Notas iniciais
Demorei, eu sei, mas estou atarefada com a burocracia da faculdade e do trabalho, fora o cansaço mental. ahhhh, kkkk. Estou me esforçando, principalmente, por ser os últimos capítulos do livro, (SURTO) então, tenham paciência comigo, please. Obrigado e boa leitura.

Você aceitou meus defeitos

Nunca deixou suas penas de anjo se arrepiarem

Sim, estou triste com a vida, você me tem de joelhos aos seus pés

E eu gosto disso só se no caso você não perceber

Jason Aldean — You Make It Easy

O Quinjet havia pousado num campo aberto, mas somente quando saímos que reparei nas cercas brancas que rodeava uma casa. O refúgio que Clint nos levou era absolutamente lindo, mas também curioso.

É aqui que ele mora?

Os raios solares bateram nas minhas costas, enquanto acompanhava os outros na direção da casa, observando tudo ao meu redor. Sempre gostei de ter uma bela vista pra olhar, para apreciar uma bonita paisagem. Me dá uma paz interior. Subimos poucos degraus, entramos na casa e nos deparamos com uma cena inusitada.

A princípio, teve Clint exclamando um “Amor, cheguei!”. Isso foi o bastante para me congelar. Então uma grávida mulher surgiu, fazendo com que eu seguisse o olhar direto para a sua enorme barriga. Voltei-me para o seu rosto de expressão tímida.

— Quê que tá acontecendo? — murmurei.

— Ela deve ser uma agente nova. — o meu pai concluiu, e eu assenti, pois, essa parecia ser uma explicação plausível.

— Gente, essa é Laura. — Barton anunciou.

Laura sorriu e disse já saber os nossos nomes. Continuei pasma.

— Papai! — em seguida, duas crianças, um menino e uma menina, correram até Clint e pularam no seu colo.

— E esses são agentes mirins. — Tony continuou.

Ainda estagnada mediante a porta, eu esperei que alguém saísse de algum canto e gritasse “Peguei vocês!”. Algo que não ocorreu. Nunca na minha vida eu imaginaria que Clint Barton tivesse uma família. Por que ele nunca falou nada?

Mas calma… ainda não teve o ato final. Ato que fez o meu queixo atravessar o chão e alcançar o núcleo da terra tamanha a minha perplexidade. Ato que me deixou muito, mas muito mais embasbacada. A menina no colo do Barton perguntou por uma tal de tia Nat, e eu não tinha entendido bulhufas nenhuma, até ver Romanoff ir na direção da gaviãozinha.

Pressionei os meus lábios, assistindo toda a situação, ainda não acreditando realmente.

— Sou só eu que me sinto num Reality Show?

— Acho que tem uma câmera escondida ali. — meu pai acenou para um brinquedo em cima da mesa, mas não consegui rir da sua forma de distração. Estava ainda mais confusa.

— Desculpa termos vindo assim… — Steve tomou uma iniciativa.

— Mas estávamos muito ocupados não fazendo ideia de que existiam.

Mandei uma careta para o Tony pela falta de sutileza e um sorriso sem graça para os nossos anfitriões.

Levou cerca de meio minuto até não restar quase ninguém do grupo na sala.

Thor foi o primeiro a se retirar, sendo seguido por Steve para fora da casa. Clint seguiu a sua mulher, Laura, — ainda estou pasma — para ajudá-la com as nossas acomodações e eu vi Bruce e Natasha também saírem juntos, o que me fez franzir as sobrancelhas. No fim, restou o meu pai e eu. Permaneci parada, sem muito o que fazer, mas Tony ficou reparando em tudo, fuçando em algumas coisas, no processo.

— Pare de mexer nas coisas dos outros. — sussurrei, dando uma espiada na janela e observando um diálogo entre o deus do trovão e o capitão.

— Então pare de espionar a conversa dos outros. — retrucou e voltei-me para ele, sem graça.

— Eu não estou.

— Vou fingir que acredito. — meu pai sorriu de maneira irritante e, mais uma vez, constatei o quão chato ele é.

Revirei os olhos e o ignorei, cruzando os braços enquanto ouvia o telefone do Stark tocar. Ele fez uma careta ao encarar o aparelho e não foi necessária uma varinha de condão para saber que Pepper ligava. Eu não queria estar na pele do meu pai, considerando que estávamos em todos os jornais.

Stark também saiu e então restou eu… bom, até às duas crianças do Clint encontrarem-me.

— Oi. — eles me olharam com um sorriso.

A menina lançou o olhar mais fofo do planeta e eu sorri de volta, de forma bem menos forçada do que pensei que seria.

— Oi. — abaixei-me para olhá-los.

— Sabia que a gente já te viu na televisão? — a voz fina dela entoou.

