Não sou da Lufa-Lufa! - Fanfic Harry Potter
18 17° Episódio
Cacos De Vidro
A tarde se prolongou até o anoitecer. Me sentei na mesa de frente para o papai e olhei Anaria trazer os pratos, colocou na mesa silenciosa e Bridjet começou a nos servir.
Valther fechou a janela por onde o vento gélido da noite vinha, papai por fim pegou o garfo e começou a comer.
Olhei o ensopado de coelho com batatas, e cutuquei a carne com o garfo. Estava sem apetite, mas me esforcei para comer. Bridjet olhou Anaria, e ambas encararam Valther. Mas ela não parecia se intimidar com os olhares. O jantar continuou silencioso. Enquanto mastigava, passei o dedo por uma letra "L" entalhada na mesa de madeira. Eu tinha mania de fazer isso às vezes enquanto estava pensativa. Foi então que observei bem o que eu nunca havia percebido.
— Papai... — cortei o silêncio.
Papai levantou um pouco a cabeça e me olhou com seus olhos frios de sempre.
— Sim?
— Há quanto tempo temos essa mesa?
— Que pergunta é essa? — ele estreitou os olhos, provavelmente pensando que eu estava querendo puxar assunto à toa.
— É que... — parei de coçar a madeira — essa letra sempre esteve aqui... Mas quem a fez?
Ele por fim olhou a minha mão próxima da letra.
— Você provavelmente quando pequena — ele voltou a comer como se a conversa já tivesse acabado.
— Eu não me lembro disso, talvez fosse a mamãe quem a fez?
Todos me olharam como se eu tivesse dito um palavrão ou coisa parecida. Olhei o rosto do papai sombrio, ele até parou de comer. Levantou a cabeça com um olhar furioso.
— Não fale dela.
— Por quê?... O senhor acha mesmo que a culpa é minha?...- senti meus olhos marejando, finalmente pude dizer.
...
— Ora! Senhorita Susie!... — Valther disse.
— Não grita com ela! — Bridjet me defendeu.
— Silêncio! — Papai por fim disse.
Todas olharam pasmas. Sequei meu rosto e empurrei um pouco o prato.
— Eu não quero ouvir esse assunto novamente na mesa. Conhece as regras Susie, nada de conversar durante o jantar, principalmente se o assunto for ela — disse frio mais uma vez.
— Desculpe... — Minha voz saiu como um miado.
— Termina o seu jantar e vá dormir.
— Sim senhor...
No final das contas ele não respondeu direito nenhuma das minhas perguntas... Suspirei frustrada e voltei a comer mais um pouco. Atrás do papai havia uma batalha de olhares furiosos, Bridjet e Anaria contra Valther.
Papai terminou de comer e saiu da mesa primeiro. Subi para o banheiro e escovei os dentes. Quando sai, olhei para baixo e vi Valther e meu pai conversando no Hall.
— Já disse para não arrumar confusão Valther, é meu último aviso.
— Mas eu não arrumei confusão nenhuma-
Valther levou um tapa no rosto, e cambaleou tocando o lugar dolorido.
— Mentirosa. — papai diz entre dentes. — Acha que não sei das suas implicâncias?
— Perdão...
— Eu sei o que você disse mais cedo a Susie, é bom começar a medir as suas palavras se ainda quiser viver aqui. Você me entende?
— S-sim senhor... Desculpa novamente.
Repentinamente papai virou o rosto e me olhou. Recuei com o susto.
— Cama!
Sua voz foi como um rugido, corri para o meu quarto e fechei a porta.
Papai não tinha costume de agredir as empregadas, embora tivesse total autoridade para isso, considerando que foram compradas como escravas há muito tempo. Valther e Anaria são abortos, então não conseguem usar magia, apenas Bridjet que consegue usar alguns feitiços básicos.
Mamãe e ele foram generosos na época. Mas mamãe foi mais gentil principalmente. Por educá-las como empregadas, em vez de escravas. Um tratamento mais digno para época.
Olhei o retrato da mamãe na parede do meu quarto, e sorri um pouco triste.
