Chocolatte


















Eu tinha finalmente escrito a carta para o meu pai, entreguei a Mariette e ela saiu voando imediatamente pela janela. Todos estavam no salão de banquetes jantando.

— Susie! — Lúcia entrou no dormitório.

Eu já havia me trocado, estava usando meu pijama, encarando a janela por onde Mariette tinha saído.

— Agora não Lúcia...

— Sinto muito... Se quiser, eu posso falar com a Sarah para ela te pedir desculpas.

— Não, não precisa...

— Por quê?

— Todos estão irritados comigo pelo o que eu fiz... Ninguém precisa pedir desculpas.

— Mas não podemos deixar as coisas assim, precisa haver um pedido de desculpas, ainda podemos conseguir os pontos de volta, antes mesmo do natal!

— Agora já é tarde...

— Por que está dizendo isso?

— Acabei de enviar uma carta ao meu pai... Amanhã ele vai vir me tirar da escola.

— Não Susie! Por favor... Você ainda pode enviar outra carta! Pego uma coruja emprestada-

— Não!

— Mas...

— Acho que é melhor assim Lúcia... Nada tem dado certo desde que vim para cá, acho que a única coisa boa que aconteceu foi você...

— Susie...

Ela se aproximou e tocou o meu ombro.

— Ma-mas também tem a nossa investigação! Você quer ir embora antes de resolvermos tudo?

— A Lorie vai cuidar disso... E você pode ajudar ela — acrescentei —, já que é tão fã dela.

Lúcia balançou a cabeça e se sentou ao meu lado na cama. Ela tentava encontrar algo que me fizesse ficar.

— Eu já me decidi... Então não tem nada que me faça ficar.

— Mas e eu? Ficarei sozinha sem você comigo... É a minha única e melhor amiga!

— Ainda estamos no início do ano escolar, você ainda pode fazer novos...

— Mas ainda tem o Halloween! Nossas fantasias...

Balancei a minha cabeça. Lúcia começou a chorar e me abraçou forte, eu a abracei de volta. Lúcia foi a minha melhor amiga, fiquei próxima dela como nunca fiquei de outra pessoa antes...

doc

No dia seguinte as minhas malas já estavam prontas, Lúcia adormeceu comigo na cama, ficou abraçada comigo a noite toda.

De manhã, todos os Lufanos me encaravam feio durante as primeiras aulas, Lúcia frequentemente tentava me distrair falando de assuntos aleatórios.

— Susie, seu pai está aqui na escola... — A professora Milore disse enquanto nos via sair do salão.

— Então ele já chegou...

Lúcia me olhou desesperada.

— Susie fala como ele! Diz que ele já pode ir...

— Não Lúcia...

Ela abaixou a cabeça e a professora Milore se aproximou.

— Você está indo embora, não é?... Eu não queria que as coisas fossem assim... Por que não fica mais um pouco? Talvez mude de ideia.

— Não professora, eu já me decidi, e está tudo bem... Acho que criei esperanças demais para Hogwarts...

— Você foi a melhor aluna que já tive desde que cheguei.

Ao ouvir isso, eu sorri contente.

Alguns alunos logo ficaram sabendo que eu estava indo embora, Sarah inclusive — que jogou tinta em mim antes. — veio pedir desculpas.

— Eu sinto muito Susie, não queria ter agido daquele jeito... Se você está indo embora por minha causa, eu queria que reconsiderasse...

Olhei seu rosto enquanto ela tocava o próprio braço, parecia realmente arrependida.

— Não é por causa de vocês... Estou indo porque não aguento mais ficar e arrumar confusão... Lufa-Lufa me acolheu como parte de uma família, vocês foram bem legais e pacientes comigo, bom... Acabei estragando tudo e fiz vocês perderem a paciência no final das contas, mas...

— N... Não é isso...

— Está tudo bem...

Me virei e olhei meu pai na ponte, Anaria estava com ele, segurando as minhas malas e me olhando ansiosa e preocupada.

Lúcia — que vinha correndo com a gaiola vazia da Mariette — parou arfando.

— Achei a gaiola da Mariette, Susie... — ela segurava o choro enquanto entregava a gaiola.

— Obrigada Lúcia. — peguei a gaiola e olhei as duas.

— Você tem certeza que quer ir mesmo? — ela perguntou triste pela milésima vez.

— Eu tenho... Vou estudar em casa a partir de agora.

— Susie... — ouvi Anaria me chamando de longe.

Lúcia pulou em cima de mim me abraçando forte, e dessa vez soltando as lágrimas.

