Névoa de Guerra

4 O Conselho em Noxus


Katarina

Kat observava as armas com desânimo e talvez um pouco de tristeza. Qual a graça de ter um salão de armas, se tudo o que meus bracinhos magricelas seguram são adagas e facas? O general a seu lado estava também surpreendentemente desinteressado no armamento. "Uma armadura e um machado bem amolado são tudo o que um homem precisa para matar", ele dizia. "Noxus não precisa das runas e magias". Kat tinha profundo respeito e uma crescente insolência quanto a Darius. Tem bons miolos na cabeça e bons músculos nos braços, mas acho que o tolo só usa um de cada vez. Ela não gostava nada da amizade entre o general e o tal Swain — afinal, Jericho Swain era ativo usuário de magia, coisa que Darius desaprovava publicamente. Uma relação pai e filho ou só submissão?

– Me agrada saber que a casa Du Couteau é bem protegida. — Disse o general Darius, com sua voz firme, enquanto observava e manuseava uma imensa espada montante. — Tenho ouvido maus rumores sobre a guarnição de sua família.

Aquilo não surpreendeu Katarina. As armas do salão estavam guardadas há muito, e os guardas logo espalharam cochichos de que os Du Couteau estavam em falta de munição. Todos tão tolos. A melhor munição fica nas cozinhas, mas Noxus sempre quer glória, e maças e espadas são mais gloriosas que facas.

– Poucos têm acesso ao salão, aí já sabe no que dá.

Darius ignorou o comentário e arrastou a lâmina da montante sobre o mármore onde ela havia estado, deixando alguns arranhões fundos.

– Precisa ser amolada seriamente. — Ele disse, sempre solene. — Esse mármore devia ter se partido ao meio.

– Não se parte pedra ao meio arrastando uma espada. — Kat riu. — Lâminas afiadas não combinam com braços sem força.

O general nada disse. Com as duas mãos e com esforço admirável, ergueu a montante até a altura dos ombros e deixou que a lâmina deslizasse automaticamente até a pedra, por pura força gravitacional. A pedra se partiu em três.

– Braços com força não combinam com lâminas cegas. — Darius comentou, olhando-a friamente nos olhos. — Combinam com um bom machado, e machados se amolam em pescoços inimigos.

Katarina encolheu os ombros, fazendo seu melhor para parecer indiferente.

– Então tá.

A razão daquela incômoda visita foi ter certeza de que Noxus estava bem carregada de armas e munição. Representantes de Ionia, Demacia e Freljord estavam a caminho da metrópole noxiana para o Conselho de Guerra, motivado pela recente criação de uma entidade, a Liga. Superestimam bastante as pessoas ao chamá-las de Lendas, Kat pensou, rindo cansadamente. Preciso de um banho quente e um colchão de plumas. Já vi tantas armas que posso desenhar uma a uma — isso sem contar que meus pés doem.

Saíram do salão de armas da mesma forma que entraram: nervosos. Kat movia os dedos das mãos incansavelmente, com um pressentimento estranho, algum tipo de intuição que a sussurrava sobre uma ameaça próxima. Resolveu cortar o silêncio macabro falando sobre futilidades.

– Não vá ao Conselho de armadura. — Ela começou um tanto apressada. — Podem pensar que você os considera perigosos ou algo assim, entende? Gera todo um motivo pra briguinhas em voz alta.

Darius cuspiu no chão e deu a ela um rápido olhar de descrença.

– Fala isso, mas se for de corpete e saias ao Conselho, vai carregar todo um estoque de facas nos espartilhos. — Um projeto de sorriso atravessou seu rosto, numa plena expressão de uma pessoa que se orgulha de outra. Aquilo fez Kat sorrir também.

