Não pare a Música

29 Capítulo 29 - Relações


Notas iniciais
Me perguntaram se eu tinha uma imagem da Ino dessa fic, e sim!! Eu pedi para a CrazyClara (Clara Agnes) para desenhar para mim antes da história começar. Para quem não sabe, a Clara é uma artista de primeira, e foi ela também que fez a arte de Doce Veneno que está na capa do meu perfil! E eu vou deixar aqui os links de contato dela nas notinhas finais ;) E, para quem queria saber, essa é a Ino (diva demais, não é mesmo?)

Imagem da Ino

— Quem é vivo sempre aparece, não é? — Ino ergueu o nariz, irritada, ao fitar Sasuke em sua porta no meio da tarde.

Tinha tentado falar com aquele chato a semana inteira! E ele não havia lhe respondido, não retornara suas ligações e a única coisa que tinha enviado era uma mensagem com duas palavras: "Estou bem". Foda-se que estava! Aquilo não respondia todas as outras perguntas que tinham invadido a mente dela quando ele simplesmente sumira!

— Vai me deixar entrar ou não? — Ele revirou os olhos e ergueu a sacola que carregava.

— Tá me comprando com chocolate? — Ela arqueou a sobrancelha, e Sasuke deu de ombros. — Vai se foder, Sasuke!

A porta se fechou com um barulho alto, e Sasuke arregalou os olhos até que o pai de Ino a abrisse novamente com um sorriso constrangido.

— Ela está um pouco irritada com você, garoto.

— Percebi — ele respondeu, enfadado. — Com licença.

— Pode entrar, não precisa dessa educação toda. Deixa a sacola na mesa da cozinha, Ino deve ter ido pro quarto.

— Obrigado.

Caminhou pela casa, conhecendo-a tão bem quanto a sua própria, e parou encostado na porta com os braços cruzados.

— Ino... — chamou.

— Vai ficar pra fora — ela respondeu. — Você me ignorou a semana toda, seu filha da puta!

— E você não tá nem um pouquinho curiosa sobre o motivo? — ele falou e teve que ser rápido ao segurar-se no batente quando Ino abriu de súbito a porta o fazendo se desequilibrar.

— Não! Eu não to! E se o Neji já souber e eu não, você é um homem morto, Sasuke!

— Juro que ele não sabe.

Ela ergueu o rosto e bufou ao dar espaço para que ele entrasse no quarto. O lugar estava mais bagunçado que o normal, Sasuke sabia que Ino gostava de tudo em seu lugar, achava mais bonito quando o ambiente estava organizado com cada coisa em seu lugar. Entretanto, havia uma quantidade considerável de livros abertos no cama, folhas soltas no chão e uma apostila na escrivaninha onde o notebook estava aberto em um musical que tocava em volume baixo.

— Estudando?

— Não, estou fazendo Yoga, não tá vendo? — ela rebateu, áspera, e Sasuke sorriu de canto ao sentar-se num pedaço livre da cama e ver Bom-Bom, a gata de Ino, aconchegando-se em seu colo. — Traidora.

— Shikamaru dis-

— Sasuke, corta o papo furado, eu to estudando, então ou fala logo ou me ajuda.

Ele estreitou o olhar. Por mais que Ino estivesse irritada consigo, ela não falaria daquele jeito. Tinha acontecido algo, algo a mais que a fazia agora querer enfiar a cabeça nos livros para se distrair. Respirou fundo, não era a melhor hora para falar de si.

— O que houve? — perguntou, direto, e Ino respirou fundo, sentando-se na cadeira da escrivaninha e batendo a lapiseira contra o papel.

— Nada, por enquanto.

— Quer falar sobre isso?

— Você sabe que eu vou falar. — Ela se levantou e empurrou os livros da cama para poder se sentar ao lado dele.

— É sobre Gaara?

— Não, ele é lindo, gostoso, fode bem pra caralho e é incrível. — Ela suspirou sonhadora, e Sasuke revirou os olhos. — Mas agora eu vou ter que fotografar com Sasori.

— E?

— E que ele é um filho da puta arrogante que falou para a Hanabi que ela precisava perder peso. Sasuke, você já olhou aquela garota? Ele falou que a Hanabi precisava perder peso! E ela perdeu! Mesmo batendo boca com ele, ela perdeu peso! Eu ouvi quando estavam provando os novos modelos e comentaram que ela perdeu numeração. Não, sério, eu não acredito que vou ter que fotografar com um babaca desses, Sasuke.

