Nem tudo pode ser controlado, ainda que tentemos.

Aquela dia foi um dia triste na vida de Sofya Denova.

Todos da sala assistiram de perto o desenrolar da história da garota até a decisão abruta dela de bater em retirada. Estavam apreeenssivos. Metade dos Vingadores não confiavam na mãe da Stark e outra metade acreditava na chance de vitória. Vencer Ultron trouxe confiança aquela equipe. No entanto, era preciso admitir a desvantagem de informação e afastar-se por agora, poderia ser uma boa estratégia. Assim pensava Romanoff após falar com Steve Rogers.

Contudo, ninguém esperava aquele ataque tão rápido e eficaz. E Lígia Denova somente pode espantar-se e gritar ordens a Christian Black para se apressar quando ela soube o momento exato em que eles haviam sido encontrados. Todos caíram no chão adormecidos.

Sofya quase foi levada pelo peso de Steve Rogers quando ele caiu inerte e ela arregalou os olhos como um cervo pego no farol.

— Steve! — ela gritou caindo sobre seus joelhos e Black a pegou pelos ombros, afastando-a do homem, a face pálida destoando seu medo.

Ela procurou pelo pai em uma busca desesperada apenas para também o encontrar caído. Não! A garota tentou desvencilhar-se do homem.

— Temos que ir, agora! Sua mãe não vai aguentar muito tempo.

E, de fato, Lígia já sucumbia caindo no chão e gemendo quando um ataque contra a sua mente a derrubou. O portal falhou e isso fez o Black se desesperar, puxando a Stark com ele.

— Pai — Sofya murmurou arrasada, vendo toda a sua família caída. Sua culpa. E ela não era uma pessoa que deixava os seus para trás em tal situação, estava disposta a ficar e lutar pela sua família quando ela sentiu a invasão antes que pudesse controlar. Alguém derrubando o bloqueio de sua mãe como quem derruba um castelo de cartas. Rompendo as barreiras de sua mente em um ataque brutal que a fez soltar um gemido.

— Você não pode me ajudar — ela disse a Christian sem certezas de que sobreviveria.

Vieram para matá-la, certo? Ela conseguia sentir que não teria controle do próprio corpo por muito mais tempo, ainda que lutasse bravamente. Suas pernas foram as primeiras a parar. Então, ela ágil.

Naquele dia, Sofya tomou a segunda decisão quando empurrou Christian Black para dentro do portal, memorizando a expressão surpresa e aterrorizada do homem antes que já não tivesse mais controle de seu corpo. A facilidade da ação a deixou assustada e ela caiu de joelhos quando a ordem foi impressa na sua mente sem que ela pudesse deter. O portal se fechou no momento que o Black atravessou e a Denova ainda pode ouvir sua mãe murmurar um "não" para a filha ainda presente.

No meio dos corpos de sua família, Sofya esperou.

A porta da casa se abriu e a brisa fria tocou sua pele quente pela adrenalina.

A próxima coisa que Sofya viu foram os pés cobertos por um sapato social. A garota subiu o olhar pelo contorno masculino e parou nos olhos escuros, quase preto. Eles a encaravam friamente, antes de voltar-se para sua mãe. A mulher, por sua vez, ofegava pelo cansaço da luta mental e silenciosa que travará em sua última tentativa de salvar a filha. Fora tudo em vão, no entanto. E, naquele instante, depois de anos em fuga, Lígia soube que não poderia mais escapar como fez tantas vezes antes.

— Lígia — o desconhecido inclinou a cabeça para comprimentar a mulher como se visse um velho amigo — Faz muito tempo desde a última vez. Pouco mais de dezenove anos, acredito eu — e olhou Sofya Stark mais uma vez, examinando a garota como se ela fosse um espécime raro. Um rato laboratório, pensou a garota.

— Tiberius... — Lígia ofegou — Você me tem, apenas deixe minha filha fora disso! — a mulher não podia fazer mais nada, mas tinha que tentar.

— Acho que o tempo longe de casa a fez esquecer de nossos métodos, irmã.

Irmã? Oh porra! Sofya praguejou mentalmente. Choque. Medo. Tristeza. Raiva. Sofya sentia tudo ao mesmo tempo. E, evitando encarar os corpos da sua família, ela atentou-se a informação que recebeu. Ótimo, o próprio tio era seu algoz.

