[CENA 1]

APÓS O CAPÍTULO "À ESPREITA"

BASE ABANDONADA DA SHIELD

Os quatro agentes encontravam-se reunidos ao redor de uma mesa oval alta de madeira. Tensos, cansados. Queriam por fim a opressão que pesava sobre o ombro de cada um.

Para Nicholas Joseph Fury, ainda era difícil acreditar que a SHIELD fora comprometida bem debaixo do seu nariz. A mesma agência na qual se comprometeu durante grande parte de sua vida. A mesma agência que prometeu proteger seus cidadãos americanos e que agora ameaçava o próprio povo.

— Esse homem rejeitou o prêmio nobel da paz — Nick Fury começou, segurando a imagem de Alexander Goodwin Pierce frente ao rosto, contemplando o rosto daquele que deveria ser seu colega. Colega. Fury desdenhou em seus pensamentos — Ele disse que a paz não era uma conquista, ela era uma responsabilidade — e largou a foto, jogando-a sob o móvel. Ele uma vez lutou ao lado daquele homem, não mais — Sabe... são coisas como essa que me deixa muito cabreiro.

— Temos que parar o lançamento — Natasha Romanoff encarou o diretor.

— Ah, acho que o conselho não vai mais aceitar minhas ligações — Fury abriu uma maleta.

Dentro dela, o grupo pôde ver um total de três chips enfileirados um ao lado do outro.

Havia meses que Fury desconfiava do próprio governo. Não fora apenas especulações que o levou a chantagear Sofya Stark. E quando ela concedeu a ele o que precisava para impedir o iminente ataque, nada mais tinha importância para ele se não garantir a segurança da América.

— O que é isso? — Sam Wilson, indagou.

— Chips de aquisição de alvos — os cinco viraram na direção que a resposta veio. Sofya Stark sorriu, convencida, encostando-se no vão da porta e cruzando os braços. Ela observou atentamente a expressão em cada rosto e focou a atenção em Wilson — Serão usados para invadir e tomar o controle dos aeroporta-aviões. Coisa de gênio, cara, nem precisa falar nada — ela acenou quando notou que ele diria algo.

— Eu não...

— Eu quem fiz, alias.

— O que... — Steve Rogers estava atordoado. Afinal, era para Sofya estar bem longe de toda aquela guerra. Despediu-se dela. Mas no hospital, lembrou-se. Então, Steve virou-se para encarar Fury — O que ela está fazendo aqui?

O diretor foi incisivo:

— Está cumprindo com o nosso acordo.

É claro que sim. O Rogers apenas podia imaginar que o diretor fosse o responsável por aquela situação, uma vez que a Stark somente estava em Washington para que ele pudesse ter em mãos naqueles chips. Deveria ter cogitado isto.Se recriminou.

— Também senti saudades — Sofya sorriu desagradável, não apreciando o tom do homem.

Rogers se levantou.

— Eu não... — ele aproximou-se da Stark completamente confuso. Ainda era estranho para ele, aquele caminhão de emoções que invadiam seu corpo todas as vezes que estavam perto um do outro. Sofya ergueu as sobrancelhas. Steve não sabia o que dizer. Fora rude? Imaginava que sim — Desculpe, eu... O que houve? — murmurou, tocando o braço da garota e ela o encarou.

— Fui atacada. Maria salvou a minha vida — ele permaneceu encarando-a com um semblante sério e ela finalizou: — É tudo.

— Tudo?

— É, Steve.

— Não é que eu não queira sua presença... — sussurrou.

Os demais permaneciam a conversar entre si, dando espaço ao casal para conversar. Entretanto, Natasha Romanoff não deixou de se divertir em ver o Capitão todo desarmado com a garota Stark. Sem toda aquela marra e olhar sério. E em outra situação, a mulher teria zombando com a cara do amigo, não fosse seu ombro que deixava a desejar, ou se a situação de sua agência não estivesse a beira de uma catástrofe global.

— Tudo bem, eu já entendi, não estou chateada — Sofya mentiu, sorrindo fraco.

Estava sim um pouco chateada, mas também decidida a ignorar a sensação, por que a situação em si era o que mais a perturbava.

Sofya gostaria de ficar e ajudar, mas seu pai era importante e ela queria poder ter a oportunidade de enfrentar aquela briga e se desculpar. Assim como também sabia que a equipe iria conseguir passar por aquela situação. A Stark tinha noção de que sua parte naquela batalha estava terminada. Não sabia lutar, então não havia nada mais que pudesse fazer sem atrapalhar. Steve não era o único a querer ela longe de Washington. A própria Sofya desejava. Este fato a incomodava, mas tinha assuntos pendentes para resolver em Nova York.

