NEW STARK | the avengers [1] ✓
48 É difícil perdoar
Notas iniciais
E eu, estou me sentindo tão pequeno
Foi muito pra minha cabeça
Eu não sei absolutamente nada
A Great Big World (feat. Christina Aguilera) — Say Somethinge
Sabe, chega a ser engraçado a forma que uma situação muda a nossa vida de forma irreversível, de uma hora pra outra, somente em um piscar de olhos. Segredos, mentiras e situações de enganos que podem ser desmascarados. É tão simples lidar com a mentira, não é mesmo? Mas a verdade… bom, ela dói.
Eu que o diga.
Ficamos longos minutos olhando uma a outra, eu, chocada demais para responder o seu "Oi meu amor".
Engoli em seco, dando alguns passos para trás. Em seguida, meu cérebro iniciou o processo de negação.
Ela continuava do mesmo jeito de anos atrás, não mudou nada.
Minha mãe sempre foi uma mulher muito bonita.
Ela chamava a atenção nas reuniões de pais e a grande maioria dos diretores que tive, eram bem… receptivos.
Ela tinha olhos claros, na qual eu sempre me injuriei por não ter. Seu rosto era magro e seu nariz, fino. Quando ela sorria, era a coisa mais linda que qualquer um podia ver. Mamãe era amorosa, mandona e terna. Mamãe me amava e eu também a amava, mas ela morreu e eu me recuso acreditar que seja ela ali.
Nunca vou esquecer de ver o seu corpo inanimado, das minhas lágrimas molhando sua pele fria e sem vida. Por minha causa.
Eu a enterrei.
— Não. — balancei a cabeça, respirando forte, o choque dando lugar ao pavor. Acho que estou a beira de um ataque de pânico. — Isso não é real, isso não é real. — repeti para mim mesma, diversas vezes. Fechei os olhos esperando que tudo não passasse de um pesadelo, ou um sonho… não sei.
Não pode ser real. Não pode. Eu a enterrei. Eu vi o seu corpo sem vida. Não pode ser real.
— Sim filha, é real. — voltei a olhar seus olhos. Ela parecia emocionada e, assim como eu, chorava, mas não me deixei enganar.
— É mentira. — sussurrei. Então uma explicação plausível para mim se formou em minha mente. Uma brincadeira, uma brincadeira de muito mau gosto. Dei uma risada histérica. — Tá bom, chega de brincadeira. Isso não tem graça. — ordenei entredentes. Aquela pessoa me olhou com arrependimento. Fiquei cada vez mais nervosa. — É você, não é Black? — perguntei, bufando.
Penso que já não raciocinava direito. Minha cabeça estava a ponto de fritar.
— Filha…
— Não me chama assim! — bradei, irritada.
Passei as mãos sobre meus cabelos, sentindo tudo rodar. Uma náusea se abateu sobre mim e um queimar subiu pela minha garganta. Virei para o lado, abrindo a boca, esperando jogar para fora o que tinha em meu estômago, mas nada saiu. Permaneci assim por longos segundos, tentando me acalmar.
Talvez eu estivesse mesmo sonhando, talvez tudo não passasse de um sonho. E é em meio a esse pensamento que eu senti sua mão tocar meu ombro.
— Sinto muito por mentir para você, querida.
Ainda sim, mesmo após ouvir suas palavras cheias de arrependimento, não consegui acreditar que seja ela ali.
Ouvi seu choro baixo, e deixei que me tocasse, fraca demais para me afastar.
Estranha essa minha reação, eu sei, mas apesar de toda a negação por minha parte, aquela pessoa a minha frente tinha a aparência de minha mãe. E depois de tanto tempo acreditando que nunca mais a veria, tê-la ali comigo era o acontecimento mais louco que já passei, mas também o melhor.
Mal sentia as lágrimas correrem pelo meu rosto, tamanho meu torpor. A dor da perda que mantive enterrada, voltando com força total.
— Minha mãe morreu. — anunciei, mais para mim do que para ela.
Tentei acreditar em minhas palavras, mas tem uma coisa diferente de ter alguém invadindo sua mente e te levando uma ilusão, pois, mesmo me opondo contra o que eu via, eu não podia negar que tudo é muito nítido, muito real.
