NEW STARK | the avengers [1] ✓
5 Mais um Stark
Bato o pé num ritmo constante sobre no chão, mais do que nervosa. Claro, eu não comentaria isso a ninguém nem sob tortura. Encostada na parede com os braços cruzados, uso uma calça jeans escura, camiseta regata branca acompanhada de uma jaqueta de couro preta e botinhas de cano curto marrom escuro. Eles haviam pego minhas coisas, mas devolveram apenas minhas roupas. Tão gentis.
Já estou com saudades do Max.
Suspiro mais uma vez, agoniada com o silêncio que se instalou na sala, enquanto esperamos um tal médico trazer o exame. Quanta demora. Mesmo eu sabendo o resultado, o frio em minha barriga não dá trégua de jeito nenhum, fazendo-me soar frio. Até parece que vou ser condenada a forca.
Bom, se for pra pensar desta forma.
Seco o suor das minhas mãos na calça, discretamente, em um ato nervoso. Tento pensar em qualquer outra coisa que não seja um envelope branco contendo um papel idiota que pode mudar a minha vida. É como se eu estivesse novamente sentada no sofá da minha casa, frente a um advogado que eu nunca tinha visto na vida e recebendo uma série de documentos na qual eu não tinha ciência, junto de uma maldita carta escrita pela minha mãe. O que mudou tudo.
Vai mudar novamente.
Preciso ocupar minha mente, ocupar minha mente.
Começo a reparar nas coisas ao meu redor. O escritório do diretor da SHIELD é bonito, simples, sem detalhes, fotos de familiares, flores, nada. Apenas uma caneta dentro de um copo em cima da mesa. Um quadro de arte abstrata que não fiz muita questão de entender. Muito impessoal. As paredes completamente brancas davam uma impressão de que... ninguém era proprietário daquela sala. Interessante. Seu computador ocupava a mesa junto do telefone, documentos e mais documentos. Hum, tinha a cadeira enorme de estofado na qual Fury está confortavelmente reclinado. Alguém parece ter um rei na barriga.
Observo a sala um pouco mais, porém, sem que eu perceba meu olhar cai em ninguém mais ninguém menos que Tony Stark. Solto outro suspiro baixo que passa despercebido pelos demais.
Permito-me tentar encontrar semelhanças entre nós. A cor dos olhos, o cabelo, cor de pele. Sim, não tem porque negar que somos parecidos fisicamente. Ele parece ter igualmente problema de tique nervoso uma vez que seu pé também bate constante no chão. Mesmo que seu olhar não mostre qualquer aparente nervosismo algum, pequenas de suas ações o entregam.
Será que ele quer mesmo saber a verdade? Ou até mesmo me assumir como sua filha, me trazer para dentro de sua casa e tratar como alguém da familia? Quais suas atividades preferidas? Ele é sempre tão metido e arrogante? Ele deseja isso, toda essa responsabilidade? Não?
Bom, eu não quero.
Concluo não muito convicta de meu pensamento. Mas e se ele me quiser como filha? Se ele quiser uma familia? Talvez, talvez possa dar... le não quer uma familia, se liga! Caso contrário, teria ficado com a mamãe no dia seguinte, e não ido embora. Para ele, você é apenas a consequência de uma transa, de uma noite que mal lembra.
Minha subconciência praticamente grita, e eu desvio o olhar para o teto engolindo as lagrimas que por um minuto, ameaçaram cair. Tendo certeza que está tudo bem em meu interior, torno a atenção para ele e por obra do destino — um idiota, devo acrescentar —, Stark também olha para mim. No mesmo e exato momento.
Outra semelhança: sua maneira de encarar é tão idêntica a minha que, por um momento, foi como se estivesse frente ao meu próprio reflexo. Desvio o olhar impedindo qualquer outro tipo de contato visual entre nós.Eu não posso me apegar a possibilidade de ter uma familia. Não posso.
Porque não? A oportunidade está bem ai na sua frente, por que perder uma chance dessas?
Eu não sei.
E se... E se... E se...
Argh!
Sou tirada desses pensamentos sem conclusões quando a porta é aberta. Um senhor de cabelos grisalhos e jaleco branco entra. Em sua mão ele carrega um envelope. Sem qualquer palavra ele o entrega à Fury e sai logo em seguida.
Minha respiração fica mais pesada que o normal.
Tô nervosa.
— Creio que um de vocês queira ser o primeiro a ver o resultado — supõe o diretor da SHIELD.
