NEW STARK | the avengers [1] ✓
13 Ethan... eu prefiro Levy Walker
COMEÇAR DE NOVO não é um conceito estranho a mim. Quero dizer, para quem passou toda a infância mudando de cidade em cidade, ir de Malibu para Nova York não foi uma coisa de outro mundo. Principalmente, quando eu já conhecia cada canto de Manhattan. Mas foi um processo, tá ligado? É claro que duas cidades pertencentes a lados opostos do país teriam lá as suas diferenças. E eu acabei estranhando um pouco toda aquela agitação, após me acostumar com a tranquilidade que tinha na Califórnia; como acordar ao som das ondas e a temperatura elevada. Foram quase quatro meses morando em Malibu. E, nossa, eu ia sentir muita saudade de sair de manhã para ir a praia.
Mas, enfim, aquela noite após a derrota de Aldrich Killian terminou com a destruição de todas as armaduras do Anthony. Só depois que eu fiquei sabendo que aquele era um dos protocolos que ele tinha criado: protocolo começar do zero.
E é assim que as coisas tem sido, desde então.
Jarvis está recomeçando. Tony está. E o mesmo de Pepper que, graças ao Stark e suas influências, conseguiu tirar o Extremis de seu corpo, assim como ele havia prometido. Tony também já no embalo, fez uma cirurgia e tirou os estilhaços do peito. E as notícias boas não pararam por aí! Dias após o Natal, eu soube que Happy havia acordado do coma. Foi uma das melhores notícias que recebemos e todos o visitamos com presentes de boas vindas e algumas piadas ao notar o flerte descarado dele com a enfermeira. Foi muito divertido.
Enquanto isso, o caso com o Mandarin foi resolvido após todos os envolvidos serem presos, inclusive o vice-presidente, que estava envolvido com o projeto extremis, e o ator que interpretava o Mandarin. O cara apareceu na TV e tudo, parecendo super feliz por estar sendo reconhecido. Vai entender.
Agora é vida nova.
É, as coisas estão mudando.
O meu relacionamento com Anthony tem sido ótimo. Nós estamos nos aproximando cada dia mais. Muito se deve ao Natal, que foi comemorado aqui em Nova York, uma vez que a casa de Malibu agora está em fase de reconstrução. Passar um tempo com minha família sem ninguém rodeando-nos foi maravilhoso. Eu me diverti demais e o Stark ainda me deu um carro de presente, embora eu não achasse que fosse usá-lo quando o automóvel era extravagante demais, sem o teto e todo rosa. Eu era mais chegada num clássico preto. Um prata, talvez. Agora rosa... Nã—não. Mas eu fingi gostar só pra fazer Tony feliz.
O Ano Novo eu passei com Barry, Caitlin e Cisco via Skype. Pude mostrar a eles a imagem dos fogos do alto da torre Stark. Foi bom passar esse momento com os meus amigos. Tony e Pepper saíram para comemorarem sozinhos, depois de muita insistência da minha parte. Achei que eles mereciam um momento a sós.
E para complementar, voltei a estudar! Destranquei minha faculdade e estou disposta a ter minha graduação em Robótica, afinal, mexer com máquinas sempre foi algo que amei fazer. Desde pequena, quando eu ainda tentava criar um transformer de verdade. Sinceramente, é mais fácil lidar com máquinas do que com o ser humano.
Então... Está dando tudo certo. Sem problemas, sem vilões, sem poderes.
Pela primeira em muito tempo, eu sinto que as coisas podem dar certo.
Mas, você sabe, quando as coisas estão indo bem demais, deve-se desconfiar — é algo que os filmes de romance me ensinou.
E eu não sei o que me levou a entrar naquela página hoje.
Eu tinha acabado de retornar do campus da Universidade de Nova York, com meus documentos nos conformes, para começar a estudar na próxima semana e um convite para uma festa dos calouros que ia acontecer a partir das nove horas da noite. Não estava muito afim de ir. Minhas festas da faculdade sempre terminavam comigo bêbada em algum canto, por isso a falta de vontade.