— É mesmo? — franzi o cenho.

— É. — afirmou a garotinha. — É verdade que você agora é rica e que aquele prédio grandão do buraco de minhoca é seu? Pode me levar pra conhecer? — disse rápido e ergui as sobrancelhas, um tanto surpresa.

— Lila! — o garotinho fuzilou a menina com o olhar, então me encarou. Ele era bem mais alto e sério do que a pequena gaviã. — Sinto muito, a minha irmã não sabe o que fala. Meu nome é Cooper. — ele ergueu o braço e eu apertei a sua mão, achando engraçado aquela formalidade.

— Sei sim! Você que não sabe! — Lila emburrou-se com o irmão.

Soltei uma risada nasalada. Aquela cena me fez imaginar como teria sido a minha infância se eu tivesse tido uma irmã ou irmão. Por Deus! Minha mãe…

Balancei a cabeça:

— Tudo bem. — falei, sentindo-me divertida com a situação. — E sim, posso levar vocês, se os seus pais deixarem.

— Demais! — a menina sorriu e o olhos de Cooper Barton brilharam, contradizendo toda aquela postura austera que ele tentou passar inicialmente.

Não pude ficar indiferente ao entusiasmo deles e logo me encontrei enturmada com aqueles pequenos. É, eu provavelmente parecia uma criança.

Eles levaram-me para conhecer a fazenda e todos animais intitulados como os nomes dos Vingadores. Nunca ri tanto! E enquanto seguíamos o caminho de volta para a casa, eu podia o sol ainda estalar. Chutei que não seria mais de duas horas. Passamos por Tony e Steve e acenamos antes de entrar. Claro, não antes de eu notar um clima estranho entre os dois, mas ignorei a sensação, atenta a conversa das duas crianças.

— Você também é uma Vingadora? — Cooper perguntou, sentando no sofá ao lado da sua irmã, enquanto eu me recostava na poltrona.

— Mais ou menos. É complicado.

— Mamãe sempre fala isso quando não quer explicar algo. — ele pontuou, deixando-me surpresa, mais uma vez. Dei risada.

— Eu não sei exatamente se sou. — expliquei, dando de ombros.

— Mas você tem poderes? — Lila perguntou-me com os olhos curiosos. Animada com a possibilidade.

Meus lábios se esticaram levemente. Ergui a mão e concentrei-me, então Lila e Cooper exclaram e riram quando passaram a flutuar, poucos centímetros acima do sofá. Acabei me animando e os levei mais alto, ouvindo-os me incentivar com as suas risadas histéricas. Permaneci no chão com um sorriso pregado no rosto. Minutos depois, os desci e eles pousaram no sofá suavemente. Ambos ofegantes depois de tanto gritar.

— Como você faz? — Cooper indagou energético.

— Isso foi muito legal! Faz de novo, Sô? — Lila pulou do sofá e se jogou em mim.

Respirei fundo em meio ao riso. Estava para respondê-los, quando um pigarrear fez com que somente então eu notasse que éramos o centro da atenção de Clint e sua esposa:

— Que tal vocês deixarem ela descansar e virem me ajudar na cozinha? — Laura sorriu para os filhos. — Você vai me agradecer. — falou sem emitir som, sorrindo, com diversão, para mim, lançando um olhar para o Barton, antes de sair.

As crianças olharam-me, desanimados. Fiquei com pena, mas não interferi e eles obedeceram à mãe, seguindo-a enquanto murmuravam bem baixinho.

— E sem resmungar. — Clint avisou.

Prendi uma risada alta:

— Quem imaginaria que você teria uma família?

— E quem imaginaria que você tinha jeito com crianças? Eles nunca mais vão largar do seu pé.

— Não é um grande mistério e essa dúvida deveria ser jogada na tia Nat. Que coisa não?

Clint riu do meu olhar sarcástico e sentou-se ao meu lado.

— Você ficaria surpresa.

— Acredite, eu já estou, seu fingido. — cruzei os braços, acusando-o com o olhar.

— Fury me ajudou a escondê-los.

Que grande surpresa! Fury é meio que o guardião dos segredos alheios. Os dele, os meus, os de Clint. Isso me faz pensar: quem mais da equipe esconde algo que somente o ex-diretor da SHIELD sabe?

— Isso sim não me deixa surpresa. — comentei, fugindo dos meus devaneios. — Nick é uma espécie de Matriona. A gente abre uma camada, sem saber que há muitas outras em baixo. Acho que ele gosta disso.

— Ele tem os seus motivos. — Clint foi em defesa de seu ex-empregador e eu não discordei.

Não duvido de que Fury possua muitos motivos para mentir, para ter os seus segredos. Sei de um dentre muitos que faria o diretor morrer para proteger, mas tenho aprendido a detestar mentiras, principalmente, quando uma pode atingir a mim.