— Ele não pode falar algo assim, pode?

— Ele já foi repreendido e não sei mais o que. Ao que parece, esse novo ensaio é o teste de reabilitação dele.

— Ele te incomodou? Disse alguma coisa?

— Ele veio com uma conversa de que modelo não fala palavrão quando eu estava te xingando por não atender a merda do telefone. Mas só. Ah, não, ele também insinuou que eu dormi com Gaara e me aproximei de Hanabi para subir mais rápido na agência. O que é engraçado porque, com tudo o que eu já ouvi no ballet, ouvir esse imbecil falar isso foi como ouvir de uma criança que sou chata.

— Pra uma coisa o ballet nos treinou bem — debochou, irônico, e Ino respirou fundo ao apoiar a cabeça em seu ombro.

— Eu sinto muito pelo que houve na terça, Sas... de verdade. Não acredito que tentaram mesmo quebrar sua perna daquele jeito nem que te machucaram tanto... me desculpa por não ter ficado pra aula naquele dia.

Sasuke passou o braço pelo ombro dela, puxando-a para perto e acariciando o cabelo loiro comprido.

— Não ia fazer diferença você estar comigo, então não esquenta a cabeça com isso. Neji evitou o pior, então vida segue.

— Você não vai abrir queixa, não é?

— Não. E você? Já sabe que Madara e seu pai estão com o processo pronto, não sabe?

— Eu não posso me preocupar com isso agora, Sasuke, vai acabar com meu vestibular ter que lidar com isso ao mesmo tempo. É coisa demais...

Ele concordava, beijou o topo da cabeça de Ino e olhou o material na cama. Geografia. Odiava aquela matéria.

— Quer ajuda? Pra estudar.

— O quanto você sabe sobre Revolução Russa? — ela o espiou de canto de olho.

— Já assisti Anastasia algumas vezes, isso conta? — Ele sorriu de canto, e Ino riu com gosto.

— Não muito, mas tudo bem. Vai ser bom estudar te explicando, assim gravo melhor. Vou avisar que vai ficar pro jantar, pode ser? Aí você me atualiza de tudo depois da janta.

— Pode ser — respondeu, vendo-a sair do quarto, e acariciou o pelo da gata em seu colo. — Como se ela fosse me dar outra alternativa, não é, Bom-Bom?

* * *

Cinco da manhã. E não era só Sasuke que estava acordado. Naruto não tinha conseguido dormir, havia conversado com os pais no dia anterior depois de eles adiarem tanto o almoço para lhe explicar o que acontecera para a mãe parar no hospital. Falou em especial com o pai, e a realização de que a mão infartara por, mais uma vez, defendê-lo diante da família era... angustiante.

As olheiras estavam marcantes no rosto cansado. Dormira tão pouco e tão mal que desistira de rolar pelo colchão sem alívio. Levantara-se, fones no ouvido e uma roupa confortável para correr pelo bairro. Estava escuro, frio, mas não se importava. A academia ainda não estava aberta, não tinha como descontar sua frustração no treino, pelo menos não naquele momento, e por isso corria, como se precisasse chegar ao final da estrada mesmo que não houvesse nada ali para reclamar como prêmio.

Seu pai tinha sido categórico ao afirmar que havia resolvido tudo, mas Naruto sabia muito bem o que aquelas palavras significavam: Minato tinha brigado com a família. E não... não queria que o pai se separasse dos irmãos e do próprio pai por ele, por ter que o defender. Aquilo não estava certo! Não era justo! Família amava, aceitava, não era para ser daquele jeito apenas porque ele não se enquadrava nos padrões antiquados que o avô tanto repetia.

Quando o relógio acusou cinco da manhã, ele já havia corrido dois quilômetros. Parou no semáforo vermelho, mantendo-se em uma corrida no mesmo lugar para não perder esfriar o corpo, e aproveitou para checar o celular. O aplicativo de mensagens acusava que Sasuke estava online, e ele teve que rir pela teimosia do outro em não descansar devidamente. Tirou uma foto rápida, sem se importar com o cabelo bagunçado ou com o suor, e enviou. Bloqueou a tela do celular e voltou a correr quando o semáforo ficou verde. Já era terça-feira...

