Não pare a Música
30 Capítulo 30 - Linda
Notas iniciais
Dizer que já sabia não era o suficiente, repetir que aquele era o preço a se pagar também não, socar o chão antes de se levantar e recomeçar o exercício ajudava muito menos, mas não tinha como evitar. A aula havia ido até que bem, mas o ensaio…
Já era mais que dez horas da noite quando Orochimaru fez questão parar tudo e pontuar, um a um, todos os erros de Sasuke. E o problema? O maldito nem ao menos estava errado daquela vez! Sasuke de fato tinha errado, muito, não por falta de técnica, muito menos por não saber a coreografia, mas sim porque doía, muito. Não conseguia manter a postura por muito tempo, os saltos não tinham altura, e os giros lhe embrulhavam o estômago. Ter que engolir a frustração e abaixar a cabeça para Orochimaru era o pior dos castigos, e olhar de satisfação de cada aluno ali na sala enquanto era humilhado o irritava ainda mais.
Ino estava sentada no chão, perto da barra, a toalha contra o rosto enquanto Orochimaru batia o bastão de madeira no chão marcando o tempo da música. A cena a angustiava, mexia com seus nervos de forma que nunca antes havia acontecido. Sasuke estava encharcado de suor, no centro da sala, todos ao redor assistiam com uma alegria tão vibrante que lhe dava nojo. Orochimaru gritava os passos, alto demais, marcava o tempo, alto demais! O que ele queria? Ver Sasuke cair num daqueles malditos saltos? Vê-lo perder a cabeça? Sasuke podia ele mesmo ouvir a música, então que Orochimaru enfiasse aquele bastão no cu! Ele também sabia a coreografia de cor, não precisava de ninguém gritando passo a passo como se estivessem no preparatório! Sentia-se em uma arena romana, no maldito Coliseu, torcendo pelo gladiador enquanto todos os demais esperavam que o leão o devorasse da maneira mais cruel possível.
Não havia sido para isso que ela havia se matriculado, não era esse tipo de arte que ela buscava… A dança era sua expressão, sua arte, sua forma de mostrar ao mundo seus sentimentos da maneira mais sincera possível. Entendia que lágrimas e suor faziam parte, mas não daquele jeito, não naquela loucura.
Olhou para Naruto, ele estava de costas para tudo o que acontecia, tocava com cuidado, mas ela tinha percebido a raiva com que ele encarara Orochimaru segundos antes. Naruto não disfarçava, ele não era como Sasuke e seus olhares gélidos, Naruto era como chamas, sua irritação era nítida, dava para senti-la. E não havia sido só ela a notar, não depois de Deidara espalhar na semana anterior que Sasuke supostamente “também” estava dormindo com o pianista.
Boatos e mais boatos. Ninguém daria atenção ao que Deidara falava antes dos resultados das audições, comentários sobre Sasuke ter dormido com Orochimaru para ser seu “queridinho” era o que mais existia e ninguém nunca deu importância, mas, após saírem os resultados, parecia que precisavam de um motivo, uma explicação, um modo de justificar o ódio que queriam tanto externar.
Ouviu Sasuke rir anasalado quando Orochimaru terminou de dar o sermão, viu Naruto olhar para ele quando Sasuke sorria com ironia para Orochimaru, e a tensão nas costas do pianista pareceu desaparecer naquele momento, os olhos dos dois se encontrarem em uma conversa muda, e então Orochimaru mandá-lo se sentar por enquanto. Sentiu o calor do corpo cansado de Sasuke quando ele se sentou ao seu lado e lhe ofereceu a garrafa de água.
— Ele vai acabar nos matando — ela sussurrou quando Orochimaru chamou o nome de outro aluno.
— Se aguentarmos até às onze, dia vencido — Sasuke sussurrou, sem fôlego.
— Por hoje.
— Por hoje — ele repetiu e olhou para Naruto discretamente.
— Você já pensou em sair daqui, Sasuke? — Ino perguntou em voz baixa.
— Sair? — Ele se virou surpreso. — Como assim sair?
— Largar esse lugar — ela explicou.
