Choveu muito naquela tarde. Eu e Thawick fechamos as portas do QG para que o vento não trouxesse para dentro a sujeira da rua. Ventava muito, e quase não se via mais pessoas ou carros na rua.

– Que chuva, cara. Bem em uma sexta-feira. É pra acabar com o role — comentou Thawick, observando a tempestade pelas portas de vidro.

– É de açúcar, por acaso? Você tem carro, não pira.

– Mas hoje eu tava combinando com um pessoal de fazer um luauzinho na praia. Mas pelo jeito miou. — Thawick tirou o celular do bolso e começou a digitar uma mensagem de texto — E você, Cobra? Onde vai hoje?

– Ah, nem ia sair mesmo. To cansadão.

– Nenhuma gatinha? Já foi melhor.

– Cala boca. — revirei os olhos enquanto limpava o balcão — não to com saco nem pra mulher nenhuma.

– Percebe-se por hoje.

Levantei os olhos do balcão e encarei Thawick.

– Como assim?

– A Karina. Vi a cara dela quando saiu daqui... o que você fez? Tentou tirar uma casquinha dela de novo?

Dei risada. Peguei uma cadeira e me sentei ao lado dele, passando a observar a chuva e a rua também.

– Eu só gosto de zuar com o medo que a Karina sente de mim. Meu tipo é outro.

– Qual seu tipo Cobra? Se chamar de mãe e não responder, tá valendo?

– Até parece... pego muito mais gata que você — Thawick reclamou quando eu dei um soco de leve em seu braço. — Gosto de mulher mais charmosa, que provoca, que sabe deixar homem com vontade... Karina é muito neném pra essas coisas ainda.

– Sinceramente? — Thawick me olhou de lado e deu um sorriso malicioso — eu adoraria ensinar umas coisinhas pra ela.

Travei a mandíbula e senti meus dedos se contraírem, como se eu fosse me preparar para dar um soco. Respirei fundo e continuei a olhar fixamente para as portas de vidro, não demonstrando a raiva que eu tinha sentido com aquele comentário. Thawick não percebeu minha tensão e continuou a sorrir como se estivesse imaginando alguma coisa.

– Lembra daquela foto que a Jade postou dela na festa da Ribalta? De roupa íntima? Tenho gravada no meu celular. Altas homenagens pra ela.

– Cara, ela só tem 16 anos.

– Só tem 16 anos e já é toda gostosinha daquele jeito. Imagina se...

– Para Thawick, ela nunca vai te dar bola.

Soltei aquilo e no momento seguinte me arrependi. Thawick parou de falar e me encarou com uma cara engraçada, como se eu tivesse falado algo muito ridículo. E talvez fosse exatamente isso o que tinha acontecido.

– Ihh... quero nada com ela não. Não quero ter que enfrentar o Mestre Gael não... e também ela já tem dono. Tá nervosinho, Cobra?

Me levantei e fui até a nossa geladeira dos fundos pegar uma garrafa de água. Era o tempo que eu precisava para respirar fundo e voltar ao meu normal.

– Claro que não. Só acho perda de tempo você ficar se masturbando pensando em uma menina de 16 anos.

– Nunca fez umazinha pensando nela?

A chamada no celular de Thawick me salvou. Ele viu o identificador e saiu correndo para os fundos para atender, provavelmente era alguma mina que ele tava afim. Se ele ficasse, eu responderia não na maior cara de pau.

Claro que eu já tinha pensado nela daquele jeito.

Aliás, várias vezes. Karina não sabia provocar ou se insinuar. Não sabia usar o corpo a seu favor e não era nem um pouco charmosa. Mas sem saber, ela me provocava todos os dias. Quanto mais larga e masculinas fossem suas roupas, mas meu cérebro criava imagens tentando descobrir o que poderia ter por baixo daquilo tudo. Quanto mais marrenta ela era, mais eu queria mostrar na cama quem é que manda. Quanto mais ela xingava, só aumentava minha vontade de calar aquela boca suja com um beijo. Eu repetia todos os dias, quando a via passando com aquela calça colada para ir na escola: ela só tem 16 anos, Cobra. É uma neném. Mas o que é um cérebro tentando raciocinar quando se é um homem tarado que nem eu. Quando vi a foto do flagra da Jade, todo meu controle sumiu. Passei dias pensando naquele corpo e imaginando ela em todas as posições possíveis.

E para piorar, a ordinária tinha um rosto lindo. Me dei a regra de evitar ao máximo encarar aqueles olhos e aquele rosto perfeitinho. Ela me bateria se me ouvisse dizendo isso, mas ela era sim uma boneca.

É por isso eu a ignorava, a provocava de longe e a botava pra correr todas as vezes que ela vinha tentando ter contato de amigo comigo: eu morria de medo de perder o controle com ela. Karina já tinha me ajudado demais e jamais mereceria eu me aproveitasse dela desse jeito.

Cerca de 10 minutos depois Thawick voltou falando sobre algum role para a noite que eu não estava interessado. Consegui enrolá-lo a tarde toda para que ele não voltasse com o assunto sobre Karina. Por volta das 18h, Thawick começou a arrumar sua mochila para ir embora e eu comecei a abrir as portas e janelas do QG para dar uma refrescada, já que estava parando de chover.

Era o horário de Karina chegar da escola. Ela vinha distraída com seus fones e ao contrário do que imaginei, ela não olhou para o QG. Como todos os dias, ia seguindo para sua casa. Mas naquele dia ela resolveu mudar de rumo. Parou na praça por alguns segundos pensando no que fazer e então seguiu correndo para a fábrica. Saquei na hora: ela devia estar indo fazer uma surpresa para o guitarrista.

Thawick se despediu e seguiu para sua casa. Fiquei um bom tempo em um dos computadores procurando alguns filmes legais para ver a noite. Já estava decidido: filmes de terror e pizza iam ser meus companheiros da noite.

Ás 18h30 em ponto eu comecei a fechar as portas do QG. Estava quase trancando a última porta quando a movimentação na porta da praça me chamou atenção.

Como um furacão, Karina passou correndo na direção contrária a sua casa. Antes que eu pudesse imaginar o motivo, Bianca apareceu aos prantos gritando pela irmã e correndo atrás dela que nem uma louca. Atrás, vinha Pedro. Desesperado. Passou correndo por Bianca e literalmente berrava para Karina escutá-lo.

OK. Briga de casal. Mas o que a Bianca tinha a ver com isso? Por fim apareceu João na frente da fábrica. Esse nunca mudava de rumo: veio correndo na minha direção.

– Fechado, viciadinho.

Eu ia continuar com as piadinhas, mas quando João chegou perto de mim eu percebi que algo estava muito errado: ele estava pálido, suava muito e não conseguia se expressar direito.

– Vão... me matar. Bianca... o Pedro nunca mais...

– Entra, moleque.

João entrou no QG e eu desci as cortinas para que ninguém visse ele ali. Acendi as luzes enquanto João caia em cima de uma cadeira, transtornado.

– O que você fez?

– Eu contei pra Karina.

– Contou o que?

– Do acordo.

– Que acordo?

Me ajoelhei ao lado e comecei a ficar preocupado que ele fosse passar mal dentro do QG. Todos iam me culpar. João começou a chorar e escondeu o rosto nas pernas.

– A Bianca pagou o Pedro pra namorar a Karina.

Notas finais
PESSOAL LINDO!! Nessa fic não vai ter Cobrade, mesmo eu shippando muito. É que eu quero dar foco no trio apenas. Continuem a mandar comentários fooofos! No próximo capítulo, FOOOOOGO!