E é isso que me deixava tão duvidosa de minhas convicções, mas pensar que minha falecida mãe está, na verdade, viva, é loucura!
Mesmo afirmando que já me acostumei as doideiras que me rodeiam, também afirmo que sei o que eu vi, minha mãe morreu.
Isso não pode ser verdade.
Estou confusa, não nego, mas você também não estaria se alguém de sua família decidisse que era hora de voltar dos mortos? Por que eu não sei nem o que pensar.
— Imagino que sua cabeça deve estar uma bagunça. — ela disse, compreendendo meu ceticismo. — E eu sei que isso pode parecer loucura, não vou fingir e dizer que não é, mas não estou mentindo. Eu sou sua mãe. Olha para mim e diga que estou mentindo. Filha, por favor. — vagarosamente, eu me voltei para seu rosto, mas desviei o olhar, segundos depois, não conseguindo me manter firme.
— Eu não… — balancei a cabeça, diversas vezes. — Minha mãe está morta. — repeti, sem firmeza. — Eu a vi morta. Eu a enterrei, eu a matei! — berrei, sem conseguir me controlar, virando-me a tempo de ver choque, medo e arrependimento em seus olhos.
Me afastei, respirando pesadamente.
Que inferno eu tô fazendo discutindo com uma pessoa que finge ser alguém que perdi? Por que eu não acredito, eu não posso acreditar… não posso.
— Todas as sextas, nós passávamos nossas tardes assistindo sua série favorita. — um tremor atravessou meu corpo com sua fala. — … Supernatural. — ela riu fracamente.
Dei um sorriso irônico tentando ocultar o tremor em minhas, após negar com um manear:
— Você vai precisar de muito mais para me convencer. — avisei, sem acreditar.
— Sei que você ama o Dean e adora assistir comendo pipoca caramelizada. Nada de pipoca salgada, sei que você odeia. Sei também que você ama batata frita e, na época, gostava do seu amigo Barry, lembra querida? Eu lembro. Sou eu, acredite em mim. — pediu com voz embargada. Fiquei em silêncio, suas palavras infiltrando em minha mente. Ela continuou, vendo que eu não diria nada. — Você atacou uma pessoa. Ana. Sua colega de classe. — olhei em seus olhos, não só desconfortável, mas também surpresa por ela saber do assunto.
Ninguém lembrava do meu ataque, nem mesmo Barry quem interviu. Eu nunca soube o que houve para todos esquecerem e, com o tempo, acabei deixando isso de lado. Não entendo por que ignorei tal coisa, e não entendo como minha mãe poderia saber do fato.
— Como… como… — não consegui expôr minha dívida.
— Foi eu quem apagou a memória de todos. — a encarei, desacreditada.
— Pare de mentir. — pedi, com o estômago embrulhado. Abri a boca, puxando ar.
— Ninguém lembrava de nada no dia seguinte. — continuou, me ignorando. — Só você. — Porquê? PORQUÊ? Gritei em meus pensamentos. — O muro que criei em sua mente, não somente afastou seus poderes, como algumas lembranças que você não deveria ter. Tentar apagar sua memória novamente iria atrapalhar e eu estava planejando te contar tudo.
— Isso não é possível… — sussurrei, fechando os olhos, tentando evitar mais lágrimas.
— Sim, é.
Balancei a cabeça, pela milésima vez, fixando meu olhar no seu, instantes depois.
Não era possível ela estar viva depois de tanto tempo.
Ainda insegura entre acreditar ou não, eu a chamei:
— Mãe?
— Sim. — minha mãe assentiu, sorrindo e chorando, enquanto caminhava até mim para me abraçar. Eu a apertei forte, tão emocionada como ela.
— Como é possível? — repeti, em meio às lágrimas. — Eu vi, você tinha morrido. Como você pode ter sobrevivido?
Durante a confusão de pensamentos, tive a estranha sensação de que algo não se encaixava. Minha mãe jamais me deixaria sofrer sua morte estando viva, jamais. Pensei, segura disso, mas meus pensamentos me traíram. E se… Não! Sua mãe está morta. Ela morreu, você a enterrou, lembra? Meu subconsciente faz questão de me confundir ainda mais.
