Número 002
7 Não se apaixone por mim, Akise!
Notas iniciais
Fiquei olhando meu braço e vendo o nome de Kun piscar por mais algum tempo. O nome desapareceu de vez e eu senti um aperto enorme no coração, no momento achei que Kun tinha morrido, mas então o nome voltou a aparecer.
Joguei-me na cama lentamente sentindo o alívio tomar conta de cada parte do meu corpo. Não contive o grande sorriso que se formou em meus lábios. Ele estava bem, olhei mais uma vez o meu braço e sorri. Ele e Yuno estavam vivos ainda. Ouvi a porta do quarto ranger, e W entrou por ela. W tinha o cabelo bem cheio e azul, arrepiado no fundo, mas com uma franja caída na testa, os olhos grandes e expressivos na cor vermelha como o de todos que eu encontrava ou conhecia por aqui. Ele era baixinho, deveria ter 1,45 no máximo. E o seu sorriso infantil e angelical me faziam lembrar Yuno.
– Posso entrar? – Ele perguntou com sua voz infantil, meiga e calma.
Apenas balancei a cabeça afirmativamente e sorri de forma amigável.
– Estamos sozinhos em casa, Laura e Gai saíram em missão. Eles foram caçar.
– Caçar? Como assim? – Perguntei desconfiado.
– É! – Ele riu. – Como você acha que conseguimos comida? Alguém te caçar, majestade.
Então ele era mais um que me chamava de majestade aqui dentro.
– Qual é a “do majestade”? – Eu perguntei tentando não me irritar já que ele era apenas uma criança.
Ele ficou pensativo por algum momento e então riu.
– Se eu contar, o Gai me mata. – Ele sorriu. – Posso sentar?
Balancei a cabeça novamente e dei espaço pra ele que sentou do meu lado na cama. Ele ficou me olhando nos olhos em silêncio.
– Então... – Eu perguntei.
– Nada, só estou pensando. – Ele respondeu mais sério.
– Pensando em que? – Eu perguntei novamente.
Ele sorriu como uma criança sapeca e então balançou a cabeça negativamente.
– Certo segredo então? – Eu perguntei.
– Aham! – Ele disso baixinho e gargalhou.
– Por que te chamam de W? – Eu tentei puxar assunto.
– Meu nome é Wayland, mas Laura achava meu nome muito grande pra mim que era pequeno, então resolveu me chamar apenas de W. – Ele disse sério e então olhou nos meus olhos de novo.
– Ah entendi, W. – Eu sorri. – Você faz com que eu me lembre da minha irmã.
– Yuno. – Ele disse, mas então pareceu se arrepender.
– Como sabe o nome dela? – Eu perguntei sério. – Eu nunca o disse.
– Bom, é uma longa história e como eu disse, Gai me mata se eu lhe contar qualquer coisa, ele mesmo que te dizer tudo no momento certo. – W me disse com seu jeito inocente.
Mas que droga, por que eles tinham que saber tanto sobre mim? Desviei o olhar de W e encarei o chão.
– E então... O seu dom já despertou? – Ele me perguntou.
– Não, ainda não... E pra falar a verdade eu não entendo bem como esse lance de dom funciona. – Fui sincero com ele. Mesmo ele sendo uma criança, eu sabia que podia conversar com ele de igual pra igual.
– O meu despertou logo depois que eu entrei aqui. – Ele disse. Olhou-me nos olhos. – A principio foi horrível, eu não sabia o que estava acontecendo, achei que estava desaparecendo.
– Como assim desaparecendo? – Eu perguntei sério e cocei minha cabeça.
– Eu... Bom, eu costumo ficar invisível. – Ele disse sério e meio envergonhado. – Laura me disse que nossos dons têm haver com o que somos, com os nossos sentimentos, e como eu sempre fui fechado e tímido, o meu dom me faz ficar invisível.
– Você não me parece tão tímido assim, pirralho. – Eu disse sorridente e dei um tapinha na cabeça dele.
