Todos os meus problemas pareciam tão distantes
Agora parece que eles vieram pra ficar
Oh, eu acredito no dia de ontem
The Beatles — Yesterday

É um pouco estranho descobrir que grande parte da sua vida foi uma farsa.

É triste também, mas parei de chorar depois da primeira noite.

Passei a mão sobre os meus cabelos e os joguei para o lado. Encarei o meu reflexo, uma última vez, antes de encaminhar-me em direção ao elevador que me levaria ao andar onde ocorria a festinha de despedida do Thor.

No entanto, antes de sair do quarto, algo me interrompeu. O meu celular tocou. O som do Kansas se espalhou pelo ambiente, como tem feito nos últimos dois dias, e eu teria ficado para apreciar aquela música, não fosse a tal festa me aguardando.

Então ignorei o toque sem confirmar quem me ligava — pois sabia quem era — e continuei o meu caminho até o elevador.

O meu quarto estava escuro e eu encontrava-me inquieta, ao mesmo tempo, em que a minha mente reclamava, cansada. Já não aguentava mais lutar contra os milhões de ideias que surgiam na minha mente e tentar evitar o assunto estava exigido muita do meu controle mental. Fechei os meus olhos e tentei dormir. Era quase uma da manhã e eu não tinha conseguido pregar o olho. Ainda sentia o choro preso na minha garganta, mas não deixei que saísse.

Eu já havia chorado demais.

Então tomei uma decisão e estiquei a mão, até alcançar a mesa de cabeceira, ao meu lado, agarrando o aparelho celular firmemente.

Liguei a tela e a olhei por um longo tempo, com medo das minhas dúvidas serem verdadeiras, embora estivesse cansada de tantas mentiras. Procurei pelo contato dele e iniciei a chamada que caiu direto na caixa postal.

Bufei, antes de tentar mais uma vez. Foram necessárias duas tentativas e eu quase desisti, mas após cinco toques, ele atendeu-me:

— Sofya?

Hesitei ao ouvir sua voz sonolenta. Fiz uma pausa, fechei os meus olhos e tive voz para cumprimenta-lo:

— Oi Barry.

A porta do elevador abriu e fui recebida por algumas pessoas, próximas ao elevador. Não reconheci nenhuma, mas sorri falsamente e afastei-me na primeira oportunidade que tive. Automaticamente, aproximei-me do open bar. Sentei em um dos bancos disponíveis e esperei que alguém me atende-se.

— Um drink sem álcool. — pedi ao homem atrás do balcão.

— Preferência por algum sabor?

Balancei a cabeça:

— Não, me surpreenda. — lancei mais um sorriso falso ao barman e virei na direção contrária, encostando-me na parede do balcão para observar o movimento.

Atentei-me ao som das conversas superando o toque suave da música.

— Como você tá? Faz algum tempo que não liga para o laboratório. Kaitlin até ficou preocupada.

— É… tenho passado por alguns problemas. — comentei seriamente.

Barry ficou em silêncio e esperei ele indagar-me pela frieza.

— Está tudo bem?

— Nunca estive melhor. — zombei. Então respirei fundo, acalmando-me. — Barry. — o chamei num tom suave. — Lembra quando nos encontramos em Washington? — iniciei o interrogatório, pondo para fora o que me perturbava.

— Lembro, mas o que…

— Lembra que você estava mexendo numas coisas? — o cortei.

Barry demorou a responder-me:

— Sim.

— O que você fazia lá, realmente?

Pressionei o aparelho fortemente sobre a minha orelha, esperando por uma resposta. Desejando fervorosamente que ele dissesse a verdade.

— Como assim? — ele deu uma risada fraca. — Não estou entendendo…

— Barry. — outra vez, o interrompi — Eu te peço, se você se importa comigo, por favor. Por favor, me diga a verdade.

— Sofya... E-eu não sei do que você está falando.

Apertei os meus olhos, mantendo-os fechados. Eu poderia ter parado por aí. Poderia ter fingido acreditar nas suas palavras, mas interiormente eu sabia que Barry Allen mentia para mim e isso machucou.

