Não vai embora.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Perto das 11h eu ainda não estava com fome. Decidi buscar alguma coisa leve para comer já que Thawick estava cuidando do QG naquele turno. Na volta, dei de cara com Karina saindo apressada de casa, distraída lendo umas folhas.
– Boa tarde, novinha.
Chamei sua atenção para que me olhasse.
– Oi, Cobra.
Karina tirou os fones de ouvido e colocou as mãos n bolso da calça, visivelmente sem graça. Depois que fui expulso, nos falamos poucas vezes. Nossa relação era restrita a cumprimentos, palavras breves... e olhares. Sempre sabíamos quando o outro estava tendo um dia ruim. Não falávamos nada, não nos procurávamos... mas sabíamos.
– A gente se vê. – disse aquilo que eu sempre dizia.
– É, a gente se vê.
Ao se virar para ir, deixou escapar uma das folhas. Inocentemente, ela decidiu abaixar-se para pegar... bem na minha frente. Karina abanou a mão em uma despedida e seguiu com pressa para o ponto de ônibus.
– Apreciando a boa vista, Cobra?
Foi inevitável. O sorriso de deboche veio antes que eu evitasse assim que ouvi a cutucada do guitarrista. Me virei e encontrei Pedro de braços cruzados, visivelmente incomodado com minha indiscrição.
– Maravilhosa. Se você não fosse tão inconveniente dava pra ter aproveitado mais um pouquinho.
Pedro riu como se eu tivesse falado alguma coisa bem engraçada. Patética forma de tentar me desconcertar.
– Olha bastante. É o máximo que você vai conseguir fazer com ela.
– Olha, guitarrista. Não sou o primeiro e nem o último que vai olhar pra bunda da sua namorada. Não sei porque você tá sempre tão preocupado comigo, mas te garanto uma coisa: eu não quero nada com a Karina. Só gosto do papo dela. Entendeu?
Pedro sorriu duvidando de mim.
– Entendi.
– Então estamos conversados. Agora dá licença que eu preciso trabalhar.
Segui para o QG deixando Pedro para trás com cara amarrada.
Por volta do fim da tarde o tempo fechou. Eu e a Thawick fechamos as janelas e aos poucos a clientela foi indo embora com medo da chuva. Dei uma ajeitada no caixa enquanto Thawick tinha colocava o lixo para fora. Estava tão distraído fazendo contas que nem me dei conta de quem havia entrado que nem um furacão. Percebi a presença da pessoa quando ela apoiou as mãos no balcão com força e puxo meu queixo para eu a olhasse.
Karina.
– Por que tava me olhando?
– Como é, garota?
– Hoje de manhã. Você tava olhando eu e o Pedro.
A firmeza na voz dela me desconcertou. O que ela poderia ter imaginado? Nem eu tinha uma resposta coerente, nem eu sabia porque tinha ficado tão interessado.
– A pegação fora de hora me chamou a atenção – voltei a contar as notas para não precisar encarar aquele mar azul – seu Gael ia ficar contente em saber que a caçulinha tá com todo aquele fogo no meio da praça, hein?
– Cala boca, Cobra. Nada do que ele já não tenha visto ou não saiba. Estamos falando de você.
Fechei o caixa com brutalidade e Karina se assustou, dando um passo para trás. Era assim que a tratava quando queria distancia: sendo bruto. Ela sempre achava que eu acabaria machucando ela por perder o controle.
– Que saco, garota. Só tava olhando, assim como muita gente. Não tô interessada na sua vida. Vaza.
Virei de costas e fingi arrumar as prateleiras de suplemento. Ouvi a respiração pesada e sabia que tinha a magoado de novo. Não conseguiria encará-la.
– Vai embora, Karina. Não tem nada pra você aqui.
– Você sempre me manda embora.
Eu conhecia aquele tom de menina decidida. Era um aviso que ela não sairia dali tão fácil sem antes conseguir o que queria. E mais uma vez, fui obrigado a sair dos limites e ameaça-la da pior forma, da forma que mais a deixava com medo.
– E você sempre fica – contornei o balcão e me aproximei do seu corpo, sentindo Karina encolher nitidamente com medo e vergonha da aproximação – que foi? Tá querendo o que eu prometi da outra vez?
Karina fixou o olhar em mim, nitidamente incrédula por estar sendo ameaçada da mesma forma de novo. Ela ia dizer algo, mas desistiu.
– Você ainda não sabe brincar. Vaza, garota. Tô te avisando.
Karina tentou permanecer firme e eu precisei agir para que ela fosse embora. Com rapidez para que se assustasse, envolvi a cintura de Karina com as duas mãos e com brutalidade a puxei de encontro ao meu corpo. Senti os músculos dela tensionarem com o susto e a ouvi ofegar. No instante seguinte, Karina me empurrou com força e saiu correndo.
Na entrada, ela trombou com Thawick. Meu amigo viu a situação de Karina e precisou de poucos segundos para entender o que tinha acontecido.
– Cobra, ela não fez nada pra você.
– Ainda, Thawick. Ainda.
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