— Está tudo bem mesmo?

— Nada muito alarmante — o sorriso da Stark voltou — Um corte de leve, nada muito sério. Cinco pontinhos na perna direita — tentou amenizar a situação, mas notou o olhar do homem a sua frente e tratou de verbalizar o óbvio — Não foi sua culpa, nem tente arranjar motivos para se desculpar.

— Sofya...

— Está tudo bem, Steve — e a garota teve que repetir a frase mais algumas vezes até se cansar, para que ele entendesse. Em seguida, virou-se para a equipe reunida — Espero que não tenha quebrado nada, foi uma viagem turbulenta.

— Está tudo no lugar — Hill afirmou — Assim que os aeroporta aviões atingirem 900 metros, eles vão triangular com o satélite do Insight e suas armas estarão prontas — explicou.

— Como vamos usar essas coisas? — Wilson apontou a maleta.

Sofya segurou a mão de Steve em um aperto reconfortante e tomou frente, mancando em direção a mesa.

— Ah, é simples. Vocês só vão ter que invadir os aeroporta-aviões e substituir os chips deles pelos nossos — apontou para uma maleta escura — Um ou dois não vão adiantar, tem que conectar todos os três para que dê certo. Porque se um deles permanecer operacional... será um grande massacre — então ela abriu outro sorriso amarelo — Moleza.

— Sem pressão — Sam resmungou.

Nick Fury pigarreou: — Temos que considerar que todos a bordo do aeroporta-aviões são da Hidra. Temos que passar por eles, inserir esses servidores e, talvez, talvez possamos recuperar o....

— Não vamos recuperar nada — Steve Rogers o cortou. E até Sofya surpreendeu-se com o tom duro na voz do herói. A última vez que o ouvirá falar daquele jeito, ele a questionava sobre seu trabalho secreto com o diretor. A lembrança não lhe era muito atraente — Não vamos só derrubar os aeroporta-aviões, vamos derrubar a SHIELD — dissera.

— A SHIELD não tem nada a ver com isso — o diretor retruca.

Steve balançou a cabeça:

— Você me deu essa missão... é assim que ela termina. A SHIELD foi comprometida. Você mesmo disse. A Hidra cresceu debaixo do seu nariz e você não viu.

— Por que acha que estamos nesta caverna? — o diretor devolveu — Eu vi sim.

— Quantos pagaram o preço antes disso?

Bucky. Era o que Steve queria dizer. Encurralado, Nick Fury olhou para os lados antes de se voltar para o herói, novamente.

— Eu não sabia sobre o Barnes.

— Se soubesse, teria me contado? Ou teria compartimentalizado isso também? Shield, Hidra... — ele balançou a cabeça em negação — Tudo já era.

Sofya viu quando Maria Hill acenou e se surpreendeu. Imaginava que a mulher ficaria ao lado do diretor. Aparentemente, estava enganada.

— Ele tá certo — disse, encarando Fury.

Nick voltou-se para Natasha, talvez esperando um apoio, mas a mulher apenas recostou em sua cadeira sem uma palavra e ele encarou Wilson. Todos também voltaram-se para o homem e ele ergueu suas mãos.

— Não olha pra mim. Eu faço o que ele fizer, só que mais devagar.

Nick Fury então olhou Steve Rogers que o observava, o semblante serio, irredutível em sua decisão, então meio bufou enquanto acenava pouco conformado.

— Bom... — ele inclinou-se para trás em sua cadeira — Parece que é você quem dá as ordens agora, Capitão.

[CENA 2]

ERA DE ULTRON

FAZENDA BARTON

— Não vou perguntar como você tá, estamos todos com essa cara ferrada de enterro.

Steve arriscou um sorriso, mas não conseguiu nada mais do que um repuxar. Para sua sorte, ele era lindo até de caretinha. O homem me puxou para perto dele e eu circulei sua cintura com os meus braços.

— Eu vi minha antiga vida — ele hesitou pondo uma mecha de cabelo atrás da minha orelha — Vi Bucky e...

— E...?

— Peggy Carter — tentei ao máximo esconder meu enrijecer, mas acho que Steve notou pois me convidou para sentar no balanço, o que eu aceitei com um sorriso fraco — Faz muito tempo que eu sequer penso na minha antiga vida ou em Peggy. Isso não... não quer dizer...

