Número 002
8 A calma às vezes dura muito pouco.
Notas iniciais
Duas semanas passaram rápido, e eu me acostumei com algumas coisas naquele jogo louco. Principalmente com meus amigos. Eles são realmente legais, eu gosto de estar com eles. E você deve estar se perguntando sobre o Gai. Bom... É divertido saber que ele não consegue ler minha mente e que ainda está tentando desvendar o que acontece. Mas sei lá, acho que isso o vem irritando, a mais ou menos uma semana ele está se mantendo distante de mim e me tratando de forma rude. Pra falar a verdade estou começando a achar que ele se arrependeu de ter me salvado daquele lobo, e principalmente de me trazer pra morar com ele e seu grupo.
Aquele dia estava sol e calmo. Laura resolveu que eu deveria ir caçar com ela e com Gai. Eu precisava aprender a fazer isso e conhecer o local certo, e mais um monte de coisa que eu não ouvi, pois estava conversando com W. O fato de eu não estar prestando atenção na conversa chata não incomodou Laura, mas isso realmente incomodou Gai.
– Akise, você está prestando atenção? – Gai perguntou sério.
Virei-me pra ele e balancei a cabeça afirmativamente.
– Isso não é brincadeira, porra. Se tu não souberes nem caçar, como lutará no mano a mano se for preciso? – Gai disse sério e se levantou da mesa e saiu. Nunca tinha visto ele dessa forma durante essas duas semanas. Ele bateu a porta com força.
– O-O que deu nele? – Perguntei envergonhado e olhando de W para Laura.
– Ele esta nervoso com alguma coisa. Só que eu não me atrevi a perguntar. – Laura disse baixo. – Mas se quer uma dica tem haver com você, Akise.
Fiquei pensativo. Como assim comigo? Eu estava atrapalhando? Gai não me queria mais com eles? Droga.
– Acho melhor eu ir falar com ele. – Eu disse me levantando da mesa.
– Akise... Eu acho melhor não! – W disse e tentou segurar meu braço.
– Acho melhor acabar logo com essa palhaçada! – Eu disse sério.
Sai da casa e encontrei Gai sentado em uma pedra em frente ao pântano. Aproximei-me devagar e parei atrás dele.
– O que está acontecendo? – Eu disse sério.
Ele se virou rapidamente. E me olhou meio assustado.
– Eu não te vi chegar, desde quando você está aqui? – Ele disse sério e então baixou o olhar desviando o meu.
Isso me incomodou, ele não parecia o cara de preto que eu havia conhecido a dua semanas atrás. Ele estava diferente, e eu não gostava, eu preferia quando ele sorria e me irritava...
– Gai eu nunca te vi assim desde que entrei nesse maldito jogo. O que está acontecendo com você? – Eu disse. – Tem haver comigo, não é?
– N-Não! Quer dizer! Sim! – Ele disse sério. – É complicado. – Ele disse por fim.
– Não seria se você passasse a me contar as coisas. Eu não sou nenhuma criança. Posso até ser um novato nessa droga de jogo. Mas não me trate como uma criança, Gai. – Eu disse sentindo a raiva me invadir. – Desde que entrei nessa porra de jogo e você me salvou você me impede de pensar, me impede de agir, me afastou até dos meus amigos. E pra quê? Qual o intuito disso? Você é o que mais sabe nessa porcaria por que lê mentes! Você consegue ler a mente dos que estão fora daqui, não é? É por isso que já sabia sobre mim. Por isso você sabia o momento certo que eu entraria. Você leu a mente de Yuno ou de Kun para saber qual decisão tomaríamos e onde eu estaria.
Ele nada disse, apenas olhou pra o pântano a nossa frente.
– Eu estou certo, não é? – Eu disse sério.
Ele me olhou.
– Porra! Diga algo. – Eu gritei.
– Tudo começou quando eu estava lendo a mente dos que estavam lá fora, eu queria saber o que estava acontecendo no antigo lugar que eu morava... – Ele parou e me olhou. – Então eu li seus pensamentos. Mas como já lhe disse antes, eles vinham em códigos e eu não consegui decifrar. Isso me deixou muito bravo, Akise. Como eu não conseguia ler seus pensamentos? Então eu comecei a perseguir você, até que conheci os pensamentos das pessoas a sua volta. Foi então que fiquei sabendo seu nome, o seu jeito. Passei a conhecer você. – Ele disse meio envergonhado. Talvez por estar me contando que estava me perseguindo na mente de outras pessoas. Ele voltou a falar. – E desde então eu comecei a buscar respostas para entender porque não conseguia decifrar as imagens que seus pensamentos mandam para meu cérebro. Então fui buscar na fonte. Fui buscar nos criadores desse jogo, eles teriam respostas. E realmente tinham...
– E quais são essas respostas? – Eu perguntei.
– Eu te odiava muito no começo, odiava você, sua irmã, e qualquer outra pessoa que tivesse vinculo com você. Então eu comecei a contar às coisas que sabia para a maioria dos jogadores; Eu trocava informações por armas ou comidas. – Ele ficou em silêncio. – Eu coloquei esse ódio neles, eles te odeiam por minha causa.
– E qual o motivo desse ódio? – Eu perguntei me sentindo um idiota, eu estava do lado da pessoa que fez todos os outros me odiar?
– Eu não posso lhe contar Akise. – Gai falou baixo.
Não pode me contar? O que tem por trás de tudo isso? Porque as pessoas me odeiam? O que eles ganham com isso? Por que eu estou aqui? Se ele me odiava tanto porque resolveu me salvar?
– E eu não posso confiar em você, Gai! – Eu disse sério e com a voz firme. – Não posso confiar em quem me conta as coisas pela metade. E se tudo que você me disse for mentira? E se você quiser me vender por informações?