Um suspiro um tanto exasperado escapa por entre meus lábios. Não é só abrir o envelope idiota e ler? Não, porra... ele tem que fazer tooodo esse suspense infernal. Odeio quando fazem suspense, odeio filme de suspense. Odeio suspense. Ponto.
Agora só falta uma musiquinha de fundo, para completar.
— Será que dá pra parar de tanto mistério... não tem ninguém aqui participando de um Reality Show — Stark resmunga.
Pra que mesmo o exame de DNA? Nós somos idênticos. Não que eu me orgulhe disso, mas é tão fácil ver. Fury limita-se em abrir o envelope e lê-lo. Ele fica décadas olhando o papel na maior calma do mundo. E lá está a porra do suspense de novo. Não tenho paciência para isso. Bufo mais uma vez quando o vejo respirar fundo, com aquele olhar de seriedade que está fazendo-me perder a paciência.
Mordo meu inocente lábio inferior. Se continuar desse jeito, é provável que eu faça uma cratera em minha pobre bochecha. Respiro fundo, novamente.
— Bom.. parece que temos mais um Stark — Fury diz em alto e bom som, porém, termina a sua frase em um tom mais baixo. — Para suportar.
É... não tão baixo assim.
Antes de me julgar por minha proxima ação, deixe eu esclarecer algumas coisinhas:
Como deve ter sido notado, minha vida não é uma perfeita comédia romântica, cheia de drama familiares que terminam com perdão, amor e essa droga toda. Passei por muitas coisas e durante esse tempo, nunca tive contato algum com meu pai, por isso, estar cara a cara com ele é algo surreal.
Eu o culpo por nunca ter estado presente na minha vida? Por não estar em meus aniversários? Nos dias dos pais? Reunião escolar? Ou quando minha mãe morreu, deixando-me órfã, sozinha e desamparada?
A resposta é, sim.
Sim, eu o culpo por não ter me proporcionado uma infância normal e feliz. Culpo por que ele abandonou minha mãe na manhã seguinte com apenas a porra de um bilhetinho, como um belo cretino. Culpo, pois quando eu mais precisei ele não estava lá para me ajudar, apoiar e consolar.
Eu precisei dele, mas isso foi antes.
E é por essas e mil outras razões que eu não vou fazer como as mocinhas desses filmes. Como quando o pai e a filha se encontram, se olham, choram e se abraçam, dizendo que ama um ao outro quando ao menos conheceram um ao outro antes. Não consigo.
Não dá.
A realidade é algo totalmente diferente.
Eu sei disso. Minha vida nunca foi fácil, não é agora que vai melhorar.
Assim, logo após a revelação bombástica, minha reação, ou melhor, ambas as reações é um congelar mutuo. Como se não soubéssemos o que falar ou fazer. Os dois parados, um encarando o outro sem dizer uma palavra. Internamente, vou erguendo todas as minhas barreiras em modo de defesa.
Por fim, Tony sorri fraco, um pouco pálido, enquanto eu engulo à seco.
— O exame não muda nada — faço questão de deixá-lo ciente disto — Quero que fique bastante claro que você continua sendo um estranho e no que depender de mim, nunca vai irá disso — meu tom é mais rebelde que o previsto e não gosto da forma que devo ter parecido.
Uma garota mimada que não aceita uma situação. Por que não é o caso, não é.
Stark abre e fecha a boca atordoado, a expressão em seu rosto dando-me a impressão de que o tivesse golpeado no estômago com um soco.
Ele pigarreia:
— Sofya... — Stark dá um passo em minha direção.
— Não — nego e desencosto da parede para ficar o mais longe possível dele.
Eu não quero contato, não quero estar perto dele. Ele não faz mais falta, não faz. Saio da sala mais rápido que tudo na vida. Sem dar chance alguma de qualquer um presente naquele cômodo de falar ou me impedir.
***
MEIA HORA DEPOIS
Passo minhas mãos sobre meu rosto e levanto o olhar até encontrar meu reflexo no espelho do banheiro. Inspirei e prendi o choro que ameaçou vir outra vez.
— Você é forte — tenho de me convencer, mas sinto um sentimento de falha invadir-me e minha mão treme — Você consegue — falo como um mantra.
Mais algumas respirações profundas e eu estava pronta para outra, para fingir e mentir para todos, inclusive para mim. Saio do banheiro e alguns passos depois, um homem alto me intercepta em meio ao caminho para lugar nenhum. Ele diz que o diretor Fury me aguarda em seu escritório e eu o sigo. Só por que eu não tenho nada melhor a fazer. Coloco minha máscara e ensaio um sorriso.