— Tudo bem, você foi apaixonado por ela, Steve — dou de ombros — Não quero ficar chateada por isso, até por que seria estranho eu ficar com ciúmes de uma velha.

— Rude — meu herói balançou a cabeça e eu sorri mais leve.

— Não, realista.

Ele me balançou forte me fazendo rir e ficamos assim por um tempo até eu cansar e ficar tonta. Sentei na grama ficando entre suas pernas e observei o céu enquanto Steve acariciava meus cabelos.

— Achei que nunca mais fosse acordar — sussurrei de repente.

— O que? — me indagou e eu baixei a cabeça e respirei fundo. Senti meus olhos lacrimejarem e senti a mão dele em meu rosto, erguendo meu queixo para que pudesse ver meus olhos — Se te faz tanto mal, você não precisa falar, prometo estar aqui quando estiver preparada.

Balancei a cabeça e respirei profundamente.

— Estou bem, só... — tentei ser firme e Steve permaneceu com aqueles penetrantes olhos azuis fixados nos meus. Eu me ajeitei no lugar e deitei a cabeça em seu ombro. Então abracei Steve, o abracei forte e ele me apertou como se soubesse do que eu precisava — Foi horrível. Nunca senti tão angustiada. E todos... todos... — engasguei, estreitando-me no seu abraço e Steve acariciou minhas costas.

— Tudo bem, já acabou.

— Não, ainda tá aqui, na minha mente — me afastei e sinalizei para minha cabeça — Eu ainda consigo... — a primeira lágrima caiu e Steve a enxugou. Toquei seu antebraço e senti quando seus músculos sobre a palma da minha mão se enrijeceram e o homem arquejou — Steve? Steve! — chamei ele mais alto quando não recebi resposta.

— Sim...? — ele pareceu desnorteado.

— O que houve? Você tá b...

— Eu vi.

— Quê?

— Você me mostrou, eu vi a sua visão.

Fiquei congelada, pois eu ao menos tentei mostrar algo para ele. Eu nem sabia de que era possível tranferir uma lembrança. Que diabos!

— Mas...

— Nós havíamos desaparecido — disse baixo e lentamente, com uma delicadeza que mostrava o quando ele, de alguma forma, me entendia. Por que eu sempre me sentia assim com Steve. Ele era a pessoas mais empática que eu conheci na vida.

— Tá, você viu — o interrompo incomodada. Eu olho Steve e volto para minha mão que ainda tocava seu braço, afastando-me com a ideia de que o contado de alguma forma fora responsável. Afinal, eu conseguia ver memórias atravéz do toque, como nunca pensei de que poderia tranferir também? — Eu nunca fiz isso. Nunca transmiti uma memória minha para outra pessoa — comentei com os olhos perdidos. — O que será que pode estar acontecendo comigo?

— Eu não sei — ele se aproximou outra vez, mas eu me afastei — Tudo bem, Sofya — ele me tocou, comigo ainda reticente e nervosa de que ele visse mais do que o necessário. Minha mente fodida já era problemática o suficiente sem eu compartilhar as coisas — É disso que tem tanto medo? — toca no assunto cuidadosamente e eu mastigo o interior da minha boca.

— Todos os dias, eu acordo com algum pesadelo. Nele nós perdemos, vocês morrem ou desaparecem. Não quero ser a causadora disso, Steve. Eu não suportaria mais disso.

— Sofya, querida — ele tomou meu rosto com as mãos — Eu sei que está com medo, mas nós não vamos desistir.

— E isso me apavora.

— Vamos lutar e vamos vencer, assim como eu sei que venceremos Ultron. Assim como venceremos quem quer nos ameace. Não estamos desistindo.

Eu pressionei meus lábios em uma linha fina e assenti fracamente:

— Não me esqueça — pedi num sussurro.

— Como eu poderia, meu amor? — alisou seu nariz com o meu. E foi assim que meu coração parou de bater. Ele abriu os olhos ouvir o meu riso surpreso — O quê?

— Você.

— Eu? — ele continuou, me acompanhando num sorriso ainda que sem entender.

— Me chamou de meu amor — meu tom dengoso fez Steve me apertar e eu me aproximei mais até estar sentada no seu colo. As duas pernas, uma em cada lado do seu corpo, enquanto seus dedos apertavam minha cintura.

Steve franziu o cenho de um jeito brincalhão:

— Chamei? — se fez de besta.