Então, a minha mente resolveu me lembrar de uma promessa que fiz, meses atrás, quando fui pega hackeando projetos do Stark. Foi essa lembrança que me levou a entrar no mesmo site que eu usava para pegar trabalhos clandestinos. Minha última troca com Levy Walker não estava mais ali. Era uma mania minha apagar as mensagens que enviava. Mesmo hoje, eu ainda o faço de vez em quando. Mas a razão principal de entrar no site, novamente, era descobrir quem era a pessoa que me contratou meses atrás. Alguém que queria projetos de armas tão perigosas tinhas os recursos para construir, e eu sinto que não poderia seguir em frente sem esse fechamento final.
Eu tinha uma teoria de que talvez eu tivesse apenas caído em uma armadilha da SHIELD, mas precisava confirmar isso. Por que se não fosse verdade, então alguém lá fora estava planejando algo muito ruim, e, embora tenha rejeitado a ideia, eu me responsabilizava por quase entregar projetos de armas em troca de dinheiro. Aí, droga. Isso soa muito pior quanto mais eu penso sobre. Okay, mas eu vi a razão e não fiz parte disso, está tudo bem.
Hackear meu antigo empregador foi mais fácil do que eu tinha antecipado, mas, bem, aqui quem está falando é a Sofya, né? O que eu não poderia fazer?
Entrei em contato com ele pela primeira vez depois de todos aqueles meses sem nenhum contato. Fiquei surpresa quando ele me respondeu rápido; primeiro, desconfiando de que eu fosse mesmo Milly Potter; depois, dizendo que achou que eu tivesse sido pega e presa pelo governo americano, mesmo que meu pseudônimo ainda estivesse entre os mais procurados do FBI. O primeiro erro de Levy Walker foi se distrair comigo. Enquanto ele falava, eu invadia seu sistema. Não vou mentir, ele era até que muito bom. Seu endereço IP mudava de vinte em vinte segundos para impedir que fosse rastreado, mas ele não estava realmente preparado para o Malware que eu enviei. Todos os seus códigos caíram em questão de segundos. Não recebi nenhuma mensagem dele depois disso, mas sorri para a tela do meu computador enquanto teclava rapidamente, tentando descobrir seu endereço antes que ele pudesse se proteger, novamente.
Não fiquei surpresa quando consegui o rastrear.
O que realmente me surpreendeu foi que ele morava no Queens.
Durante todo o tempo que eu trabalhei com ele, nós éramos praticamente vizinhos. Droga, era muita coincidência. Dei uma risada fraca, enquanto balançava a cabeça em negação.
Consegui sua ficha completa em questão de segundos:
Seu verdadeiro nome é Ethan Morris. Ficha limpa e tem seis anos a mais que eu. Mora sozinho e é estudante de ciência e tecnológia na... Merda. Não creio. Arregalei meus olhos. É como se o universo estivesse conspirando a meu favor. Pensei comigo mesma, vendo que estou matriculada na mesma universidade que ele. Era muito estranho. Um toque na porta do quarto me tirou a atenção da tela do computador. Afastei meus olhos e levantei, abrindo a porta para encontrar Pepper parada no meio do corredor de frente comigo.
— Você está bem? — foi a primeira coisa que me falou, o que me deixou um tanto confusa.
Franzi o cenho: — Hm, sim, porque não estaria?
— Pedi a Jarvis para chamá-la pra almoçar, mas ele não obteve resposta sua — ela explicou.
— Entendi — acenei com a cabeça — Eu juro que não ouvi — ri fraco, pensando em alguma desculpa para minha desatenção que não fosse eu me metendo em uma possível confusão — Divagar é uma coisa muito estranha. Não tô acordada, mas também não tô dormindo — comentei aleatoriamente, com um sorriso sem graça.
Pepper abre um sorriso perdido: — Realmente — concordou, me olhando de um jeito estranho — Tem certeza que está bem, Sofya? Você está aérea desde que voltou do campus. Se houver algum problema, pode contar comigo. Eu sei que não sou sua mãe e longe de mim tentar ocupar o lugar dela, mas sou sua amiga e quero o seu bem.
O discurso da ruiva me pega de surpresa. As minhas suspeitas e vontade de pegar um táxi até o endereço do hacker desaparece por um breve momento, vendo como a mulher parece preocupada com meu bem estar.
