão a frente do rosto, semblante aliviado, alheia aos meus pensamentos — Bom... irei deixá-la descansar, qualquer coisa estou aqui.

— Obrigada.

A mulher concorda com um olhar atencioso enquanto sai do quarto, fechando a porta e me dando a tão sonhada privacidade. Suspirei olhando a minha volta e apreciei o ambiente atual. Descido espiar um pouco e passo um bom tempo olhando cada canto do closet gigantesco. E um tempo ainda maior babando na banheira gi-gan-te que tinha naquele banheiro maravilhoso. Eu até me visualizava deitada ali em meio a sais de banho, tomando champanhe e ouvindo The Beatles. Dou risada do meu pensamento, porém, secretamente planejando o momento.

Quando termino a averiguação do quarto, eu me apresso em prender meu cabelo em um coque bem apertado, pois ele gostava de soltar de todo tipo de penteado que faço, então, inicio a arrumação de minhas coisas que foram deixadas no quarto, em algum momento entre a conversa com Tony e a chegada de Pepper. Bom, eu não saberia dizer, estava incomodada demais para prestar atenção em qualquer coisa que não fosse o que eu estava sentindo.

Guardo no closet as roupas que Tony insistiu que buscassemos no meu, agora antigo, apartamento. Logo, pensando que sentirei saudade da loucura de Nova York, as buzinas soando a todo momento, pedestres desatentos gritando com algum motorista louco e as pessoas correndo de um lado ao outro. É o tipo de coisa que depois que você se acostuma, fica estranho deixar. O silêncio se torna barulhento. Como o de agora. Apenas o som das ondas como trilha sonora pelos próximos meses.

Ando até a varanda do quarto para ter a visão do mar, observando com surpresa que o sol estava se pondo.

Após terminar de arrumar tudo, eu imaginei que merecia tomar um banho de banheira. E eu aproveitei, até a água esfriar e minha pele enrugar como o de uma velhinha. Portanto, estou agora deitada na cama com o Notebook em mãos tentando acessar Max, meu amigo artificial.

Eu o criei para facilitar minha vida. Começou com uma idéia de um vínculo, semelhante a conexão bluetooth, que permite-me acessar Max onde quer que eu for com qualquer um dos meus aparelhos, sem base de senhas, apenas reconhecimento de voz. Entretanto, ele é um pouco mais complexo uma vez que posso me conectar a inteligência por meio de um chip que instalei em todos os meus aparelhos, o que me dá acesso sem quaisquer restrições. Sem precisar de satélite, nada.

Totalmente conectada com meus eletrônicos muito bem criptografados e protegidos, obrigada.

Quando sequestrada pela SHIELD, todos meus pertences foram levados, mas antes de ir embora, Fury os devolveu quando não encontrou nenhuma informação para me acusar. Claro que não pude deixar de ficar presunçosa. Assim sendo, eu recuperei Max, meu notebook e todas as minhas coisas e sai da SHIELD pela porta da frente.

Eu gostaria de ver o olhar de Nick Fury mais uma vez quando eu acenei em despedida. Foi hilário, ainda que o Stark tenha tido parte na minha liberação rápida. Se eu ainda sou suspeita? Não tenho dúvidas, mas não há provas o suficiente para me acusar uma vez que ninguém conseguiu sequer ligar qualquer um dos meus aparelhos. E talvez, mas só talvez eu tenha deixado passar a parte em que Max liga apenas ao som da minha voz.

Tecnologia é demais.

Enfim, barganhei com Fury, recuperei meu bebezinho e aqui estou.

Abro a maleta e aperto um botão. Aos poucos Max começa a se formar, tornando-se no meu bichinho mais amado.

Desde os meus oito anos que eu tive essa vontade de ter um cachorrinho, infelizmente, sou alérgica aos pelos de animais — ou pelo menos eu fui quando mais nova — o que resultou na proibição extrita de minha mãe. Sei que fiquei bem deprimida na época e foi assim que decidi criar meu próprio cachorrinho com um computador antigo que pifou e ficou jogado, junto de algumas sucatas que eu recolhia escondida. E sim, eu construí um cachorro robô com apenas oito anos de idade.

Abri um sorriso divertido com a vaga lembrança de quando o construí voltou em minha mente. Mamãe quase morreu de susto e depois quase me estrangulou.

Bons tempos.

— Max.