Naquela noite, ela só pensava em como seria tensa a próxima manhã. Noxianos, demacianos, ionianos... Acho improvável que Freljord venha, ela divagava, toda espalhada na cama macia e coberta por um lençol branco. Fazia frio, mas ela não usava cobertores mesmo assim. Lã é pesada, e peso atrapalha as reações à investidas. Certa vez seu pai lhe contara a história de um certo jovem da família, que instigava o ódio nos vizinhos e vassalos, e fora atacado enquanto dormia — o intenso inverno o obrigara a dormir com dois cobertores de lã, e ele não conseguira se livrar das cobertas rápido o bastante quando o assassino já estava em seu quarto.

No dia seguinte, teve que sair com casacos. Preferia de fato ir ao Conselho de corpete e saias, à mais nova moda noxiana, porém o frio ditava as regras. Se divertiu um pouco girando o sobretudo com seus movimentos e foi ao Conselho em uma caranga vinda de Zaun — a cidade estava à frente do resto do mundo em tecnologia. Metade de Noxus usa carruagens, a outra metade usa cavalos, e só alguns desgraçados ricos como eu compram carros de Zaun. Às vezes a injustiça a afligia.

O Conselho, que aconteceu na cúpula do Alto Comando de Noxus, estava demasiado cheio. Katarina pensou que poucos aguentariam subir até lá encima, mas se enganou completamente. Aquilo a divertia: ninguém estava disposto a perder a oportunidade de entrar naquele edifício macabro, construído sobre uma grande pedra de forma a simular um crânio em sua fachada.

– As ruas subterrâneas da cidade são impressionantes. — Ouviu uma voz feminina dizer. — Mas me parecem mal cuidadas.

São mal cuidadas. — Uma voz masculina afirmou. — A Lei Marcial está sugando a decência de Noxus. — Ao ouvir aquilo, Kat não pode fazer nada além de concordar. Porém, ao ver quem afirmara sobre a decência noxiana, seu rosto ficou vermelho e quente de fúria.

Você.– Ela disse, mais alto que o necessário. Andou a passos largos até seu alvo: o general que ela recebera ordem de matar, e acabou ganhando uma cicatriz no olho esquerdo por sua tentativa. — Apesar de tudo, ainda ousa pisar em solo noxiano? Cuidado com o que for dizer no Conselho. Tenho ouvidos por toda parte.

O homem riu, sua risada transformada em vapor no ar frio. A mulher loira que conversava com ele olhou para Katarina com medo.

– G... — A loira começou, cutucando o general no braço esquerdo. Estava claramente sentida quanto à última ameaça de Kat, sobre ter ouvidos em toda parte. — Garen. Acho que essa senhora está falando de Talon.

– Ela não é nenhuma senhora. — Disse Garen, cruzando os braços. — É Katarina Du Couteau, uma dama que preferiu adagas a jóias. Tentou me matar uma vez.

– Só não o matei porque pediu tropas. — Katarina completou, ríspida e apunhalando-o com o olhar. — Se fosse só eu contra você, com certeza essas adagas estariam na sua garganta, e eu teria tempo pras jóias. — Lembrar daquele fato a fazia tremer de raiva. A confiança que tinha de seu pai fora prejudicada, e todos os dias teve de olhar no espelho e ver um olho cicatrizado. Maldito demaciano. Um dia enfio uma faca em seus dois braços, bem nos ombros, para não movê-los. Então eu ponho outro par de lâminas nos joelhos, outro parzinho nos tornozelos e por fim nos cotovelos, daí o assistirei tentar se mover com articulações inúteis. E então envolvo aquele pescoço branquelo com minhas mãos, e ele nem conseguirá erguer os pulsos para me parar.

– Sangue para Noxus. — Kat sussurrou, ainda fitando o general Garen, que a ignorou com um risinho e entrou no Alto Comando com a loira ao seu lado. De costas, ele era um alvo fácil, sempre foi, mas a Katarina antiga era imprudente e fora totalmente derrotada por uma dúzia de soldados demacianos, aqueles malditos que berravam Demacia em quase todos os ataques. Podia jurar que vira Garen assistir ao banho de sangue. — Se os deuses estiverem ao meu lado, será seu sangue que Noxus terá.