Olhe só pra vocês, crianças, com suas músicas vintage

Vindas por meio de satélites enquanto viajam

Vocês fazem parte do passado, mas agora são o futuro

A travessia dos sinais pode ficar confusa

Lana Del Rey — Love

— Eu matei minha mãe.

O silêncio seguinte é aterrador. Meu pai me olha inexpressivo, e eu passo a me encolher cada vez mais, as imagens daquele dia voltando em minha mente.

— Alô?

Murmurei para o outro lado da linha, esperando por uma resposta que vem instantes depois.

— Boa noite, algum parente de Ligia Denova se encontra?

Meu coração parou enquanto minha garganta fechou, ainda sim, eu falei lentamente:

— Sou filha dela.

— Senhorita, poderia comparecer ao Hospital Central?

— O que houve?

— Temo informar que o assunto será tratado apenas com o doutor Richards, responsável pela paciente Denova.

Não pude argumentar contra, e apenas agradeci finalizando a ligação, no entanto, permanecendo com o telefone pressionado sobre minha orelha mesmo após a chamada finalizada, a insegurança e o medo ameaçando me tomar. Respirei fundo e peguei meus documentos, liguei para meu amigo, trancando minha casa, e caminhando até um ponto de ônibus.

Cheguei no hospital vinte minutos depois, nervosa pela demora do ônibus e quase correndo até a entrada do hospital. Não entendia o que sentia, mas medo era o sentimento que mais se destacava. Um pressentimento... meu sexto sentido me dizia alguma coisa. Eu estava com medo descobrir o que era.

Alcancei o balcão e me apresentei à mulher atrás balcão, logo, sendo encaminhada até uma sala. Encontrei o tal doutor organizando alguns papéis. Não me importei, e fui logo bombardeando-o com minhas dúvidas.

— Doutor Richards?

— Olá. — ele me encarou. — Você deve ser Sofya Denova.

— Disseram que precisava falar comigo, aconteceu algo? Minha mãe está bem?

O médico suspirou pesaroso, ao passo que eu prendi minha respiração.

— Te chamei para comunicar que houve uma complicação. Tentamos de todas as maneiras contornar a situação mais... o cérebro de Ligia Denova veio a óbito nesta tarde.

Não tive reação, apenas sentia um sonido enquanto perdia o ar. Cai sobre uma cadeira, completamente sem chão.

— O que acontece agora?

— Mesmo que a deixemos com o auxílio dos aparelhos, não poderemos fazer nada com apenas o seu coração vivo. Logo, ele também irá falecer. — senti as lágrimas caírem e meu peito doer, como se tivessem arrancado meu coração de dentro de mim. — Sinto muito.

— Um mês após nos mudarmos para Central City, houve um evento. O laboratório da cidade iria inaugurar o primeiro acelerador de partículas. Fiquei muito animada e sem que minha mãe soubesse, eu fui. — comecei a contar, a voz embargada.

Tony permanecia em silêncio, e deixou-me incomodada com aquela falta de emoção.

— Deu tudo errado, o acelerador se sobrecarregou e explodiu, eu fui uma das atingidas. Acordei dez meses depois, com habilidades especiais. — pela primeira vez desde que eu comecei aquela história, pude ver uma emoção passar pelos olhos de meu pai. Foi tão rápido que nem pude discernir. — Mas vieram com consequências. — continuei, mais algumas lembranças me atingindo.

Mal percebi quando o aperto da garota se soltou, ou quando eu passei a asfixiá-la somente com minha mente.

— Eu disse que não era da sua conta, não disse?

Quase não reconheci minha voz, e por mais que estivesse gritando comigo, por fazer isto, meu corpo não obedecia meu lado racional.

Eu não ouvia os gritos dos alunos ao redor e pouco me importava com a garota que começava a se debater, passando a ter uma coloração roxa do pescoço para cima.

Ouvi uma movimentação estranha e em meio a nuvem de sentimentos que nublou todo o movimento ao meu redor, eu senti quando alguém me agarrou por trás e me tirou dali, mais rápido que um raio.

O susto me fez despertar e quando ele me soltou, pude finalmente perceber o que eu fazia.

Meu Deus.

— Que merda era aquela, Sofya?