— Não — respondeu direto. — Não mesmo. Você quer sair?
— Não. — Ela suspirou. — Mas, às vezes, parece que isso aqui é uma cela fechada onde, se eu não sair, só me resta matar alguém para ter mais espaço ou ser morta para dar espaço para outra pessoa. Cansa.
— Dois anos. Dois anos para o fim disso, Ino.
— Dois anos, vinte e quatro meses, várias semanas, não sei mais quantos dias sendo humilhada, ofendida, voltando pra casa querendo que tudo acabe, desviando dessas víboras, correndo agora perigo físico mesmo que nem você semana passada. Dois anos é muito tempo, Sasuke.
— Já aguentei bem mais que isso, bem mais que dois anos, bem mais que ofensas e fofocas, não vou parar aqui — ele respondeu firme, e Ino percebeu pelo olhar dele que nada no mundo o faria mudar de ideia.
Ela suspirou e lhe entregou a toalha dele.
— É, eu sei que não.
Ele a encarou, sério, e observou-a se levantar quando Orochimaru a chamou. Ino era forte, meiga, mas com uma garra que ninguém poderia sequer contestar. Já a tinha visto passar por muita coisa naqueles anos, mas nunca imaginara que ela pudesse querer desistir. E o pior de tudo era olhá-la agora se posicionar na sala e não saber se persistir naquele caminho era mesmo o melhor para ela.
Afundou o rosto na toalha e secou o cabelo e a nuca. Sakura o observava em silêncio, tentando ser discreta e desviando o olhar sempre que possível. Desde o resultado das audições, não se falavam, ou melhor, ela evitava a todos. Se a vitória dele estava sendo contestada, a de Sakura então… Não sabia o que fazer, para ser sincero, não tinha tato para simplesmente se aproximar e oferecer apoio a Sakura porque ela, assim como ele, não estava sendo cem por cento sincera. Dava para ver, nas ações dela, no modo furtivo como ela fugia até mesmo de Ino, que existiam coisas de que ela não queria falar. Com Ino, era mais fácil, ela era sempre tão transparente que Sasuke sabia como agir ou o que dizer, sabia que poucas ações bastavam. Com Sakura, não… era como se olhar no espelho, como ver o próprio reflexo, só que prestes a se quebrar.
Franziu o cenho de repente e olhou para Sakura. Naruto tinha lhe dito que ela estava mal antes mesmo dos resultados serem lançados… por algum motivo, ela se abria com Naruto, conversava com ele… talvez, pudesse pedir para que ele tentasse descobrir o que acontecia.
Olhou o relógio e se levantou ao ver os ponteiros finalmente marcarem vinte e três horas. Estava morto, cansado, querendo apenas cair na cama até o dia seguinte. Subiu ao vestiário, com atenção, e optou por tomar banho em casa, em segurança. Madara já o esperava, estacionado na frente da escola, e Sasuke mandou uma breve mensagem para Naruto antes de descer as escadas com Ino ao seu lado e entrarem no carro.
Ino suspirou profundamente ao fechar os olhos enquanto Madara dirigia. Os músculos doíam, relaxam à medida que o tempo passava, e ela se permitia afundar no estofado. Sasuke respondia de maneira breve as perguntas de Madara, e ela aproveitava a música baixa para relaxar. Aquele havia sido o primeiro dia, apenas o primeiro. Teriam ainda três meses de ensaio antes das apresentações, três meses com Orochimaru pegando em seu pé como se tivesse um chicote em mãos para fazê-la dançar da forma que ele achava ideal.
Quando aquilo terminaria? Em dois anos quando se formassem? Duvidava… Para Sasuke, talvez, para ela, não… Mesmo sendo profissional e não tendo que lidar com Orochimaru, ainda teria que suportar um outro professor qualquer, outros coreógrafos, outras audições, tudo de novo. Aquele pesadelo não teria um fim tão fácil.
— Ino, chegamos — Madara anunciou.
Ela abriu os olhos e reconheceu a própria casa.
— Muito obrigada pela carona — agradeceu, e Madara assentiu com a cabeça.