Alguém poderia estar manipulando a mim, usando a aparência da minha mãe. Só Deus sabe o alcance do controle de mente. E enquanto eu mal sei manuseá-los, aparentemente existem pessoas que podem usá-los — e muito bem — para machucar pessoas, me machucar. A porra do controle psicológico é uma grande merda.
— Eu sinto muito, sinto tanto que você tenha passado por tudo o que passou. — ela me olhou, secando meu rosto com suas mãos.
— Eu achei que tinha te matado, achei que fosse minha culpa. — balbuciei, desnorteada. — O que houve? Como isso é possível?
— É uma longa história.
— Você quer que eu acredite em você. — a lembrei, ainda cética. — Então me conta, conta como isso é possível. Por que eu vi. Vi seu corpo. — insisti, sem entender.
Ligia me olhou por um longo tempo, — na qual eu passei observando aquele rosto tão familiar — antes de contar:
— Descobri que estavam desconfiando de nossa localização. — começou. — Foi quando tudo aconteceu. Minha ideia de irmos embora...
— Era por isso que nós mudamos tanto?
— Sim. Toda as vezes que eu desconfiava de algo a gente partia para a próxima. — não consegui ver qualquer sinal de mentira em seu olhar. — Foi quando aconteceu o acidente, mas eu não morri, apenas fingi minha morte para despista…
— Você fingiu? — interrompi sua fala.
Lígia se afastou quando reparou em meu tom de voz, mas eu reconheci aquela hesitação no olhar de minha mãe. Foi o mesmo que ela me lançou quando a ataquei.
— Eu sinto muito.
— Okay, você conseguiu o que queria. Acredito em você. Apenas... por favor, me diga que não é como estou pensando. Diz que você não me deixou pensar que havia sido minha culpa.
— Sofya… — Ligia me olhou arrependida.
— Mãe. — não consegui manter o tom de acusação longe da minha voz. — Você sabia onde eu estava?
— Eu… — ela hesitou. — Sim, eu sabia.
Pisquei os olhos, ainda não obtendo o bastante.
— E não entrou em contato por que…?
— Eu não podia…
— Você viu como fiquei? — a interrompi, sem aceitar o incontestável.
— Sofya…
— Você viu?! — insisti, implorando mentalmente que Lígia inventasse qualquer desculpa plausível que não doesse tanto em mim.
— Eu vi. — anunciou. Arregalei meus olhos e esperei que ela se corrigisse. — Eu não pude fazer nada. Desculpe, mas você estava melhor sem mim.
— Puta merda. — xinguei, sem mais nada a dizer. Me afastei e agachei, puxando ar e falhando miseravelmente na simples ação de respirar.
Puta merda.
Não pode ser verdade.
— Você não sabe o quanto eu me arrependo, mas eu estava te protegendo…
— Para, por favor. — pedi, rouca.
— Não Sofya, eu não vou parar, você precisa me ouvir explicar. — falou exasperada, mas neguei com um manear.
Talvez fosse tarde demais, mas eu não queria ouvir nada. Por que se eu ouvisse, eu iria acreditar e se eu acreditasse, a dor seria real.
Eu estava fugindo, como uma boa covarde que sempre fui.
No entanto, ela continuou a falar e falar e eu senti uma agonia me tomar. Ela falou que manipulou a mente de todos para que víssemos ela morta, mas que estava viva durante todo esse tempo. Ela me escondeu, ela me vigiou e me viu sofrer, entretanto, não interviu.
— Tem como você parar?! — falei mais alto, minha respiração acelerando ainda mais. Lígia fingiu não ouvir meu pedido desesperado e continuou.
Ela contou que se uniu a um grupo que pode nos ajudar, ela quer que eu fuja junto dela, ela quer me proteger. Ela está com medo por que acha que podem ter me encontrado.
— Pode ser como antes, nós duas contra o mundo. Nosso grupo tem crescido, acredito que comigo e com você, poderemos vencer…
— PARA! — gritei e ela finalmente o fez.
