NEW STARK | the avengers [1] ✓
8 Começo de tudo
Um homem famoso uma vez disse: "Nós criamos nossos próprios demônios"
Quem disse isso, o que isso quer dizer? Não faz diferença, eu disse por que ele disse.
É isso aí... Ele era famoso e agora foi dito por dois caras famosos.
Eu não... Vou começar de novo.
Vamos pegar do início...
Tudo começou em Berna, na Suíça 1999... Os velhos tempos, nunca pensei que fosse voltar pra me pegar. Pra quê, né?
Por que eu tô contando isso?
Porque eu tinha acabado de criar demônios e eu nem desconfiava.
É... Aqueles foram bons tempos.
Mas eu segui em frente, depois de um breve piquenique numa caverna Afegã, eu dei adeus às festas. Esqueci aquela noite na Suíça. Hoje eu sou um novo homem, sou diferente, eu... Bom.
Vocês sabem quem eu sou.
O dia amanheceu ensolarado. A previsão do tempo disse que o tempo se manteria quente e essa foi a minha deixa para aproveitar que eu moro em frente a praia para tomar um banho de mar. Quando eu voltei da praia, a mansão estava silenciosa como de costume.
Faz exatamente um mês que estou morando em Malibu então já estava acostumada com a rotina monótona. A senhorita Potts normalmente fica o dia todo fora. Ela é a presidente das Indústrias Stark é tá sempre com o celular na mão falando com alguém importante. Anthony eu quase não vejo. Ele está fazendo o que eu tão grosseiramente pedi, tem mantido distância de mim… o que me pegou.
Eu pensei tê-lo ouvido dizer que era persistente.
No fim, as coisas são como eu imaginei, não é? Anthony Stark não é um homem de família e, sem dúvida, não quer ser. O que, nos primeiros dias aqui, me deixou mais convicta de manter distância. Pepper conversou comigo após aquele jantar desastroso. Não surpreendentemente, ela pediu que eu desse uma chance a Tony; disse que apesar de toda a pose de “sou o rei do mundo”, no fundo, Stark deseja recuperar o tempo perdido e que ele é um bom homem. Acho que eles não entenderam que não era questão de ser um bom homem, eu tô ligada que ele deve ser o cara. Salvou Nova York, salvou vidas. Mas não consigo… é simplesmente difícil para aceitar que, de todos, ele não me salvou.
Nunca foi questão dele ser um herói, mas um pai. Não era questão de chegar na minha vida e julgar que pode conseguir tudo o que quiser de mim. É entender que eu… precisava respirar, por que ainda é difícil demais encarar o fato de que perdi a minha mãe e assimilar que ganhei um pai que — assim como eu — não sabe lidar com essa situação. Foi por isso e mais que eu nunca o procurei. E posso sentir a sombra do passado pairando sobre mim.
Eu fui rude e grosseira, sim, e não me orgulho de tê-lo tratado da maneira que o fiz. No entanto, eu me estresso fácil demais e somente lembrar que ele tomou um direito meu como se… como se não fosse nada, anulou qualquer desejo de me aproximar. Talvez eu esteja sendo dramática demais. Talvez eu esteja errada, afinal.
Mas é como me sinto.
Enfim, orgulhosa como sou para dar o primeiro passo, eu apenas disse a namorada do Anthony de que iria pensar no assunto. E acredite se quiser, mas eu pensei e muito esses últimos dias. Eu precisava disso, sabe. Um tempo para pensar. Respirar. Não nessas circunstâncias, obviamente. Ser obrigada a estar aqui tirou-me a paz no começo. Eu realmente odeio estar submetida a uma situação na qual eu não tenha controle. Por isso me irritou tanto, a princípio.
— Temos que resolver isso e logo, Tony. A mídia está falando e o conselho quer saber como as coisas serão de agora em diante — ouço a voz de Pepper quando piso no Hall de entrada.
Ainda estou molhada da água da praia e o sal impregnado na minha pele me faz querer correr direto para debaixo do chuveiro, entretanto, paro de andar estreitando os olhos ao ouvir Pepper Potts. Uma brisa gelada arrepia os meus braços. Aperto mais a minha toalha no meu entorno e caminho em direção a sua voz. Não é querendo ouvir a conversa dos outros, mas algo na frase da namorada do Tony me faz pensar que o assunto em questão está relacionado a mim.