— Barry, por favor. — implorei, enquanto os momentos daquele encontro em Washington passava por meus pensamentos.

Na época, eu não havia desconfiado, afinal, Barry era meu amigo, Barry era a pessoa que me deixou ir, que me acobertou. Entretanto, o que ocorreu nos últimos tempos me fez refletir. Todas as coisas que me foram ditas. Todas as mentiras que possivelmente eu jamais descubra.

Eu desconfiava de tudo e todos. Infelizmente, Barry entrava na lista de possíveis mentiras.

Tudo o que vinha-me a mente era o nosso encontro em Washington. Sabe quando é coincidência demais você encontrar alguém justo em um certo lugar? Diabos. Me pergunto como nunca cismei com isso antes. Mas agora eu também desconfiava de que não tinha sido proposital.

Acho que Barry não esperava me encontrar aquele dia.

Era pra ter sido um segredo.

Me chame de paranóica, mas precisam concordar comigo quando eu digo que o Allen estava muito nervoso em nosso último encontro.

Barry suspirou:

— Você descobriu, não é? Ela finalmente te contou a verdade.


— O seu pedido. — uma taça foi deixada sobre a mesa, tirando-me do meu devaneio.

— Obrigada. — agradeci ao homem e ele acenou antes de se afastar para atender outro alguém. Dei um gole na bebida, com os olhos presos no líquido. Inclinei meu pescoço para o lado e continuei a observar as pessoas. A maioria já encontrava-se animada, algumas estavam bêbadas, sorrindo felizes e de bem com a vida. Fiz muxoxo. — Dane-se. — murmurei.

Aproveitei que o responsável pelas bebidas estava ocupado e fiz com que a garrafa de The Glenlivet flutuasse até mim. Ela pousou delicadamente no balcão e eu engoli meu drink de uma só vez. Depois, abri a garrafa e derramei o líquido na taça.

O primeiro copo eu tomei em um gole. O segundo, beberiquei, ingerindo o Whisky pouco a pouco. Três taças depois e eu já me sentia mais alegre.


— Depois do acidente, nós descobrimos, por acaso, algumas câmeras de segurança em frente a sua casa que gravou tudo. Não queríamos que as imagens vazassem, então as confisquei. Mas acabamos assistindo o vídeo e então encontramos algo estranho nas gravações. Havia mais alguém lá, Sofya. Vimos outra pessoa saindo do meio dos escombros. Então desconfiamos do que havia acontecido realmente naquele dia.

— Você está falando no plural.

Do outro lado, Barry hesitou:

— Sim. — confirmou em tom de derrota. — Kaitlin, Cisco e eu.

Meus olhos arderam, mas permaneci firme:

— O que você estava fazendo na minha casa, Barry? — perguntei, mais uma vez, sentindo o início da mágoa apossar-se de mim.

— Tentamos encontrar a pessoa da filmagem, mas nunca conseguimos. Então sua mãe entrou em contato comigo, tempos depois de você passar a morar com seu pai.

Pus uma mão sobre a boca, abafando um soluço. Barry suspirou:

— Sofya, acredite. Também não aceitei o que ela fez, mas o que sua mãe nos contou… eu acredito. Aquele dia, em Washington, eu estava procurando por respostas, por algo que nos ajudasse a entender e para te ajudar. Embora você deva imaginar que não encontrei muita coisa. Desculpa, tá bom? Eu não te contei…

— Okay, já entendi.

— Sofya…

— Não, eu não quero ouvir mais nada.

— Sei que você está brava, chateada e não tiro o seu direito. Eu quis te contar a verdade, mas sua mãe me convenceu a esperar. — Barry suspirou. — Ela desejava te dizer a verdade e eu aceitei respeitar a vontade dela.

E mesmo após aquela explicação, mesmo após suas desculpas… eu apenas conseguia pensar que o que eu mais temia tornou-se real. Meu amigo fazia parte daquela mentira. Meus amigos. Como minha intuição pressentia.

