N-não É Como Se Eu Te Amasse, Baaka!
5 Nem tudo é Dakimakura
Saiu do banheiro quase meia hora depois, agradecendo mentalmente ao amigo por ter lhe emprestado os óculos escuros, ou seus olhos extremamente inchados ficariam ainda mais óbvios.
– Ah, Rodrigo! — Wesley então envolveu um dos braços em torno de seu pescoço, puxando-o para a roda em que as pessoas estavam conversando. — Eu estava te procurando, eu vi a novinha que deu em cima de você em outro canto, pensei que cê tinha vazado daqui!
– Não — abriu um sorriso sem jeito e completamente forçado, embora estivesse realmente aliviado por ser tratado daquela forma pelo rapaz.
– O que aconteceu? Cê não gostou dela? Foi a mais zoiuda que eu vi daqui — ele riu um tanto ao lembrar que ele gostava daquelas jovens de olhos gigantes, como nos desenhos que assistia.
– Ahaha, é, ela é bonita, mesmo — mas não era Wesley. — Sei lá, eu só não senti vontade — e deu de ombros. Não sabia ao certo como explicar a situação sem precisar contar partes que lhe trariam problemas mais tarde.
Mais do que tudo aquilo, não queria perder a amizade do rapaz. Por tudo que conhecera até agora, ele não parecia gostar de garotos e muito provavelmente ficasse ofendido. Talvez nunca mais falasse consigo e até passasse a desprezá-lo, isso era algo que não conseguiria suportar.
– Cê tem que parar de se prender com esse negócio de encontrar a mulher certa — ele resmungou um tanto, mas logo voltou a sorrir, balançando-o um tanto para soltá-lo logo em seguida, continuando a falar com outras pessoas.
Ele realmente atraía a atenção de outros à sua volta. Dava para ver como paravam pra prestar atenção em tudo que ele ia contar, e como riam de quando fazia uma piada ou terminava o relato de algo engraçado.
Foi naquele momento que Rodrigo tivera certeza de que viviam em mundos diferentes.
Não por conta da classe social nem nada desse tipo, mas pela forma como enxergavam a vida.
Para o loiro ela era um grande parque de diversões no qual gastaria todo o seu dinheiro, mas teria a melhor e mais incrível de todas as experiências! Para si era algo estranho, ao qual não se adaptava direito e por fim acabava fazendo tudo errado, como alguém que nunca aprende a andar de bicicleta.
Ele era imensamente radiante e sua luz atraía todos ao redor, enquanto o moreno permanecia nas sombras, sempre renegado pelos outros. Estava disposto a aceitar essa posição já há muito tempo, mas ver alguém tão diferente apenas o feria ainda mais, especialmente quando estava apaixonado por esta pessoa em questão.
Seguiu quieto pelo resto da noite, assim como na casa do amigo, onde dormira.
No dia seguinte, no trabalho, não parecia muito diferente.
Cumpria suas obrigações como de costume, mas o ânimo estava visivelmente diferente.
– Ei — a menina aproveitou que Wesley se aproximava para colocar um dos pedidos sobre a bancada e cutucou-lhe as costelas com o cotovelo. — O que aconteceu com ele?
– Hum? Com quem? — Wesley ergueu o rosto na direção da jovem, quase jogando uma parte do peixe cru no seu rosto ao ser cutucado, contorcendo-se. — Não conta pra ninguém que eu tenho cócegas aí.
– Essa informação pode ser útil para chantagem — brincou parcialmente, voltando ao tom sério novamente. — O Rodrigo, né! Vai dizer que você não notou a cara de bunda que ele tá fazendo desde que chegou aqui?
– Ele mal deve ter conseguido dormir, a gente foi pra farra ontem — e então o loiro começou a balançar o quadril, fingindo que estava dançando, o que chamou a atenção de algumas pessoas que os olhavam atrás do balcão.
– Tem certeza que foi só isso? — arqueou uma das sobrancelhas, encarando-o. — Não aconteceu nada com ele?
– Deve ser porque não aconteceu nada então. Acho que ele até queria pegar uma novinha, mas não conseguiu — ele achou graça, sorrindo e a fitando. — Quer ele pra você?
Ela então olhou para trás, como se o estivesse analisando, voltando-se para o loiro logo depois, dando de ombros:
– É bonitinho, mas não faz meu tipo — abriu então um sorriso malicioso, divertindo-se. — Por que não tenta pegar ele pra você?