— Você ainda é a presidente. Não precisa sentir-se ameaçada, querida — a réplica sarcástica me dá ainda mais certeza de sou eu o motivo do nervosismo da mulher.
— Não é com isso que eu estou preocupada, Tony, sabe disso — a voz repressiva da mulher soa novamente.
Eu não estava totalmente alheia ao que acontecia ao meu redor. Tô ligada de que as mídias sociais tão se acabando de falar sobre mim; uma vez que, de alguma forma, a história da filha perdida do Tony acabou caindo na língua do povo. Haviam conseguido a merda de uma foto minha da época da faculdade, uma relíquia. Não faço ideia de como conseguiram, mas o ser humano é uma coisinha gananciosa. Imagino que alguém da época tenha postado a foto pra chamar atenção.
O importante é que eu estou bonita, com cara de rebelde, sim, mas gata.
— Mas seria bom você se pronunciar. Estou marcando uma reunião para que converse com os seus sócios…
— Nossos sócios.
Portanto, imagino que o meu surgimento deve ter tido algum impacto na empresa se a mulher está conversando com o Stark agora. As pessoas estão falando, obviamente. Perguntado sobre mim, querendo descobrir coisas. Um saco. Parece que ninguém tem vida própria. Dou mais alguns passos e chego a sala de jantar. A mesa de café da manhã ainda está posta, o que me surpreende. Normalmente, eu acordo tarde demais — já que não durmo bem a noite — e sempre acabo na cozinha comendo sozinha.
Nesse horário, as coisas já estão sendo colocadas no seu devido lugar, o que não é o caso dessa vez.
Definitivamente, algo está acontecendo.
— E eu estou planejando uma coletiva de imprensa.
— Hm, tem certeza disso? Deixe eles falarem, não me importo com isso.
— É, mas é a sua empresa…
— Nossa empresa.
— E você não pode me…
Eu observo Pepper gesticular na direção do Stark.
— Está tudo bem? — franzo o cenho na direção dos dois adultos, tremendo um pouco quando um arrepio sobe pela minha coluna.
A conversa para. Pepper e Tony viram-se para mim. Stark me observa com a sobrancelha erguida e toma um gole de sua bebida.
Não é necessário estar próxima ou sentir o cheiro forte para reconhecer o Whisky. Seu bar está cheio disso. Potts está de pé a frente do homem, agora com as mãos na cintura, mas a postura rigorosa mais aliviada pela minha presença. Talvez eu não devesse ter ouvido a conversa? Foda-se, já foi.
— Está sim, querida — a mulher acenou e eu assenti com a cabeça, sem acreditar realmente — Mas eu queria mesmo conversar com você.
— Hm… — Tony murmura — Já estou dispensado, mamãe?
Pepper revira os olhos e diz que não. Eu pressiono os lábios para não sorrir e pergunto se posso subir e tomar um banho rápido antes dela falar o que tanto queria. Foi o banho mais rápido da minha vida, pois estava mais curiosa que tudo. As pontas do meu cabelo estava pingando quando cheguei a sala, onde Jarvis havia dito que eles estariam.
— Você vai acabar ficando doente — a mulher observou.
Eu dou de ombros, passando a ponta dos dedos entre as mechas do meu cabelo úmido.
— Está calor e o meu cabelo seca rápido — eu disse.
Sentei-me no sofá ao lado oposto de Tony. O mesmo está me observando novamente e toma um gole de sua bebida quando eu volto o olhar para ele. Suas maneiras eram enervantes. Aquela tensão que se instalou desde o jantar não deixa o ambiente. Franzo minhas sobrancelhas.
— Então…
— Você deve ter visto, o mundo todo já sabe sobre você — Pepper foi direto ao assunto e eu agradeci mentalmente. Aceno em concordância — Estou me esforçando para dar esse espaço para vocês, Sofya. E apenas posso imaginar o quanto é confuso cair nesse mundo tão de repente, mas Tony é a cara da empresa. Futuramente, você pode vir a ser sua sucessora.
— Eu não… — nego com a garganta seca.