— Eu sei, Pepper — assenti com a cabeça — Sei que jamais tentaria ocupar o lugar dela — lhe dou outro sorriso e tento pôr mais ânimo em minha voz — Não estou preocupada com isso. Acho que só tô um pouco nervosa com a volta as aulas — balancei a cabeça e fiz muxoxo.
Não era totalmente mentira, né!
Depois de me observar com atenção, Pepper relaxou.
— Então tá — ela disse, mais tranquila — Saiba que me preocupo com você, se precisar conversar, estou bem aqui.
— Devidamente anotado — afirmei, com um sorriso.
— Vamos almoçar? Antes que a comida esfrie.
Pedi para ela esperar um minuto e voltei ao meu quarto para copiar rapidamente os dados que eu consegui do Walker pra poder estudar mais tarde. Também apaguei meus rastros mais do que rapidamente.
— O que temos pra hoje? — perguntei, saindo do quarto e fechando a porta a minhas costas.
— Purê, salada e aquele frango frito que você e seu pai estão viciados — ela revirou os olhos, mas estava sorrindo com diversão.
— Ah, cara, é dos PLK? — Pepper acenou e eu abri o sorriso grandão, fazendo a ruiva rir da minha felicidade infantil pela comida. Mas deixa eu te falar uma coisa, o frango frito dos Popeyes são os melhores de Nova York. Os melhores mesmo — Hoje eu vou me acabar — declarei, rindo enquanto seguia em direção ao elevador.
Esperamos a porta abrir para poder entrar. Depois de passar pela porta metálica, eu tirei coragem para falar com Pepper, pensando em um dos problemas que eu teria com meus planos de tentar encontrar o hacker Walker:
— Pepper, posso pedir sua ajuda com uma coisinha?
Minha expressão está a mais neutra possível, e até mesmo inocente. Eu e o gato de botas devemos ter algum parentesco: Nós dois somos uns gatinhos e temos aquele olharzinho super e mega fofo.
É de dar pena.
Veja minha madrasta, ela nem pensa muito enquanto sorri e acena, confirmando e me olhando com curiosidade, enquanto diz a Jarvis em qual andar nos deixar.
— Estava querendo ir pra uma festa de calouros da faculdade, mas acabou que eu não comprei nenhuma roupa de festa desde que tudo foi pelos ares — eu disse com ar de riso.
Agora eu estava rindo, mas na época eu nunca passei tamanho desespero assistindo a mansão ser derrubada pelos desgraçados que trabalhavam para o desgraçado do Mandarim.
Comprar tudo de novo não é uma tarefa fácil, mas Pepper deixou tudo mais prático para mim. A mobília e decoração do meu quarto foi feita por uma decoradora. Eu apenas opinei em uma coisa outra. Meus objetos pessoais, no entanto... Posso dizer que tive alguns probleminhas de preguiça em passar em lojas comprando roupas novas, então tudo o que eu tenho agora foi compras feitas virtualmente. Honestamente, não tenho cabeça de ficar indo de loja em loja. Escolher roupas pela internet é muito mais divertido. Como um jogo.
— Vou pedir agora mesmo para buscarem um vestido pra você — Pepper disse, ligando o visor do aparelho e eu ergui a sombrancelha para sua rapidez.
— Não precisa ser agora agora... — murmuro, sem muitos efeitos.
— Bobagem, se é pra hoje a noite, então é bom eu pedir com antecedência. Ou com o máximo de antecedência que puder — ela murmurou, conversando com a pessoa do outro lado por alguns segundos. Logo depois, ela balança a mão e guarda o aparelho — Está feito, minha assistente é muito prestativa, ela vai deixar seu vestido pendurado na porta antes da sete.
— Agora eu estou me sentindo uma folgada por fazer ela ir comprar uma roupa para mim.
Pepper riu: — Acredite em mim, Sofya, Leila fará qualquer coisa que a tire do escritório. Ela não gosta muito de lugares fechados, por isso está sempre fazendo essas coisas chatas por mim. Como ir buscar um documento ou comprar uma roupa de última hora. Esse último é o seu preferido.
Eu balancei a cabeça, escolhendo acreditar na palavra da mulher, pois nem a pau que eu ia sair pra comprar roupa. Amém.
