NEW STARK | the avengers [1] ✓
23 Dezoito
Quando eu vou para Baltimore
Não preciso de carpete no meu assoalho
Você vem junto e me segue
Nós vamos até a Galileia
Oscar Isaac — Green, Green Rocky Road
É engraçado ver como o tempo passou em um piscar de olhos.
Agora, olhando para a garota que me encara no espelho, posso ver a passagem do tempo através de minha aparência, continuo a mesma, mas com um olhar mais maduro.
Eu cresci, mãe, e você não pôde estar aqui para me ver.
Queria que você estivesse.
Esses últimos anos praticamente voaram, tão rápidos, tanto que às vezes tenho a sensação de quem perdeu algo, como se eu não tivesse vivido ou acompanhado todo esse tempo. É estranho e triste ao mesmo tempo, lembrar que um dia tive esse sentimento de vazio dentro de mim.
Não é algo que se esquece, certas coisas nos marcam de um jeito permanente.
Sim, houve um tempo da minha vida em que meus dias se resumiam a essa palavra.
Vazio.
E ao contrário dos últimos meses em que eu tenho vivido muito bem, ao lado do meu pai e Pepper, minha vida após a perda da minha mãe era apenas um nublado, uma névoa cinzenta, espessa, que faz-me querer afastar essas memórias de minha mente. Esse era um dos motivos de eu não gostar muito da cor, ela me lembra do caótico momento da minha vida, em que tudo resumia-se em arrumar confusão, beber até cair, a ponto de até mesmo jogar minhas tripas fora no processo, de acordar ao lado de alguém sem ao menos saber como, sequer, ter parado lá.
Foram tempos difíceis, em que pouco importava meu bem estar, minha vida era festas, bebidas...
Sim.
Muito difíceis.
Hoje em dia, com um pouco mais de juízo do que alguns tempos atrás, evito a todo custo beber, esforço-me ao máximo para que nenhuma gota encoste em meus lábios, mas não vou negar e dizer que não sinto vontade de largar esse meu receio, de me jogar em uma noitada, louca e agitada, como Lúcia tanto insiste que eu faça.
Como antigamente.
Às vezes sinto falta de dançar em meio ao monte de corpos suados e cheios de energia, entregar meu corpo a música capaz de contagiar qualquer um com, aquela euforia momentânea, sinto falta da batida alta e potente, que fazia o chão sob os pés tremerem, que permitia-me baixar a guarda que tanto me esforço em manter erguida. Com todo aquele barulho eu não me esforço em manter os pensamentos das pessoas em silêncio, por que o som da música é tão intenso que não permite ouvir nada mais que não fosse o barulho enérgico.
Eu quero, mas não quero.
Eu sou uma confusão.
Mas as coisas estão melhor do jeito que estão, comigo sendo a careta do curso...
Uma careta, mas uma careta lúcida, obrigado.
Nada de pagar o micão de vomitar em cima de um desconhecido. Deixemos essa parte em offline.
Nunca mais.
E, ao invés de me focar no que realmente é prioridade neste instante, eu estou aqui, divagando, esquecendo-me que uma festa rolava lá em baixo.
Minha festa.
Eles insistiram tanto, meu pai fez um drama e só, dizendo que era meu primeiro aniversário com ele e que ele queria marcar aquele momento.... bla bla bla.
Enfim, resumindo, depois de tanto persistirem, eu finalmente cedi à insistências deles, claro, com uma condição.
Uma festinha pequena, somente para amigos íntimos, ponto.
Claramente, meu pai se aproveitou de uma brecha em sua promessa para, ainda sim, convidar metade da cidade para o dia de hoje.
Continuo a olhar minha aparência com afinco, nervosa, dividida entre descer e ser o centro das atenções ou ficar aqui e decepcionar meu pai. Bufo para minhas opções. Mesmo que eu ficasse aqui a noite inteira, minha mente não me deixaria em paz.
Se algo te deixa receosa, e você não luta contra, ao invés disso, se esconde, isso apenas dá mais força para aquele sentimento... e quando menos notar, estará de mãos atadas, aprisionada, com algemas que você mesmo criou.
Você ficaria decepcionada comigo, mãe, ao saber que eu me escondi durante tanto tempo, que eu ainda escondo coisas por medo.
Mas acredito que ainda haverá batalhas em que eu poderei lutar.
Como enfrentar um bando de gente desconhecida, loucos para me bajular. Se não fosse pelo Stark, eu não estaria sofrendo antecipadamente, droga.
Eu ainda tentei impedi-lo, juro.
Tentei mesmo.
Mas ele é Tony Stark.
E Tony sempre faz o que quer.
Semanas atrás
— Tony! Tem umas duzentas pessoas aqui. — — comecei.
Entrei em seu laboratório e apontei diversas vezes para a lista de convidados que me foi enviada.
— Você disse, apenas amigos íntimos. — deu de ombros, indiferente a minha histeria.