Entrou em casa sem expressão, não havia raiva ou tristeza, mas também não existia sequer os rastros de felicidade e ânimo. O pai dormia no sofá, o controle remoto da televisão nas mãos e a coberta quase caindo. Cobriu-o melhor, a gata apareceu entre suas pernas, ronronando para então miar.
— Ele não te deu janta hoje, Bom-Bom? — perguntou ao pegá-la no colo e então ir à cozinha.
Deixou a gata perto do pote de comida e abriu o armário para pegar a ração e colocar uma pequena quantidade na vasilha. Acariciou-lhe o pelo com carinho e se levantou. Precisava de um banho, o suor no corpo a incomodava mais do que qualquer outra coisa, dava-lhe a impressão de que ainda estava na sala de aula, de que ainda podia ouvir o maldito bastão de Orochimaru contra o chão, de que os olhares de deboche ao seu redor ainda estavam ali, com ela.
Retirou a calça e a blusa e entrou no chuveiro gelado ainda com o collant e a meia calça. Sentou-se no chão enquanto a água caía e retirou os grampos do coque sem pressa, como se cada um que atirava longe fosse um de seus problemas. O cabelo loiro logo caiu por suas costas, aquilo lhe causava um alívio tão grande… Despiu-se e não se sentiu mal por desfiar a meia calça sem querer no processo. De pé, demorou-se mais do que de costume no banho e, quando saiu, quando ficou de frente para o reflexo no espelho de seu quarto, não soube o que sentir.
Gostava de como era, realmente não via problema no peso que possuía, na altura, na distribuição do corpo. Mas era como se somente ela visse beleza naquele quadro, como se sua imagem fosse uma daquelas escultura preteridas a que somente o próprio artista ama.
O celular vibrando na cama lhe chamou a atenção, era uma mensagem de boa noite de Gaara, uma que ela observou sem emoção por alguns segundos antes de discar o número dele e esperar que a atendesse.
— Alô? — A voz dele era suave, calma, sempre tão calma…
— Te acordei?
— Não, eu não consigo dormir tão cedo. — Insônia, ela já havia reparado.
— Está muito ocupado, Gaara?
— Não, por quê? Precisa de alguma coisa?
— Pensei em… queria… andar de moto um pouco com você.
— Agora? — ele perguntou, confuso, e Ino deu de ombros, como se ele pudesse vê-la.
— Se você não puder, vou entender, eu só… bem, só preciso me distrair um pouco, mas vou entender se você não puder ou, não sei, me desculpe pelo horário e-
— Ino, Ino — ele a chamou, a voz tranquila como sempre. — Tudo bem, eu não estou com sono mesmo, vai ser bom espairecer um pouco. Pode me mandar seu endereço para te buscar?
— Claro — ela respondeu aliviada. — Claro…
Ino fechou os olhos e respirou fundo assim que desligou o celular, sua gata miou sentada na cama, e Ino a espiou pelo canto do olho.
— Eu vou deixar um recado para ele, ok? Não vou matar meu pai do coração, sua gata desconfiada — resmungou.
Conferiu o horário, Gaara tinha dito que levaria uns quarenta minutos para chegar, então daria tempo de ela se arrumar com calma e comer alguma coisa. Lembrou-se de levar uma jaqueta dessa vez, a noite estava fria, e o vento a castigaria naquela moto se fosse sem. Secou o cabelo no secador e esperou um tempo antes de trançá-lo de uma forma bonita. Na cozinha, enquanto fazia um lanche rápido, espiou o pai dormindo no sofá e mordeu o lábio, pensativa.
Não podia falar que estava indo para a casa de Gaara. Não que o pai não soubesse de seus relacionamentos, ela não precisava esconder nada sobre isso, sempre tinham sido muito abertos para esse tipo de conversa, entretanto, não queria ter que responder nada sobre aquilo, sobre o ballet, sobre o motivo de estar saindo à noite com aula cedo na manhã seguinte.