Os ensaios começavam naquele dia, e ele não estava nenhum pouco preparado para lidar com Orochimaru e aquele ambiente tóxico, mas, se ele estava assim, não conseguia nem imaginar Sasuke... Havia visto o bailarino rapidamente no dia anterior numa chamada de vídeo depois de insistir muito, ele precisava estudar, mas prometera não o atrapalhar. Só queria vê-lo... Sasuke lhe trazia paz, e ele precisava disso após a conversa com os pais, mesmo que por um momento, mesmo que não conversassem e só pudesse observá-lo debruçado nos livros no chão, os dedos brincando com a caneta, sujos com a tinta colorida dos marcadores de texto. Alguns dos machucados estavam esverdeados, outros ainda vermelhos, mas Sasuke lhe sorrira, com a arrogância de sempre, quando se mostrou preocupado.

— Sou um bailarino, esqueceu? Eu sei me maquiar — foi o que lhe respondera. — Não vou dar esse gostinho para aqueles filhas da puta. E, também, não vou ser o único a ter que esconder as marcas. Soquei muito antes que me derrubassem, e o soco de Neji em Deidara foi uma obra prima.

— Você tem uma personalidade péssima, alguém já te disse?

— Você acha que eu me importo com o que dizem?

— Não, acho que não. — Rira enquanto Sasuke prendia a franja do cabelo com grampos no topo da cabeça.

Todavia, ainda que Sasuke se mostrasse confiante, Naruto não conseguia deixar a preocupação de lado. Lembrava-se muito bem de como Orochimaru tinha sorrido com os resultados, da conversa anterior que havia tido com Sakura, e a única coisa que persistia em seu peito era o péssimo pressentimento que possuíam daquilo tudo. Teriam o primeiro ensaio, a escola toda mudava de ritmo quando os preparativos para a apresentação começavam. As aulas complementares já deviam estar no fim, então matérias teóricas e de música já aplicavam suas provas finais, ao mesmo tempo que as aulas práticas sofriam um rearranjo de modo que os ensaios fossem prioridade. Durante a semana, só haveria então as aulas de dança, ballet, jazz, afro, a depender do ano em que os bailarinos estavam, e o sábado inteiro ficaria para aula prática de ballet pela manhã, yoga antes do almoço e ensaios até às vinte e uma ou vinte e duas horas. Era uma rotina intensa e que cobrava de todos o melhor estado físico e mental para ser levada até o final.

Uma ironia, com certeza.

Conferiu o relógio, quatro quilômetros. Devia começar a voltar para casa. Parou para comprar uma água e conferiu o celular rapidamente. Sasuke tinha respondido com uma mensagem breve perguntando-lhe por que estava já acordado, e pensou em responder, contudo, não queria despejar mais problemas sobre as costas dele. Sasuke já tinha muito com que se preocupar. Limitou-se, então, a responder "insônia", guardar o celular e voltar a correr para casa dessa vez.

Entretanto, não era como se Sasuke acreditasse na mensagem que o celular exibia. As marcas sob os olhos de Naruto indicavam sim que ele não havia dormido muito bem, contudo, Naruto era do tipo de pessoa que perdia o sono apenas se algo muito importante houvesse acontecido, então, não era como se aquela resposta simples e evasiva o tranquilizasse. Analisou mais uma vez a foto enviada, com o cenho franzido e a expressão insatisfeita. Os olhos azuis estavam cansados, e o sorriso lhe parecia tão falso que o irritou de certa forma.

Respirou fundo, travou os músculos abdominais, ainda doloridos, e elevou a perna sem se apoiar em nada até noventa graus, lateralmente. Soltou o ar devagar e inspirou mais uma vez, precisava de mais, não podia aceitar começar os ensaios sem alcançar os cento e vinte graus no mínimo. O peso sobre a perna de apoio estava correto, as costas perfeitamente alinhadas, o braço do lado correspondente à perna elevada estava sobre a cabeça enquanto que o outro permanecia aberto, ao lado, na altura dos ombros. Segurou por oito tempos a perna em cento e vinte graus e, se conseguia cento e vinte, cento e trinta e cinco não estava longe. Ou conseguiria, se não fosse pelos machucados lhe presentearem com uma dolorosa fisgada aguda, arrancando-o subitamente da posição.