Meu coração até gela com a possibilidade de eu estar a frente da administração de uma empresa daquele porte. Não mesmo. Pela primeira vez; voltei os meus olhos arregalados para Tony, em busca de algum auxílio.
— É um pensamento a longo prazo — acho que ele tentou me consolar.
— Certamente — ela concordou — Mas seria bom agir agora.
Por que aquilo soava como se ela estivesse se preparando para uma guerra?
— Agir como?
— Tony entrou com um processo para passar o sobrenome Stark pra você — não digo uma palavra, já esperava algo do tipo. Estou surpresa de que Tony tenha esperado tanto, mas acredito que a nossa discussão permitiu que ele me desse algum espaço — Concordamos que seria um bom momento para uma coletiva. Te apresentar e responder algumas perguntas…
— Eu não concordei com nada — Stark negou.
— Concordou sim — Pepper lançou um olhar para o homem e eu não consegui impedir um sorriso fechado.
— Eu preciso falar algo?
— Haverá perguntas, mas você é quem decide o que responderá — Pepper afirmou.
Cara, eu sabia que o Tony era famoso e tava direto na tv, principalmente, desde que ele tornou-se o homem de ferro, mas ler os tablóides que estavam doidos com a história da herdeira Stark era outro nível.
— É mesmo importante?
Stark bufou:
— É uma merda chata... — Potts o interrompeu.
— Você não é obrigada a nada, Sofya — ela disse seriamente.
Mas se ela estava conversando comigo, era sim importantes. Eu assenti ainda incerta:
— Ta legal — murmuro cruzando os braços. Ser interrogada por um agente treinado da SHIELD? Fácil, fácil. Entrevista com alguns repórteres claramente famintos por um furo? Adeus, Califórnia.
Um zombar ruidoso chama minha atenção e viro-me para Tony. Ele sorria desagradável e eu vi o momento que ele diria algo para me irritar.
— Tony — Pepper avisou.
— É interessante como você é rápida em aceitar algo quando não vem de mim — ele comenta irritadiço. Eu chego a abrir a boca para retrucar, mas não tenho ideia do que dizer. Ele não mentiu. Anthony também não me deu tempo para pensar e entornou o restante de sua bebida, levantando-se do sofá — Estou indo me arrumar, nos vemos no carro.
E saiu.
Eu assisti sua figura se afastar da sala e pressionei os meus lábios em uma linha fina. Escolhendo ignorar o comentário cheio de desdém do Stark, eu ergui as minhas sobrancelhas olhando Pepper em questionamento.
— Carro?
A mulher também fingiu não reparar o elefante ainda presente naquela conversa e assentiu, erguendo-se de seu lugar no sofá:
— Estamos saindo em uma hora, acho melhor você secar o cabelo — e sorriu antes de retirar-se do cômodo e deixar uma Sofya muito nervosa para trás.
Meu coração literalmente parou.
Pera...
É sério que a tal entrevista ia ocorrer agora? Tipo, agora? Para de fazer perguntas idiotas e levanta essa bunda daí. Meu subconsciente zombou. Merda! Corri em direção ao meu quarto tropeçando no meio do caminho. O pensamento de estar em frente as câmeras embrulhando o meu estômago e me deixando com uma vontade absurda de vomitar tudo para fora.
Porque diabos eu concordei com isso?
***
Respiro fundo olhando-me no espelho pela décima vez em cerca de três minutos. Dou mais uma voltinha contemplando meu visual.
Estou bonita usando uma camiseta de manga longa preta e transparente — estilo social — short com estampa de oncinha meio curto, relógio e anel como apetrechos, cabelo solto e liso repartido no meio. Meu rosto está leve com uma maquiagem simples, apenas os meus lábios destacados com um batom vermelho-escuro. Um sapato de salto baixo para acompanhar. É, tô gata.
Ouço alguém batendo na porta e digo para entrar. Em seguida, uma cabeleira ruiva aparece no meu campo de visão comigo ainda olhando-me no espelho.
— Oi — abro um sorriso leve para ela através do espelho — Estou pronta, demorei muito?
— Eu precisava organizar algumas coisas antes de irmos, então não se preocupe. Nervosa?