Ela sempre foi bondosa e gentil, foi assim até o último momento da sua vida. Quando se sacrificou para me salvar daquela explosão...
Senti uma gota cair na minha mão e me dei conta de que estava chorando novamente, eu acabei passando a tarde toda pensando no que Valther havia dito mais cedo. E eu precisava saber se era verdade... Precisava saber através do meu pai se ele realmente me culpava.
Se o motivo de ser tão frio e severo comigo era por causa do que havia acontecido... Acabei tirando a pessoa mais importante da vida dele, como ele poderia continuar me amando apesar disso? Fui tola e idiota de pensar que ele ainda continuaria...
Até cheguei a pensar que se eu fosse para Hogwarts e fizesse parte da Sonserina ele veria que eu era igual a ele. Que depois disso ele me abraçaria e me olharia com ternura, que me chamaria de filha em vez do meu nome, ou até por algum apelido bobo. Mas fui idiota mais uma vez de pensar que isso aconteceria...
Acabei voltando outra vez para a estaca zero. Chorando sozinha no escuro do quarto... Como fui idiota! Como fui idiota...
Apertei o travesseiro e joguei para longe. Acabei acertando o rosto da minha mãe no retrato ilustrado. Vi o quadro cair lentamente e se quebrar, espalhou os cacos de vidro por toda parte.
— M-mamãe! — levantei rápido da cama e peguei o quadro do chão — Me desculpa... Desculpa...
A pintura não era viva como as de Hogwarts, papai não queria enfeitiçar o quadro daquele jeito, seria uma tortura para ambos, ver apenas um resquício falso, do que era para ser a sua esposa, minha mãe...
Anaria entrou assustada no quarto.
— Senhorita?!
— Derrubei o quadro sem querer... Desculpa pelo barulho.
Ela se acalmou e suspirou.
— Vou pegar a vassoura e uma moldura nova para colocarmos a pintura... Por favor, tenha cuidado com os cacos, senhorita.
— Certo...
Olhei cuidadosa para o chão, abracei a pintura pedindo desculpas mais uma vez. Essa preciosa pintura foi um presente do vovô, nos deu no natal... Papai não queria deixar essa ilustração nos lugares visíveis da casa, talvez isso o fizesse lembrar dela. E o sentimento doloroso e terrível da perda voltaria. Nem sequer posso mais mencionar o nome dela na presença dele... Um nome tão lindo.
Anaria voltou logo depois com a vassoura e limpou tudo. Colocamos a pintura numa moldura nova e penduramos na parede outra vez. Por sorte nada na pintura foi danificado, talvez fosse difícil de reparar, até mesmo com magia.
— Está tudo bem, Senhorita, Valther já foi punida pelo que disse mais cedo, então, por favor, não fique remoendo o que ela disse.
— Mas o papai não respondeu quando perguntei se ele achava que eu era a culpada...
— Eu duvido que ele pense assim, caso contrário não teria punido Valther assim...
Olhei surpresa pelo ponto de vista de Anaria.
— Então por que ele não disse em vez de ficar em silêncio? Talvez fosse mais simples...
— Acho que o seu pai só não sabe como dizer...
— Não sabe?
— Não. Algumas pessoas não sabem dizer com palavras o que sentem, por isso às vezes agem em vez de falar.
— Mas é tão confuso assim... Por que não usam um feitiço para resolver esse problema?
— Porque não é um problema que pode ser resolvido com Magia. Um coração ferido sentimentalmente não pode ser curado com um feitiço. É impossível até mesmo com a magia mais poderosa.
— Então de que serve a magia se não pode curar um coração ferido?
— Eu não tenho essa resposta... Sinto muito.
Suspiro e logo sorrio um pouco mais aliviada por conversar com Anaria sobre isso.
— Entendi... Obrigada por conversar comigo.
Anaria me abraçou e arrumou a minha coberta.
— Boa noite, senhorita.
Ela saiu do quarto e fechou a porta devagar. Virei para o outro lado e fechei os olhos.
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