Não posso ser ela
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Eu saio da casa de Edward assim que amanhece e sem me despedir. Deixo um pequeno bilhete agradecendo o jantar e a hospitalidade, mas dizendo que realmente precisava pegar a estrada bem cedo. Uma parada numa lanchonete me proporcionou um cappuccino e um crossaint para me dar energia, já que não consegui dormir nada depois daquele beijo. Ou melhor, dois beijos.
Caralho, que beijos!
Eu acelero pela estrada vazia, tentando não pensar muito na maciez e no gosto perfeito dos lábios de Edward. Mas é simplesmente impossível. Edward está todo presente em mim. Meu corpo ainda está aceso pela lembrança de seu toque em minha pele, da sua língua dançando na minha. Eu estou perdida por ele.
Chego em tempo recorde e vou direto para o Elisa. Encontro meu pai, Leah e Sue conversando na recepção. Os cumprimento e comentamos um pouco sobre a chuva da noite anterior. Quando Alice e Jasper chegam, nos reunimos na sala de música para definir alguns detalhes do nosso musical para o dia de Ação de Graças.
— Acho que nessa cena, Andrew poderia ter um pouco mais de destaque. É o solo dele, teremos somente o piano e o violino acompanhando. – Eu pontuo.
— Hum... então você não quer nenhum número de dança? – Alice questiona.
— Não sei... um solo quem sabe? É um momento crítico da história... no máximo um casal, Alice.
— Certo, posso providenciar isso. – Alice diz e anota algo em sua prancheta – Você já me entregou a demo dessa melodia?
— Não... – Eu digo – gravaremos hoje. – Eu digo e ela assente. – Alguma pendência Jasper?
— Não, tudo sob controle. – Ele responde – Jacob, Sam e Embry estão me ajudando a ajustar o som e algumas estruturas do palco no auditório da Associação. Por enquanto está tudo indo como o planejado. – Ele fala lendo algo em seu material. – A equipe de cenário vai poder trabalhar com 10 dias de antecedência e os ensaios gerais vão acontecer com tranquilidade.
— Isso é perfeito. Vou ver com a equipe de cenário, mas acredito que o prazo está ótimo. – Eu anoto isso na minha prancheta. – Mas alguma coisa? – Ambos negam. – Perfeito, então. Reunião encerrada, bem a tempo do horário da aula.
Assim que eu termino de falar, os primeiros alunos adentram a sala animados. O meu sábado é regado de muita música e repetições. Anualmente elaboramos um musical para o dia de Ação de Graças e um no Natal. Antes era somente para os familiares, mas neste ano a proposta avançou para toda a cidade. Conseguimos alguns comerciantes como benfeitores e nos foi cedido um espaço maior para a execução. A ideia é promover o trabalho feito com nossos alunos e arrecadar fundos para as nossas despesas e para aquisição de novos materiais.
As 18h eu estou exausta. Janto com meu pai, Leah e Sue e depois resolvo ficar em casa revisando algumas partituras e corrigindo alguns exercícios. Ligo para Liz para lhe dar boa noite. Conversamos um pouco e depois me permito descansar.
O domingo é tranquilo. Como o tempo está bom, meu pai resolve ir pescar com alguns amigos, me deixando em casa. Eu aproveito e chamo Leah para almoçar comigo.
— Como assim, Edward me beijou?! – Leah exclama – Garota, me conte todos os detalhes disso aí.
Eu conto para a minha amiga tudo que eu venho sentindo, tudo o que tem acontecido. Falo também sobre Rosalie e seu comportamento. Percebo o quanto me sinto aliviada de poder dividir com alguém todo este turbilhão de sentimento.
— Nossa, Bells... – Ela começa – que tremenda confusão!
— Nem me fale, Lee. Estou tão confusa! – Eu digo suspirando – Eu me sinto tão insegura nessa situação e eu detesto essa sensação sabe. Me remete a todas as situações que eu passei em relação a Dora.
— Bee, você precisa se libertar disso, sabe – Leah pega em minha mão – Dora não está mais aqui. Todos vocês precisam se livrar completamente da sombra dela. Isso vai consumir a todos, principalmente a você.
— Você acha que eu não sei, Lee? – Eu digo exasperada – Eu quero acreditar em Edward e no que ele está se propondo, mas não consigo. É diferente de como me sinto em relação ao Jazz ou Jake.
— Como assim?
— Jacob e Jasper conheceram a nós duas ao mesmo tempo. – Eu digo – Eles tinham em mente as nossas diferenças e tudo o mais. Edward não. Ele só conheceu Dora.