— Estou animada. Você indo a festinhas — ela cantarolou e eu me segurei para não revirar os olhos pela felicidade da mulher por algo tão bobo — Não vejo a hora de você arrumar uns namoradinhos para a gente poder fofocar — dispara a bomba com um sorriso, e eu engasguei com a própria saliva enquanto ria.
Obrigada, mas não.
— Quê? — neguei com a cabeça — Não, não. Acho que sou complicada demais para alguém suportar um relacionamento duradouro comigo — disse, dando de ombros com um sorriso sarcástico nos lábios.
— Não fale isso — ela repreendeu e eu ergui os ombros, sem me importar — Você é muito boa, Sofya, engraçada, inteligente, um pouco sarcástica demais... — nessa parte eu ri, ela me acompanhou — Mas muito atenciosa. Vai encontrar alguém que aprecie tudo isso em você.
— Ah, mas gostar das qualidades do outro é fácil. Eu quero alguém que goste de mim apesar dos meus defeitos. O que é raro hoje em dia. As pessoas só se importam com as aparências. Então, eu estou bem do jeito que estou.
A porta do elevador se abriu e Pepper não teve tempo de dizer nada mais. Antes, o Stark iniciou cedo sua sessão de reclamação com a nossa demora.
— Até que enfim! — exclamou com o semblante entediado, sentado no sofá com o aparelho celular na mão — Eu estava pronto para começar a festa sozinho.
— Tudo pra você é festa, Tony? — Pepper perguntou, divertida.
— As melhores são as que você veste aquela lingerie vermelha que eu adoro...
— Tony! — Potts fica... Bem, vermelha.
Mas é de vergonha mesmo, enquanto eu revirava meus lindos olhos, pensando comigo mesma que não mereço ouvir essa tortura.
—Hello—ôu! Eu estou aqui, obrigada.
— Jura? Nem reparei.
— Nossa, Tony. Para alguém da sua idade, você até que é bem infantil, hein.
— Disse a adulta e o exemplo de maturidade.
— Certo, vamos comer, crianças? — Pepper disse num tom alto para nos chamar a atenção. Eu deixo de lado aquela discussão idiota para concordar com Pepper, ouvindo meu estômago roncar enquanto pensava no frango do Popeyes — Só deixando claro que, aparentemente, eu sou a única madura e responsável dessa casa — ela emendou, tardiamente, mas sorrindo com esperteza e seguindo em direção a sala de jantar, enquanto Tony e eu íamos logo atrás protestando contra sua declaração.
Isso levou a outra discussão, onde Tony e eu nos unimos em concordar que maturidade e responsabilidade é algo chato e superestimado.
— Incrível como vocês de repente se uniram contra mim — Potts murmura com um sorriso divertido.
Jantamos entre conversas; eu falando das aulas que me matriculei; Tony comenta brevemente sobre um novo projeto e Pepper sobre a empresa, contratos e coisas bem chatas que meu pai e eu fingimos ouvir. Mas ele não disfarça muito bem, por que logo depois Pepper fala:
— Acho melhor parar de falar antes que eu os faça dormir.
— Eu estou bem — anuncio.
— Dormir? Por que eu dormiria? — Tony pergunta com uma expressão descarada de quem mal conseguia reprimir o tédio.
Prendi um sorriso, enquanto limpava as mãos num guardanapo e tomava um gole do meu suco. Pepper o encarou sem acreditar e eu descidi trazer o assunto festa a tona.
— Vai ter uma festa para calouros e eu meio que fui convidada — comentei subitamente.
— Festas. Faculdades. Bons tempos — Tony pontua com um olhar nostálgico que me faz rir — Não faça nada que eu fiz.
— Eu nem quero saber da lista — zombei.
— É o melhor para todos — Pepper concordou, comendo sua salada.
— Ou seja, é o melhor para a segurança física de Anthony Stark que apanharia da mulher e ainda dormiria no sofá pela próxima semana — dei risada da cara dos dois.
— Eu não sou assim tão violenta! — Pepper negou, incrédula.
— E eu não fui tão terrível — a frase do meu pai fez nós duas parar tudo para o encarar, ambas com as sobrancelhas erguidas em puro ceticismo — Talvez um pouco...?
E o almoço se seguiu com Pepper citando cada momento vergonhoso do Tony, fazendo para mim impossível não rir.