O encarei com a ironia brilhando em meus olhos, então perguntei, lendo o nome uma mulher desconhecida para mim:
— É mesmo, e quem é essa tal de.... Charlotte Walter?
— Se não me engano, é proprietária de uma revista de moda... sim, isso mesmo.
Eu ainda tentava entender o porque de convidar pessoas que ele ao menos conhecia, para algo tão familiar.
Pus a mão no peito, fazendo a minha famosa careta de paisagem.
— Puxa... certamente, bem íntimos.
Ele, que mantinha sua expressão concentrada em algo aleatório na mesa, concordou:
— Fomos bem íntimos, sim.
Entendendo aonde ele queria chegar, fiz uma careta:
— Eu não vou convidar esse monte de gente, ouviu? — pus a mão na cintura, soltando um suspiro cansado. — E deixa Pepper descobrir que você convidou uma ex para nossa casa.
Ergui as sobrancelhas, em um claro desafio, esperando por sua reação. Satisfeita, o vi escondendo uma careta.
Agora
Pois é, como devem ter reparado, minha ameaça não surtiu muito efeito, até porque meu pai deletou a mulher da lista, logo depois, e ainda veio com aquele seu característico sorriso irritante, perguntando-me se o número de pessoas tinham diminuído o bastante.
Chato, isto que o Tony é.
De qualquer forma, isso não mudava o fato de eu ter que enfrentar uma multidão de pessoas, que esperava a aniversariante.
Eu não poderia fugir desse meu temor para sempre.
Respirei fundo, preparando-me mentalmente para aquela noite.
Estou orgulhosa de você, mocinha.
Está mãe?
O barulho da porta tira-me de meus pensamentos, e os cabelos claros da minha lindíssima madrasta cai sobre seu rosto, soltos e deixando seu rosto mais fino.
Pepper olha toda minha produção, por breves instantes, seus olhos brilhando, ao mesmo tempo em que seus lábios subiam em um sorriso suave. Pepper passa pela porta em silêncio, após eu lhe conceder entrada ao meu quarto.
— Nervosa?
Dou risada, em parte pela pergunta, mas também por que o momento em questão me lembrou de meses atrás, quando ela me fez essa mesma pergunta antes da coletiva, em que Tony marcou para me apresentar como sua filha, publicamente.
O tempo passa e você não vê.
— Sim. — fui sincera.
Normalmente, eu tentaria fazer-me de forte escondendo-me em uma imagem de tranquilidade que não existia, claro, Pepper desde o primeiro momento soube reconhecer os sentimentos conflituosos que me assolavam. Mas depois de tantas coisas que passamos juntas, noite das garotas, compras e motins contra Tony, não havia mais tantos motivos para esconder alguns de meus sentimentos dela.
Ela nunca ocuparia o lugar da minha mãe, mas era tão importante como tal.
Pepper me lançou um olhar preocupado, e acariciou meu braço:
— Tudo bem, você acha que é demais para você?
Pensei em sua pergunta. Tony sabia respeitar meu espaço, mas, percebi que havia certas atitudes dele que o mesmo não poderia evitar. Acho que ele não reparou minha relutância em fazer uma festa, pois, queria tanto ter aquele momento comigo, não apenas por ele, por mim também. Notei também que ele ao menos imagina meu temor em relação em estar no meio de tantas pessoas, tudo bem, eu nunca tive atitudes que diziam esse meu sentimento.
Ele não era obrigado a ler minha mente ou sentimentos. Entretanto, minha madrasta sabe ler nas estrelinhas meus pensamentos, é até engraçado imaginar que quem tem essa habilidade sou eu. Então, Pepper entende quando sinto-me desconfortável, eu sei que não importa o que eu diga ou faça, minha madrasta procura sempre estar aqui para me aconselhar e apoiar.
— Eu estou nervosa. — afirmei. — Mas consigo lidar com a situação.
Pepper sorriu, ela sabe que falo sério.
— Vamos descer? Só não deixa o Tony colocar aquele refletor em mim. — pedi, fingindo uma expressão apavorada, puramente verdadeira.
Pepper deu risada.
— As vezes vocês são tão parecidos, mas agora nem parecem ser pai e filha.
Meus lábios sobem em um sorriso divertido, e eu falo:
— Sou a versão melhorada dele.
Mais uma risada por parte da ruiva, e enquanto entrávamos no elevador, descendo para o salão de festas, minha madrasta me apontou:
— Viu? Agora parece que eu estou ouvindo ele falar, não você.
— O que se pode fazer né, — dou de ombros, rindo junto dela. — Filha de um metido, metida é. — atualizei o ditado, em minha própria versão.
Mal pude perceber quando o elevador apitou, avisando que havíamos alcançado o andar desejado. Com Pepper ao meu lado, sinto-me bem mais calma do que anteriormente. E quando o medo ameaçou aparecer novamente, eu o expulsei, respirando fundo e abrindo um sorriso simpático.
É só uma festa, Sofya, aproveita!
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