— Essa família tem se provado mais disfuncional do que eu pensava — a jovem Stark se pronunciou em um tom amargo, evitando olhar para qualquer lugar se não os olhos daquele que estava ali para... — Então, é o meu tio quem está aqui para me matar? — ela dá um risada seca, fraca e vazia, sem conseguir refrear a língua. O homem, Tiberius, encarou Lígia seriamente — Agora falta dizer que meu nome é Hope — um sorriso que tinha tudo para ser sarcástico, porém, mais continha uma raiva abrasadora.

Tiberius voltou-se para observá-la, mas tinha um quê de pena em seus olhos que atiçou sentimentos conflituosos na Stark. Ela adoraria poder socar a cara dele. Tiberius ergueu uma sobrancelha, o único sinal que daria de que vasculhava o subconciente dela, como se a própria não sentisse a indiscrição enquanto ele abria cada porta da sua mente, conferindo seus pensamentos mais íntimos, suas memórias mais tristes, assim como as mais felizes. Era enervante e a deixava cada vez mais zangada. E Sofya ao menos poderia se debater, levantar, chutar, lutar...

Ela era um passageiro no próprio corpo.

— Matar? — Tiberius se aproximou e abaixou-se até estar a altura da Stark, ainda de joelhos — Eles não te ensinaram nada, não é, criança?

— Apenas o suficiente para eu saber que vocês são uns filhos da puta — Sofya sorriu irritada.

— Chega de conversa — uma segunda voz se fez presente e um homem alto e forte atravessou a porta da frente.

— Conselheiro Matael — anunciou Tiberius, inclinou a cabeça em respeito e afastou-se para que o conselheiro tomasse seu lugar.

Sofya sentiu algo incomum em relação aquele homem, Matael. Uma familiaridade estranha que o acompanhava e uma sensação de peso no estômago. Não era bom. Mais duas pessoas vinham em sua retaguarda e uma delas carregava consigo um capacete diferente de qualquer coisa que Sofya tenha visto antes. O objeto que parecia um aparelho de última geração, estava posto sobre um estofado vermelho como uma coroa a espera de um rei. Ela estava com um pressentimento estranho e ele se amplificou quando o murmúrio desesperado de Lígia foi ouvido em um claro e forte "Não!".

— Por favor, Tiberius, eu imploro...

Se o conselheiro era o causador do tom tenso na voz da mulher, então Sofya sabia que devia temer. O estômago dela dava mais nós com o mau agouro. Matael olhou Lígia com indiferença e desprezo.

— A senhora não está em posição para negociar, Lígia Former — ele disse e Sofya tenta, não pela primeira vez, olhar a face da mãe quando a ouve grunhir após ser chamada assim, porém, a garota mal consegue sair do lugar. Former. Não deveria ficar surpresa pelo sobrenome, que carregou a vida inteira, também ser uma farsa, portanto, por que antigo? Quem realmente era Lígia Denova? Ou deveria dizer Former? E por que isso importava? Eu deveria estar fazendo algo para salvar minha família! Sofya sentia-se frustada e uma dor pontiaguda começou a se arrastar da nuca até o meio de sua cabeça — E somente em consideração a sua família que não fora devidamente trancada em uma cela para ser julgada como a traidora que é — ele encerrou com um último olhar.

Entretanto, Lígia permaneceu a murmurar mais coisas, pedidos que caíram em ouvidos surdos e logo ela não tinha mais a atenção do homem. Ele acena em confirmação para os seus companheiros que aproximam-se com o capacete em mãos. Isso, estranhamente, deixa a Stark ainda mais nervosa.

— O que fizeram com eles? — Sofya praticamente rosna na direção do homem quando repara no movimento da sala. Talvez ela pudesse ganhar um tempo. Pra quê!? Como você vai sair dessa situação? Ela pensa consigo mesma — O que fez com a minha família!?

Matael voltou-se para a garota de estatura pequena que lhe encarava como se pudesse matá-lo somente com o olhar. Ah, ele não tinha dúvidas, ela faria se pudesse. Ele não tinha por que respondê-la, estava ali para levá-la a não dar satisfações, mas tinha algo em sua postura que lembrou-lhe certo alguém.

— Não lhes causei dano algum — o homem a observa com atenção calculada — Estão adormecidos. Quando acordarem, será como se nada tivesse acontecido, garanto-lhe, senhorita.

Sofya não sente-se melhor, na verdade, a certeza na voz dele causou-lhe um arrepio que sobiu por sua coluna. E a Stark sabe confiar em seu sexto sentido para saber que aquilo, definitivamente, não era boa coisa. E o que fariam com ela?