***
Horas atrás, quando o meu plano era apenas teórico, tinha sido uma boa ideia vir a uma festa de fraternidade para encontrar — como um tiro no escuro — um aluno que possivelmente estaria aqui.
Tinha sido.
Isso eu soubesse onde ele está agora.
Droga.
Okay, em minha mais e absoluta humildade, eu admito que essa pode ter sido uma escolha impulsiva e irracional levada pelos meus instintos, mas, em minha defesa, eu quase nunca erro em relação a eles.
Pelo visto, há uma primeira vez para tudo.
Um som que eu não conhecia tocava em volume altíssimo que fazia meu peito estremecer. Eu provavelmente vou ficar com o eco da música eletrônica ecoando no ouvido pelos próximos dias.
Sorrindo falsamente, eu balancei meu corpo em conjunto com o de uma garota tri-louca que virou e me instigou a dançar enquanto pulava e ria. Não estava confortável na festa de boas vindas ao novos alunos da NYC. E me enturmar se tornou ainda mais difícil por todos estarem altos pela bebida alcoólica. Fiz uma careta, me esquivando de um cara dançando com um copo transbordante na mão. Não muito afim eu peguei uma dessas bebidas pra não parecer mais deslocada do que já estava, procurando pela pessoa que tinha vindo encontrar com a ideia idiota dessa festinha. Consegui passar pela multidão de corpos dançantes e me encostei em um canto vazio. Suspirei aliviada e ergui o braço pra tomar um gole do ponche, tardiamente me lembrando que ele estava batizado. O gosto forte de vodca invadiu meu paladar. Eu engoli, mas deixei o restante da bebida pela metade.
A pessoa que havia me convidado para a festa — uma garota tímida, gaga, fofa e mais baixa que eu — não estava em nenhum lugar da casa de fraternidade. Também não achei que fosse a encontrar naquela multidão de corpos suados, mas gostaria de ter um rosto conhecido para conseguir uma informação de Levy Walker. Perguntar por ele a qualquer um desse lugar não me pareceu uma ideia muito boa, levando em conta que eu poderia assustar o cara caso ele soubesse que tinha alguém o procurando. Tentar ler a mente dessas pessoas estava fora de questão. Já não bastasse aquela música alta, se eu tivesse que ouvir os pensamentos bêbados desses caras de faculdade... Não, absolutamente não.
Eu circulei pela casa, mas não achei o Morris em nenhum canto e suspirei frustada. Honestamente, no momento que eu sai de casa eu já tava querendo voltar. Meu ânimo estava zero.
Cansada e irritada eu abandonei o copo meio cheio em uma mesa, esbarrando em alguns corpos enquanto tentava sair de dentro da casa. O odor de suor e... maconha, reconheci, impregnava o ar e me causava uma dor de cabeça fodida. Eu não duvidava de que o fedor daquilo se tornasse o novo cheiro em minha roupa. Nenhum perfume, não importa o quão caro, sobreviveria aquele odor forte e absurdo que me fez franzir o nariz. Desatenta, acabo não vendo a garota e quando eu vi, já era tarde demais e ela estava caída no chão. Pestanejei, inclinando o tronco e estendendo a mão para ajudar ela a levantar. Ao redor algumas pessoas nos encaram, mas nenhuma se digna a olhar por mais do que alguns segundos. E, ainda bem, ninguém também me reconheceu. Somente quando a garota ergueu o rosto que lembrei. Sua expressão era uma mistura de constrangimento e irritação e não duvido que esteja me xingando de mil e uma formas por dentro. No fim, ela acaba por ser quem me convidou para estar ali.
— Sinto muito — pedi alto, tentando dar um sorriso fechado — Lembro de você. Tá tudo bem, né?
— Ah! — me encarou com os olhos levemente arregalados.
Ela tinha me parado enquanto eu caminhava pelo enorme campus da universidadade pra ir até a secretária. Eu estava meio que perdida, mais por estar conhecendo o local do que por procurar, realmente, a secretária. Ela estava acompanhada por garoto bem alto e achei que ia passar reto por mim, mas então ela me chamou e num último instante ofereceu um cartão de convite para a festa que ia ocorrer mais tarde nesse mesmo dia. Eu descartei a ideia na mesma hora, mas sorri em agradecimento e menti dizendo que iria. Claro que meus planos mudaram quando eu vi que o hacker que me passou aquele trabalho das Indústrias Stark estudava justamente na mesma instituição que eu. E aqui estamos.