Ótimo. Se se acostumasse com aquela dor ali durante o treino, conseguiria ignorá-la melhor durante os ensaios. Posicionou-se, a ponta do pé subindo do tornozelo ao joelho, respirou fundo, certificou-se de distribuir o peso na perna de apoio com perfeição, ergueu a cabeça enquanto abaixava os ombros e rearrumava a postura, as escápulas, endureceu o abdômen e estendeu a perna à cento e vinte graus.

A música ao fundo marcava bem o tempo, era fácil acompanhá-la para se distrair, cada segundo acompanhado do pensamento "Fica. Fica. Fica. Fica.". Pelo menos oito segundos, pelo menos isso... Mordeu o lábio, uma nota mental se criando para depois lhe cobrar melhor controle das expressões, não podia demonstrar o esforço, nunca deveria deixar a dor transparecer ao público. Respirou fundo, os músculos abdominais davam leves espasmos conforme ele descia a perna devagar para noventa graus e então ao chão.

— Não devia estar se poupando para a aula? — Ouviu Hashirama de repente.

Espiou o horário antes de se virar, ainda não era sete horas, normalmente Madara acordava às sete, mas Mito e Hashirama só após às oito. Sasuke viu Hashirama caminhar até a sala e se sentar no sofá.

— Estou me aquecendo justamente para não me machucar na aula — explicou.

— Como Ino está? Faz tempo que ela não vem aqui.

Sasuke suspirou discretamente e parou a música no celular, Hashirama não lhe deixaria continuar, já tinha entendido que ele puxaria assunto apenas para roubar sua concentração. Sentou-se no chão para o alongamento e balançou a cabeça inconformado pelo pequeno sorriso vitorioso que o tio exibia ao vê-lo desistir.

— Ela tá bem. Preocupada com o vestibular só.

— Isso é ótimo. Madara disse que conversou com o pai dela ontem à noite. Vão esperar as provas passarem para dar seguimento ao processo.

— Ela me disse que preferia assim.

— Eu também preferiria. E isso nos traz ao assunto que quero falar com você diretamente.

Sasuke abriu as pernas no chão e se debruçou sobre a direita, as mãos alcançando o pé enquanto a cabeça tocava o joelho.

— Você é contra eu continuar as aulas — Sasuke falou, sem olhá-lo.

— Sou, mas você e Madara competem para saber quem é o mais teimoso. Teimosos e vingativos — frisou, e Sasuke ergueu o tronco. — Eu sei que você tem alguma coisa a ver com a demissão de alguns dos responsáveis pelo ataque contra Neji no começo do ano.

— Não faço ideia do que está falando.

— Claro que não. — Hashirama sorriu, calmo. — Eu sei que foi você, deve ter pedido para Shikamaru vazar aquelas informações.

— Onde quer chegar, Hashirama?

— Que eu sei que vocês não conseguem deixar nada de graça. E, pela expressão de Neji naquele hospital, sei que ele vai fazer algo a respeito, se já não fez, assim como você fez por ele. Estou errado?

Sasuke não respondeu, sustentou o olhar de Hashirama apenas para ter certeza de que infelizmente ele não possuía dúvida alguma sobre o que falava. Não era um blefe.

— Não to sabendo de nada.

— Imagino que não — Hashirama apoiou os cotovelos nas coxas. — Mas o fato de Neji fazer algo contra quem te bateu não te ajuda em nada. Eu queria sim que você abrisse um boletim de ocorrência depois que as apresentações passassem. O estacionamento possui câmeras, não seria difícil. Mas, se Neji fizer algo a respeito, sozinho, por conta própria, abrir uma denúncia contra eles vai respingar em Neji porque abrirão outra contra ele.

— É só não abrir a denúncia — respondeu e se inclinou na direção do outro pé, encostando a cabeça no joelho.

— Ou é só vocês pararem de agir de forma irresponsável e confiar um pouquinho em nós para esses assuntos — Hashirama rebateu. — Quero que me prometa que vão parar de tentar resolver esses problemas com as próprias mãos daqui para frente, Sasuke. E isso não é negociável. Não estou pedindo muito, você sabe, não quero atrapalhar a sua carreira, e não vou, mas, se você simplesmente deixar que coisas como aconteceram a você passem impune, que se repitam sem que nada seja feito a respeito, estará só abaixando a cabeça pra esse sistema. E isso não é do seu feitio, você não se cala quando vê algo errado, Sasuke, eu te conheço desde pequeno, sei disso.