Franzi as sobrancelhas em desgosto:

— É, só que ela demorou demais. — do outro lado da linha, Barry fez mais uma tentativa de falar, mas não deixei. — De toda forma, obrigada pela franqueza. — afastei o telefone do ouvido e desliguei a chamada, irritada e magoada demais para fazer questão de ouvir qualquer intervenção da pessoa que se intitulava meu amigo.

Levantei do balcão, entornei mais um pouco de Whisky e andei pelo lugar. Instantes depois, encontrei Steve e Thor em uma conversa, rodeado de senhores, imagino eu que antigos oficiais. Me aproximei dos dois homens.

— Hey rapazes. — os chamei em um tom animado. Ambos me olharam e eu os lancei um sorriso, parando ao lado de Steve. — Aproveitando sua festa, Thor?

— Claro. Está apenas faltando uma boa luta para terminar a noite.

Dei risada:

— Não rogue praga. — o repreendi risonha.

— Sem lutas. — Steve negou.

Thor franziu as sobrancelhas e balançou os ombros. Dei outra risada, recebendo um olhar avaliativo do Rogers.

— Eu preciso de um gole disso. — um dos senhores aproximou-se olhando um frasco nas mãos do deus nórdico.

— Ah não, não, não. Isso aqui foi envelhecido durante mil anos em barris feitos dos destroços da guerra de Grunhel. Não é para mortais. — Thor avisou arrogantemente, derramando um pouco de sua bebida no copo de Steve, que deu um gole, um tanto curioso.

— Parece delicioso. — desdenhei.

— É dos melhores. — concordou o deus, alheio ao meu tom irônico.

— Nem a praia de Omaha, loirinho. — retrucou outro velhinho. — Pare de tentar nos assustar, passe isso para cá. — mandou sentado no sofá.

Voltei-me para o senhor, sorrindo, e assisti Thor dar de ombros e concordar. O deus nórdico distribuiu um pouco de sua bebida entre os veteranos. Steve e eu nos encaramos.

— E você capitão? Curtindo a festa?

— Defina curtir. — pediu.

— Quantas cantadas já recebeu? — fiz cara de mal.

— O quê? — Steve riu, balançando a cabeça.

— Ah, qual é! Até parece que não sabe que é bonito e que chama a atenção. — brinquei me aproximando.

Steve segurou em minha cintura quando circulei o meu braço em seu pescoço e somente o seu toque me acendeu. Dei um sorriso provocativo e me inclinei para mais perto do herói.

— Você está bebendo? — Steve franziu as sobrancelhas.

— Está mudando de assunto.

— Não estou. — negou. — Mas seu jeito te entregou. Você está bêbada.

Ouch. Bebi apenas três tacinhas de Whisky, ou seria quatro? Não, Cinco. Cinco?

— Bêbada não, alegre. — rebati. — E o que isso tem a ver com a nossa conversa?

Notei Steve olhar por cima de meus ombros e me virei para enxergar quem ele olhava. Era Thor embebedando os pobres velhinhos, que já riam histericamente. E não é que o deus falava sério? A seguinte resposta de Steve fez minha atenção voltar para ele.

— Realmente não há ligação com o assunto anterior. Fiquei apenas surpreso.

— Humm. — murmurei um pouco incomodada com o tom de voz do homem. Me separei de Steve e seu toque desapareceu, o que quase fez com que eu voltasse para tê-lo em mim, novamente. Mas desisti de fazê-lo e dei mais um gole em minha bebida. Nada veio aos meus lábios. Franzi o cenho e olhei a taça. Ela encontrava-se vazia. Estranho. — Vou buscar mais.

Virei e dei dois passos antes de cambalear ao desviar de uma mulher. Senti as mãos de Steve em meus ombros.

— Eu tô legal. — quis deixar claro.

— Estou vendo.

Um tanto incomodada com seu tom de voz, voltei-me para Steve, esquadrinhando seu rosto o mais atenta que o meu eu não bêbada pôde.

— Dá pra parar com isso? — pedi. — Estou ótima, maravilhosa. Melhor que eu, impossível. — vi Steve balançar a cabeça, mas seu olhar não pareceu convencido. Isso me deixou mais impaciente. — E até parece que nunca viu ninguém bêbado. — continuei com voz embolada. — Fica me olhando cheio de julgamentos.

