Brittany tocou a campainha, enchendo os pulmões de ar, e esperou que fosse atendida pelos pais. Quando Liza abriu a porta, a mesma sorriu. Estava, verdadeiramente, surpresa. Fazia meses que a filha não ia por livre e espontânea vontade ali. O que será que estava acontecendo? Talvez, Marley tivesse aberto seus olhos. Aquela menina era um achado na vida da loira.

— Oi, mãe. Precisamos conversar.

— Brittany! Que bom te ver, meu amor... — Ela abraçou a garota e depois foi a recepcionando casa a dentro, em direção a cozinha onde Frank se encontrava. Levando em conta o seu bom humor de agora, era evidente que eles ainda não sabiam do término com Marley. Bom, isso era novidade. — Por que não usou suas chaves? Essa casa sempre vai ser sua, haja o que houver. Sabe disso.

— Eu não...

— Filha, que boa surpresa! — Seu pai a cortou, acenando sorridente de uma das cadeiras à mesa de café. — Já comeu? Temos panquecas olha, eu mesmo fiz! Aproveite!

— Na verdade, sim. Eu já comi. Estava na casa da Kitty, mas obrigada por perguntar. — Ela se acomodou em um dos lugares vagos, e sua mãe a imitou simultaneamente. — Então... Tenho dois assuntos sérios pra discutir com vocês.

— Somos todo ouvidos. — A Sra. Pierce fez questão de acentuar, ansiosa.

Brittany finalmente aceitaria assumir os negócios, só podia ser isso. Só podia ser. Mas, não era... Para a felicidade de uns, e nem tanto de outros, no caso seus pais mesmo.

— Primeiro, eu e a Marley terminamos.

— O QUÊ? Vocês o quê? — Liza abriu a boca, chocada. — Por quê?

— Você tá brincando. — Seu pai riu, não conseguia levar a sério tal revelação. E aí, se preocupou um pouco com o silêncio instalado na cozinha em seguida. — Não tá?

— Não. — Brittany negou, molhando os lábios secos na sequência. Como explicar? Decidiu usar as palavras de Kitty a seu favor. — A gente entrou em alguns conflitos de valores e percebemos que não dava mais, então acabou.

— Por favor... — A Pierce mais velha adotou uma expressão de culpada, enquanto levava uma mão para apoiar a cabeça. — Me diz que isso não tem nada a ver com as concessionárias.

— Em partes, tem sim. Não vou mentir.

— Fomos nós que insistimos pra Marley tentar te convencer, Brittany... — Frank ressaltou. — Não é culpa dela.

— Eu sei, pai. Mas, não foi por esse motivo que terminamos. Isso é algo que vem de meses atrás e não tem nada a ver com vocês, enfim... A outra coisa que queria falar era justamente sobre as concessionárias.

— Vocês pareciam tão bem e do nada isso agora? Exatamente depois da nossa visita? — Sua mãe parecia confusa. — E o apartamento de vocês? O que vai acontecer?

— É, não estamos entendendo nada! — O Sr. Pierce frisou.

— Certo. Bom, ainda não discuti com a Marley esse pequeno detalhe, mas eu pretendo sair de lá... Vou vender minha parte pra ela, ou a gente arruma um comprador pro imóvel e manda pra frente, preciso ver como vai ser e qualquer coisa aviso por mensagem. Mais uma vez, isso não tem nada a ver com vocês... Ok? — Ela olhou de um para o outro, mantendo-se obstinada no discurso. — Quanto ao assunto ‘concessionárias’, mantenho minha posição. Eu não vou assumir os negócios, também não vou mais aceitar dinheiro de vocês.

— Como assim não vai aceitar mais dinheiro? — Frank arregalou os olhos, preocupado. — Brittany, eu acho que...

— Não precisam se preocupar, pretendo devolver pra vocês cada centavo do apartamento depois que vender.

— Filha, não! — Liza balançou a cabeça em negativa. — Esse dinheiro é seu.

— Não, mãe... Não é. Sabemos bem disso. — Ela suspirou, abrindo um sorriso cansado. — Preciso conquistar uma casa com meu próprio salário.

— O que deu em você? — Seu pai quis saber, passado.

— Um instante, ainda não terminei. — Olhos azuis encararam o chão rapidamente, mais uma inalada no ar e Brittany voltou a fitar os mais velhos, para assim concluir tudo o que viera os contar. — Me deem um ano e meio...

— Um ano e meio pra que? — A Sra. Pierce indagou, desesperada.