— Não vai Susie! Não vai... Por favor... Por favor!

Sarah puxou ela e a olhei ainda mais triste.

— Desculpa Lúcia....! — solucei e corri para meu pai antes de começar a chorar.

Papai tocou o meu ombro e Anaria me ajudou a subir na carruagem.

— Uh....!....! — Solucei enquanto secava o meu rosto na carruagem.

— Susie... — Anaria disse triste tentando me consolar.

— .... — papai me olhou em silêncio, apertava e afrouxava frequentemente sua mão na bengala.

— Tá tudo bem...! Tá tudo bem...! Eu vou parar logo.... Eu vou!... Eu vou...!

— Acho que deixar a senhorita Susie vir para cá foi um erro... — Anaria por fim disse.

— Não! Não foi um erro... Fui eu quem estraguei tudo... Fui eu...!

A viagem seguiu dali em diante, silenciosa, podia-se ouvir apenas o som dos meus soluços. Quando eu começava com isso, não parava tão cedo...

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Chegamos em casa bem no finalzinho da tarde, estava escuro. Desci da carruagem agarrada em Anaria, ela frequentemente dava alguns tapinhas nas minhas costas na tentativa de me acalmar.

Papai abriu a porta de casa e eu entrei imediatamente correndo para o meu quarto.

— Susie! — Bridjet que saia de uma sala, disse assustada quando ouviu a porta se fechar.

— Deixe-a.

— Sim meu senhor...

— Peguem as malas de Susie na carruagem.

— Sim, senhor... -Anaria saiu novamente e foi pegar as malas.

Momentos depois ela entrou no meu quarto e me olhou jogada na cama, meu travesseiro estava todo molhado com as minhas lágrimas.

— Senhorita... Quer um pouco de chocolate quente?

— Não... Não quero...

— Tem certeza?... Talvez seja bom para a senhorita-

— Eu não quero! Me deixa sozinha... Por favor.

— T-Tudo bem...

Ela saiu depois disso, fechou a porta devagar e ouvi seus passos descendo a escada. Afundei na cama novamente, não conseguia parar de chorar, mas era um alívio soltar tudo o que eu estava segurando.

Todos os meus planos foram por água abaixo a partir do momento em que fui mandada para a Lufa-Lufa.

Eu só queria ficar sozinha agora, chorar e pensar em como as coisas seriam dali para frente. Mas eu estava pensando em Lúcia, e como fiz ela chorar... Senti falta do toque caloroso dela no meu ombro quando eu ficava imersa nos meus pensamentos mais profundos.

Mas ela não estava mais ali para fazer isso. Eu estava sozinha novamente. Naquela casa imensa...

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Uma semana se passou desde então, voltei a ter aulas na minha casa. As aulas chatas e silenciosas voltaram... Confesso que senti falta da bagunça e da confusão dos meus colegas. Até da sala comunal da Lufa-Lufa, quase sempre quando entravamos lá, estava uma confusão, alguém procurando sua meia que sumiu, alguns Lufanos ajudando os outros na mesinha e algumas garotas fofocando abertamente no ciclo de sofá.

Agora. Eu olhei fixo para a sala calma da minha casa. Olhei a poltrona vazia do papai, uma poltrona bem cara de pele de dragão irlandês. A mesa de centro cheia de papéis velhos falando sobre casos. — Anaria às vezes pegava para ler escondido. — Tudo estava exatamente como antes.

Suspirei e olhei a porta do escritório do papai, ficava de frente para a sala — às vezes eu abria um pouquinho a porta, e ficava espiando ele trabalhar. —, papai apenas fingia que não me via, ele parecia não se importar com a minha presença.

— Susie -ele disse o meu nome de repente, enquanto lia um jornal trouxa, o que me deixou surpresa.

— S-sim papai?... — abri a porta por completo.

— Terminou os seus deveres? — ele me olhou por cima do jornal.

— Sim papai...

— Então vá ajudar Bridjet com alguma coisa.

Obedeci papai e fechei a porta, então parei de frente para um corredor e recuei. Aquele era um corredor proibido na casa, o corredor dos quartos. O quarto da mamãe e do papai. Eles às vezes dormiam separados, e eu nunca entendi o porquê.

Perto do quarto de ambos ficava a despensa de poções, extremamente proibido para mim mexer.

No passado quando era pequena aconteceu um acidente com poções, mexi com algumas delas e acabei causando uma explosão. Mamãe — que passava por ali —, entrou a tempo no quarto antes que tudo explodisse. Quando viu que poções eu havia misturado, ela me abraçou com força e se jogou no chão. Usou o próprio corpo para me proteger da explosão.