— Não — sou rápida em negar, porém, estou me tremendo por dentro. Ela ergue as sobrancelhas, encarando-me como quem não acredita em uma palavra — Tá, um pouquinho — admito, franzindo a boca.
— Eu imaginei… — ela sorri aproximando-se e pondo a mão sobre o meu ombro. Desde que cheguei, Pepper tem ajudado a me habituar a esse novo mundo. Ela tem sido uma grande amiga e eu não sei como a agradecer — Uma dica: apenas seja você mesma.
Ela passa a mão pelas pontas do meu cabelo e sorri de leve, puxando-me para um abraço, logo em seguida.
Aceno com a cabeça.
— Obrigada — correspondi o seu gesto carinhoso — Por tudo.
Pepper nada diz, mas sorri. Então aponta com a cabeça a porta. Não resisto em dar uma última olhada no meu reflexo, e sigo ela até o andar debaixo, onde o Stark nos aguardava.
A viagem foi relativamente curta e calma. Eu passei todo o tempo olhando através do vidro do carro, contudo, agora eu precisei respirar fundo ao ver todas aquelas pessoas. Aguardando a garota misteriosa — a filha perdida de Tony Stark — sair do automóvel para atacá-la com suas câmeras e perguntas. Estou quase pegando a direção do carro e fugindo para o Caribe.
A ideia em si me parece agradável, entretanto, não é o que eu faço. Desço do carro acompanhando Tony e Pepper de perto, franzindo as sobrancelhas para as vozes desenfreadas e os flashes no meu rosto. Com a ajuda dos seguranças nós conseguimos passar pelos repórteres.
Os próximos minutos são seguidos da gente encontrando-se com o advogado do Anthony e um tabelião que me faz assinar uma série de documentos, comprovando oficialmente de que agora eu sou uma Stark.
O pensamento deixa-me ainda mais nervosa e eu não sei como consigo pousar para fotos — o que prejudicou o meu maxilar, dando-me a certeza de que ficarei um bom tempo sem sorrir. Portanto, neste instante, estamos diante uma grande quantidades de jornalistas ansiosos para saberem tudo sobre mim. Sinto-me um tanto incomodada, mas assisto Tony explicar uma história que não incluía a SHIELD no meio, muito menos eu invadindo o firewall das Stark e roubando projetos de armas.
O que seria péssimo para a minha imagem. As pessoas já não gostam de julgar, imagine tendo motivos para tal? Um momento para os jornalistas foi aberto e então, perguntas de todos os tipos nos cercam nos minutos seguintes:
Quem era a minha mãe? Onde ela estava? Nesta pergunta eu nem abri a minha boca e Tony foi breve ao mencionar o falecimento.
Senhor Stark, como se sente com a descoberta de uma filha após tantos anos? Por que ele nunca soube da minha existência? Como ficará a direção da empresa? Supõe-se que o seu herdeiro tome frente da administração das indústrias Stark?
Senhorita Stark, o que você fez durante os anos após a morte da sua mãe? Como foi descobrir que o seu pai é Tony Stark, o Homem de Ferro?
Eu não suportava mais tantas perguntas, mas encarei a jornalista segurando um minigravador em mãos e obriguei-me a lembrar de que ela estava apenas fazendo o seu trabalho.
— Foi uma enorme surpresa — respondo, segurando firme o bocejo que ameaçou vir.
— Surpresa? Boatos dizem que a senhorita sabia do parentesco e que estava tendo problemas financeiros. Esse é o motivo de surgir justamente agora? — uma loira se pronunciou enquanto um murmúrio correu solto no meio da imprensa.
Franzi o cenho indignada com a ousadia da oxigenada.
— Como? — eu abro um sorriso cínico na direção da mulher que não desvia o olhar do meu.
Tony chama a atenção quando revira os olhos e gesticula, desdenhando do questionamento absurdo daquela idiota. Ele murmura algo antes de ignorar a loira.
— Próxima pergunta.
Eu quero sair daqui, penso, esperando uma indagação menos agressiva. Contudo, a loira não parou por aí.
— Me parece plausível — disse mais alto e inabalável — Não pode negar isso. É até óbvio, qualquer um gostaria…
Desta vez, sou eu quem não deixa que ela continue a destilar seu veneno.