— Pra provar do que sou capaz. — Ela enviou olhares firmes e contínuos para ambos os empresários. — Eu sei que não ir com a cara de um chefe não é lá um motivo muito razoável pra se demitir... Vocês e a Marley tem razão nisso, não é mesmo. É idiota até. Mas, essa não foi a única coisa que me fez deixar a outra editora, tá legal? Eu tenho um sonho, assim como vocês tinham quando estavam na faculdade... E eu espero de verdade conseguir transmiti-lo pro mundo através do desenho. Sei que não vai ser fácil, mas se eu não tentar eu nunca vou me perdoar... Então, um ano e meio é tudo o que eu peço. Se em um ano e meio eu ainda estiver parada no lugar, eu assumo os negócios da família e fim de papo. É isso.

— E-eu... — Liza olhou para o marido e para a filha, era uma surpresa atrás da outra. Estava sem palavras. Não sabia se se sentia feliz pela visita inesperada, triste pelo término das garotas ou esperançosa pela última parte citada pela filha, na realidade. — Nem sei o que dizer, e você Frank?

O homem apenas negou com a cabeça, igualmente pasmo com tudo aquilo.

— Tudo bem, vocês não precisam dizer nada. A única coisa que espero é que respeitem esse tempo, por favor. — Ela se levantou, pronta para deixar a casa. — Mãe, pai... Preciso ir agora, tenham um bom dia.

(...)

Não sabia se era por conta das noites mal dormidas, das horas extras, das ligações de seu pai, do trancamento da faculdade ou da série de situações estressantes que teve que passar nos últimos dias de uma vez só – isto é, todas as ocasiões anteriores somadas aos olhares de pena e julgamento de terceiros, e comentários desafortunados como o de Elaine; mas Santana estava com dor. Uma dorzinha crescente, muito semelhante a cólica menstrual, que dava a volta na lombar e começava a latejar abaixo da linha do umbigo. Não parecia nada demais quando começou, aliás até sumia de vez em quando, provavelmente era apenas ódio acumulado em seu âmago dizendo olá... Só que aí, as coisas pioraram.

Brittany voltou ao Breadstix, focada em continuar com as recentes ilustrações que fizera de um certo alguém, sentou-se na mesma mesa dos últimos dois dias e esperou. Eram sete e meia da noite, e o movimento típico de sexta-feira ao redores... E pensar que há apenas uma semana estava por ali com Marley e Sugar. Mais parecia com um mês. Tempo, de fato, é algo relativo. Olhos azuis enxergaram Santana servindo uma outra mesa, essa que estava mais perto do caixa em comparação a sua, e logo Brittany se equipou de seu caderninho e lápis. Coisa que não durou muito, pois a morena a visualizou e veio até ela. O semblante meio abatido.

— Oi... — Brittany disse.

— Boa noite.

— Tudo bem?

— Claro. — Santana forçou um sorriso imediato, ao passo que passava o menu do restaurante para as mãos da loira. — E você?

— Obrigada... Também. — A desenhista respondeu, não muito convencida com a fala da outra, mas desencanou na hora. Não era como se ela conhecesse a garçonete no fim das contas, então seguiu normalmente dali para frente. — Se quer saber, hoje resolvi ter alguma atitude.

— Ah, é? — Ela riu. — Isso é novidade.

— Pois é. Essa coisinha aqui... — Brittany levantou o cardápio. — Vai ser de grande utilidade pra mim. Agradeço, Santana.

— Disponha, Brittany. No fim, é pra isso que servem os cardápios, né?

Elas riram.

— De qualquer forma... Espero ser tão habilidosa quanto você pra escolher meus próprios pedidos.

A Lopez balançou a cabeça, risonha. Brittany era engraçada.

— Nesse caso, vou te deixar aí fritando a cabeça. — Avisou. — Daqui a pouco eu volto.

— Ok. — Brittany assentiu, com um sorriso sereno no rosto. — Só não se esquece de mim.

— Vou fazer um esforço, prometo. — A latina brincou, fechando a cara assim que deu as costas a freguesa. Estava com tontura, a visão ficando cada vez mais turva... Foi até Mercedes. — Tem alguma coisa errada comigo, Cedes.

— Ai, San... — Ela se preocupou, dando a volta no balcão. — O que houve?

— Eu comecei a sentir uma dor muito estranha umas duas ou três horas atrás, não sei, só que agora tá me dando tontura também... Não tô aguentando. — Santana a relatou, e sentiu algo escorrer em suas pernas. Olhou, assustada. — Dios mio, eu tô sangrando Mercedes.

Isso não era um bom sinal. Não para uma grávida entrando no 5° mês de gestação. O que estava acontecendo? Ela começou a se desesperar, sentindo algumas lágrimas correrem bochecha abaixo na hora. De longe, Brittany se atentou a cena anormal que ali acontecia.