Sua pergunta e seu tom de voz me fez encolher, seu olhar era severo em minha direção.

Não consegui responder, pois estava estática com o que quase fiz.

— Barry...

Eu quase... eu quase.

Meu Deus.

— Você quase matou a garota — acusou.

Aquela culpa que enterrei em minha mente, aflorou-se novamente. Cada pessoa que eu machuquei, até mesmo para proteger aqueles que eu amava. Talvez os meus propósitos não tenham sido o suficiente para anular aquele sentimento.

Contei a ele tudo o que aconteceu até o enterro de minha mãe e quando terminei, não restou nada, além daquele silêncio sepulcral.

— Foi minha culpa. — falei, quase em um sussurro, sentindo uma vontade de me jogar sobre o chão e chorar.

Ainda sim, Tony nada disse.

— Não vai dizer nada? — perguntei sem escolha, aquele silêncio incomodando-me ao extremo. — Avisei que após descobrir a verdade, você não iria querer me ajudar. — murmurei, um bolo formando-se em minha garganta. As malditas lágrimas voltando a inundar meus olhos.

Conforme contei minha triste história, senti aquela culpa que me esforcei tanto em esconder, assolar-me novamente. Tudo que eu mais temia, desde de o princípio, era a rejeição de meu pai. Então eu o afastei, mas não tive êxito nesta decisão.

Após todo esse tempo com Tony, após eu me abrir aquele sentimento que há muito eu não sentia, tive medo dele não me aceitar.

Tony suspirou dando um passo em minha direção, e finalmente falou:

— Aquele dia, quando viajamos para Washington e você me pediu perdão... não apenas por tudo o que disse a mim antes, não é?

Surpresa e sem esperar que ele tocasse naquele assunto, não tive outra reação a não ser assentir, sem qualquer palavra.

—Eu me culpava... eu me culpo, até hoje. — murmurei.

Tony maneou a cabeça e já próximo a mim, me abraçou.

— Eu não posso perdoar você. — senti que meu coração errou uma batida, mesmo com meu pai abraçando-me tão firmemente. — Depois de tudo que me contou, não consigo ver onde você é culpada, tudo o que vejo é uma garota que sofreu por um erro. Que teve que lidar com esse erro sem saber como.

— Eu machuquei pessoas. — falei e soltei um soluço enquanto o apertei.

Meu pai deixou-me molhar toda a sua camisa, e depois de me acalmar, afastou-se para secar meu rosto enquanto dizia:

— Sim, e você não pode passar o resto da vida culpado-se por algo que estava fora de seu controle. — Tony falou tão sabiamente que quase não o reconheci. — Neste caso, somente você pode se perdoar.

— Não sei se um dia conseguirei. — neguei com a cabeça. — Foi por minha causa que....

— Pelo que eu entendi... — me cortou. — Você não estava em pleno poder de si mesma. — comentou.

— O que me dói mais, é saber que era eu ali. Foi eu quem se descontrolou, e ainda que não pudesse controlar a mim mesma, era eu machucando aquelas pessoas. — encarei Tony. — Sinto muito não ter contado antes, eu apenas não suporto ter que reviver isso, e menos ainda, vê-lo decepcionado comigo.

— Não estou, você é forte Sofya. Mesmo que não veja isso.

O abracei mais uma vez:

— Ser forte dói.

— Dói. — confirmou. — Eu, por exemplo, estou sendo forte vendo você molhar minha camiseta favorita. — ele sorriu. — Não vai assoar o nariz nela, né?

Eu ri, mesmo sem querer. O que ele disse não teve a mínima graça, mas sua tentativa de me fazer sorrir foi o que valeu para mim.

— Você compra outra.

— Não dá, foi um presente. Presentes não são comprados.

Sorri, reparando na camiseta, lembrando que, na verdade, foi eu quem deu está a ele. A camiseta era estampada com Tony dentro do uma lata de sardinha, ri outra vez.

— É isso aí, sem chororó. — ele falou, e eu ergui meus lábios levemente, antes de me voltar-me para Tony, mais séria.

— Sobre meus poderes, sinto muito não ter contado antes. — eu falei, mais leve, evitando pensar no restante da história.

— E eu sinto tanto, que tenha passado por tudo isso, garota. — Tony falou suavemente, ainda que seu tom tenha entregado sua culpa e pesar.