O agente abre a porta assim que alcançamos a sala do diretor e eu entro:
— Espero que tenha algo realmente importante para me falar... estava meio ocupada, entende? — mesmo com o olhar sério que ostento, minha voz sai carregada em cinismo.
Sento em uma cadeira, frente à frente com Fury.
— Ocupada? Posso imaginar.
Nick Fury usando sarcasmo? Essa é nova.
— É, as paredes do quarto que vocês me prenderam são um tanto interessante — comento, reprimindo uma careta. Aquilo que a SHIELD chama de quarto está mais pra uma sala de tortura psicológica de tão deprimente e branco que é. Os poucos minutos em que fiquei dentro de um foram o bastante pra que eu ficasse tonta.
— Não está presa, Denova.
— É mesmo, então posso pegar minhas malas e partir?
— Creio que não seja assim tão simples.
— Talvez você não entenda o conceito de cárcere privado, senhor, mas eu sei o que estar aqui significa. Não finja que não. E não seja condescendente comigo.
Fury me observa silenciosamente:
— Gostaria de lhe fazer uma proposta — ele diz, ignorando meu comentário.
Ele sempre os ignora.
— Uma proposta, é? Puxa que empolgante — abro um sorriso totalmente desinteressado.
Fury continua e tenho que dar-lhe o crédito de, ainda assim, tentar ter algum diálogo comigo. Ele não consegue entender que não irá tirar nada de mim? Deveria ter me subornado para não contar nada ao Stark quando teve a chance, acho que eu teria me interessado por esse acordo. Ou talvez eu apenas diria a verdade a Tony Stark somente para não ficar nas mãos do caolho de meia tijela.
— Gostaria que treinasse e se tornasse uma de nossas agentes. Os benefícios são ilimitados para alguém com o seu conhecimento. Você teria professores, preparo... — ele propõe, ou melhor, joga a bomba... não granada.
Exageros a parte.
— Proposta tentadora.
— Irrecusável.
— Não para mim, a resposta é não.
Porque não?
Simples.
Me tornar uma agente da SHIELD significa restrições, fora que minha privacidade ia para o lixo. Eu escolhi não, por que ser invisível é muito mais divertido, liberdade é algo que eu não abro mão. Ah Sofya, mas é tão legal. E você vai ter acesso a um monte de coisas secretas do governo. E agora você é uma Stark, nunca mais terá privacidade.
Foda-se. Continua sendo não. Trabalhar para o governo? Com certeza que é não.
— Não precisa responder neste momento — insiste, sério e profissional.
— Quer que eu guarde o não para depois? Okay, eu não vou mudar de ideia — aviso, me esticando na cadeira e forçando um bocejo para mostrar o quão tediada estou — Era só isso?
Percebo que o irritei. O que, aliás, eu venho feito frequentemente.
— O que tanto esconde, Denova? — pergunta, em uma nova tentativa de me intimidar.
— Eu? Absolutamente nada, sou um livro aberto — um sorriso preguiçoso nasce em meus lábios.
— Você esconde algo, Sofya. E acredite ou não, eu irei descobrir o que é — ele avisa, convicto.
— Jura? Bom, posso apenas te desejar... boa sorte!
Levando a "reunião" como encerrada, levanto-me e caminho em direção a porta.
— Uma duvida, Denova. Como espera que as pessoas confiem em você? — querido Fury... não jogue comigo.
— Eu não espero — respondo, dando um giro de 180 graus para encará-lo — Confiança hoje em diaé superestimada, não concorda? Mas e você diretor? Deveria fazer essa pergunta à si mesmo, afinal, as pessoas confiam em você ainda que não faça o mesmo. Ainda que... — abro os braços em um gesto dramático. — ..você continue mentindo de novo e de novo para elas. Responda-me uma coisa, diretor lp. Consegue dormir a noite sem a conciência pesar? Não se sente culpado por mentir para as pessoas que te consideram um amigo? — o encaro pelo que parece anos.
O diretor me fita sem retrucar ou responder, mas tudo bem. A pergunta não precisa ser respondida, mas analisada.
Fecho a porta quando saio da sala, dessa vez, com um sorriso satisfeito no rosto por ter deixando o diretor da SHIELD sem palavras e mergulhado em seus pensamentos.
CE
Fale com o autor