Tudo aquilo era muito doido.

Mesmo depois de João me explicar aquela história umas cinco vezes no mínimo, eu não conseguia acreditar naquela babaquice: a Bianca tinha dado dinheiro pro Pedro namorar a Karina.

Bianca vendeu Karina pro Pedro.

Muitas coisas, ao meu ver, não se encaixavam. O primeiro choque foi o valor, pois eu sabia que Bianca com certeza não tinha 2000 reais pra isso. Mas João logo em seguida me contou do rolo todo sobre o empréstimo com o Duca. Nessa parte eu não aguentei e gargalhei... o herói Duca foi feito de trouxa pela namoradinha. Agora estava explicado porque eles terminaram daquele jeito.

João estava péssimo. Já tinha bebido duas garrafas de água e não parava de suar, mesmo com o ventilador na cara dele. Acho que ele só aceitou ficar repetindo os fatos e responder todas as minha perguntas porque talvez acreditasse que a história poderia ficar menos ridícula se contada milhares de vezes.

Mas não ficava. Eu ficava mais inconformado a cada nova informação.

– Cara, que coisa doida. Eu jurava que o guitarrista gostava da Karina.

– Ele gostava. Na verdade, tinha uma queda enorme por ela. Mas ela era muito marrenta, só batia e só fazia ele de otário. Daí ele ia desistir... ela é muito difícil e o Pedro antes só queria dar uns pegas nela.

– Mas daí ele viu as notinhas e mudou de ideia. — sentado no balcão, eu batia as pernas — sempre achei que de poeta romântico e a favor do amor aquilo ali não tinha era nada.

João jogou a garrafa para o lado e estendeu a mão pedindo uma terceira. Aquele garoto ia me falir. Desci do balcão e busquei a água, entregando na mão vacilante dele.

– Ele estava desesperado querendo gravar a demo da banda... o negócio lá custa caro. O Pedro é uma ótima pessoa, mas não pensa. Viu a oportunidade e nem pestanejou: foi de encontro a ideia da Bianca de braços abertos.

– E o acordo era namorar por quanto tempo?

– Não combinaram isso. Acontece que o Pedro, motivado pelo dinheiro, fez o possível e o impossível, mas conseguiu amolecer a fera. A Karina virou outra pessoa.

– Então ele começou a gostar de verdade?

– Gostar? O Pedro não admite, mas tá completamente apaixonado pela pequena esquentada. Nunca vi ele tão feliz.

– É, né. Conseguiu a grana que precisava.

– E conseguiu uma gata pra namorar. Como ele mesmo diz, o melhor dos dois mundos...

Suspirei e dei uma olhada no relógio. 20h30. Não queria nem imaginar se encontrassem o João aqui comigo. Pensei em pedir para ele ir embora, mas para onde ele iria? Para casa e enfrentar Bianca?

– E o que aconteceu... por que você contou pra ela?

João fez cara de choro e escondeu o rosto nas mãos. Essa parte da história era um novo capítulo para ele me contar.

– Cara, eu não queria falar. Eu tava discutindo com o Pedro. Tava pedindo pra ele parar de ficar atrás dela o tempo todo e dar uma atenção pros amigos dele... mas o Pedro não sabe falar sério. Começou a brincar e eu perdi a cabeça. Comecei a jogar na cara dele sobre o acordo... em alto e bom tom...

– E daí a Karina apareceu.

– Sim, do nada. Ela nunca vai pra lá aquele horário.

– Mas ela ouviu tudo?

João engoliu seco e pela primeira vez, me encarou com os olhos cheios de lágrimas.

– Não. Ouviu umas palavras isoladas... e de verdade? Dava pra ter enrolado ela. Mas eu fiquei tão puto com tudo isso, tô de saco de cheio...

Comecei a rir.

– Que filha da putagem... daí você terminou de fuder tudo e contou pra ela?

João começou a chorar.

– Contei!

Me sentei ao lado dele e comecei a dar socos no ombro dele para que ele arrumasse a postura.

– Que isso, viciadinho. Nem parece homem.

– Eu estraguei o namoro do meu melhor amigo, cara.

– Que namoro, meu chapa? Aquilo era mentira. Você não fez com boa intenção, mas pelo menos acabou com isso. Se eles se gostam tanto como você diz, eles vão se resolver e voltam... mas sem mentira dessa vez.

João pareceu se acalmar um pouco e sua respiração começou a voltar ao normal.

– E a princesa do drama?

– Bianca? Gritou que me odeia. Não é novidade.

Dei risada e baguncei o cabelo dele.

– Cara, não ligo de você ficar aqui. Até te ofereceria um lugar para dormir mas você sabe. Se te pegam aqui, claro que sobra pra mim.

João balançou a cabeça concordando e se levantou. Enxugou os olhos e deu uma batidnha no meu ombro, agradecendo.

– Vê se para de boiolice. Eles vão querer descontar tudo em você. Tenta se resolver com o guitarrista.

– Tô preocupado com a Karina.

– Pra onde ela foi?

– Não sei. Tenho medo dela fazer besteira. Da vez do Duca, Bianca me disse que ela arranjou briga na rua e saiu machucada.

– Verdade. Fica tranquilo, hoje ela chega inteira.

– Como pode saber?

– Eu conheço a Karina.

João me olhou desconfiado e seguiu para a porta. Olhou para verificar o movimento, mas a praça estava deserta.

– Pra onde você vai?

– Acho que vou pro meu pai. Ligo pra minha mãe de lá. A casa do Gael vai virar um inferno e eu não quero participar disso.

– Melhor coisa que você faz. Tchau.

– Tchau.

João saiu correndo do QG e eu desabei na cadeira que ele deixou, puxando os cabelos.

"Ela arranjou briga e chegou machucada...". Eu podia sentir: Karina mais cedo ou mais viria atrás de mim, atrás da minha brutalidade.

Nas horas que se passaram, eu não conseguia fazer nada direito. Comi qualquer porcaria que se vende no QG e não conseguia pensar em ver filmes. Como paranoia, espiava a porta de 5 em 5 minutos. A maldita história do acordo martelava minha cabeça. Karina deveria estar arrasada, não devia ser fácil saber que só estão com você por dinheiro.

Quando o relógio marcou 1 hora, eu decidi que era hora de ir dormir. Escovei os dentes, arrumei algumas coisas no meu quarto arranjado e segui para a loja para apagar as luzes. Estava com a mão no interruptor quando ouvi a batida forte e precisa na porta. Ao contrário do eu imaginei que faria. não exitei. Segui apressado para a porta e abri sem ver quem era.

Karina entrou me empurrando e encostou na parede lateral da loja. Tranquei a porta e me aproximei dela.

Nunca, na minha vida, eu pensei que ela pudesse passar tanto sofrimento.

– K... eu fiquei sabendo... — comecei meio sem graça — mas olha. Eu não vou lutar com você.

– Cobra, eu não quero lutar — a voz de Karina era um sussurro, rouca — eu quero que você me ajude a esquecer isso... só por hoje.

Notas finais
Sei que falei que ia acontecer nesse capítulo, mas comecei a escrever e vi que precisava dessa conversa com o João pra explicar. No próximo, prometo que rola!!! HAHAHAH To muito feliz pelos comentários... continuem e me digam o que voces acham que vai acontecer!!