— Steve — murmuro e finjo estar emburrada. Ameaço levantar, mas o homem me segura e ri fraco — Admite logo que você não vive sem essa lindeza aqui.

— Hm, tem razão eu não vivo sem essa coisa presunçosa — eu dei um tapa fraco na suas costas e ele riu, novamente. Qualquer coisa que nos perturbava ficou em segundo plano para aquele sentimento bom que só existia quando estávamos na presença do outro — Meu amor — disse baixinho no meu ouvido e meu coração deu outra cambalhota, faltando pouco para pular pela minha caixa torácica. Era esse efeito que ele tinha em mim. E eu esperava que isso nunca mudasse.

Eu sorri mais uma vez, desta vez, um daqueles sorrisos grandez que quase rasgou meu rosto. Agora entendo essas pessoas que não param de sorrir. Eu mal consigo parar.

Abracei meu herói e circulei seu pescoço com os meus braços. Steve inclinou seu rosto e beijou minha mandíbula, fazendo-me suspirar. Ele seguiu beijando meu rosto até parar com os lábios a pouco centímetros da minha boca. Seus olhos azuis estavam presos nos meus s diziam tanto sobre o que ele sentia. Eles também me perguntavam: Posso? Minha resposta foi colar meus lábios nos seus e mergulhar no sabor da sua boca, perdendo-me nas sensações que ele me causava.

[CENA 3]

TORRE AVENGERS

Olhei para o lado e observei todos focados na tela.

— Eu ainda não compreendo, ela é boa ou má? — Thor questionou com o cenho franzido. Ele olhava Angelina Jolie arrasando em Malévola e eu não pude deixar de sorrir com sua confusão.

— É um pouco complicado. Ela não é tão má.

— Mas é a vilã — Thor insistiu.

— Sim e não.

— Não compreendo — ele balançou a cabeça, confuso e permaneceu com o olhar pregado na tela.

— Apenas assista — Romanoff ordenou, impaciente com o homem que indagava tudo de segundo em segundo.

Clint riu ao aproximar-se com três baldes cheios de pipoca e eu balancei a cabeça, pressionando os lábios em uma linha fina. Um balde veio para mim que dividia com Steve, outro para Thor que era uma draga e comeria tudo sozinho e o último para ele e Romanoff, que a essa altura do campeonato encontrava-se a ponto de atirar no deus.

Tô com vontade de comer hot dog. Falei na mente de Steve que surpreendente assistia o filme, no entanto, eu conhecia aquela carinha entediada dele. Foi assim quando assistimos Harry Potter, mesmo após meu discurso foda sobre como o filme era demais.

Ele me encarou sorrindo e beijou a minha cabeça. Com bastante molho e mostarda?

Sim! Não evitei e balancei a cabeça em animação. Steve maneou a cabeça em negação com aquele olhar de quem topa qualquer plano de fuga. Quer fugir comigo, lindo?

— Se ela fosse do mal não teria salvo a bebê. A não ser que queria usar ela como refém. Você acredita que ela seja má, Barton? — eu encarei Steve com um olhar penoso.

Ele não vai parar de comentar esse filme.

E querendo fugir dali, Steve assentiu, pondo o balde de pipoca intocável na mesa de centro, levantando-se e me levando junto. Vamos! Eu li o pensamento apressado e somente ri quando já estávamos dentro do elevador, longe do olhar tempestuoso que Natasha lançou em nossa direção, ao ver deixar-mos ela sozinha com Thor e Clint que comentavam sobre o filme, absortos demais para notar a escapada.

Foi mal, Romanoff.

[CENA 4]

DUAS SEMANAS APÓS O CAPÍTULO IR OU FICAR?

EARTH 0

Sofya ainda sentia todo o seu mundo girar e teve que firmar os pés no chão, respirar pesadamente e fixar a visão na parede, contando até dez, esperando tudo voltar ao normal.

Estava perturbada.

Era a quinta vez que o mesmo sonho a atormentava.

Ele se iniciava com ela em meio a destroços, gritando desesperadamente por alguém. Mas, depois, o sonho mudava e então ela encontrava-se cercada por um grupo de pessoas. Todos riam felizes, inclusive ela. Em seguida, via-se sentada em uma mesa conversando alegremente com um homem e uma mulher. O homem a provocava, ela o fazia de volta, e mesmo fingindo que não, Sofya sabia que divertia-se. Focou em seus rostos no intuito de reconhecê-los, mas como todas as vezes, o sonho se desvaneceu.