— Mas pelo que me consta, uma Dora que estava fingindo ser você. – Leah emenda – Ele se apaixonou por essa mistura.
— Pois é, por isso o medo dele estar confuso em relação a mim é tão grande. Posso ser a pessoa que ele realmente se apaixonou quando me viu em Dora, mas e se ele sentir falta das características de Dora que eu não tenho? – Eu pergunto angustiada – Sua habilidade comunicativa, sua intensidade feroz?
— Não sei minha amiga, acho que isso é algo que você terá de correr o risco se decidir que vale a pena. – Leah fala – E só você pode avaliar isso.
Eu deixo meu ombros caírem e suspiro. Leah me abraça de lado.
— Mas uma coisa é certa, você precisa jogar todas essas impressões para ele. Não guarde nada e exija a mesma honestidade da parte dele. – Leah diz e eu assinto.
Ficamos conversando um pouco mais durante a tarde até que chega a hora de eu voltar para a cidade. Me despeço dela e de meu pai que chegou a poucos minutos. Ele me pede para confirmar durante a semana se Edward e seus convidados virão para o fim de semana próximo e isso me causa um certo frio na barriga.
A semana se inicia e com ela as atividades se intensificam, uma vez que os exames de final de bimestre estão para acontecer. Devido a visita de seus padrinhos, minha sobrinha não vem para minha casa dia nenhum durante a semana. Na quarta-feira, decido ligar para Edward para saber se o passeio do fim de semana ainda aconteceria. Ele não me atende, mas me envia uma mensagem pedindo para que eu levasse Liz em casa e lá conversássemos.
— Liz! – Eu digo quando a menina sai da aula de aritmética – Me espere no pátio, seu pai me pediu para te levar para casa.
— Certo, tia! – Ela fala e segue com suas amigas.
Eu deixo alguns matérias no meu escaninho, pego minha bolsa e sigo para encontrar minha sobrinha. Logo estamos a caminho de sua casa e ela me relata todas as coisas divertidas que tem feito com os padrinhos nos últimos dias. Estaciono na frente da casa, pretendendo não demorar muito. Toco a campainha e Tania nos atende.
— Olá Tania!
— Olá Srta Swan, Liz, entrem! – Tania diz sem qualquer emoção.
Nós entramos e logo sou atingida pelo som grave e potente da voz de Edward. Ali percebo que estava ansiosa para este momento o dia inteiro. Nosso olhar se conecta assim que entro na sala. Todo o meu corpo parece esquentar sob o olhar dele, que é penetrante intenso. Ele se levanta e vem até nós. Dá um beijo na testa de sua filha e depois se dirige a mim. Trocamos um abraça simples, mas suficiente para que uma agonia de instale em meu interior.
— Oi Bella! – Ele fala ao meu ouvido
— Oi! – Eu consigo responder. Coro levemente com a nossa aproximação pós-abraço.
— Num foi, tia Bella? – Liz me distrai de minhas sensações inapropriadas e eu me afasto de Edward, adentrando mais na sala. Ali estão Emmett e Rosalie.
— Oi pequena – Eu pergunto
— Eu tava contando para minha dinda que hoje eu consegui executar aquela sequência que tinha 3 dias tentando na flauta. – Ela fala se jogando no sofá do lado da madrinha.
— Ah sim, e ficou perfeita! – Eu confirmo e depois emendo – Rosalie, Emmett, boa noite.
— Olá Bella! – Emmett diz gentil – Como está?
— Bem, e você? – Eu respondo.
— Estamos bem. Passeando um pouco, nos divertindo pela cidade. – Ele fala. Rosalie me observa atenta. Eu sento no sofá de frente ao deles
— Ah sim, fico feliz que estejam curtindo a viagem. – Eu digo.
— Eu e dinda fomos no shopping tia, compramos várias coisas legais! – Minha sobrinha conta sorrindo. Eu apenas assinto. Meu olhar encontra o de Rosalie e percebo-a um pouco diferente.
— Liz, acho melhor você subir para tomar o seu banho. – Edward fala e minha sobrinha logo obedece.
— Você vai esperar eu descer né tia? – Ela me pergunta
— Claro, princesa. – Ela sorri e então dispara escada acima.
— Não corra, Liz! – Edward exclama, mas a menina já está longe.
Um silêncio paira por um breve momento na sala. Edward troca um olhar com a cunhada
— Bella, eu gostaria de
— Não precisa fazer isso Rosalie. Você não me deve nada. – Eu digo deixando-a surpresa. – Eu sei que para você ter permanecido amiga de Dora, defendendo-a até hoje, é porque ela, de fato, foi boa para você. Eu entendo. Minha irmã não era um monstro, só alguém com algumas falhas.