– Akise, eu nunca faria isso! – Gai disse sério e me olhou.
– É isso que eu não sei Gai. Eu não conheço você, o único que lê mentes aqui é você. – Eu disse sentindo a tristeza me invadir. Eu tinha confiado nesse cara por duas semanas, e ele omitiu muitas coisas de mim, e pra ferrar com tudo continua omitindo. Eu não poderia ficar participando disso. Fiquei em silêncio por um tempo e olhando pro nada.
– Akise? – Gai chamou. – Akise!
Apenas sorri de forma sarcástica pra ele e virei voltando pra casa. Entrei em casa e subi a escada correndo. Entrei no quarto em que dormia e olhei pra cama. Chutei a mesma. Arranquei a roupa de Gai que eu estava vestindo. Roupa que ele deveria ter ganhado vendendo informações ao meu respeito. A respeito da minha irmã. Como ele podia? Peguei a roupa com que eu tinha entrado no jogo. Vestia e peguei minha espada que estava dentro do guarda roupa de Gai. A coloquei nas costas e arrumei minhas durmas armas. Olhei pra cama novamente. Eu sei, talvez estivesse sendo dramático demais, mas como eu saberia que tudo que Gai me disse até agora era verdade?
Abri a janela e saltei. Eu sabia que iria me quebrar todo, mas diferente do que pensei, girei e cai no chão com uma cambalhota amortecendo a queda. Olhei em volta e não tinha ninguém me vendo. Levantei e comecei a correr pela mata que Gai usou pra me trazer a essa casa. O lugar parecia totalmente diferente agora a luz do sol. Continuei correndo até estar longe dali. O tempo passou rápido e eu logo saí da mata. Olhei para o esgoto que eu tinha nadado junto a Gai e resolvi ir pro lado contrário.
Não sei por quanto tempo caminhei, mas isso pareceram horas. Logo cheguei a uma cidade. Muito bizarra por sinal, tudo na cidade era branca. Olhei em volta, mas não tinha nenhum ser vivo por perto. Sentei em um banco branco feito de mármore e descansei.
– Droga! Pra onde eu devo ir? – Falei sozinho e então levantei a manga da minha camiseta. Olhei o nome de Kun e de Yuno. Os nomes estavam lá.
– Porra! Eu quero sair daqui! – Falei mais alto achando que estava sozinho.
– Não vai ser muito fácil! – Uma voz masculina disse logo atrás de mim.
Olhei assustado, e fiquei mais assustado ainda quando vi que era Kun. Sorri e levantei rapidamente do banco. Corri em direção a Kun e o abracei com força.
– Kun! – Falei baixo e apertei meus braços em volta dele.
– É bom ver você também, Akise! – Ele disse baixo, mas senti que aquelas palavras não eram verdadeiras, tinha alguma coisa errada com ele.
– Você está bem!? – Eu perguntei me afastando dele.
– É... – Kun começou e então apontou para sua perna. – Sem uma perna, mas vivo. – Ele disse seco.
Quando vi que Kun tinha uma madeira amarrada a coxa servindo de perna postiça, senti meu estomago revirar.
– O-O-O que aconteceu com você? – Perguntei sentindo as forças que eu tinha nas pernas se irem cai de joelhos.
– Foi mais ou menos uma semana, Akise. Eu estava fugindo de uns gaviões de olhos vermelhos. Os gritos deles eram tão altos que me deixam louco. Eu tinha vontade de gritar junto. – Ele disse fazendo uma careta. Talvez se lembrando do que tinha passado. – Então eu me deparei com um tigre selvagem, mas não pense que era um tigre normal, Akise. – Ele gargalhou. – Esse tinha dentes de aço. E uma força gigante na boca...
– Kun... – Eu disse baixo.
Ele gargalhou e então me olhou nos olhos. Seus olhos não pareciam com os do cara que eu conhecia Kun não tinha essa raiva no olhar.
– E você sabe de quem é a culpa de isso ter acontecido comigo, Akise? – Ele perguntou sério.
Abri a boca para responder, mas Kun me impediu me dando um soco. Cai pra trás, sentindo uma dor horrível na boca.
– Kun... – Eu comecei.
– O que nós tínhamos combinado Akise? – Ele disse sério, o ódio agora estampado na sua voz. – Era tão simples, nós íamos fugir e depois nos encontrar na maldita torre. E o que você fez? Não apareceu. Eu tive sonhos estranhos enquanto dormia esperando por você e pela Yuno. No meu sonho descobri que tínhamos uma ligação forte, e que nossos braços eram marcados. Olhei no dia seguinte e o seu nome e o de Yuno estava lá, mas nenhum apareceu...
– Eu... – Comecei dizer, mas Kun me chutou.
– Eu ainda não acabei. – Ele disse. – Então, como eu ia dizendo. Vocês não aparecerem, e eu os fiquei procurando. Até que me aconteceu isso.
– Eu não tive culpa, Kun. – Eu disse baixo.
– Não teve culpa? Isso não importa mais, porque você vai morrer Akise Kane. Eu prometo que vai ser rápido. Não vai doer tanto, se outro fizer isso saiba que será pior... Eu tive outros sonhos, e eu sei sobre você, Akise! Eu sei tudo sobre você agora... Viva não é? – Ele gargalhou.
Senti uma dor imensa no meu peito. Então Kun também sabia sobre mim e me odiava agora?
Kun levantou sua lança de duas pontas pra mim.
– Adeus, Akise! – Ele disse.
Fechei meus olhos, e então ouvi um barulho de uma bota de chocando com algo, e então o grito de Kun soou alto. Sem demora abri meus olhos e vi Gai que apontava suas armas para Kun.
– Gai? – Perguntei confuso.
Próximo capítulo – O Rei Desperta.
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