Então eu chorei, chorei e solucei da mesma forma que fiz sobre o corpo da minha mãe, quando ela morreu.
Ou quando ela me fez pensar que havia morrido.
Eu não acredito.
Fechei meus olhos pondo a mão sobre a boca. É só um pesadelo, você vai acordar… acorda idiota!
— É real. — Lígiaafirmou com a voz embargada, logo depois, circulando os seus braços sobre mim. — Sou eu, mocinha, estou viva, eu sinto mui…
— Para de dizer isso. — mandei, com a voz falha.
Está doendo tanto e ela nem está prestando atenção, porém, vou fingir que estou bem, como sempre fiz, ao menos, na frente dela.
— Não faz isso. — Lígia pediu, secando o rosto. — Eu me importo com você. Por isso estou aqui. — Ela estava lendo minha mente e não tenho dúvidas de que já descobriu meu plano de afastá-la. Pare de me ler. Pensei. — Podemos estar juntas, de novo.
— Tem como você parar com isso? — a olhei, sem expressão. Meus olhos ardiam, mas não deixei que nenhuma lágrima escapasse. — Você tem noção que passei os últimos anos me culpando pela sua morte? Que decai dia após dia, não encontrando nenhuma razão para viver, porque pensei que havia perdido tudo… E agora você quer que eu abandone tudo o que conquistei. Que eu abandone minha família por uma pessoa que me enganou, que me abandonou? — senti lágrimas fujonas caírem sobre meu rosto. — Quem é você? O que se tornou nesses últimos anos? Por que não é assim que lembro da minha mãe.
— Sei que você está magoada…
— Magoada? — ri, sem humor, secando meu rosto. — Eu não estou apenas magoada, mãe. Estou revoltada, irritada. Me sinto enganada.
— So, filha…
— Na-na-não. Você não tem o direito de me chamar assim. — neguei, balançando a cabeça e me levantando. Passei a manga da blusa sobre o rosto. — Você me deixou pensar que estava morta. Eu me culpei durante todo esse tempo, sabe o quando sofri?! — gritei, tentando fazê-la entender o que fez a mim.
— Sei, eu também sofri, não fale como se eu também não tivesse sofrido. — se expressou magoada e incomodada com minha reação.
Penso eu que Lígia esperava uma recepção mais calorosa de minha parte. Depois de tudo? Depois de toda aquela merda? Cacete. Eu mal consigo respirar sem querer gritar com ela e exigir que explique o porquê de me machucar tanto.
Sinto muito mamãe, mas tudo que você vai receber é gelo.
— Você sofreu. — ri ainda mais, tão, mas tão indignada com ela. — Quero voltar. — então voltei a ficar séria, não querendo que ela saiba o quanto aquilo me fez mal. — Me manda de volta.
— Sofya, pare de rancor, presta atenção em mim. Você corre perigo, venha comigo. A gente pode se mudar para…
— Foda-se a merda dessa corte. Foda-se minha segurança. Foda-se qualquer merda que esteja relacionada a droga da sua antiga vida. Você me abandonou! — vociferei. Minha mãe pareceu chocada com minha explosão, mas não me importei. — E diferente de você, eu não vou abandonar a minha família. Sabe? Aquela que nunca me abandonou.
— Você está sendo irracional. — Ligia retrucou, impaciente. Balancei minha cabeça, desacreditada que ela esteja se sentindo no direito de estar nervosa comigo. Comigo? Há! — Achei que já tivesse aprendido a lição. — jogou na minha cara e eu vi o momento exato em que minha mãe se arrependeu de suas palavras, mas era tarde demais.
Ela não falou isso. Ela não falou isso.
Senti meus olhos lacrimejarem, mesmo sem minha permissão:
— Aprendi, sim, a lição. — soprei, ainda mais magoada. — Você é uma ótima mãe, muito melhor do que eu me lembrava. — dei risada, que soou como um gemido de dor. — Minha nossa… — sussurrei, negando. — Me deixe ir. — pedi cansada, não querendo mais olhar para o seu rosto.
Que ótima reunião familiar.