— Olha aqui, minha querida, ao contrário do que você pensa eu não preciso de ninguém para me sustentar, okay? — retruco sua ofensa — Foda-se, eu tenho dois braços e duas pernas. Deveria se ocupar mais em fatos e não especulações. Ou além de loira é ignorante o suficiente para não compreender o conceito de boato? Precisa de alguma ajuda para entender? — faço chacota do estereótipo que, naquele instante, encaixou-se direitinho na situação da mulher.
Ela me encara sem jeito e até mesmo irritada, enquanto risadas preenchem a sala.
— Acho que sou uma Stark, afinal — murmuro a mim mesma, sabendo de Tony próximo de mim.
Ele devolveu-me um olhar e pigarreou escondendo um sorriso. E não duvido de que os meus olhos estejam com um brilho travesso. Um sentimento de satisfação. Talvez por colocar uma certa jornalista — vulgo loira falsificada — no seu devido lugar.
— Certo, certo, acabou o recreio crianças — Tony disse levantando-se do seu lugar e eu suspirei aliviada.
Pepper está nos esperando quando deixamos aquele bando de abutres para trás. É mais uma luta passarmos pelas pessoas do lado de fora, mas conseguimos. Pepper entra primeiro na BMW preta comigo logo atrás, fazendo assim com que eu fique entre o Stark e a Potts.
— Graças a Deus! — eu murmuro jogando a cabeça contra o estofado de couro.
— Você foi bem — a namorada do Tony disse sorrindo.
Olho ela com um sorriso fechado.
— Espero que não tenha pegado mal, mas a loira me irritou.
— Entendo sentimento — a mulher murmurou.
— Ela não é tão ruim — Tony provoca, claramente se divertindo com algum assunto antigo.
Potts fuzila o Stark com o olhar e eu sei que ele falou alguma merda. Por isso, eu fico na minha enquanto Pepper menciona um episódio anterior com a jornalista pretensiosa. Ser o telespectador daquela DR foi, no mínimo, constrangedor. Meu celular vibrou depois de um tempo e eu arqueei uma sobrancelha para a mensagem que recebi.
Vi vc xingando na frente das câmeras
Que feio, mas ela mereceu, eu adorei hahahaha.
Saiu sem querer, ela merecia mais, talvez uns tabefes
N inventa, para de ser agressiva Sofya e liga pra gente! Ou vc vai acabar recebendo uma visita supresa nessa mansão
Aproveitador, acha que eu não sei que você só tá arrumando uma desculpa para conhecer seu ídolo?
Não sei do que vc tá falando
Mal percebo o sorriso no meu rosto até eu ter uma sensação estranha, assim, eu ergo o pescoço e pego Tony com a atenção em mim. Ele inclina a cabeça para olhar o visor do meu aparelho, mas eu apago a tela e afasto-me com uma careta. Stark olha ao redor como quem não quer nada e indaga:
— Namoradinho?
Franzo o cenho com uma careta, contudo, divertindo-me com a ideia descabida.
— Não, um amigo — respondo, guardando o celular no bolso da minha carteira.
— Então, sem namorados?
— Porque o plural? É, sem namorado — confirmo.
Ele assente com a cabeça. Eu encaro o homem — oficialmente meu pai — com a boca franzida. Meu pai. Sinto o meu estômago embrulhar com a palavra. Ai Deus, como será de agora em diante?
A minha vida deu um giro nos últimos dias e tenho essa sensação de que eu nunca mais serei a mesma. Sinto-me verdadeiramente confusa, assim como relutante. O restante do percurso é silencioso. Um silêncio — por incrível que pareça — confortável.
Assim que chegamos a mansão — ainda não consigo deixar de me deslumbrar — eu jogo-me no sofá, bem à vontade, enquanto observo Tony descer até a sua oficina, sem qualquer palavra. Onde, aliás, ele passa a maior parte do seu tempo. Pepper observa o homem, respira fundo e me fita.
— Está com fome? Posso pedir a uma de nossas cozinheiras pra fazer algo para você.