— Pode ser.

Ficamos em silêncio, enquanto eu movia um lápis sobre a mesa.

— Como que tá essa cabeça? — Clint me cutucou.

— Bem. Estou lidando, acho. — inclinei a cabeça para lado, sem muita certeza das minhas palavras.

— Não finja, sei o que é ser controlado, não é nada fácil.

Respirei fundo:

— Vamos apenas dizer que Wanda Maximoff me mostrou o que evitei por um longo tempo.

Meus medos, receios e incertezas. Tudo guardado aqui dentro. Bem escondido, quase esquecido, mas que vem consumindo-me, pouco a pouco, mesmo quando engano a mim mesma dizendo que não. Droga. Eu realmente tenho passado a odiar essa coisa de mentira. E mentir para mim mesma tem sido a pior.

— Sofya, não devia dar ouvidos ao que viu, seja o que for. — Clint olhou-me com preocupação.

— Fique tranquilo, Barton. Sei me cuidar. — o cutuquei de volta com um sorriso.

— Certo. — ele bateu no próprio joelho e levantou-se, sem fingir muito bem o olhar ansioso sobre mim. Algo que também ignorei. Estava cansada das pessoas preocupando-se comigo. Eu tô bem. Minha palavra não basta? E sim, ainda me deixa muito irritada o fato da bruxa ter mexido com a minha mente, mas quem não ficaria? Eu sei que vou superar. Como tudo na minha vida. — Não vim aqui pra te encher o saco. Acho que você está cansada, acertei?

— Que isso… — ironizei, aliviada por aquele assunto ter sido deixado de lado. Clint negou com manear.

— Vamos, vou te levar para conhecer o seu quarto temporário.

— Nem cheguei e já está me expulsando?

— Menos Stark. — rimos, enquanto o acompanhava até o andar superior, onde o Barton disponibilizou um quarto e um banheiro para que eu pudesse tomar um banho.

Clint disse algo sobre a simplicidade do lugar, mas desconsiderei aquele bobo comentário, lembrando-o de que eu não tinha nascido no meio do luxo Stark. A casa de Clint era um lar. E, para mim, isso já era mais que o suficiente. Na verdade, toda aquela aura calma fazia-me recordar de uma infância a muito distante.

Piqueniques de fins de semana. Noite do cinema, às quartas. Panquecas com geleia de morango, todas as manhãs. Foi com essas memórias que tomei o meu banho. Tentei não demorar, mas acho que devo ter ficado uns bons minutos, parada, apenas observando a água cair. Que Clint me perdoe por essa. Com os cabelos úmidos, deitei e dormi, por um curto período. Foi algo bem automático.

Primeiro, sentei-me na cama e acabou que eu não resisti em deitar. Quando vi, já estava mergulhada em um sonho estranhamente real.

O chão era gelado. Tão frio que a baixa temperatura conseguia atravessar a camada daquela singular roupa, feita de um tecido incomum que cobria todo o meu corpo. A reconheci como uma EMU. Os trajes usados por astronautas.

Senti-me presa dentro de uma espécie de déjà vu.

Após longos segundos, que correram vagarosamente, levantei-me do chão e iniciei uma corrida desesperada. Era como se algo ou alguma coisa me desse uma sensação ruim. Perigo. Eu sabia que não podia deixar nada me alcançar. Meu coração começou a acelerar, continuamente, à medida que o medo ameaçava inundar todo o meu interior. Tive vontade de gritar por socorro.

Permaneci naquela corrida constante. Presa dentro de um corredor com curvas e elevações, totalmente branco e imaculado, machucando os meus olhos pela inexistência de qualquer outro tom. Não havia porta de saída ou sinais de como eu viera parar ali.

Mas eu sabia que não podia parar de correr. Ou então ele me pegaria, por isso, corri, até não aguentar mais.

— Deus! — exclamei com o meu último vestígio de força, dando mais um passo antes cair, completamente esgotada.

Suguei o ar em uma só arfada, sentindo-o descer rasgando até os pulmões, como se eu tivesse engolido milhares de cacos de vidros. Pus a mão sobre o peito com meu coração latejando fortemente e tive um péssimo pressentimento. Meu cérebro enviou diversos avisos ao meu corpo e minha pele arrepiou.

Usei o pouco das forças que juntei para levantar a cabeça. Foi assim que o vi. Meu sentido de autoproteção mandou eu voltar aquela corrida, mas foi o desespero, junto do medo, que me fez levantar.

Dei dois passos para trás.

— Quem é você? — gritei. — O que quer?!