Sasuke fechou os olhos, manteve a testa sobre o joelho e engoliu o bolo que havia subido à garganta com aquela frase. Não, ele não ficava mesmo quieto, não baixava a cabeça para o que acontecia dentro da companhia, mas o que exatamente ganhara com essa atitude? Quanta gente já não tinha prejudicado por isso? Hashirama tinha razão, óbvio que tinha, ele sempre tinha, não é mesmo? Mas ele possuía razão dentro de sua visão limitada, restrito ao que sabia da companhia. Era como alguém que via uma madeira suja e insistia que ela apenas precisava ser limpa, sem saber que por baixo já estava podre pelos vermes que a corroíam. Queria que fosse fácil, que pudesse contar aos tios tudo, que eles entendessem seu mundo e, ainda assim, o apoiassem. Queria tanto não ter que atravessar aquela corda bamba sozinho...

— Eu... — começou, sem erguer a cabeça, mas a voz sumiu tão rápido quanto tinha aparecido.

Hashirama era a pessoa para quem contava o que não podia falar a Madara e Mito por conhecer os gênios fortes. Hashirama era mais racional, mais... aberto ao diálogo, era quem buscava uma saída menos radical para os problemas. Como fazia naquele momento, acordando mais cedo para conversar, tentar convencê-lo a aceitar ajuda, mesmo que mínima, esperando pacientemente sua resposta sem se irritar pelo silêncio.

— Tudo bem — respondeu com um suspiro.

Ergueu a cabeça para encarar Hashirama, ele o observava com atenção e sorriu de leve ao final, como se convencido de sua palavra. Convencido como, Sasuke não sabia dizer, nem ele mesmo sabia se cumpriria o que havia dito, mas Hashirama parecia satisfeito.

— Vamos tomar café? — Ele lhe sorriu animado ao levantar do sofá e bater as mãos. — Venha, o que quer comer hoje?

— Acho que vou esperar Madara acordar. — Sasuke sorriu em provocação. — Péssimo dia para passar mal por intoxicação.

— Escuta aqui! Eu troquei suas fraldas, seu moleque! — Hashirama o olhou indignado.

— E ainda bem que quem fazia minha comida era Madara ou Mito — Sasuke debochou ao levantar.

— Eu sei cozinhar! — defendeu-se.

— Não, não sabe — Madara bocejou alto, os braços cruzados enquanto o corpo estava apoiado na parede ao fim do corredor. — Sasuke, pro banho, Hashirama... bota água na cafeteira. — Sorriu maldoso. — Eu faço o café. Não querermos um incêndio na casa, por favor.

Sasuke segurou o riso e pegou a camiseta no chão.

— Obrigado — sussurrou ao passar pelo tio, alto o suficiente para que Hashirama ouvisse e bufasse.

— Eu odeio vocês dois — Hashirama disse, pausadamente, e Madara revirou os olhos pelo drama.

— Aprenda a cozinhar algo que não seja miojo, e então voltamos a esse assunto. Aliás, por que você está acordado, você não acorda cedo nem sob decreto — comentou desconfiado ao parar atrás de Hashirama e abraçá-lo pelas costas.

— Não consegui dormir e fiquei com medo de acordar você e Mito. Então, decidi ver Sasuke treinando um pouco.

— Fez ele parar antes das sete, que milagre. Teve que argumentar muito?

— Não, eu tenho o dom da conversa — gabou-se, e Madara riu anasalado.

— Aposto que ele ficou entediado, isso sim.

Hashirama o olhou sobre o ombro com falsa irritação.

— Por que mesmo estamos juntos?

— Porque eu sou benevolente.

Hashirama abriu a boca incrédulo e balançou a cabeça em desistência enquanto Madara ria baixo. Sentiu as mãos dele em sua cintura o virando, e não ofereceu resistência. A boca de Madara cobriu a sua com um carinho que destinava só para ele e Mito, e Hashirama encarou os olhos escuros o fitarem sérios ao se separarem.

— Está mesmo tudo bem? — Madara indagou, não seria tolo de acreditar naquela desculpa de Hashirama, sabia que aquelas olheiras, mesmo que leves, tinham um motivo.

Hashirama suspirou, como Madara esperava que fizesse, apoiou a face na do outro e pareceu relaxar.