— A senhorita virá conosco, é claro — o homem respondeu com tranquilidade a sua indagação mental.

E ela tentou, mais uma vez, libertar-se. Contudo, se a garota imaginou que o homem, Ito, era forte. Então o aperto que tinham sobre ela naquele instante era de ferro insondável. Como cadeado sobre cadeado. Milhões de ideias passavam pela mente dela. Como sua família ficaria com seu desaparecimento? O que fariam com ela quando chegasse ao seu destino? Não pôde deixar de se revoltar. Não! O conselheiro a observa com o cenho franzido e uma expressão de quem parece tentar entender o turbilhão de sentimentos que a afligia.

— A situação não é da forma que imagina, Sofya — ele pausa quando a garota zomba ruidosamente, mas continua como se nunca tivesse sido interrompido — Entenda, sua presença nesta terra causou muitos danos a linha temporal desses heróis. Não me entenda mal, minha querida, mas você não deveria existir.

— Como você se sente destruindo a auto estima de uma mulher? — Sofya sorriu sarcástica.

Ele a ignorou.

— Lígia pode não ter explicado, mas cada terra que vocês habitaram, de alguma forma, mudou — ele fita os olhos da mais jovem em busca de compreensão — Vocês as alterou com sua presença. Há um roteiro a ser seguido, e você, especialmente, não faz parte de nenhum deles.

— Isso é insano, vocês são loucos — ela não conseguia acreditar no que ouvia.

A caçavam como loucos com a ideia maluca de que ela mudava... o destino... das pessoas? Não fazia sentido. Nada fazia. Ela existia e aquele lugar era o lar dela, não importava o quanto dissessem o contrário.

— Veja... — o homem pelo nome de Matael continuou, pegando o capacete e encaixando-o em sua cabeça — Nosso trabalho é manter o equilíbrio entre as realidades, ter a certeza de que as coisas se mantém estáveis. Steve Rogers, por exemplo, não deveria se apaixonar por você. Querer se encaixar, eu entendo, mas manipular...

— Eu não o fiz! — a garota exclamou, raivosa.

Mais um olhar de pena do homem e ela tentou mais uma vez pular em seu pescoço

— Pode não ter sido proposital, mas faz parte de quem você é. A necessidade de se encaixar, mesmo que inconcientemente, faz você atrair as pessoas para si.

— Eu não acredito em você! — Sofya se recusava a pensar que o que ela tinha com Steve não fosse... não. Ele estava mentindo.

— Pietro Maximoff não deveria estar vivo e você sabe disso! Nega-se a isto também? Sabe-se mais o que você tenha feito para alterar essa realidade e que não deveria estar acontecendo... Entende que pode estar pondo em risco o futuro de cada pessoa desta sala? Deste mundo?

Contra sua vontade, a cabeça de Sofya se moveu sobre os corpos caídos, em ênfase. Mesmo ela se esforçando para permanecer parada. Ela então ofegou quando o esforço lhe causou uma dor de cabeça e piscou os olhos quando sentiu a ameaça de lágrimas. Doia-lhe ver a situação de sua família. Mais ainda por que começava a entender o que o homem dizia. Algo sobre a sensação que Sofya obteve após salvar Clint em Sokovia, apenas para saber que Pietro tomara a frente do homem antes, lhe veio a mente. Recordou-se também de palavras semelhantes saírem da boca de Christian Black. Ainda sim, a ideia de que o homem tentava fazê-la acreditar. Não podia.

— Cada um tem o seu destino — Matael afirma com voz monótona — E você não está inclusa no futuro dessas pessoas.

Foi o ponto final daquela conversa, Sofya sabia. Ela podia ter poder, mas não era forte o suficiente para derrotá-los.

— Eu vou lutar — a Stark disse em um misto de raiva e uma sensação... — Em cada segundo da minha vida, eu lutarei para fugir de vocês e eu vou conseguir!

E ela ainda encarava o homem em desafio, quando reconheceu o sentimento, aquele poder, como algo emergindo para a superficie. Sentiu o temor pela força que a tomava, mas também o adorou. Mal pôde registrar a situação quando engasgou sentindo um aperto, como o de um punho firme reprimimdo a explosão de poder que estava para acontecer. A cabeça dela explodiu como milhões de explosão e ela soltou um gemido enquanto um líquido quente escorreu pelo seu nariz. Sangue.