– Cê tá viajando, mulher? — Ele riu ainda mais, dessa vez fazendo questão de esfregar o dedo sujo de peixe em seu nariz, provocando-a.
– Eeeei! — resmungou e limpou o nariz com a mão, fazendo uma careta enquanto o via voltar para o lado do outro rapaz. — Seu porco!
– Eu n... — E então o celular começou a vibrar em seu bolso, fazendo-o rapidamente limpar a mão na toalha e pular o balcão para atender. — Alô...! — Ele inicialmente atendeu com um largo sorriso, mas conforme foi ouvindo a notícia, este começou a se desfazer, tomando em seu lugar uma expressão de pânico. — Pera, eu tô indo aí agora! Agora mesmo!
– Wesley? — a jovem do caixa novamente o chamou, repetindo o ato uma segunda vez ao não ser atendida, mas agora mais alto. — O que houve? Aonde você vai? — embora normalmente se irritasse com suas "escapadas", a expressão em seu rosto deixava bem claro ser algo sério dessa vez.
– A véia tá no hospital! — Ele disse de um modo muito mais desesperado que o normal. Começava a arrancar o seu avental ali mesmo. Sequer se importava em dar satisfações e perder o emprego. Realmente, não estava raciocinando naquela situação. Apenas queria ver a sua mãe o mais rápido possível.
– Ah, droga — ela olhou na direção do moreno, igualmente chocado com a cena.
Tudo o que podiam fazer por enquanto seria continuar com seus trabalhos e esperar até que o outro desse notícias.
Uma hora se passou, então duas, três, quatro. Passou a hora do almoço e então o expediente acabou.
Rodrigo começava a ficar realmente preocupado naquele momento, olhando para a jovem junto a ele.
– Será que tá tudo bem com ele?
– Ele não vai sair do lado da mãe dele, ainda mais se ela estiver mesmo mal — a jovem soltou um suspiro, também parecendo preocupada com a situação, embora precisasse conferir o caixa.
Estava preocupado. Apertava as mãos e fazia ruídos irritantes com a boca.
– Não é melhor alguém ficar com ele, então?
Sabia que era a mãe quem estava em dificuldades, mas naquele tipo de situação os familiares também precisariam de amparo. Mais que isso, não gostava de imaginar Wesley angustiado sem ter alguém com quem pudesse contar.
Mesmo uma pessoa insensível como ele sabia que a mãe era seu ponto fraco, certamente teria desabado caso algo grave tivesse realmente acontecido.
– O que você tá pensando em fazer? — Ela ergueu o rosto, fitando-o com curiosidade. — Huuuum, pensei que você só se importasse com seus desenhos. Quer ir mesmo atrás dele?
– Ele é meu amigo! — tentou esconder o embaraço atrás da voz alta, mesmo que não fosse um método exatamente eficaz.
– E eu disse que não era?- Ela achou graça, começando a ficar um tanto desconfiada de suas reações mais intensas do que o normal — Toma aqui — mostrou a tela do celular em sua direção. — É o telefone dele.
Ele se apressou em pegar o seu e anotar o número, agradecendo à jovem.
Correu para o vestiário e ligou para o rapaz enquanto se trocava mesmo, não queria perder um segundo sequer.
Ouviu suas coordenadas e pegou o ônibus, chegando num hospital um tanto precário, no qual entrou e fez o cadastro necessário para entrar como visita, correndo de encontro ao outro rapaz.
– Wesley? — encontrou-o sentado numa cadeira no corredor.
– Ah...! — Ao ouvir o seu próprio nome, o rapaz se apressou em colocar os óculos escuros. Provavelmente era o tipo de pessoa que não gostava de incomodar ninguém quando estava triste, e muito menos que o vissem daquela forma tão deplorável. — Cê chegou mais cedo do que eu imaginava — mas o seu tom de voz anasalado o denunciava.
Talvez estivera chorando.
– O ônibus veio rápido — tirou a mochila do ombro e sentou-se ao seu lado, olhando. — Como ela tá? — tentou perguntar da forma mais suave possível, não desejando deixá-lo ainda pior do que já estava.
– Demoraram pra atender ela nessa bosta de hospital, por isso ela tá pior do que deveria estar — ele se curvou um tanto, parecendo respirar fundo para então voltar a erguer o rosto, olhando para o teto do local. — Só que agora ela vai ficar bem, vai sim. — Parecia falar mais para afirmar a si mesmo do que o outro rapaz.