— Em momentos ruins as pessoas costumam tentar esquecer certas coisas. A bebida é um meio. Sei como é isso Sofya e não a julgo por fazer o mesmo. — Steve maneou a cabeça. — Não sei de onde você tira essas ideias. — comentou.

Seu tom paciente me fez ficar irritada comigo por estar tão irritada. Senti minha resistência enfraquecer, mas ela se reforçou rapidamente, não me deixando admitir que as últimas situações têm me estressado.

— Não preciso de ajuda, pois como já disse, estou ótima. — comuniquei o homem, me desvencilhando e passando pelo mesmo.

Caminhei na direção do balcão, — observando através de minha visão periférica o homem me seguir — até o canto mais longe e isolado do salão, sabendo que aquela conversa não terminaria comigo tendo a palavra final.

Bom… isso não significava que eu não tentaria.

— Sofya, conversa comigo. — Steve pediu em um suspiro, sentando ao meu lado e inclinando o pescoço para me olhar. — Não precisamos falar da… — lancei a ele um olhar. — … daquilo. — suspirei por Steve ter tido a decência de não dizer o nome dela. — Mas você não pode me afastar como está fazendo. Quer que eu acredite que está bem, mas se isola assim.

Steve tinha um ponto. Eu o estava afastando, mas porque estou muito, mas muito fadigada.

Nos últimos tempos, tenho andado tão cheia dos olhares preocupados lançados a mim. Todos os dias, espero que Steve e Tony entenda que não preciso de cuidado. Que eu não sou feita de cristal e que apesar de todas as merdas que rolaram, eu iria ficar bem. Qual é, já passei por muita coisa. Preciso apenas aprender a passar por mais essa. Tempo. Necessito de tempo para aceitar que ela está viva. Tempo para aceitar que meus amigos mentiram para mim. Só isso, mais nada. Sem pisada de ovos. Sem cuidados para falar ao meu lado. Sem conversas sobre mim quando pensam que eu não estou presente.

Que inferno!

Respirei fundo, frustrada.

— Tá okay. — balancei a cabeça em concordância. — Vamos conversar. — disse em um tom ameno e o homem assentiu, aliviado. Entretanto, permaneci calada.

— Tudo bem, eu começo. — ele disse. Senti sua atenção em mim. — Preciso falar algo e faz um tempo tenho tentado te dizer. — Ihhh. Foi só o que consegui pensar. Voltei-me para Steve, ciente de que meu olhar sobre ele era genuinamente curioso. O loiro desviou aqueles azuis para o copo no balcão, fazendo uma pausa dramática. Arqueei uma sobrancelha. — Conversei com o seu professor.

Seu anúncio fez minha cabeça girar:

— Quê? — arregalei os olhos, pasma.

— Aquele que você disse…

— Eu sei quem é. — o interrompi e Steve acenou.

— Pois bem.

Pois bem? Que cacete! Fiquei em silêncio observando a expressão do Rogers, tentando entender a situação, mas ele não deixou nada transparecer em sua face e isso me frustrou.

— Ta. E pra que mesmo que você procurou por ele?

— Eu não o procurei. — negou com calma. — Na verdade, foi bem inesperado. Nós nos encontramos naquela vez em que fui te buscar. Lembra? Depois de Munique. — balancei a cabeça ainda desnorteada. Nunca imaginei que Steve voltaria aquele assunto. — Estava te esperando e, por acaso, acabei me encontrando com ele. Iniciamos um diálogo e eu logo deduzi quem era.

Mais um momento de silêncio.

— E você…

— Não toquei no assunto. — ele disse.

— E está me dizendo isso… — joguei no ar.

— Por que quero que saiba. — respondeu-me, aparentando confusão. Passei meu dedo no balcão, mordendo meu lábio inferior pra me impedir de dizer as coisas que vinham em minha mente. — O que foi? — Steve perguntou.

— Nada.

— Não é nada, Sofya. Caso contrário não haveria essa marca aqui. — tocou meu rosto, entre as sobrancelhas.

Respira.

— Só não entendo aonde quer chegar com isso.