Nunca sentiu-se tão triste ao acordar, ainda com o par de olhos azuis, gentis e cheios de amor impregnado em sua mente.

Queria voltar a sonhar.

E, então, vinha a onda violenta de raiva, tristeza e dor. O que a levou diretamente ao banheiro, fazendo assim que lançasse fora tudo o que comeu na noite anterior.

Ainda tentava decifrar seus sonhos enquanto caminhava em direção a cozinha de sua casa, contudo, surpreendeu-se ao encontrar sua mãe a lhe esperar.

— Mãe? — franziu o cenho — O que faz aqui a essa hora? Aconteceu alguma coisa?

Não moravam juntas a quase dois anos, e, mesmo que estivesse acostumada as constantes visitas de Lígia, não era característico que viesse tão cedo. Seis e oito. Constatou, após conferir o relógio na parede de sua cozinha minúscula, mas bem mobiliada com armário planejado e cooktop elétrico de quatro bocas. Seu apartamento era sofisticado, mas Sofya nunca foi muito ligada em luxo, o que, às vezes, a fazia questionar a própria escolha de moradia.

— Eu poderia ficar ofendida, até parece que eu só venho quando algo ruim acontece, mocinha. — Lígia Denova cruzou os braços.

Sofya sorriu suavemente, ainda parada na entrada da cozinha e pensando que a mãe jamais perderia a mania de chamá-la assim, entretanto, seus lábios se fecharam quando notou a expressão preocupada que Lígia tentava encobrir.

— Foi mal, mãe, mas ainda são seis e... nove, sério, você vai mesmo dizer que não rolou alguma coisa? E que cheiro bom é esse? Tá fazendo café?

— Acabei de fazer — respondeu, evitando a pergunta sem muitas sutilezas.

Isso fez Sofya erguer as sobrancelhas e ela entrou no cômodo. Caminhou até a garrafa, derramando um pouco do líquido quente em uma xícara e sorvendo da bebida.

O enjoo que sentiu logo se perdeu com o primeiro gole do café e Sofya mal se importou com a invasão da mulher aquele horário, exceto, é claro, pelo assunto que aparentemente ela viera tratar e enrolava.

— O que tá rolando, Lígia?

Uma careta, mas Lígia não reclamou pela filha chamá-la pelo nome. Tinha problemas maiores do que a distância que de tempos em tempos sentia a filhar por entre as duas.

Levou um instante, mas Sofya sentiu quando uma camada invisível de proteção revestiu as duas, limitando-se somente a mesa entre elas. Não eram todos os primordiais que tinham a capacidade e poder como o da mãe e filha e, Sofya sabia que a Lígia era forte para manter aquela parede de pé pelo tempo que precisassem, mas o fato de haver necessidade em usar a alarmou. Proteções tinham o intuito de que ninguém de fora atravessasse e ouvisse o que era dito dentro da bolha, e, isso significava que tinha a possibilidade de Sofya estar sendo monitorada.

— Que porra tá acontecendo?!

— Acho que fizeram uma limpeza em mim — declarou sem rodeios.

Sofya ficou pálida.

Limpeza era usada em membros rebeldes, mais frequentes entre assassinos e traidores. A limpeza era uma forma de apagar todas as memórias de uma pessoa, dar-lhes uma segunda chance, uma nova vida, no entanto, ter sido necessário tal infortúnio para se viver em sociedade era motivos de piada entre todos. A pessoa se tornava uma paria.

Pensar que a mãe fizera algo ruim o bastante para chegarem a esse ponto era loucura. E Sofya saberia se tal coisa tivesse ocorrido, certo?

Ela engoliu em seco quando sentiu a semente da dúvida nascer em sua mente:

— Como assim? — sua voz saiu estrangulada.

— Tenho tido sonhos estranhos e seu pai...

— O que o Anderson tem a ver com isso?

— Há tempos que eu não consigo olhar nos olhos dele — ao ver de Sofya, Lígia lhe parecia transtornada — Dia após dia e eu mal me sinto bem no mesmo cômodo que ele. Você não o suporta.

— É diferente — disse incomodada. Na opinião dela, Anderson era insuportável. Sofya tinha um pressentimento estranho todas as vezes que estava próximo dele e sua personalidade boazinha sempre lhe pareceu uma fachada. A mais nova gostaria sinceramente de sentir novamente a segurança que ele lhe passava quando criança, mas era impossível, ela já tentou e falhou. Não sentir-se a vontade na presença do próprio pai foi um dos motivos que a levou morar sozinha — E você me julgava...