Eu tentando dar uma de detetive e falhando miseravelmente.
— Estou bem, o-obrigada. E eu também lembro de você. Sofya, certo? — ela disse alto para que eu pudesse ouvir sua voz acima do som. Parecia um tanto nervosa no meio daquele lugar.
— É, e eu não lembro do seu — disse um pouco sem graça.
— Lúcia. Lucia Keint.
— Okay. Dessa vez eu não esqueço. Bom te ver de novo, Lúcia Keint.
— O mesmo — ela respondeu, sorrindo fraco — Q-quer vir sentar com a gente? Estou com os meus amigos — ela apontou um sofá posicionado bem no meio da festa com uma porrada de gente falando alto, rindo e gritando. Eu não evito a careta — Mas não precisa vir se não quiser, é claro. Eu posso te acompanhar até a cozinha pra beber alguma coisa... Ah, se você já não bebeu. Claro que se quiser pode beber outra vez. Enfim, sou Lúcia — ela disse, de novo.
E eu ri verdadeiramente, assistindo o balbuciar nervoso dela. Era fofinho.
— Na verdade, eu tava procurando por um amigo — disse casualmente — Sabe onde eu encontro o Ethan? O sobrenome dele é Morris.
— Ethan Morris — ela repetiu, o cenho franzido — Desculpa, eu não sei quem é. Não sou muito de me enturmar e não conheço muita gente por aqui. Esse ainda é o meu primeiro ano. Foi mal.
— Beleza, relaxa — dei um sorriso frustrado — De qualquer forma, eu acho que já tô indo embora mesmo. Quem sabe a gente não se vê outra hora?
Em primeiro momento ela me pareceu um tanto decepcionada, mas o seu olhar mudou tão rapidamente que eu talvez estivesse imaginando as coisas. Deve ser a maconha, certeza. Fui acenar pra me despedir ao mesmo tempo que ela tentou me abraçar. Fiquei meio sem jeito, mas mudei minha forma de me despedir, enquanto ela também fazia o mesmo, estendendo a mão para mim. Nós duas paramos, rindo uma da outra, antes de eu somente me afastar com um sorriso.
— A gente se vê por aí, Lúcia Keint.
Ela disse um adeus e eu saí daquela casa fedida de bebida com um suspiro. Graças a todos os deuses existentes. Olhei meu relógio e já se passava das dez horas.
Respirando fundo e um tanto desanimada por não ter encontrado o Walker por aqui, fiquei pensando em como tentaria encontrá-lo segunda feira antes da aula. Desci as escadas da frente da enorme casa de fraternidade procurando pelas chaves do carro que o Tony tinha me dado de presente. Sim, aquele mesmo carro que eu disse que não usaria. Enfim, um disfarce é um disfarce. E eu não poderia vir até uma festa dessas cheias de filhinhas de papai, sem parecer uma. Fora que Anthony ficou meio felizinho em me ver saindo com aquela coisa toda rosa.
Me assustei com uma sombra parada do outro lado da rua em frente ao casarão, bem próximo do meu carro. Rapidinho eu esqueci da chave que não tava encontrando, engolindo seco e ouvindo meu coração pular acelerado antes de normalizar as batidas no meu peito. Era um homem. Andei fingindo não vê-lo e continuei com os passos firmes, mas conforme suas características faciais foram tomando forma, mais pude reconhecer o mesmo rosto da ficha que memorizei nessa tarde.
Merda.
Ethan Morris.
Então as coisas vão realmente dar certo a meu favor? Perguntei ao universo, olhando para o céu com um semblante desconfiado. Qual a pegadinha?
O barulho dos meus saltos fez ele erguer o olhar do celular para me encarar.
Diminui minha velocidade e me aproximei o suficiente para ver seus olhos me analisarem. Cocei a cabeça sem saber como começar aquele diálogo e vi ele soltar a fumaça pela boca. Entre seus dedos um cigarro aceso. Parei na sua frente e assisti sua boca se abrir em um pequeno sorriso.
— Pode dar um pra mim? — perguntei, apontando o cigarro.