Steve baixou a mão e me olhou com o cenho franzido.

— Como assim?

— Tocando nesse assunto agora. Por que demorou tanto para me contar?

Steve ficou em silêncio, encarando-me fixamente:

— Você está irritada. — constatou, franzindo o cenho e cruzando os braços, fazendo seus músculos flexionarem com o movimento.

Fiz um grande esforço pra me concentrar, lembrando a mim mesma que não podia agarrá-lo sem mais nem menos.

— É, estou irritada. Steve, isso aconteceu a mais de um mês e você vem me falar agora? — disse chateada enquanto puxava meus cabelos. — Estou cansada das pessoas escondendo as coisas de mim e esperava que você fosse a exceção.

— Você não está sendo justa. — Steve avisou e eu o encarei boquiaberta. — Nós quase não tivemos tempo nos últimos meses. Com o fim disso imaginei que poderíamos conversar sem toda a pressão que estávamos vivendo, mas você se afastou. — o homem suspirou. — E então finalmente temos um tempo para conversar e o usamos para discutir. — observei seu olhar chateado e acho que fiquei alguns segundos fora do ar.

— Ah! Então a culpa é minha? — retruquei, sem paciência.

— Não, Sofya. — Steve também pareceu impaciente. — Estou tentando te fazer entender que quis encontrar um bom momento para te contar, para conversarmos com calma, no entanto, olha onde estamos. — ele apontou para o salão e suspirou. — Discutindo em uma festa.

— Por favor… quem tá discutindo Steve? — rolei os olhos. — Só estou cobrando de você o que você também me cobra. Honestidade. Não foi isso que combinamos?

— E você insiste negar que isso seja uma discussão. — Steve bufou virando o corpo.

— Pelo menos eu não estou. — rebati, orgulhosa demais para admitir.

Também me virei e ficamos mais algum tempo sem falar nada.

— Vamos sair daqui e conversar em outro lugar. — Steve pediu baixinho.

E eu quase aceitei, quase me deixei levar por uma emoção. Contudo, tudo o que fiz foi negar com um manear.

— Não dá, meu pai tá me esperando. Acho que vamos ter que conversar em outra hora. — Idiota!

— Você está fazendo de novo.

— Fazendo o quê? — o indaguei, rabugenta.

— Se afastando.

— Ah, desculpa, mas foi você quem mentiu para mim, Steve.

— Mentir? — ele balançou a cabeça, desacreditado. — Pelo amor de Deus Sofya…

Não o deixei completar. Estava cansada e não queria continuar com aquilo.

— Olha… vamos conversar em outra hora, okay? Por favor.

Nos encaramos sem dizer uma palavra. Por fim, Steve assentiu em concordância e levantou de seu lugar. Observei o homem se afastar até perdê-lo de vista e esperei sentir alguma coisa, após o fim daquela discussão sem fundamento, — talvez um pouco de alívio? — mas tudo o que me veio foi um embrulho no estômago e o arrependimento por ter sido tão idiota.

Bufei, me recriminando:

— Você estraga tudo Sofya. — murmurei, virando a taça de uma lado ao outro.

Instantes depois, assisti um prato ser depositado a minha frente e vi o mesmo barman que me serviu, antes, a minha frente. Franzi o cenho sem entender:

— Ele perguntou se ainda tínhamos algo comestível e quando confirmei, me pediu para te trazer algo. — explicou e eu me voltei para o prato, sentindo meu estômago roncar. — Você sabe que faz mal beber sem comer, né? — balancei os ombros e ignorei o que o homem disse.

Ele.

Sei bem de quem o barman falava, mas me surpreendeu ver que Steve ainda tentava cuidar de mim, mesmo após a minha babaquice.

Você é a orgulhosa aqui. Meu subconsciente condenou-me e eu tentei ignorá-lo ao máximo.

— Obrigada. — resmunguei.