— Tudo que fiz foi para te proteger. — Lígia murmurou. — Talvez você não entenda agora, mas um dia vai me entender. Sei que você cresceu e que mudou, mas eu ainda sou a mãe e você ainda é a minha mocinha. — se emocionou, mas não fiz questão de olhar em seu rosto. — Desculpa se te magoei, querida. — pediu e se aproximou, me apertando em seus braços.
Eu a deixei me abraçar e funguei, mas não demorei em me afastar dela, pedindo novamente que me deixasse ir.
— Tudo bem. — assentiu, fungando e secando o rosto. — Você sabe onde me encontrar e não esqueça que eu te amo. — eu não consegui dizer o mesmo e nem tive tempo.
Seu olhar triste foi a última coisa que vi antes dela desaparecer.
A consciência voltou de modo lento, e demorei para descobrir que já não me encontrava naquele belo jardim, mas sim em uma cama, uma cama dura e que com certeza não é a minha.
— O aparelho desligou.
— Ela está acordando.
— Sofya? — ouvi a voz do meu pai me chamar. Preocupada, terna e familiar.
Só tive tempo de abrir os olhos e me lançar sobre Tony, abrindo o berreiro como um bebê recém-nascido.
— E-ela… ela… está viva. — chorei como nunca, finalmente liberando a dor que eu não permiti sair, com ela. — M-inha mãe E-está… v-viva… — meus ombros balançaram com o desespero.
— O que… Sofya?
— E-ela e-e-está… viva.
— Shhh. — meu pai acariciou meus cabelos. — Tudo bem, querida, estou aqui. Eu estou aqui.
Meu pai cuidou de mim por um longo tempo. E deve ter sido muito longo mesmo, pois acordei horas depois — acho que foi horas. — no meu quarto, sem noção de como fui parar ali.
Devo ter apagado em algum momento.
Minha mente encontrava-se enevoada e meus movimentos lentos. Presumo que deram algo para me acalmar, tamanha a letargia e eu não os culpo. Lembro do quão transtornada estava.
Os acontecimentos foram voltando a minha mente, pouco a pouco.
Minha mãe.
Ela está mesmo viva? Não é loucura minha? Como ela pôde?
Funguei e me encolhi na minha cama em posição fetal. Apertei meu travesseiro e solucei. Fiquei tão perdida em minha dor, que quase não ouvi o toque em minha porta.
Sequei meu rosto rapidamente e exclamei — a quem quer que fosse — um entre. Meu pai passou pela porta, a fechou e se voltou para mim.
— Hey. — murmurou cuidadoso, se aproximando da minha cama.
— Hey. — tentei dar um sorriso, que mais saiu como uma careta.
Tony sentou próximo à cabeceira e pôs sua mão em meu ombro, me acariciando.
— Como você tá?
— Tô bem.
— Estou falando sério.
— Eu também. — retruquei, desviando meu rosto.
Meus olhos correram até o espelho do quarto e eu vi minha imagem refletida e não gostei do que vi.
— O que ouve lá? — Tony me pressionou. Neguei com a cabeça.
— Eu não quero falar disso, pai.
Stark suspirou, parando o carinho em meu ombro.
— Pensei que tivéssemos passado dessa fase.
— Eu só não quero falar disso, okay. — me exaltei, mudando minha posição e me sentando na cama. Ficamos em silêncio e eu me arrependi um pouco do modo que o tratei. — É que… tá doendo muito. — expliquei, não querendo que Tony ficasse chateado. — Ela mentiu para mim. — funguei, piscando os olhos, tentando evitar o choro.
— Então… — Tony não parecia acreditar. E eu quase ri de seu olhar temeroso.
Acredito que devo ter soltando a palavra mãe e viva na mesma frase, antes, mas até mesmo para mim, é difícil acreditar. Imagina para meu pai, ver a filha descontrolada falando que a mãe morta está viva.
— Ela tá viva. — ficamos sem saber o que falar. — Eu a vi. Tenho certeza. — confirmei, querendo ele acredite em mim. Franzi o cenho, sem conseguir impedir as lágrimas. — Minha mãe está viva. — e voltei a chorar. Meu pai me abraçou. — Ela sabia que eu tava sofrendo e não me procurou. — disse em agonia. — Está doendo tanto, pai.