— Eu não queria ficar sozinha! — Lígia se exaltou, surpreendo as duas com a explosão. Apesar de ter sido mãe muito jovem, Lígia sempre se mostrou muito calma, embora já não se sentisse mais sob o controle — Tem alguma coisa errada comigo, já faz um tempo e só agora eu tive coragem para dizer em voz alta. Sempre estranhei sua apatia com certas coisas...

— O que está querendo dizer com tudo isso?

Sofya sabia, mas se negou em acreditar. Por que se a vida que tinha fosse uma mentira, então onde seria seu verdadeiro lar?

— Filha...

— Não, mãe, isso é loucura! — pulou de seu lugar e a bolha se expandiu para acompanhá-la — Você deve estar interpretando as coisas erradas, olha... — gesticulando em agitação, Sofya não foi muito longe.

Ela buscou apoio quando uma tontura lhe atingiu e não encontrando qualquer lugar para se escorar, sentiu enquanto seu corpo caia em direção ao chão quando algo impediu a queda. Ela mesma. Suas mãos estava estendidas para baixo e ela levitou seu corpo até obter equilíbrio, enquanto segurava o bile que subia por sua garganta. Tornou a se aproximar da mesa e sentou-se na cadeira. Lígia voltou a posição Inicial quando viu que a filha não precisava de ajuda. A muito tempo que Sofya não depende mais de mim. Isso lhe doeu, mas guardou o sentimento para si e se preocupou com a aparência abatida de sua primogênita.

— Está tudo bem? Quer que eu chame um curandeiro?

— Não, foi só um mal estar. E não fuja do assunto! Que droga você quer dizer com tudo isso? O que você acha que fez... que eu fiz? Não faz o menor sentido. Somos cidadãs modelos. Eu não lemb... — então algumas imagens lhe vieram a mente. A risada do homem e da mulher. Os olhos azuis.

— Eu estudei muito sobre limpeza de mente, os sintomas... O que?

— Nada — mas a voz de Sofya Denova saiu estranha. Não podia ser.

— Sofya.

— Você disse que estudou sobre...

Lígia ignorou a tentativa da filha em mudar o assunto:

— O que está me escondendo?

Um minuto de silêncio, Sofya ainda olhava a xícara de café pela metade quando decidiu falar em um sussurro hesitante:

— Tenho tido esses sonhos estranhos.

— Que tipo de sonhos?

— Do tipo muito real, do tipo que me deixa angustiada por ter que acordar, mas não deve ser...

Lígia a interrompeu:

— Me conte.

E, relutante em compartilhar algo tão importante para si, Sofya contou, destacando o fato de mal poder dormir sem sonhar com as mesmas imagens repetitivas que estavam se tornando constantes, tanto que pareciam desenhadas sobre sua retina.

Mais silêncio, desta vez, de ambas as partes. Lígia tinha uma expressão espantada e encarava a filha com curiosidade e terror.

— Eu suspeitava de mim, mas... — balançou a cabeça.

— Não faz o menor sentido. Vivemos bem. Nunca ouvi falar de um que passou pela limpeza e viveu prosperamente.

— Você se esquece de que família viemos.

Sofya engoliu seco.

— Seja o que for que tenhamos feito, ainda somos importantes para algum jogo de poder. Ouvi dizer que os rebeldes estão conquistando o distrito 18. Pode ser apenas boatos, mas se há uma revolta contra a corte, estamos no centro disso. Você está.

— Estou com um pressentimento ruim — aviso minha mãe com semblante fechado.

— Também estou, e é por isso que temos que sair daqui — foi concisa e Sofya assentiu, levantando-se ao tempo que a porta de sua sala foi aberta.

Por ela, o conselheiro Matael passou. Seus olhos percorreram todo o apartamento — de modo calmo que deixou mãe e filha nervosas — até parar nas figuras paradas que o encaravam defensivamente. Outras duas pessoas entraram e estancaram ao lado do homem. Uma segurando com cuidado um capacete luminoso de última geração, erguendo-a na direção do homem.

— Vocês duas, sempre arrumando problemas — ele balançou a cabeça, negando, como um pai faria ao repreender um filho.

E, mais uma vez, a mente delas foram violadas, enquanto cada requisito das memórias recém recuperadas desapareciam como fumaça levada vento.