— Não agradeça. — o homem virou de costas, mas parou e voltou. — Só… olha, vou dizer logo, porque se não vou ficar me remoendo. Não é sempre que um partidão desse bate na porta, então não o deixe fugir. — arqueei uma sobrancelha. Que ousadia. Mas não parou por aí não. E me surpreendendo ainda mais, o barman piscou para mim com um sorriso. — Ou então vou imaginar que o caminho está livre pra eu tentar a sorte com o bonitão. — e assim ele se foi, deixando-me de boca aberta.

Em seguida, soltei um riso e me pus a comer lentamente o que me foi entregue, pensando nas palavras do desconhecido. Ai cara, e eu só consigo imaginar a face de Steve se estivesse aqui. Caramba! Fiquei curiosa para saber o nome do barman abusado.

Com o passar da noite, assisti às pessoas indo embora e conforme o trabalho foi diminuindo, o bendito cujo passou a usar parte do restante de seu tempo comigo.

Conversamos um pouco e ele logo se apresentou como Jake.

Jake então explicou que trabalhava para uma empresa terceirizada e que esse era o motivo de eu nunca o ter visto antes. O que me deixou de certa forma aliviada, pois provou que no fim eu não era uma alienada completa.

Também falamos — ele falou — da minha sorte em estar rodeada de homens — segundo as palavras dele — gostosos e isso me fez rir alto. Não por discordar, mas por só ter olhos para uma pessoa a ponto de não me importar com a beleza dos outros. Claro, é óbvio para mim que Thor, Sam e até mesmo Bruce são bonitos, mas eu não me importava. Depois que se tem um Steve presente em sua vida, fica difícil desviar o olhar.

E ao pensar nele, me vem à mente que Steve provavelmente está chateado comigo.

Saco.

— Mais uma dica: agarra o bonitão e não solta mais. Aposto que tem um monte de urubu querendo fazer o mesmo. Não seja burra garota! — Jake me avisou rindo quando falei, por alto, da discussão que tive com Steve.

Claro que ele provavelmente deve ter visto ou ouvido algo, considerando que ele tinha feito um comentário, mas fiz cara de paisagem e fingi que nada aconteceu, um tanto envergonhada. Não consegui prender outro riso ao ouvir sua dica.

Como Jake conseguiu minha atenção tão rapidamente? Só Deus sabe. Mas penso que a bebida teve grande influência em meu julgamento. Ou a falta dele.

O fim da festa foi se aproximando e pouco a pouco a torre se esvaziou. Jake, junto de uma equipe que trabalhava com ele, foram embora quando restava apenas os Vingadores, Mari, Helen Cho e eu. Entretanto, antes trocamos nossos contatos, e Jake adorou, pois falou que não perderia a chance de ter uma amiga que conhece o tanto de caras gostosos como conheço — palavras deles, não minhas. — e isso me fez sorrir, mais uma vez, ao me despedir dele.

***

Ignorei a vontade absurda de beber e caminhei até andar de cima, onde encontrei a galera reunida. Estavam todos espalhados pelo local, cada um ocupando um espaço no sofá. Eu me sentei ao lado do meu pai, próxima de Mari.

Fiquei escutando a animada conversa em silêncio. Ora ou outra olhava Steve, mas desviava a atenção o mais rápido possível, receosa dele me pegar no flagra.

Observei com diversão Clint zombar a história do Mjolnir, a ponto de Thor desafia-lo a levantar o martelo. Dei risada. A história é o seguinte, somente quem é digno pode levantá-lo e assim governar Asgard, um dos nove reinos e blá blá blá.

Agora eu pergunto: quem é o doido que vai querer o poder de ter um mundo em suas mãos? Pois eu mal consigo cuidar de mim mesma.

— Isso vai ser lindo. — caçoei o Gavião.

— Clint, foi uma semana difícil. Ninguém vai te zoar se não conseguir levantar. — Tony fingiu um olhar solidário e eu pigarreei.

— Eu vou. — discordei com um olhar matreiro.

Todos riram. Clint, ainda sim, se aproximou do martelo sobre a mesa, brincando no meio do caminho.

— Cem dólares que ele não consegue. — apostei com meu pai.

— O dobro que ele leva uma rasteira. — Stark retrucou e nós rimos apertando nossas mãos. Eu, feliz demais pela grana fácil que ia ganhar.