Escreveu um breve bilhete, avisando que dormiria na casa de Neji, e enviou uma mensagem para o amigo para encobri-la. Não podia falar que ficaria na casa de Sasuke, seu pai descobriria a mentira assim que falasse com Madara. Felizmente, com Neji, as coisas eram mais simples, uma vez que todos evitavam ao máximo contato com a família dele, e o amigo não criava muita tempestade ao lhe perguntar o motivo de estar mentindo. Prometeu explicar no dia seguinte, e ele entendeu. Simples assim.
Quando Gaara chegou, ela já estava pronta para sair, antes que ele buzinasse e corressem o risco de acordar Inoichi. Ele lhe estendia um capacete, e só Deus sabia o quão grata ela estava por subir naquela moto e ouvir Gaara girando mais uma vez a chave na ignição.
— Para onde? — ele perguntou, as mãos de Ino cruzando em frente ao seu corpo enquanto a cabeça dela repousava em suas costas.
— Sua casa.
A resposta veio no acelerar da moto, e Ino manteve os olhos fechados durante o percurso. O som do veículo cortando o vento, dos poucos carros a correr pela madrugada, tudo isso era tão relaxante… Era como se ela não precisasse pensar, um hiatus em sua própria vida, a pausa que ela tanto desejava para poder apenas existir sem ter preocupações, medos, inseguranças, problemas.
Gaara não ousou interromper esse momento. A mão repousava sobre as de Ino em cada semáforo fechado, numa carícia simples que já havia virado hábito e de que ele gostava. Não estava surpreso pela ligação para ser sincero, talvez pelo convite, mas não pela ligação. Conversava praticamente todo dia com Ino, já sabia que aquele era o primeiro dia dos ensaios, e ele imaginava, depois do que ela havia contado sobre o ataque ao amigo, que alguma coisa pudesse acontecer. Tinha passado o dia inteiro ansioso, esperando-a enviar alguma mensagem contando sobre o dia, curioso e, ao mesmo tempo, preocupado.
Não era como se Ino fosse uma daquelas bailarinas de porcelana nas caixinhas de música, não era como se ela fosse frágil, entretanto, a combinação dos piores fatores possíveis podia danificar até mesmo a mais sólida estrutura. Ela já teria que fotografar com Sasori, já tinha que aguentar os malditos comentários nas redes sociais, já tinha a pressão do vestibular, um professor de dança que ele não entendia até agora como ainda lecionava, e então os ensaios… Era coisa demais para uma única pessoa aguentar sozinha.
Se, pelo menos, fosse ele a fotografá-la no novo ensaio… não que pudesse fazer muita coisa, ele sabia que não tinha o poder de resolver todos os problemas dela, mas… ao menos como modelo ele podia fazê-la se sentir confortável. Algo que ele duvidava que Sasori não conseguiria, não, ele nem ao menos se esforçaria para isso! Pain só podia ter perdido a razão… Lembrava-se bem da conversa com o chefe e não havia sido muito agradável… Sentira-se uma criança a quem os pais precisavam recordar de suas obrigações mesmo estando cumprindo todas elas. Pain odiava, com todas as forças, relacionamentos entre modelos e fotógrafos, e Gaara entendia perfeitamente que era por péssimas experiências anteriores, contudo, ele merecia um voto de confiança, não? Nunca havia dado motivo algum para que duvidassem do seu empenho, da qualidade de seu trabalho, de seu profissionalismo!
Suspirou ao entrar na garagem do condomínio. Ainda tinha a viagem que deveria fazer… justo na semana de fotos de Ino com Sasori… não queria ir, estava com um péssimo pressentimento e definitivamente não queria estar longe dela naquela semana. Mas rejeitar a proposta seria provar que Pain estava certo, que estava mudando suas prioridades… Sua viagem era uma chance única, uma forma de incrementar seu portfólio, era importante! Mas seu coração não conseguia colocar isso acima de Ino...
Ela estava quieta, o que não combinava com sua personalidade. Abriu a porta do apartamento, deixando-a entrar primeiro, pendurou as chaves da moto e viu Ino tirar o casaco que vestia.
— Aceita beber alguma coisa?