Olá, Sofya


Ele me saúda com sua voz robótica.

Solto um gritinho e pulo na cama, exagerando na animação.

— Ai Max, que saudade de você — eu digo.

Imagino que não posso dizer o mesmo, afinal, não tenho sentimentos.

— Outch, insensível — eu falo, bem humorada e me jogando na cama, feliz da vida.

Faz tanto tempo que não me sinto assim, entretanto, não demora muito para que eu ouça um som alto vindo diretamente de minha barriga. Você pode viver dentro daquele quarto ou fora dele, ir para esse jantar ou não. De toda forma, isso não vai mudar as coisas e eu não estou voltando atrás, Sofya.

Era fato de que eu tinha que fazer uma escolha. E achei maldade ser justo neste momento sagrado, a hora da comida, que eu tenha que dar um passo em direção a Anthony.

Senhorita Sofya, o senhor Stark e senhorita Potts solicita sua companhia para o jantar.

Ouço Jarvis falar e não me assusto. Pepper havia me avisado sobre a inteligência artificial da casa.

No fim, eu precisava dar o braço a torcer, ao menos por agora, em pró da minha barriga que ganhava vida, cada vez mais alto com sons aterrorizantes. Deus, eu definitivamente preciso comer.

— Okay, obrigada Jarvis. Diga que já irei descer — peço, recebendo uma resposta afirmativa daquela voz. Levantei da cama e sai do quarto, usando uma camisa regata branca, um short jeans e rasteirinha. O coque que fiz anteriormente se desfazia e poucas mechas caia sobre meu rosto, que exibia uma maquiagem fraca e pouco visível.

Caminho em direção a sala de jantar e com a ajuda de Jarvis consigo encontrá-la. Entro no cômodo composto por uma mesa de oito lugares, apenas três deles organizados.

Observei com interesse a mesa bem organizada. Pratos, guardanapos, talheres e copos, ou melhor, taças. Para mim, toda essa sofisticação chegava a ser um tanto desnecessária. Não havia visita além de mim, e logo, eu também não seria uma visita.

— Boa noite — desejo educadamente, tomando um acento e interrompendo a conversa do casal.

— Boa noite.

— Boa noite, Sofya — ambos dizem quase ao mesmo tempo.

Eu encaro a mesa com certa desconfiança e separo uma pequena porção de macarronada — porque eu realmente amo massa — costela, batata assada. Tudo bem caseiro. E o cheiro era de matar.

— Tudo bem? — Pepper pergunta, me observando com atenção. Eu suponho que ela tenha notado minha hesitação.

— Sim, tô legal, só acho tudo isso muito estranho, sabe?

— Como assim? — Pepper questiona.

Eu a avaliei tentando saber se está me julgando ou apenas curiosa, mas vejo apenas interesse.

— É... — dou de ombros — Duas taças... esse monte de talheres — respondo.

— Ah... sinceramente — ela ri com suavidade — Não conta para ninguém, mas nem eu sei.

Assinto divertida. Porém, sempre tem um porém, não é mesmo? Stark se pronuncia:

— Espero que tenha gostado do quarto — ele me olhou com tranquilidade, o que acabou refletindo em mim.

— Sim, eu gostei. Muito obrigado — agradeço, ainda que com um total de zero disposição para ter um diálogo com ele. Sim, estou tendo uma atitude bem idiota, mas, ainda tenho dúvidas sobre dar uma chance a Anthony.

Dê uma chance a si mesma. Cale a boca.

Suspiro cansada. Minha mente está uma completa bagunça e o início de uma enxaqueca me faz querer comer e deitar. O silêncio reina enquanto jantamos, uma tensão desconfortável pairando no ar.

— Eu estava pensando... — a ruiva deliberou — Você terminou a escola?

Eu concordo aliviada. Adeus rivalidades, panelinhas e patricinhas.

— Sim, eu terminei, sou três anos adiantada — explico.

— Hm... — ela mastiga a comida e aproveito para comer também — E nunca pensou em fazer uma faculdade? — me questionou.

— Er... Eu estava fazendo.

Sinto-me incomodada com o assunto, apesar de me esforçar em não demonstrar ao peso de dois olhares curiosos. Apenas ignoro a indagação silenciosa e volto a comer.

— Estava? — Stark pergunta.

—Sim, estava — respondo evasiva.

— Por que parou? — pressiona.