A primeira coisa que eu pensei foi: cozinheiras? Eu não vi nenhum empregado da casa além daquele primeiro dia em que carregaram as minhas malas. Entretanto, eu também mal saio do quarto. Se não estou trancada; eu fico na praia, nem sempre mergulho. Às vezes é apenas para observar. Eu gosto da vista que tenho aqui.
De toda forma, tô muito isolada.
— Obrigada Pepper, mas estou sem fome. Qualquer coisa eu faço um lanche. Pode ir descansar, eu sei o quanto esse trabalho deve ser cansativo.
Potts abre um sorriso, mas posso ver que está visivelmente cansada. Ela abana a mão — como para negar — e murmura um okay antes de subir para o andar superior em cima daqueles saltos gigantes. Faço uma careta e tiro os meus próprios saltos. O toc toc logo é um som distante e eu fico encarando o teto por alguns minutos, viajando na maionese, pensando na morte da bezerra — quem nunca fez isso, hm?
Tony Stark é meu pai.
Ainda é difícil digerir isso. Quase ontem — ou seja, anos atrás — eu não tinha uma ideia sequer de quem meu pai era ou se estava vivo. E agora aqui estou, morando sob o mesmo teto que ele.
Lembrei-me daquela discussão no jantar. Ainda acredito que estou certa, mas também preciso admitir — pelo menos a mim mesma — de que não fui muito justa com o Stark.
Tá-tá. Eu não fui nenhum um pouco justa e talvez um tanto rebelde.
A memória dos olhos decepcionados de Tony lembra-me a última vez que vi minha mãe viva. Nós discutimos e eu me arrependi amargamente depois. É aquela culpa que eu nunca vou deixar de carregar. Isso faz-me pensar: Tony é um super-herói. Ele tem milhares de inimigos e corre riscos todos os dias, no entanto, ao invés de tentar, eu fiquei com medo e o expulsei com pedras.
Afs!
A consciência está pesando aqui.
Vou. Não vou. Vou. Não vou.
Levanto-me do sofá num pulo com um sentimento de resolução e desço as escadas que levam até a sua oficina. A minha esquerda encontro uma parede de vidro e um reconhecedor digital. Eu não faço sequer uma tentativa.
Bato no vidro, mas ele não escuta. Tento novamente e nada. A coragem momentânea que eu senti começa a se esvair e eu estou a ponto de correr para longe.
Poxa! Que lástima, terei que voltar outra hora.
Dou as costas ao local já arrependida daquela ideia quando a música chega aos meus ouvidos. Isso me impede de sair. Movo o meu corpo e posso enxergar o momento em que o mesmo está dançando um remix de Jingle Bell, enquanto partes da armadura voam em sua direção e se encaixando.
Meus olhos se arregalam e eu solto um riso frouxo.
Ele é louco.
Balanço a cabeça e aproximo-me encostando na parede, apenas para assistir de camarote Anthony Stark pagar o mico do ano.
— Tá indo muito rápido, filho. Diminui a velocidade… diminui — Tony reclama para a IA.
Com a armadura quase completa — depois de muito esforço — uma das peças em falta vai em alta velocidade na direção dele, mas o Stark desvia, abaixando-se e fugindo de ser atingido. Boa! Naquele dia eu não percebi, porém, já estava na torcida do Homem de Ferro.
Mais uma peça da armadura voa, quebrando coisas enquanto o Stark não se importa. Outra parte encaixou-se em suas costas, quase o derrubando no chão. Ai. Fiz uma careta, rindo logo em seguida. Era doido ver aquela tecnologia tão de perto.
— Devagar Jarvis — ouço-o reclamar novamente.
O restante da armadura foi encaixando-se até restar apenas a fronte da sua máscara parada no ar, de cabeça para baixo após acertar uma mesa. E sem brincadeira nenhuma, a peça parecia desafiá-lo.
— Vem cá — Tony chama a máscara em desafio. Dou uma risada alta do homem que ainda não reparou em mim — Tenho medo não.
Recebendo o chamado — a peça vai em sua direção. Tony dá um mortal com os propulsores e finalmente a sua armadura está completa. Demais!
— Eu sou demais!
Digo, legalzinho. Foi mais ou menos.