— Tô com a Sofya. — Mari entrou na brincadeira.

— Quais são as opções? — Natasha se intrometeu com um sorriso.

— Sofya aposta cem dólares que o Barton não consegue. Tony dobrou a aposta dizendo que ele caí. — Hill explicou a Viúva que pressionou os lábios, tentando evitar mais um sorriso. Banner balançou a cabeça em negação.

— Sério? — Clint nos olhou em frente a Mjolnir.

— Espera as apostas terminarem. — meu pai disse e isso me fez dar outra risada.

— Sinto que preciso ficar do lado do meu colega de batalha. — Romanoff comentou olhando o Barton, que sorriu. — Tony. — chamou.

Todos caímos na gargalhada e depois de eu zoar com a cara de Clint, e de fazermos nossas apostas, o Gavião finalmente fez sua tentativa. E ele se esborrachou no chão.

— Quê?! — bati no sofá. — Foi proposital! — exclamei indignada.

Clint, caído no chão, soltou uma risada e piscou para Natasha. Mari suspirou e Romanoff e o Stark fizeram um high five. Logo depois, meu pai levantou e também iniciou uma tentativa de levantar a arma. Ele ainda recebeu a ajuda de Rhodes, mas o martelo ao menos saiu do lugar.

— Molengas. — zombei rindo, mas quando me chamaram para tentar, eu neguei.

Sabia qual seria o resultado. Além do mais, eu prefira ficar rindo deles. Era bem mais divertido.

Bruce também foi mal sucedido e tentou zuar com a nossa cara, enquanto Mari e Natasha, assim como eu, negaram tentar. Portanto, restou a Steve fazer a sua tentativa.

O loiro não quis ir de primeira, o que me fez olhar em seus olhos pela primeira vez, desde que subi. Steve também me encarou e eu não sei se as pessoas ao nosso redor reparou no clima estranho, mas ele não durou muito.

O herói então desviou sua atenção e levantou. E eu assisti de perto Steve ser o único a quase mexer o Mjolnir, tanto que até mesmo Thor temeu. Quase iniciei uma torcida, mas lembrei que tínhamos — eu tinha — discutido e desisti da ação com uma respiração profunda.

Uma cacofonia de vozes se iniciou com todos debatendo, ao mesmo tempo, sobre o assunto. Meu pai nos deu uma suposição científica. Somente quem tem as digitais de Thor pode levantar o martelo, ou seja, ele mesmo. O deus nórdico riu:

— É uma teoria muito, muito interessante, mas eu tenho uma mais simples. — paramos para ouvir. — Vocês não são dignos.

Todos exclamaram.

— Ah, dá um tempo! — ouvi Clint reclamar gargalhando.

— Qual é! — neguei rindo.

Um som agudo e fino se propagou por todo o local me fazendo encolher, surpresa. Todos pararam de falar e o momento divertido foi deixando para trás.

— Dignos. — uma armadura totalmente ferrada caminhou, derramando óleo pelo chão. Franzi o cenho. Quem vai limpar essa sujeira? — Não. Como seriam dignos? Vocês são assassinos.

Tá okay, esse com certeza não é o Jarvis.

— Stark. — Steve alertou.

— Jarvis. — meu pai chamou, mas não obteve resposta.

— Perdão, eu adormeci. — o defeituoso continuou. Levantei-me vagarosamente e, por um instante, sua atenção focou em mim. Meu coração acelerou. — Ou estava sonhando?

Tony continuou em sua tentativa de contatar a inteligência artificial:

— Reinicie o S.O. Legionários. Temos um traje com defeito.

— Tinha um barulho terrível e eu estava preso por cordões. Tive que matar o outro cara. Era um cara legal.

Matar? Pensei ao observar o robô. Não tinha mais ninguém no prédio, certo?

— Você matou alguém? — Steve questionou tenso. Todos estávamos assim.

— Não era a minha primeira escolha, mas no mundo real temos que enfrentar escolhas cruéis.

— Quem o enviou? — Thor deu um passo à frente e o defeituoso respondeu.