Aquilo era difícil. Gostaria de abraçá-lo, ampará-lo, dar-lhe algum tipo de segurança, mas não sabia se era uma boa ideia. Contentou-se em colocar uma das mãos sobre seu ombro e dar leves batidinhas.
– Ela vai, sim. E você, vai passar a noite aqui? — conhecendo o rapaz, imaginou que sim. — Cê comeu alguma coisa, aliás?
– Eu tenho que ficar do lado da véia, todo o resto tá trabalhando também — o que indicava que ele tinha sido o único a sair do trabalho para correr desse jeito até ela. — Comi porra nenhuma, eu nem fiquei com fome até agora, que bosta.
– Mas você vai passar mal se não comer nada — franziu as sobrancelhas, puxando então a mochila para si e abrindo-a.
De dentro da mesma retirou um embrulho relativamente grande de papel alumínio. Ao abri-lo começou a mostrar dois cones de peixe muito maiores do que os de costume, entregando-os ao rapaz:
– Não estão muito bonitos, mas estão gostosos — estava constrangido com aquilo.
Na verdade, apesar do tamanho fora do comum, estavam muito bem arrumados e pareciam extremamente apetitosos. Apenas podia esperar que Wesley pensasse da mesma forma.
– Pffffft.... — O loiro deixou escapar ao se deparar com cones, segurando-se e começando a rir em seguida, chegando a apertá-los um tanto.
O luxo e o status daquela comida contrastava enormemente com a estrutura do hospital, mais adequado para uma marmita fria de arroz, feijão e ovo. Talvez fosse dessa ironia que estivesse rindo, embora não soubesse ao certo o motivo:
– E não é que cê ficou melhor mesmo nisso? — E sua voz começou a ficar suavemente embargada, enquanto começava a fungar, embora fizesse um esforço tremendo para evitar isso, dando uma grande mordida em um deles, suspirando.
Queria abraçá-lo ainda mais agora.
Abraçar bem forte e não soltar mais.
Mas não podia. Temia que ele não gostasse caso o fizesse, que sentisse nojo e o mandasse embora, e ele não estava em condições de ficar sozinho agora. Então apenas sorriu suavemente, como se aquilo pudesse consolá-lo um pouco:
– Está gostoso?
Ele apenas assentiu sem nada dizer, com medo que pudesse ter uma crise de choro, por estar tão fragilizado naquele momento. Ver alguém preocupado com ele o suficiente para lhe trazer comida também o havia deixado movido. Apenas esperava que não se engasgasse em meio ao nó da garganta que sentia.
Rodrigo ainda ficou ao lado do amigo por algumas horas, até ficar realmente tarde.
Conversou com o pessoal e conseguiu convencer, com certo custo, a deixar que ele levasse a cadeira para dentro do quarto da mãe, a fim de poder tomar conta melhor dela. Também conseguiu um travesseiro e um cobertor improvisados. Estavam puídos e cheiravam a mofo, mas ainda era melhor do que nada.
– Você precisa sair pra comer amanhã, baka — ainda disse, vendo-o se arrumar para tentar dormir.
– Eu procuro um salgadinho aqui por perto, oteucu — ele riu de leve. Ainda era impressionante como tinha capacidade para fazer brincadeiras naquele momento. — Ah... Obrigado — ele disse, um tanto sem jeito, arrumando os óculos escuros no rosto.
– Coma direito! — deu um leve tapa em sua nuca, sorrindo um tanto em seguida. — De nada. Eu preciso ir agora, já está tarde. Vê se liga pro pessoal no restaurante pra avisar a situação, viu?
Despediu-se dele e foi embora.
Apesar de sentir o coração aquecido por conseguir se aproximar um tanto mais do outro, ainda lamentava o acontecido. Era um momento horrível para a mãe dele passar mal, seria mais fácil caso não tivesse acontecido.
Chegou em casa e largou a mochila no chão, assim como largou a si mesmo sobre uma das cadeiras da cozinha, exausto mental e fisicamente.
– Rodrigo? Você chegou bem tarde hoje — o seu pai se aproximara com uma xícara de café em mãos, feita pela própria máquina que tinham em sua casa. Provavelmente um artefato de luxo que Wesley nunca seria capaz de ter em sua vida.
– Oi, pai — ele abaixou o rosto sobre a mesa e bagunçou o cabelo, suspirando. — Aconteceram umas coisas e eu acabei precisando ficar fora mais tempo. A mãe já tá dormindo? — considerava incrível que ela estivesse, sendo que não havia chegado até agora.