— Calma. Vamos pro vestiário, está bem? — A gerente levou a amiga com ela até lá. — Olha...

— Eu matei meu bebê! — Ela respirou com dificuldade, pôs as mãos na cabeça. Mais lágrimas apareceram. Andou de um lado para o outro, na mesma proporção que a dor se alastrava do ventre para o resto do corpo. — Meu deus, meu deus... Por quê?! Eu não queria isso! Ai... Ai, tá doendo.

Levou a mão a barriga, mais tonta que antes. Parecia que cairia no chão a qualquer instante e, se não tomasse cuidado, cairia mesmo. A lombar doía, as pernas, a cabeça, tudo.

— San, respira. Por favor. — Mercedes a guiou até os bancos. — Senta aqui, isso... Você precisa ir pro hospital. Liga pro Sebastian, ou se preferir eu chamo um táxi.

— Não. Táxi, não. — A jovem negou, ofegante. Recuperou o celular. — Vou chamar o Sebastian.

— Tudo bem. Faça isso.

Como faltava cerca de duas horas para seu turno acabar, Sebastian não esperava que precisaria buscá-la mais cedo aquele dia. O rapaz também trabalhava àquela hora, a única diferença é que, como motoboy, não podia atender o celular tão facilmente assim, ou ler mensagens quando bem entendesse. E estava longe, e no meio de uma entrega. Santana não obteve resposta.

— Droga... Ele deve estar ocupado.

— Posso chamar o táxi agora?

— Não...

— Moça, moça! Espera! Esse lugar é apenas pra funcionários! — Uma garçonete veio dizendo atrás de Brittany, que simplesmente a ignorou e foi entrando no vestiário da equipe. — Por favor, você não pode invadir assim!

— O que aconteceu? — Olhos azuis acharam castanhos, que agora estavam avermelhados por conta do choro. — Você tá bem?

Santana negou.

— Desculpa, Mercedes. — A funcionária que seguira a loira falou, apreensiva. — Eu tentei impedir, mas ela insistiu...

— Tudo bem. Pode voltar ao trabalho, Suzy.

— Tem certeza? — Questionou fitando a desconhecida e depois Santana, de súbito. — O que houve?

— Depois eu explico. Nos dê licença, por favor.

A garota assentiu e foi embora. Brittany voltou a perguntar o que tinha acontecido com Santana e a Jones decidiu contar por ela, o mais depressa que conseguiu.

— Ela tá com dor, tontura, começou a sangrar agora pouco e precisa ir pro hospital urgentemente, mas não quer que eu chame um táxi.

— Certo... — Brittany compreendeu, assentindo. — Eu levo ela pro hospital.

— Não precisa. — Santana negou.

— Faço questão...

— Vai com ela, Lopez. Ou então vou chamar um táxi pra te levar. Você que escolhe. — Mercedes avisou. — O que vai ser?

Santana olhou de uma para outra, suspirando.

— Tá! Tá bom... Eu vou com ela.

— Ótimo. — A gerente olhou para a loira a seu lado. — Seu carro tá lá no estacionamento?

— Sim.

— Ok, vou acompanhar vocês até lá.

Brittany balançou a cabeça e se aproximou da latina junto a Mercedes, e ambas a escoraram até os fundos do Breadstix. Depois, andaram até o carro da Pierce, onde Santana se viu sentar no banco de passageiro após forrar o estofado com um pano que a Jones havia arrumado. Não havia notado, mas os bancos traseiros eram uma bagunça que só, lotados de caixas e papéis.

— Me mande notícias. — Mercedes pediu na janela.

— Vou mandar... Obrigada.

— Podemos ir? — Brittany quis saber antes de pisar fundo no acelerador, ambas assentiram. — Ok.

Durante o trajeto até o hospital, Santana a explicou o caminho, também aproveitou para mandar mensagens avisando tudo para Rachel e Quinn, que de prontidão a responderam. Era uma pena que nenhuma das duas tivesse carro... Se tivessem, não precisaria depender da gentileza daquela desconhecida do Breadstix. Bom, mas era isso ou pagar a taxa do verdadeiro roubo que é a passagem de um táxi atualmente. As coisas andavam péssimas... Só esperava com afinco não ter perdido o bebê, porque se perdesse jamais se perdoaria. Jamais.

Notas finais
Seguinte, é muito provável que a próxima atualização demore um pouquinho pra sair porque tô atolada de coisas pra fazer nas próximas duas semanas e tô meio louca já, então não estranhem meu sumiço. Até ♥♥