Uma gravação foi ouvida:

"Eu vejo uma armadura em volta do mundo"

Era a voz do Stark. Voltei-me para o meu pai, que encontrava-se tão tenso como todos nós, mas o seu olhar... Tony sabia o que aquela coisa era.

— Ultron. — Bruce concluiu.

— Ultron? — repeti, sem reconhecer o nome, mas não deixei de notar a troca de olhar entre meu pai e Banner.

— Em carne e osso. — disse Ultron. Senti alguém tocar meu braço e virei-me para Mari, que me entregou uma arma. Respirei fundo. — Ou não, ainda não. Não essa crisálida, mas estou pronto. — Mari me lançou um olhar. Aquele olhar que a mulher manda sempre que estamos para iniciar uma luta. Eu acenei. — Estou em uma missão.

— Que missão? — Natasha deu voz aos nossos pensamentos.

— Paz para o nosso tempo.

Então a parede ao redor do legionário defeituoso explodiu e mais outras armaduras atacaram.

Pulei para fora do caminho, sendo seguida por Mari. Levantei logo em seguida, apontando a arma na direção de Ultron. Atirei no maldito e talvez eu tenha chamado a atenção dele, pois uma de suas armaduras lançou-se sobre mim.

Caí no chão com o peso do metal arrancando meu ar estiquei o braço, tentando resgatar a arma que tinha escorregado da minha mão. Apertei o gatilho três vezes antes de conseguir atingir o núcleo em seu peito.

— Você foi um menino mal. — disse pra máquina inerte.

Então levantei com a respiração acelerada e olhei ao redor. A torre era, mais uma vez, uma zona de guerra. E com a maior sinceridade que existe em meu ser mentiroso, acho que ela é amaldiçoada.

Avistei Cho atrás de uma mesa, tentando se esconder de uma das armaduras. Fui até ela e apertei o gatilho da arma apontada na direção da maquina, mas nada saiu. Merda! Joguei a pistola no robô e ele virou, apontando seus propulsores para mim.

Com o olhar, mandei a doutora sair e voltei-me para o Judas.

— Machucou? — a máquina não respondeu, o que foi, no mínimo, entediante. Ela então tomou velocidade e veio até mim. Ergui minha mão e sua carcaça parou no ar, então fiz a armadura encolher, fechando minhas mãos em punhos. — Foi legal falar com você. — disse a sucata.

Outro desgarrado veio pra me derrubar, mas desviei com agilidade e pulei no pescoço da armadura em movimento. Ela foi de um lado para o outro, completamente descontrolada, enquanto eu enfiava minha mão em seu pescoço, arrancando alguns fios importantes.

A máquina caiu no chão e eu fiquei de pé. Steve se aproximou e parou ao meu lado, mirando-me e me indagando com o olhar. Assenti para afirmar estar bem.

— Hey Capitão! — Clint lançou o escudo para Steve e o herói pulou, pegou e o lançou na direção de um legionário, que foi partido ao meio.

— Isso foi dramático. — Ultron comentou e tudo que pude pensar foi: ele ainda está aqui? — Desculpem-me, sei que tem boas intensões. Só não pensaram direito. — Thor arregaçou com mais um dos malditos e eu inclinei a cabeça. — Vocês querem proteger o mundo, mas não querem que ele mude. Como a humanidade será salva se não for permitido que ela evolua? Com isso? Essas marionetes. — Ultron discursou e pegou a cabeça de uma armadura, como exemplo, quebrando-a com a mão. — Só existe um caminho para a paz: A extinção dos Vingad… — teria sido um belo discurso, se eu não tivesse sido agarrada por algo que me puxou para trás.

Mais rápido do que pensei ser possível, eu atravessei a parede de vidro que se desfez ao meu redor.

O ar fugiu de meus pulmões e ofeguei, sentindo os cacos de vidro arranharem a minha pele. Então eu gritei quando finalmente entendi a gravidade da situação e me assisti cair torre abaixo.

Notas finais
Eu tive um bloqueio criativo DAQUELES e isso atrasou e muito o capítulo. Sorry. Mas e então, vocês estão gostando da fic? Falam pra mim! Beijos seus lindos. SaahAlyne.