– Eu tive que acalmar a sua mãe. Agora ela já está dormindo — ele sentou-se logo a sua frente, fitando-o profundamente. — Mas é melhor você me contar o que foi fazer. A gente não tá acostumado a ter um filho que sai sem avisar. Não que você não possa fazer isso, só não combina com seu jeito, sabe.
– Ah — apoiou o rosto sobe os braços na mesa. — A mãe de um amigo meu do trabalho passou mal e depois eu fui lá ver ele — soltou um longo suspiro. — Cê tinha que ver, ele tava arrasado! Nem tinha comido nada — franziu as sobrancelhas ao dizer aquilo, sentindo finalmente todo o real pesar da situação em que Wesley se encontrava. Mesmo que ele morasse sozinho, a possibilidade de perder a mãe devia ser algo muito triste e desesperador.
– Então você fez algo bom — o seu pai acabou sorrindo um tanto, tomando mais um gole de seu café, para somente então voltar a observá-lo. — Parece que fazer parte de um emprego simples te ajudou a ver as coisas por outro ponto de vista, não é?
– Ah — novamente esfregou a mão sobre o cabelo, frustrado. — Acho que sim? Eu sei que tem muita coisa que eu queria não preciso, mas, cara! A mãe dele passar mal assim, de parar no hospital, que merda! — soltou sem pensar, apenas esperando não levar uma bronca do pai pelo palavrão. — E isso porque ele já é todo independente, mora sozinho e tudo, eu comecei a imaginar — parou repentinamente, soltando um grunhido.
– O que você começou a imaginar? — O seu pai perguntou, notando que ele tinha interrompido a frase, provavelmente sem coragem de perguntar. — Rodrigo, se ele mora sozinho, é provavelmente porque a mãe dele não deve mais ter condições de cuidar dele.
– Mas ele trabalha! — ergueu o rosto, fitando-o. — Ele não podia dar o dinheiro pra mãe e ajudar com isso? Por que precisa sair de casa? — ainda não compreendia. — Ele ficou ofendido quando eu perguntei, também — disse baixinho, temendo receber o mesmo tratamento ao fazer aquela pergunta.
– Você acha mesmo que alguém que gosta tanto assim da mãe a ponto de sair correndo do trabalho sem avisar pra ninguém ao receber um telefonema iria decidir morar fora de casa por puro luxo? — O seu pai perguntou, deixando a xícara sobre a mesa. — Você não tem a impressão que ele deve ter tido um motivo forte pra fazer isso? Eu não sei se ele tem mais irmãos, se a casa estava ficando muito apertada pra tanta gente, se seria uma pessoa a menos pra mãe dele se preocupar, pra fazer comida, pra passar a roupa pra ele, pra se desgastar menos e tomar mais cuidado. Mas ninguém sai de casa sem motivo algum assim. Não nas condições que ele vive, entende.
Rodrigo ficou calado por alguns instantes, não sabendo o que dizer. Nem havia o que dizer, seu pai estava completamente certo.
– Por isso ele ficou bravo com o que eu disse.
"Não é obrigação da mãe tomar conta dos filhos?" Lembrou-se daquela frase fatídica, levando uma das mãos à boca.
Como havia sido idiota! Precisava se desculpar imediatamente. Não, precisava fazer algo para compensar o que fizera, de alguma forma.
– A mãe já dormiu, né? — perguntou novamente, apenas para ter certeza. — Tem problema eu dar uma olhada nela? — estava realmente um tanto tocado por toda a situação.
– Você pode dar uma olhada nela. Eu acho que ela vai ficar feliz, mesmo sem saber — ele disse, abrindo um pequeno sorriso no rosto, não conseguindo entender ao certo o motivo, mas satisfeito por ver que o filho tinha encontrado um bom exemplo.
O rapaz então se levantou, dando um pequeno tapinha no ombro do pai antes de subir as escadas.
Entrou no cômodo onde a mãe estava e sentou-se na ponta da cama, fitando-a. Sorriu fracamente e sentiu os olhos arderem, passando as pontas dos dedos por sua testa. Observou-a por alguns instantes antes de levantar e ir para o próprio quarto.
Era tarde e precisava dormir, mas já tinha uma ideia do que precisava fazer para melhorar a situação.
Notas finais
Agora nosso Rô começa a acordar para a realidade da vida, não? Eu seria feliz se mais "otaquinhos" tivessem esse tipo de experiência também.
Fale com o autor