Curioso? Claro que não, imagina. Sério mesmo que ele não notou meu nervosismo, quer dizer, eu sei que sou muito boa em fingir, mas mesmo assim estava visível mesmo para mim.

— Não é da sua conta — resta-me ser rude e esperar que entenda. Chega de perguntas.

Mas é o Stark. O homem prepotente que gosta de se gabar na frente das câmeras. Que tem dinheiro, fama e poder para conseguir o que quiser.

Quero esquecer. É pedir demais que aceite ao menos o meu desejo de ficar em silêncio? Ele não sabe. Em silêncio, Pepper coloca a mão sobre a do homem, tentando chamar sua atenção.

— Tony... — ele a ignora.

Anthony revira os olhos em exasperação.

— Meu Deus, eu quero apenas te conhecer. Não pode dar-me uma chance para entrar em sua vida?!

Posso sentir como se mãos invisíveis apertasse o entorno do meu pescoço. O nó preso na garganta. Ele precisa ser tão insistente? A verdade é que a presença de Tony me tira do sério, ele ser o meu pai me irrita. O fato dele não estar lá quando eu mais precisei, me... me faz o odiar ainda mais por que ele deveria. Deveria ter estado.

Eu sou como uma bomba atômica prestes a explodir.

Largo o garfo fazendo um grande tilintar ecoar pelo ambiente silencioso. Dou um sorriso desagradável, enquanto fuzilo Tony com o olhar. Ele não recua.

— Você quer saber o porque deu largar a faculdade? — ergo os braços como se abrisse um espetáculo — Eu tava na merda! Enquanto você curtia a sua vida! Cheia de bebedeiras e festas extravagantes, eu tava tentanto continuar! E eu achei... achei que estava conseguindo superar a morte da minha mãe, mas não consegui! — desabafo ofegante, secando bruscamente as malditas lágrimas que caiam dos meus olhos sem a minha permissão — Satisfeito, senhor Stark?

Levanto de meu lugar disposta a voltar para aquele maldito quarto, sem controle sobre minhas ações. O melhor a fazer e me afastar.

— Sofya — ele também está em pé, segurando-me pelo pulso — Eu não imaginava... — interrompo sua fala.

— Você não sabe de nada e acha que pode aparecer e reivindicar algum direito sobre mim!? Não me importa suas motivações, você nunca fez falta na minha vida e não vai fazer de novo — era uma mentira, eu sabia disso — Então, faça um favor a mim e a si mesmo, Stark, nos poupe desse seu showzinho de papai preocupado e esqueça que eu existo. Você não pode concertar isso — balanço a cabeça vendo tristeza em seus olhos, ou seria decepção?

Cacete!

Eu não duvido de que ele esteja arrependido agora. A ideia me deixa mais chateada, mas é totalmente comprovada quando ele me solta. Está, não é Tony? Está arrependido de ter tentado.Eu estou. Tolamente arrependida. Pois, no fim, as minhas ações trouxeram-me até aqui.

Dou um passo para trás esperando algo dele: uma réplica cheia de raiva. Mas não há nada. Portanto, eu vou para longe do Stark e de tudo que ele representa para mim. Caminho pelos corredores daquela mansão como uma bêbada, chorando cada vez mais forte. Quando chego ao fim do corredor, eu entro no quarto batendo a porta e corro em direção a cama. Não chego muito longe e caio com os joelhos no chão, batendo com o rosto na beirada do colchão enquanto chorava copiosamente.

Um grito de dor, raiva, ressentimento e muitas coisas que, neste momento, me machuca, sai rasgando pela minha garganta. No entanto, eu ergo o rosto manchado pelas lagrimas ao escutar o som de vidro quebrando. Eu paro de chorar quando percebo que estou flutuando, e, ao me acalmar, tudo cai no chão ao som de objetos quebrando-se. Meu corpo seguiu o mesmo processo e meus joelhos produziram um eco estranho quando caí, a dor se alastrando pelo minha perna. Embora eu estivesse mais preocupada com a constatação de que a cada dia que se passa, meus poderes ficam cada vez mais fora de controle.

E eu também.

CE

Notas finais
EITA! Capitulo enorme e com uma revelação bombástica!!! Sofya tem poderes. Qual será eles, hein? Como ela os conseguiu? Bom... aguardem o próximo capítulo de THE AVENGERS - NEW STARK e não esqueçam de votar e comentar. Beijos seus lindos. SaahAlyne