Após o acidente fiquei surda por algum tempo, a última coisa que ouvi antes de tudo foi o coração da mamãe próximo ao meu ouvido.

Não gosto de me lembrar disso... Fico triste, muito fácil.

Olhei para trás vendo o corredor escuro já distante. Fui à procura de Bridjet para ajudá-la na cozinha, como papai havia mandado.

— Oh, Susie! — ela me olhou parada na porta. — Você está com o seu vestido cinza novamente, pensei ter dito a Anaria para jogá-lo fora... — ela estalou a língua várias vezes, andava de um lado para o outro mexendo com as panelas.

— O que você está fazendo? -me aproximei do balcão, curiosa.

— Preparando o chá da tarde do seu pai e adiantando o jantar. E estou alguns segundos atrasada. Você sabe que ele gosta de tudo na hora certa.

— Entendi...

Ela parou. E me olhou cabisbaixa. Jogou o pano de prato no ombro e se aproximou com algo na mão. Chocolatte, minha marca favorita.

— Coma isso, não diga ao seu pai que eu te dei.

Eu sorri e o peguei.

— O que veio fazer na cozinha?

— Já terminei as minhas tarefas, pratiquei um encantando novo.

— Mesmo? Qual?

A conversa parecia fluir com Bridjet, ela era tão falante que me fazia ficar distraída dos meus problemas. Parecia uma avó. E confesso que era melhor que a minha.

— Eu atualizei o professor dos feitiços que eu já havia aprendido na escola. Ele me ensinou de onde eu havia parado, quer ver só? — peguei a minha varinha no bolso do vestido.

Bridjet se afastou quando me viu colocar o chocolate no balcão. Apontei a varinha para ele.

— Engorgio!

Um lampejo prateado saiu da varinha e acertou o chocolate, ele começou a inchar e ficar maior.

— Incrível!

— Não é? Isso é tão útil... — apontei a varinha novamente para o chocolate que crescia — Finite Incantatem!

O chocolate parou de crescer, peguei o quadrado que já estava do tamanho da minha mão. Tomei a faca da banca e cortei em dois pedaços, dei um a Bridjet que me olhava encantada.

— Minha senhorita está tão crescida, quando foi que começou a amadurecer tanto? -mordeu o chocolate.

— Eu não sei do que está falando.

Bridjet riu e olhei fixo para seus dentes sujos de chocolate. Valther entrou na cozinha e paramos de rir, como se tivéssemos recebido um Finite Incantatem.

— Você duas riem muito alto! Vão tirar a concentração do mestre! — ela nos repreendeu.

Eu não disse sobre Valther antes certo? Só descobri a idade dela recentemente, tem 40 anos. Ela chama meu pai de Mestre como se fosse um elfo doméstico, seu apelido inclusive é este.

Ela é completamente fiel ao papai, manda em casa como se fosse um general. Teve a audácia de se aproximar e tomar a varinha da minha mão.

— Nada de usar feitiços fora das aulas, senhorita Susie! Não queremos que seu pai tenha problemas sérios no ministério, queremos?! A não ser que queira repetir um acidente com explosões novamente!

Paralisei como se tivesse levado um soco no estômago, não tive tempo de reagir.

— Valther! Como ousa! — Bridjet se aproximou espantando Valther com o pano de secar pratos.

Valther saiu resmungando alguma coisa, tinha levado a minha varinha e a minha alegria junto consigo.

— Não escute ela, Senhorita Susie! Está maluca, eu devia contar ao seu pai o que ela disse.

— Não...

— Não?

— Eu sei que o papai concorda com o que ela disse...

— Senhorita, não diga isso... Não diga isso...

— Você não vê como ele olha para mim? Como se eu fosse uma decepção... Como se eu fosse a culpada, eu estraguei tudo. E sempre faço isso por onde eu passo!

Sai da cozinha. Minha voz embargou, eu sabia que não conseguiria discutir.

Bridjet até pensou em me seguir, mas ela sabia que eu precisava de um tempo sozinha. Esbarrei em Anaria e voltei para o meu quarto chorando novamente.

— Senhorita... — ela bateu na porta querendo me consolar, ela havia ouvido o que Valther disse.

— Agora não! — Gritei chorosa.

Anaria e Bridjet se olharam e suspiraram. Juraram a si mesmas que fariam Valther pagar pelo o que havia dito.