— Sei que deve estar, mas você tem muita gente aqui por você garota. Estamos com você.
— Não consigo lidar com isso.
— Sabe, certa vez uma pessoinha disse algo para mim e agora me sinto na obrigação de retribuir. — ele anunciou sério, se afastando para me encarar. Eu o olhei, sem entender a mudança repentina de assunto. — Você consegue lidar com isso sim, por que é a garota mais genial e corajosa que eu já conheci. — dei um sorriso emocionado. — E você não sabe, filha. Você não sabe o quanto eu te admiro. O quanto eu me orgulho da sua força.
Sacudi minha cabeça em negação, querendo dizer que não era forte, mas não o fiz.
— Sabia que era meu fã. — repeti o que Stark me disse, consequente de meu discurso desesperado, após o medo que senti ao observar o olhar desesperançado de Tony, na ocasião.
— Não estraga o momento.
Rimos, nostálgicos. Eu mais chorei do que ri, mas Tony deixou essa passar.
— Eu te amo, pai. — o abracei. — Obrigado. — sussurrei baixinho.
— Também te amo, garota. — Tony me apertou. — Eu nunca vou te abandonar, isso é uma promessa.
— Eu também nunca irei. — me senti no dever de dizer o mesmo.
Imaginei o quando Tony deveria estar inseguro em relação à volta da minha mãe e quis que ele soubesse que não iria embora.
Stark me apertou um pouco mais, em uma resposta silenciosa. Ele havia entendido.
— A gente deveria passar mais tempo junto, que tal uma coisa bem família. Eu, você e Pepper. Vamos num cinema ou então viajar. Chama… — ele pausou, antes de continuar. — Steve.
Ignorei sua careta proposital e me foquei em sua frase.
— Achei que estivesse ocupado com os preparativos da festa de sábado.
— A gente cancela, ué.
O olhei seriamente, pesando aquela possibilidade. Então balancei a cabeça:
— Tony, é a festa de despedida do Thor e a comemoração de mais uma vitória. Não pode ser cancelada assim. É importante.
— Você é importante, a festa nós marcamos pra outro dia.
Recusei, balançando a cabeça. Não quero sair pra viajar por causa...
— Olha, eu tô bem. Eu vou ficar bem. — me corrigi. — É sério, não cancela. — pedi, deitando na cama, novamente. Me cobri e observei meu pai me olhar estranho. — O quê?
— Tem certeza? — perguntou incomodado. Concordei com um manear. Segundos depois, Tony fingiu uma careta aliviada. — Que bom, por que eu já comprei a bebiba. — revirei os olhos e repuxei os lábios em um sorriso, sentindo seu atenção sobre mim. Notei que ele não respondeu minha indagação anterior. Entretanto, antes que eu pudesse cobra-lo, Stark levantou. — Vou deixar você descansar. — eu concordei.
Meu pai beijou minha cabeça e deixou o quarto, logo depois. Estranhei sua saída rápida, mas não reclamei. E demorou cerca de um minuto, mas somente quando tive certeza que meu pai havia ido, realmente, embora, que pude então deixar o meu semblante cair.
Me aproveitei do momento a sós para tomar um banho e tentar desvanecer. Enchi minha banheira e me distrai escolhendo alguns sais de banho. Quando a banheira encheu, eu entrei, me reclinei e prendi meus cabelos, para não molhá-los.
Fechei os olhos. Tentei esquecer tudo, no entanto, sem a minha permissão, lágrimas verteram de meus olhos e eu não consegui evitar o soluço.
...eu não morri, apenas fingi minha morte para despista…
Eu sinto muito.
Eu não pude fazer nada. Desculpe, mas você estava melhor sem mim.
Eu estava melhor sem ela. Ri desacreditada, lembrando de suas palavras. Antes eu não poderia dizer isso, mas agora? Sim, agora eu estou melhor sem ela.