Sério Sofya, essa é a sua ideia de começar essa conversa? Meu subconsciente zombou e eu quase revirei os olhos.
Tem ideia melhor?
Infelizmente não, eu ainda sou você.
Cara, eu tenho que parar com essa mania de brigar comigo mesma.
O sorriso dele cresceu ainda mais, como quem acha um animal fofo e engraçado. Franzi o cenho pela comparação, mas fiz o possível pra não deixar aparente o meu descontentamento atravéz da expressão em meu rosto.
— E você fuma, princesinha? — perguntou, me avaliando com olhar crítico.
Espero que seu QI realmente compense a atitude condescendente.Aquela minha vozinha mental disse novamente e dessa vez eu concordei.
Evitei lhe dar uma resposta grossa e ergui uma sobrancelha em um semblante óbvio. Ele soltou uma risada e deu de ombros, tirando o maço do bolso e me dando um cigarro. Eu pus na boca, inclinando o corpo quando ele estendeu o braço com o esqueiro na mão e acendeu para mim. Tudo isso olhando fixamente em meu rosto, acho que esperando eu fazer uma careta e arregar. Quando eu dei o primeiro trago sem tossir ou fazer careta, ele deu um passo para trás, tornado a se recostar na parede.
— Tudo bem, garota rebelde, você provou seu ponto.
— Não estava querendo provar nada.
— Fugindo de alguém? Saiu de lá de dentro como um furacão.
— Não gosto muito de festas, mas vim aqui para encontrar alguém.
— Então você levou o bolo — ele analisou cada pedaço de mim, desde daqueles malditos saltos, vestido roxo até alcançar meu rosto bem trabalhado em uma maquiagem leve e simples. Não deixei de me sentir um tanto constrangida com a atenção — Uma pena, realmente.
A vontade de revirar os olhos foi grande, mas continuei firme. Eu precisava de respostas o quanto antes.
— E você? — perguntei, aproximando um passo dele — O que está fazendo aqui fora?
— Esperando a bebida chegar — respondeu dando mais uma tragada enquanto eu o seguia fazendo o mesmo. O cheiro estava me incomodando — Eu te conheço de algum lugar — comentou, logo depois, me apontando o cigarro com os olhos semicerrados.
— Acho que não. Acabei de me mudar pra cá — disse com um sorriso falso — Kat, me chamo Katherine Denova.
— Denova— ele disse, lentamente — Nome estranho, legal, eu gostei — disse, balançando os ombros — Ethan Morris, a seu dispor — ele acenou com a cabeça.
— Ethan... — eu repeti o seu nome, lentamente, assim como ele fez com o meu antes — Também gostei do seu, mas prefiro Levy Walker.
Morris parou o movimento de fumar no momento que eu terminei de falar. Eu apaguei o meu cigarro na parede bem ao lado da cabeça dele e dei um sorriso para a expressão congelada em seu rosto.
Acho que eu tenho um pouco de talento para o drama. Culpe meu pai por isso.
Ele estava tenso, porém mesmo assim abriu um sorriso.
— Levy Walker — disse encenando confusão, embora estivesse nervoso demais para disfarçar. Semicerrei meus olhos — Desculpa, mas não conheço ninguém com esse nome. Tenho que ir, saí — falou e desviou de mim, começando a caminhar para a entrada da casa lotada de jovens bêbados.
— E a bebida? — debochei alto, mas ele fingiu que não ouviu — Ótimo — resmunguei comigo mesma, revirando os olhos antes dar uma corridinha com aqueles saltos, quase não alcançando seus passos largos — Espera cara! — disse, segurando seu braço.
— Olha, garota, não sei qual é a sua ou se está com algum problema com esse tal de Levy, mas isso não é da minha conta — claro, jogue a culpa em cima de mim, como se eu fosse burra de cair numa dessa.
— Você deve estar mesmo nervoso desde que seu sistema caiu a tarde durante a nossa conversa. E eu sei disso por que fui eu quem o derrubou — soltei tudo de uma vez, fazendo ele me encarar com um olhar desnorteado de quem ainda não analisou as palavras por completo — Milly Potter. É um prazer te conhecer pessoalmente, Walker. Agora, será que você poderia responder algumas perguntas?
CE
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