— O que você tem? — ela perguntou.
— Vinho e vodka — respondeu, e ela riu.
— Oito ou oitenta, hum? Acho que vou ficar na água hoje…
Gaara concordou e foi até a cozinha. Ino o observava, os olhos atentos à movimentação dele pela casa. Sorriu quando ele voltou a se aproximar, os olhos verdes tinham um magnetismo forte, gostava como eles a atraíam com facilidade, do mistério que pareciam conter e da tranquilidade que lhe passavam. Fez questão de arrastar a mão pela de Gaara, devagar, enquanto pegava o copo e bebia a água, sem desviar o olhar do dele e sorriu quando ele balançou a cabeça de um lado ao outro com um sorriso discreto.
— Está com fome? — ele perguntou. — Como foi o ensaio?
— Uma merda, e eu já jantei, obrigada — respondeu, e se deixou guiar enquanto Gaara a puxava pela mão para a sala. — O que é isso? — ela perguntou ao olhar para a televisão.
— Um documentário. É sobre a agência em que quero entrar — explicou, e Ino o olhou, surpresa. — Tem algumas informações do estágio e alguns depoimentos importantes de alguns fotógrafos e modelos — completou ao pegar o controle.
— Quer terminar de ver? — ela indagou, e Gaara piscou, confuso. — Sério, eu não me importo, de verdade. Posso assistir com você.
— Não acho que vai ser muito interessante para você.
— Eu deixo você me explicar. — Ela riu, sentando-se no sofá. — E assim você me conta um pouco dessa agência. Não sabia que estava querendo mudar.
— Não é mudar exatamente. Vem cá… — Ele se sentou no canto do sofá, de lado, e estendeu a mão para Ino.
Ela corou ao ser puxada com delicadeza para deitar sobre o peito dele naquela posição e suspirou quando a mão dele pousou em seu cabelo, desfazendo a trança com lentidão ao dar play no documentário.
— Eles possuem um estágio, que eu quero muito. E são uma empresa diferente, trabalham com fotografia em áreas de guerra, projetos sociais, essas coisas. Sempre quis fazer parte disso. O trabalho em que Konan me colocou na próxima semana é justamente para aumentar meu portfólio para a entrevista desse estágio.
— Vai ficar fora por muito tempo semana que vem? — ela perguntou ao inspirar o perfume dele na blusa que vestia.
— A semana toda infelizmente.
— Vou ter que quebrar a cara de Sasori sozinha? — ela dramatizou, e Gaara riu baixo. — Sério, como você suporta ele?
— Não suporto. E… não dê ouvidos a ele, está bem? Qualquer coisa, fale direto com Konan. Qualquer coisa mesmo, Ino — respondeu sério, e Ino apoiou os braços no peito de Gaara e ergueu a cabeça para olhá-lo.
— Acha que ele vai fazer merda?
— Não seria a primeira vez…
— Preocupado? — Ela sorriu de canto, e Gaara franziu o cenho.
— Você não?
Ino riu, os olhos azuis cansados enquanto a mão agora acariciava o cabelo ruivo de Gaara e descia para contornar o rosto dele.
— Eu enfrento todo dia uns dez Sasoris diferentes, Gaara… Se ele tentar qualquer merda, pode ter certeza que não vai ser comigo que você precisará se preocupar. Mas… — Ela aproximou o rosto do dele, os olhos verdes atentos a cada palavra sua, as mãos dele em sua cintura. Deixou que a boca tocasse de leve a pele da bochecha dele, pouca coisa, e sentiu-o sorrir enquanto a mão dele subia por suas costas. — Agradeço a preocupação.
Gaara levou a mão ao cabelo dela, colocando-lhe a mecha solta atrás da orelha e segurando o rosto de Ino pelo queixo ao guiar a boca dela para perto da sua.
— Você tem que parar de tentar mudar de assunto fazendo isso — ele sussurrou, e Ino suspirou quando beijou com carinho o leve bico que tinha se formado nos lábios dela.