O que me seguia não respondeu. Virei, cambaleante, e tornei a correr, arrastando-me e apoiando-me nas paredes. A insegurança fez-me lançar diversos olhares para a minha retaguarda, e em um desses momentos, a coisa ganhou a forma de um homem com rosto desfocado. Seu semblante fechado, embora eu não pudesse vê-lo nitidamente.

No entanto, sua presença era mais que o bastante para trazer uma sensação ruim. Um bile subiu pela minha garganta e eu engoli a seco.

O homem sem rosto ergueu a mão. Em questão de segundos, toda a minha vista embaçou enquanto minha cabeça explodia de dor. Momentos depois, e eu já não conseguia me mexer, respirar e muito menos gritar.

Tentei fugir…

Eu precisava fugir.

Para! Para!

Ofeguei e senti o peso de duas mãos sobre meus ombros. Uma voz tentou me acalmar:

— Sofya, respire, calma. — completamente assustada, eu me debati para longe. O chão me recebeu e uma dor aguda se espalhou pelo meu corpo.

— Aí! — exclamei, tocando minha coluna.

— Sofya! — Steve se apressou para me ajudar, olhando-me de forma preocupada.

Que merda!

— Tô bem, foi só uma queda.

— Estava tendo um pesadelo, te encontrei agitada.

Maneei a cabeça, esforçando-me para lembrar, tendo uma sensação estranha sobre o que eu poderia estar sonhando, entretanto, nada me veio a mente. O sonho, ou pesadelo, como o herói supôs, já se tornara algo esquecido dentro da minha mente. Uma memória nublada que eu não consegui enxergar.

— Não lembro de nada. — estranhei e maneei a cabeça, bocejando. — Mas deve ter me apavorado. — cogitei comigo mesma, coçando a cabeça. Voltei-me para Steve, notando sua face convertida em uma expressão preocupada. — Tô legal, mas talvez estivesse tendo um sonho sobre cair em algum abismo. — procurei uma explicação. — Sabe, geralmente, sonhos assim ocorrem quando as pessoas não estão respirando. Isso é uma mensagem do cérebro para acordarmos. — comentei, repetindo as palavras que li de um artigo, certa vez. Então reparei que só eu falava e Steve nada. Ele ainda olhava daquele jeito. — Eu estou bem, sério.

— Sofya, você disse que sua m…

— Que horas são? — levantei da cama.

— Sete. E está mudando de assunto.

— Eles crescem tão rápido. — dei um suspiro dramático, indo até o banheiro e jogando uma água no rosto.

Steve esperou-me no quarto, e quando voltei, continuou:

— Tudo bem, você não quer conversar sobre isso…

— Steve, eu realmente não lembro sobre o que estava sonhando. — fui firme. Ele me encarou. — Mas minha cabeça está doendo como o inferno. Será que podemos não tocar no nome dela?

— Eu ia dizer… — ele aproximou-se. — … que alguém, algum deles pode… — não soube continuar.

— Eu saberia. — afirmei. — Foi apenas um sonho, nada de mais, sério.

Steve ainda me encarou por longos segundos antes de assentir relutante. Ele respirou fundo:

— Seus cabelos estão úmidos. — mudou de assunto, tocando os fios.

— Eu os lavei.

— E dormiu. Não sabe que isso faz mal?

Dei um sorriso:

— E depois você resmunga quando Tony o provoca. — Steve pareceu não entender. — Eu nunca conheci nenhuma das minhas avós, mas aposto que elas me diriam algo do tipo. — continuei sorrindo. Steve levou a mão a nuca e deu uma viradinha de olhos, envergonhada. — Tudo bem, é bonitinho. Eu gosto. — aproximei-me, enrolando meus braços ao redor de seu pescoço.

Suas mãos foram imediatamente para minha cintura.

— Do que? Me constranger? — murmurou seriamente, mas seus olhos eram o portal para a sua alma. E eles sorriam.

— Também. — ri baixinho e Steve me apertou, evitando sorrir junto.

— Acho que você vai querer descer para o jantar, estão nos esperando — apesar da suavidade em seu tom de voz, sua expressão tornou-se séria, novamente.

— Esperando? — estranhei.

— Nick.

Balancei a cabeça. Uma palavra. Um nome. Apenas isso foi necessário para explicar a razão de estarem esperando-me. Nos esperando. Nick Fury estava lá em baixo. A realidade batia na porta. O diretor da SHIELD não viria até aqui se não tivesse nenhuma informação sobre Ultron.

— Acha que ele sabe de algo? — esperei por sua opinião.

— Ele sabe de alguma coisa. — respondeu, seriamente. — É o Nick.

Concordei. Nada de folgas e pausas para descanso. Tínhamos um cosplay de Skynet pra impedir.

— Vamos jantar? — pergunto, olhando no fundo dos seus olhos.