— Sua magia é indiciplinada, assim como você — Matael a encarou, sua face expressando uma mistura de diversão e pena. Sofya teria se debatido, não fosse as algemas invisíveis que a mantinha presa no lugar, assim como a dor pulsante que parecia acompanhar as batidas desenfreadas de seu coração. Mas seu rugido furioso ecoou pela cômodo — Não, senhorita Sofya, você não irá lutar e muito menos fugir — ele continuou — Não poderia pensar que não na possibilidade, certo? Sua mãe mostrou-se bastante engenhosa no passado, não estaremos cometendo o mesmo erro novamente. Nós te levaremos para casa, mas somente depois de arrancar de você cada momento, cada memória, cada pessoa que ama. Acredite, depois de hoje, senhorita, você não terá pelo que lutar.

A Stark precisou de um momento para entender a situação. O silêncio do cômodo foi barulhento para ela enquanto sua mente raciocinava. Lígia não implorava mais, talvez em choque. Bom, Sofya estava. Era possível tal coisa? Conselheiro Matael aparentemente pensava que sim. Não, ela não podia permitir. Sua respiração se agitou e a garota, pela primeira, pôde virar o rosto. Primeiro ela encarou o corpo caído de seu pai, então o de Steve Rogers. Seu desespero lhe doeu a alma.

Eu sinto muito. Sinto muito.

— Minha família vai...

— Fique tranquila, a limpeza se entenderá a todos a qual teve contato.

— Não ouse tocar neles! — ela gritou, lutando inutilmente para se soltar. Então, tarde demais, notou lágrimas descerem por sua bochecha.

Tiberius, mais atrás bufou com impaciência.

— Ela não ouviu uma palavra — murmurou consigo mesmo e recebeu um olhar de aviso do conselheiro, o que o fez se calar, novamente.

Lígia se pronunciou: — Eles não vão machucá-los — a voz dela soou fraca, embora tentasse reconfortar a filha. De uma coisa Lígia sabia, aquela indulgência que lhes alcançava não era para qualquer um, o que dizia muito sobre como a presença de ambas eram requisitadas em seu mundo. O que houve enquanto esteve fora? Temeu a descoberta. Ainda encontrava-se desesperada pelo futuro incerto, tanto o seu como o de sua filha, entretanto, se havia uma chance de permanecer viva, ela a agarraria.

Sofya, no entanto, não aceitava o sentimento de desistência, ela queria lutar, queria ficar, queria aquela vida que parecia ser possível ter, horas antes, mas que já não passava de uma fantasia. E, acima de tudo, queria sua família bem e segura.

— Como dito, não é do meu interesse acabar com a ordem desse mundo. Tirar você e apagá-la da história é apenas uma intervenção necessária. A senhorita e sua mãe agora são nossa propriedade. E vocês nunca, nunca mais voltarão — O corpo da Stark tremia e ela buscou uma forma de acordar daquele pesadelo. Meu Deus, por favor, por favor... — Reze, se isso a consola.

Foi o estopim.

— Seu filho da puta desgraçado, eu vou acabar com todos vocês, vou acabar... — os berros descontrolados da garota foram calados quando ele a obrigou a se calar, o que a apavorou ainda mais quando sentiu uma pequena carícia, antes de invadirem seu subconsciente, como se escancarasse as portas de sua mente. Aquilo doeu como nunca nada a machucou.

Não permita que isso aconteça!

Sofya Stark teve apenas um momento, um instante para lutar contra, para manter qualquer requisito de sentimento ou memória dentro de si. Ela teve apenas um momento para desejar estar com a sua família mais uma vez. Teve apenas um momento para desejar dizer a Steve que o tinha amado desde do primeiro encontro, ou para falar ao pai que, mesmo o esquecendo, o coração dela jamais o apagaria. Que eles viveriam com ela como uma impressão bem marcada que nunca se apaga.

Não desista. Não desista.

Não precisou de toque e ela sentiu todo o processo como se uma mão invisível arrancasse o seu cérebro. Doeu, doeu como se a porta do inferno tivesse sido aberta na sua mente. E ela gritou, gritou e lutou em cada instante, enquanto memória por memória era arrancada.

Não desista. Não desista.

A pessoa que Sofya se tornou no decorrer de todos os anos foi-se apagando, pouco a pouco. Sua infância. Sua juventude. Suas descobertas. Sua primeira paixão. Suas amizades. Sua família. Seu amor.

Não desista. Não desis...

E, logo, não havia mais história pelo quando se recordar. A garota era uma folha em branco pronta para ser escrita.

Ela caiu e desmaiou quando o trabalho terminou.

Sofya Stark não existia mais.