Ainda sim, mesmo pensando isso, eu me curvei sentada e chorei, sentindo minhas lágrimas correrem pelo meu rosto, até pingar, misturando-se a água que me circulava. Em seguida, mergulhei mais fundo na banheira, como se aquele banho fosse lavar minha alma. Na qual, encontrava-se tão triste e cinza.
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Eu estava sentada em frente ao espelho, evitando encarar meus olhos inchados. Prendi meu cabelo em um coque e o segurei com uma presilha, pois eu bem sei que essa cabeleira não se manteria presa sozinha. Ao terminar, levantei e fui até minha cama, ajeitei o tecido que forra o colchão, antes de deitar e me cobrir com o edredom.
Fechei os olhos, respirando fundo em uma tentativa de relaxar o suficiente para conseguir dormir, mas não obtive êxito. Bufei, chateada, virando o corpo para cima e olhando o teto.
Poucos minutos depois, ouvi o barulho de alguém batendo na porta.
— Pode entrar!
Observei Steve passar pela porta do quarto. Ele encostou a porta calmamente e me olhou silencioso, antes de caminhar até mim e sentar na ponta cama.
— Oi.
— Oi Steve. — tentei um sorriso. Virei de lado e dei mais espaço para ele. Steve se ajeitou.
— Como está?
Sei que Steve e Tony estão preocupados, sei que se importam comigo. E até me sinto um pouco mal por me estressar ao ouvir sobre tal pergunta, mas não quero falar do assunto. Quero esquecer.
— Eu vou ficar bem. — foi o máximo de sinceridade que pude dar.
Steve assentiu, franzindo o cenho. Mordi o lábio, tentando prender minha língua, mas não me aguentei por muito tempo.
— Para com isso.
— Com o que? — o homem indagou-me, confuso.
— Fica hesitando. Pisando em ovos. Já disse que estou bem! — me estressei, sentando e me recostando na cabeceira. — Conversa comigo. Como Clint está?
— Recuperado, nem parece que se machucou.
— Isso é bom.
Steve me olhou inexpressivo, mas assentiu.
— É. — concordou, sério.
Bufei sem paciência:
— Steve…
— Estou preocupado com você Sofya, então você precisa entender que é um pouco difícil fingir que não. — me cortou. — Mas se você prefere ignorar a situação, não vou tentar mudar sua opinião sobre isso. Desculpe por insistir. — ele suavizou a expressão.
Assenti cansada, mas o silêncio voltou, o que me fez suspirar.
— Você pode ficar aqui comigo? — pedi.
— Claro. — Steve deu um pequeno sorriso. Fui para o lado e ele se aproximou um pouco mais.
— Deita. — instrui e ele o fez, me abraçado quando encostei minha cabeça em seu peito. Fechei meus olhos e, com Steve, consegui sentir a paz que eu buscava desde… — Você lembra de quando nos conhecemos? — tentei mudar o rumo de meus pensamentos.
— Lembro. — Steve acariciou minha nuca, fazendo-me arrepiar. — Você estava perdida, na SHIELD. — seu tom de voz deu a entender que o homem achava a situação engraçada. Levantei o rosto para olhá-lo.
— Em minha defesa, a SHIELD era muito grande. Qualquer um se perderia ali.
Steve ergueu as sobrancelhas:
— Claro.
— Para de zombar de mim. — reclamei, virando o rosto para que ele não visse meu sorriso.
— Não estou zombando.
— Cínico.
Steve riu e eu sorri com o som de sua risada.
— O que você pensou? Qual foi seu primeiro pensamento sobre mim? — perguntei com certa curiosidade.
Steve mirou-me fixamente, fazendo uma pausa dramática:
— Fiquei surpreso quando a ouvi me chamar. — franzi o cenho e Steve explicou. — Os agentes são circunspectos, o que explica o meu espanto, mas eu ainda não sabia que você era uma transgressora da lei. — Steve sorriu e eu balancei a cabeça. — Então te olhei e você correu até mim, parecia um pouco desesperada e, ainda sim, eu simplesmente parei de funcionar de forma racional. Apenas consegui pensar em como você era linda. — Rogers me olhou, então desviou o olhar, enquanto eu assistia suas bochechas ganharem um tom rosado.