Soube o porquê de tal sentimento. A ausência de Tony em minha vida é algo que ainda o atingia. Por alguns instantes, eu parei para pensar.

Realmente, não há motivo dele me deixar. Steve tinha razão, meus amigos tinham razão. Meu pai me ama, e tive a mais plena certeza que ele jamais me esqueceria.

Após uma longa conversa, Tony e eu, por fim, saímos daquele laboratório. Tive a percepção de que as coisas entre a gente melhorarão a partir dali, e nada me deixou mais feliz. Ao chegarmos em nosso andar nos deparamos com minha madrasta, preparando a mesa para o jantar.

Encarei meu pai, e acenei na direção da ruiva, afinal, eles ainda tinham que se resolver. E como um cão arrependido, Tony Stark caminhou na direção de sua namorada, que notando a presença do mesmo, fechou a cara em uma expressão nem um pouco amigável.

Ainda que o olhar fulminante da minha madrasta causasse medo até em mim, eu sei que eles se resolverão. Então, para não atrapalhá-los, fui de fininho até meu quarto, cansada e louca por minha cama.

Tomei um banho e me deitei, fechando meus olhos, deixando o sono me levar.

Não por muito tempo.

O telefone tocou, eu tateei a cama em busca do aparelho, enquanto aquele som me tirava de meu estado dormente. Olhei a tela do meu celular e não reconheci o número.

Quatro toques depois, eu atendi:

— Alô?

—Te acordei?

Era Steve. Sentei em minha cama, sonolenta, mas também preocupada.

— Steve. — suspirei aliviada. — Eu... ainda não estava dormindo. — respondi. — Como você está? Como foi?

—Estou bem... Conseguimos, derrubamos a SHIELD. Amanhã isto estará em todos os jornais.

Houve um tom saudoso na voz do herói, e conclui que não o importa o quanto a SHIELD estivesse comprometida, ainda sim, fora lá que o herói recomeçou após sua volta do gelo.

— E vocês? Todos vão saber quem vocês são. — falei.

Há um breve momento de silêncio, antes do herói voltar a falar:

—Sim, mas não podemos fazer muita coisa para mudar isto.

— Conseguiu encontrar com o seu amigo?

—Ele fugiu, acho que me reconheceu, mas fugiu. Talvez a Hidra tenha pego ele novamente.

Sua voz derrotada foi ouvida, e eu apertei meus olhos.

— Ou não. — murmurei. — Se ele te reconheceu, Steve, então há uma chance dele também ter fugido da Hudra. Talvez ele esteja por aí.

—Acredita nisso?

— Temos que ter um pouco de fé. — comentei. — E eu te ajudarei a encontrá-lo.

—Sof...

— Nã-não, você não vai me impedir. — o cortei, imaginando o que ele diria.

Sua risada soou baixa e quase inaudível.

—Eu iria apenas agradecê-la.

Franzi o cenho e murmurei sem graça.

— Certo, entendi. Não me agradeça, ainda não fiz nada.

—Fez, fez muitas coisas. — a seriedade em sua voz me fez acreditar que falava muito sério. — Como foi sua chegada?

— Eu e Tony nós resolvemos. — avisei feliz. — Você tinha razão, Capitão. — comentei. — Tony... ele não... as coisas estão melhores. — falei, por fim.

—Fico feliz por você, Sofya. Você merece toda a felicidade do mundo.

— Não sou assim tão egoísta. — brinquei. — Eu divido um pouco de felicidade com você.

—Um pouco? — ele riu mais alto, e mais alegre.

— Só um tiquinho. — confirmei sorrindo levemente.

Fazia poucas horas que nos vimos pela última vez, no entanto, eu já estou com saudades do homem, apenas não quis admitir a mim. Mas só de ouvir sua risada, fez-me mais feliz.

—Próxima semana estarei em Nova York.

Ele comentou não tão aleatoriamente, e eu sorri com a notícia:

— Espero que não tenha esquecido de que está me devendo um jantar, Rogers.

Não vi, mas o imaginei sorrindo.

—Não esqueci. Uma burrito, talvez?

Dou risada ouvindo-o me acompanhar:

—Não aceito nada menos que Caviar. — brinquei.