— Eu não sei o que te dizer. – Ela fala – De verdade. Achei que conhecia Dora, que a entendia. Fomos colegas de quarto por um bom tempo, ela nunca me contou sua verdadeira história. Fui eu quem apresentou Edward para ela, eu incentivei o romance entre eles e trocamos segredos ao longo de mais de 5 anos. – Os olhos de Rosalie marejam – Ela nunca me falou de você, de seu pai, de toda a história entre vocês.
Sua decepção é visível, quase palpável.
— Eu imagino a sua dor, Rosalie. E a sua também Edward. Me sinto muito mal em saber que minha irmã machucou tantas pessoas. – Eu digo emocionada – Mas imaginem como é para mim saber que minha irmã gêmea negou a minha existência durante tanto tempo. – Sinto minhas próprias lágrimas pinicando meus olhos – Apesar de tudo, Dora nunca deixou de existir para mim, Rosalie. No fundo, eu sempre esperei que ela voltasse para nós.
— Entendemos sua dor, Bella. – Edward se pronuncia – A do passado e a de agora. Mas para nós foi difícil ver que tudo o que Isadora foi para nós, na verdade era uma mentira. – Ele fala. – Eu achei que foi o nosso casamento que a havia transformado, que de certa forma a culpa fosse um pouco minha... Quando nos apaixonamos ela era outra pessoa. Mas agora entendo que na verdade ela nunca foi a pessoa por quem eu me apaixonei.
— E não era a pessoa que eu acreditava que era. – Rosalie emenda – Eu sabia que ela não era fácil, nem nenhuma santa, também não fui. Curtimos muito juntas. Ela sempre foi uma boa amiga para mim, nunca traiu a minha confiança. Mas quando ela contou toda a verdade...
— Não é algo que se possa deixar para lá. – Emmett diz consolando a esposa.
— Olha Bella, me desculpe por tudo o que eu te falei naquele dia. – Rosalie fala novamente – Depois que Dora contou sobre você, pediu para Edward te entregar a carta e não falou mais nada. – Ela fala – Ela não deu sequer uma desculpa para ter escondido toda essa história. – A loira então me encara – E meio que acreditamos que era porque você pudesse ter feito algo a ela.
— Como?
— Acho que pensei que vocês que tivessem feito mal a ela e por isso ela não queria mais saber da família. – Rosalie fala e eu engulo em seco – Por isso cheguei aqui daquela forma, te atacando e te julgando. Eu... eu não sabia o que ela havia feito antes que a conhecêssemos.
— Tudo bem, Rosalie. Sério, só esquece. – Eu digo deixando meu ombros caírem. – Vamos só esquecer este mal estar inicial. Eu... Ainda é muito para processar sabe. – Eu baixo o olhar para minhas mãos – Faz mais de um mês e eu ainda não tive coragem de abrir a carta.
— Sério? – Edward pergunta e eu desvio o meu olhar para ele.
— Eu tenho medo do que vou encontrar ali. – Eu digo sincera – Se for um pedido de desculpas, não sei se tô pronta para recebê-lo e para perdoá-la. Se não for, não sei como aceitar que ela nunca se arrependeu pelo que fez.
— Isso é tão surreal. – Rosalie fala.
— Mas quanto a você, vou dizer o mesmo que disse a Edward logo que nos conhecemos. Entendo a confusão que deve ser para vocês ter a imagem da Dora diante de vocês sendo outra pessoa. Mas peço que não ousem me comparar a ela. Dora sabia dissimular, um dom que eu não tenho. Não sei fingir. – Eu digo olhando de um para outro. – Por favor, só não me comparem mais a ela. Eu levei muito tempo para construir a minha própria identidade e expressar o meu próprio valor. É uma das minhas maiores conquistas.
— Claro, Isabella – Rosalie fala.
— Somos uma única família através de Liz. Ela é muito importante para mim, de um jeito que talvez seja muito difícil explicar. Estou ligada a ela. E a última coisa que quero no mundo é a infelicidade dela. Acredito que dividimos o mesmo sentimento. Então eu quero que tudo fique em paz.
— De minha parte, está tudo resolvido, Isabella. – Rosalie fala e eu reviro os olhos.
— Não mesmo, se você continuar me chamando de Isabella. – Eu digo – Apenas Bella, Rosalie.
— Então apenas Rose, Bella.
Ambas nos levantamos e trocamos um abraço simples. Ali naquele abraço, eu me sinto um pouco mais próxima de minha irmã e isso não me machuca tanto quanto imaginei.
Fale com o autor