Entretanto, quando estou prestes a sair do meu esconderijo “super secreto”, uma peça desgarrada e muito insistente bate nele pelas costas. Ele cai no chão e toda a armadura se desmonta. Pulo do meu lugar preocupada, mas o mesmo se levanta. E me parece muito de bem com a vida. Já deve ter passado por muito pior, penso eu.
Como sempre senhor, foi um prazer vê-lo trabalhar.
O canto dos meus lábios se erguem em reação ao sentimento de diversão, contudo, o sorriso morre assim que Tony finalmente repara na minha presença.
Bato no vidro reprimindo aquele medo para o fundo da minha mente e inclino a cabeça para o lado. Um pedido para entrar. Aquela coragem quase inexistente, mas presente o suficiente para que eu possa cumprir com o que vim fazer.
— Entrada permitida — ouço ele dizer.
Tomei uma golada de ar como se fosse dar-me força e entrei olhando em volta, reparando em sua oficina — após toda a bagunça do Stark — para somente então o encarar. Tony me observava atentamente e eu aperto os meus dedos uns nos outros sem saber o que fazer ou dizer.
— O que aconteceu? — Stark pergunta, num misto de preocupação e desconfiança.
— Nada — nego e balanço a cabeça — É que… bom… eu… — suspiro frustrada.
Não vou conseguir.
Meu orgulho não vai me deixar falar e isso é uma droga.
Stark permanece esperando com as sobrancelhas erguidas e eu sei de que ele não vai dar o primeiro passo, não desta vez. Então decido parar de tanto mistério e digo logo tudo de uma vez.
— Eu vim me desculpar — disse rapidamente, querendo que o momento acabe logo.
— Quê? — ele faz uma caretinha desacreditada como se não tivesse ouvido.
Esse ato me irrita, mas respiro profundamente em busca de paz. E, assim, eu passo por cima do meu orgulho.
— Me desculpa — repito, alto e claro — Eu sei que você não tinha noção de nada... quando joguei toda aquela merda no ventilador. Eu só… não sei lidar com isso — dou de ombros — Nunca soube — eu desviei o olhar, tentando não ficar tão sem jeito da maneira em que me dispus a me expor dessa forma — Fiquei irritada... estava zangada por que você viveu uma vida sem saber sobre mim, enquanto eu sofria. E então eu tive que me mudar para sua casa e... — respiro fundo — Olha, eu sei que você não tem culpa de não saber. Foi mais fácil me afastar e jogar toda a responsabilidade em você para que lidasse com isso sozinho do que enfrentar o fato de que minha mãe também errou. De que eu também errei quando não te procurei assim que descobri que era o meu pai.
Era somente me desculpar e sair para aliviar a minha consciência, mas acabei colocando a minha na reta. Pude sentir aquele medo tomar conta de mim, novamente. Medo do que ele poderia dizer em resposta. Medo de que rejeitasse até mesmo a minha tentativa de desculpa assim como eu o fiz dias atrás. Voltei meu olhar para saber o que se passava com ele e vejo Tony com a testa franzida, suas marcas de expressão sendo mais visíveis assim com o semblante tenso.
— Não precisa se desculpar — ele nega após alguns minutos. Eu pisco os olhos várias vezes até entender o que ele disse. Assistindo a minha confusão, ele continua: — Eu pensei esses dias, sabe. Vi que estava forçando a barra.
Ergui as sobrancelhas, sugestivamente.
— Você viu?
— Tá, admito que tem um dedo de Pepper no assunto, mas não muda o fato de eu ter pensado.
— Claro — dou um sorriso fraco. Ele sorri de volta — Podemos começar novamente? — eu peço em hesitação, sem soar como gostaria.
Tony olha-me fixamente por alguns segundos e um sorriso brincalhão ilumina o seu rosto. Ele vira e torna a mexer em algumas peças sobre a mesa. Uma olhadela na minha direção e uma indagação:
— Então… quer dizer que você é minha filha?
Dou risada ao ouvir aquela pergunta idiota, mas sem palavras para dizer o tamanho alívio que me deu com a sua resposta.
— Não sei, você quem deveria dizer — dou de ombros entrando na brincadeira.
— É inteligente, bonita e sarcástica. Sem dúvidas é minha filha — prendo o riso vendo quão humilde é Tony Stark.
CE
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