Arregalei os olhos, vendo o homem tão tímido. Fiquei sem saber o que dizer. Eu não esperava por tudo aquilo.
— Bom… — pigarreei sem jeito. Droga. Da mesma forma que não sou boa iniciando diálogos, eu também não sou boa com declarações. — Acho que não é uma boa ideia dizer o que se passou pela minha. — admiti, inclinando o pescoço e deitando em seu peito, novamente.
— Agora você me deixou curioso. — Steve avisou em um tom divertido. Ele alongou o pescoço e tentou me encarar, mas não deixei que aqueles olhos azuis me seduzissem. Mais. — O que? Sofya. — ele nos virou e conseguiu me olhar.
Eu ri alto.
— É meio bobo. — tentei dissuadi-lo.
— Tudo bem, me diz.
Revirei os olhos, sorri e passei meus braços pelo seu pescoço.
— Humm. — ri mais um pouco, tentando arrumar coragem. — Se me lembro bem, me veio à mente algo como: Jesus? Acho que morri e fui para o céu. — Steve ergueu as sobrancelhas e tentou prender um riso envergonhado. — Ou, que delicia é essa na minha…
— Tudo bem, entendi. — Rogers me cortou, todo sem jeito.
— Mas eu ainda não contei sobre como te achei gos…
— Sofya. — me repreendeu e eu ri da cara dele.
— Aí Steve, foi você quem pediu que eu contasse. — o lembrei, sorrindo.
— Você tem um ponto e tudo bem, acho que valeu a pena. Pelo menos te fiz rir, as minhas custas, mas… — meu sorriso desapareceu e Steve notou. — E agora desapareceu. — ele tocou meu rosto. — O que eu posso fazer para trazê-lo de volta?
O olhei, sabendo que meu coração batia loucamente, somente pelo fato da presença dele ao meu lado. No entanto, o que eu mais foquei foi na paz que o homem me proporcionava. Na felicidade que me fez esquecer a dor.
Voltei a sorrir:
— Só me amar. — declarei, ganhando a atenção de Steve e fazendo com que voltasse aqueles azuis, que tanto amo, para mim.
Engoli a seco ao notar a intensidade de seu olhar sobre mim.
— Achei que iria me propor algum desafio. — meu sorriso, e o dele, cresceu ainda mais.
Sem mais delongas, pressionei minha boca contra a de Steve, que entreabriu os lábios, me levando a fazer o mesmo. Ofeguei quando nossas línguas se tocaram e minhas mãos correram sem controle por seus ombros, descendo por sua costa. Seus músculos se contraíram contra a palma da minha mão.
Senti um calor se alastrar pelo meu corpo e me inclinei sobre Steve, a fim de sanar minha sede de proximidade entre nós. No entanto, muito mais no controle da situação, Steve se afastou, vendo que o beijo encaminhava-se para algo a mais.
— Sofya. — sua voz soou rouca, o que me fez ter vontade de agarrá-lo, novamente. — Não é uma boa ideia. — encarei Steve e soube do que ele falava, mas me fiz de desentendida, não muito satisfeita. — Esse não é um bom momento para você e nem o lugar certo. — pigarreou, se afastando. Não disse nada enquanto assistia Steve se levantar. — Por favor, não fique chateada.
O olhei, pensando bem antes de falar:
— Não estou. — garanti e encostei na cabeceira da cama, tendo a sensação de um clima estranho. — Você está certo. — fui obrigada a concordar, pois não seria legal alguém, pior, Tony… merda, deleta, deleta. — Nem um pouco legal. — enruguei o nariz, falando comigo mesma.
Concordamos com um manear e ficamos em um silêncio constrangedor.
— Você… — pausei, antes de continuar. — … ainda quer ficar comigo, só mais um pouco? — pedi timidamente. Não sei se Steve queria ir embora. Se estava desconfortável e não foi por ser educado demais para se retirar, mas decidi arriscar.
— Eu não vou a lugar algum. — prometeu em um sorriso e eu suspirei aliviada.
— Okay, prometo não te agarrar, quero dizer, só se você quiser…
— Sofya. — Steve me alertou e eu sorri metreira.
— Tá, parei.
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