— Agora sim — ele respondeu mais aliviado, e Madara arqueou a sobrancelha em uma pergunta muda. — Não se preocupe, está tudo bem agora, só precisava ter a minha conversa com Sasuke. Você não foi o único que se assustou com o que aconteceu.

Madara pareceu entender, sem voltar a perguntar e beijando o rosto de Hashirama antes de acariciar os cabelos compridos dele e se afastar.

— Obrigado por isso. Vou fazer nosso café.

* * *

Sasuke não estranhou a ausência de Neji quando chegou ao ballet. Agora que os ensaios começariam, cada professor ficaria responsável por ensaiar os bailarinos de suas respectivas classes para que, no sábado, o coreógrafo reunisse todos e regesse a apresentação como um todo. Como Neji era profissional, os ensaios dele durante a semana aconteciam diretamente com o coreógrafo ou um professor a parte da companhia. Por um lado, aquilo era péssimo, não poderia pedir ajuda para Neji pelos horários divergentes, mas, por outro lado, era bom, uma vez que seria mais que desconfortável pedir conselhos para Neji justo quando os dois estavam designados para o mesmo papel em condições mais que suspeitas.

Subiu para o vestiário, atento, os fones no ouvido, mas sem que nenhum som saísse por eles. O primeiro passo que deu para dentro do vestiário fez com que as vozes se calassem uma a uma, deixando um silêncio pesado no lugar. Sentia os olhares, a maquiagem cobria parte dos machucados, mas não todos, e ele sabia que a notícia de que havia ido parar no hospital tinha se espalhado.

Separou as roupas e trancou o armário, não poderia se trocar ali na frente de todos, não só pelos machucados, mas também pelas marcas que Naruto havia deixado por sua pele. Ergueu a cabeça quando dois outros alunos cruzaram os braços sem a intenção de lhe abrir passagem para as cabines e não se importou de chocar os ombros aos deles ao forçá-la.

Talvez precisasse falar com Ino para criarem outra sigla, "PP" não seria o bastante para descrever o porre que aquele lugar se tornaria durante os ensaios. Entrou em uma das cabines e trancou a porta, esperou alguns segundos em silêncio, a atenção direcionada ao vestiário tentando ouvir os passos ou sussurros e só se permitiu tirar a calça e começar a trocar as roupas quando percebeu que se afastavam.

Soltou o ar dos pulmões quando terminou de se vestir. Saiu da cabine com calma, convencendo-se, ou tentando, de que dificilmente tentariam algo ali dentro... Não, eles esperariam de novo que saísse, não se arriscariam a fazer alguma coisa nas dependências da escola. Parou de frente ao armário para guardar as roupas e conferiu o horário no celular, que caiu com um baque oco no chão quando sentiu um corpo colar-se às suas costas de repente. A reação foi automática, o coração acelerou em pânico, o braço já pressionava com força a garganta do outro ao jogá-lo contra o armário para se defender.

Naruto arregalou os olhos e gemeu de dor pelo impacto, as mãos segurando o braço de Sasuke em sua garganta enquanto tossia e via o outro arregalar os olhos ao reconhecê-lo.

— Puta merda, Naruto! Que bosta você acha que tá fazendo? — Sasuke perguntou alto, exaltado, ao soltá-lo e passar a mão pelos cabelos.

Naruto tossiu e massageou a garganta enquanto observava Sasuke andar de um lado para o outro e respirar fundo tentando se acalmar.

— Desculpa — sussurrou e limpou a garganta. — Não era para te assustar, não achei que fosse aliás... Mas agora eu sei o que Neji quis dizer com você ter dado trabalho para quem te bateu. Uau... isso doeu...

Naruto não esperava que Sasuke fosse reagir daquela forma, era apenas para abraçá-lo aproveitando que o vestiário estava vazio porque sabia que não podiam chamar muita atenção para o que tinham, seja lá o que fosse o que tinham. Mas Sasuke havia se tensionado por inteiro assim que o tocara, e Naruto nem ao menos tivera tempo de dizer alguma coisa antes de ser arremessado contra os armários. Sasuke o tinha olhado com pavor e raiva antes de se dar conta de que era apenas ele ali... Agora, via a culpa na expressão preocupada dele. Sasuke devia ter achado que era algum aluno tentando lhe fazer mal como havia recentemente acontecido, não podia o culpar por isso, ele devia estar uma pilha de nervos ali, ainda mais antes da aula.