– Não mais... Mas antes de entrar no jogo eu não conseguia encarar ninguém por muito tempo, odiava ficar em lugares cheios e morria de medo de pessoas. – Ele confessou. – E depois então que me flagraram beijando outro garoto eu queria sumir, eu desejei tanto ser escolhido pra fugir de lá, Akise. E isso aconteceu.
Eu o olhei e acenei a cabeça afirmativamente indicando para ele continuar.
– Eu ganhei o número 002. Não gostei nada daquilo, era atenção demais pra mim, e eu queria apenas sumir. Entramos no jogo, e o líder do meu grupo, era um dos meus colegas de escola. Nosso grupo foi atacando por tigres selvagens e o Roni, líder da minha equipe queria me deixar pra ser comido por eles. – Ele deu uma pausa e então me olhou nos olhos. – Ele disse que bichinhas como eu não mereciam viver.
Pude ver em seus olhos que a dor e a mágoa eram fortes em seu coração.
– Mas as duas meninas que eu sequer conhecia falaram que não, e por elas serem mais velhas e a Rita a líder, ele foi obrigado a cooperar e me salvar junto a todo mundo... Eu era o que menos sabia usar as armas que tinha vindo comigo. Eu tinha vergonha de fazer errado e isso travava qualquer coisa e eu me saia um desastre.
Ele me olhou sério.
– Desde quando... Bom... Você é gay? – Eu perguntei sério.
– Desde sempre, Akise. – Ele falou bravo. – Mas descobri o que sentia pelos outros garotos apenas com nove anos.
– Oh, me desculpe! – Eu falei realmente envergonhado e sentindo minhas bochechas corarem, que pergunta idiota eu havia feito. – Quantos anos você tem agora?
– 12 e meio. – Ele disse. – E nem adianta vir dizer que eu tenho cara de bebê ou que pareço ter no máximo dez anos. – Ele então riu.
– Certo tudo bem então senhor doze anos e meio. – Eu ri junto a ele. – Como você conheceu a Laura, e o Gai?
– Meu grupo foi atacado por outro grupo mais velho. Eles estavam matando um por um, Rita foi a primeira a ser morta. Kirill usou seus ossos nela. Era a minha vez de ser morto, mas o meu corpo começou a ficar estranho, e então meu braço desapareceu. Eu não sabia o que estava acontecendo, o medo começou a me dominar, Kirill me soltou assustada. Quando minha cabeça desapareceu, ela gritou que eu estava sem cabeça e saiu correndo. Eu entrei em desespero. Não fazia idéia que estava ficando invisível. Então sai caminhando sem rumo, sem braço e cabeça. Comecei a chorar e gritar, então Laura e Gai me acharam. Eu tive medo a principio, mas eles me deram comida, me explicaram sobre os dons e me prometeram que iriam me ajudar a controlar isso. Então eu resolvi me juntar a eles. – Ele deu uma pausa.
– Eu entendo... – Eu disse sério e me lembrando de Gai me salvando dos lobos.
– Só depois descobri que eles me encontraram graças a Gai que leu minha mente.
Eu sorri e ele também sorriu. W o garotinho de doze anos e meio, gay era realmente legal.
– Você é legal, W! – Eu disse sorridente.
– E você é gay! – Ele falou sério.
Quase cai da cama quando ele disse aquilo tão sério. Senti meu rosto corar e queria enfiar minha cabeça em um buraco ou poder ficar invisível como ele e sumir. Era a segunda pessoa que me dizia que eu era gay.
– Relaxa! Eu não vou contar pra ninguém. – Ele disse sorrindo.
– O que? – Eu disse ainda sem graça.
W se levantou e começou a caminhar.
– Só não se apaixone por mim, Akise! Eu ainda sou muito jovem para namorar você, talvez daqui a uns três anos. – Ele falou então riu. W saiu.
Fiquei olhando para a porta e ouvi a gargalhada que ele soltou. Ele era legal, mas sabia ser inconveniente. Mas então parei para pensar no que ele havia dito. Eu gay? Claro que não, claro que não mesmo.
Então me joguei na cama e fiquei ali pensando em como esse jogo funcionava, eu precisava descobrir logo se quisesse sobreviver.
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