Massageou a cabeça onde havia batido e se aproximou, atento à postura arisca que Sasuke mantinha quando irritado ou sem saber o que fazer.

— Hey, Teme, tá tudo bem, foi um acidente... — falou, com tranquilidade, as mãos puxando Sasuke pelos ombros em sua direção com carinho.

E o corpo dele veio fácil, como se Sasuke precisasse daqueles segundos contra seu corpo, aconchegado no abraço que se seguiu. Manteve-se atento, os olhos na entrada do vestiário enquanto a mão acariciava os cabelos negros e ele sentia Sasuke suspirar pesadamente e abraçá-lo de volta.

— Vai dar tudo certo, não se preocupe, to aqui com você. Vou ficar no ensaio também... não vai ser muito diferente de quando ensaiávamos.

— Você sabe que vai. Orochimaru vai fazer desse ensaio um inferno.

— Ele vai tentar, você vai ser orgulhoso como sempre, eu vou estar ali para tocar para você, ele vai gritar com a gente, você vai dar aquele sorriso irônico de canto que deixa ele puto e eu vou segurar a vontade de rir da cara dele, e é assim que a gente vai levar até a data da apresentação — Naruto gracejou, e Sasuke riu ao erguer a cabeça.

— Machucou? — perguntou mais sério.

— Só um pouquinho. Depois você cuida de mim — acrescentou depressa, e Sasuke arqueou a sobrancelha sem responder. — Ou pode me comprar um lamén, eu deixo você escolher.

Sasuke revirou os olhos e o afastou antes de pegar o celular esquecido no chão.

— Eu compro o lamén então — provocou enquanto saía do vestiário.

— Quê? Sasuke! Não... isso não é justo — Naruto reclamou, seguindo-o.

Sasuke fingiu não ouvir, assim como fingiu não gostar da mão em sua cintura enquanto não havia ninguém por perto ou do boa sorte sussurrado antes de Naruto lhe roubar um beijo e entrar na sala.

A primeira coisa que reparou na sala foi a ausência de algumas pessoas, em especial de Deidara e dos demais que o acompanharam na semana anterior. Sakura estava já em sua barra, assim como Ino, e faltavam alguns minutos para Orochimaru aparecer. Como de costume, deixou a garrafa no chão, perto da parede, e começou a se aquecer com Ino.

— O que aconteceu? — perguntou para ela quando reparou que a sala prestava atenção demais em si, mais do que ele esperava mesmo considerando todos os últimos acontecimentos.

— Estão achando que você fez alguma coisa com Deidara e o resto — ela debochou, mas depois piscou confusa e o olhou. — Mas você não fez, né?

— Eu não. Mas não posso falar por Neji.

Ino abriu a boca surpresa, mas depois assentiu em compreensão.

— Preparado para a morte lenta e dolorosa de hoje? — ela indagou quando Orochimaru entrou pela porta. Sorrindo.

— Hm.

— É, nem eu.

— Pensei em chamar de PF dias assim.

— PF? — Ino repetiu em dúvida, o sorriso divertido no rosto só esperando pelo que viria.

— Dias em que estamos profundamente fodidos.

Ela riu.

— É, faz sentido. Gostei. No pé de quem ele vai pegar primeiro? No meu ou no seu?

— No seu — ele respondeu sério de repente, e Ino franziu o cenho. — Ele gosta de deixar para me humilhar no final porque pode ficar impondo aqueles castigos estúpidos.

Ino respirou fundo e mordeu o interior da bochecha antes de soltar com raiva:

— Eu realmente odeio esse cara.

Sasuke riu anasalado e percebeu quando seu olhar cruzou com o de Orochimaru. Ele sorria, como se toda a situação o divertisse, como se estivesse no controle da situação, como um maldito torturador antes de começar o serviço.

— É, eu também... você nem imagina o quanto.

Notas finais
E aí, gente! Curtiram? O cap foi levinho, né? Como prometido, aqui estão os contatos da Clarinha para quem quiser ver a arte dela, incentivar, fazer uns orçamentos, etc. O usuário em todas as redes é CrazyClarabr Facebook (https://www.facebook.com/CrazyClarabr/) Instagram (https://www.instagram.com/crazyclarabr/) Twitter (https://twitter.com/crazyclarabr) Tumblr (crazyclarabr.tumblr.com)