— Você podia fingir que não tinha percebido que era uma distração e me beijar de verdade. A gente ia se pegar um pouco, transar e happy ending — ela resmungou, e ele riu.
— Ainda podemos fazer tudo isso, só disse que Sasori é um problema, e fingir que não é não vai melhorar a situação — respondeu com calma.
— Eu sei disso. Mas falei sério também… se Sasori me fizer algo, não é mesmo comigo que você vai ter que se preocupar. Você lembra de quando eu estava para entrar na agência, não lembra? Além de uma personalidade ruim e de ótima inclinação para um bate boca, tenho amigos bem protetores.
— Pode me ligar se acontecer alguma coisa? — Gaara perguntou, e Ino sorriu pela forma como os olhos verdes a fitavam esperançosos.
Ah, como odiava isso! Por que ele tinha que ser tão… tão… ah! Queria beijá-lo, queria parar de falar sobre aquilo, queria apenas que Gaara a fizesse se sentir bem como da última vez. E queria isso porque não queria ter de ouvi-lo, cada palavra que ele dizia parecia derretê-la ainda mais! Era como se ele simplesmente não soubesse escorregar ou pisar na bola, tinha que ser perfeitinho em tudo e fazer seu coração acelerar pela forma apaixonada com que a observava!
Ah, ele estava apaixonado? Sério? Por ela? Quando tinha aquelas modelos ao redor dele o tempo todo? Quando tinha Hanabi?? O quão idiota ele podia ser?
— Ino, vo-
Não o deixou terminar, colou a boca à dele em um beijo afoito, a mão segurando-o pela nuca enquanto o sentia ceder gradualmente ao beijo e corresponder à altura de seu desejo. Era excitante a dinâmica que tinha com ele. Gaara percebia cada uma de suas intenções, conseguia ver isso pelo modo como o olhar dele mudava, como a postura se tornava mais tensa, como ele ficava ainda mais quieto. O coração gostava daquele jogo, batia forte à medida que a ansiedade crescia, como se ela e Gaara mantivessem no pouco espaço que os separava uma tensão fina que rachava-se lentamente até se estilhaçar por completo.
Por quê? A pergunta rondava sua mente, a cada beijo, toda vez que a boca dele avançava faminta contra a sua e as mãos a apertavam mais contra o corpo dele. Por que ela? Não que importasse, ou importava, não sabia! Se não fosse Gaara, se fosse outro qualquer que tinha conhecido de outra forma, ela nunca se preocuparia com isso! Mas era Gaara, que vivia tão cercado de mulheres e de pessoas tão mais bonitas que ela! Então, por quê?
Gemeu com o contato das peles, as unhas arranhando o peito de Gaara enquanto ele se sentava no sofá e a puxava para o colo. Sentia-o duro, excitado, mas… por quê? Por quê? Por que, quando fechava os olhos, ainda ouvia Orochimaru falar de seu peso? Por que conseguia se lembrar de cada piada, de cada foto que tinham usado para rir dela?
Diminuiu o beijo, a respiração quente e alterada de Gaara a excitavam, sentia-a contra seu rosto, ouvia-a e mordia o lábio para não gemer quando ele passava a morder seu pescoço. Segurou o rosto dele, puxou-o com delicadeza até o seu, os olhos correram pelo corpo dele, o tronco à mostra, o físico a que não podia ter defeito, e então… ao dela.
— Ino? — ele a chamou, baixo, a voz dele parecia sempre tão carregada de cuidado.
— Por que eu?
— Como? — Ele franziu o cenho, visivelmente confuso.
— Metade das modelos com que você trabalha ficam atrás de você, até Hanabi, então…
E de novo aquele olhar! Ino suspirou, exasperada. Por que ele tinha que a olhar como se fosse ela ali que não estivesse fazendo sentido, e não ele? Por que ele sempre tinha que a olhar como se não visse nada de errado? Como se não entendesse a que ela se referia?
— Por que você tem que ser assim? — perguntou num fio de voz.
Gaara segurou o rosto de Ino com as duas mãos, e Ino viu nos olhos dele um misto de curiosidade e ternura que a fizeram querer socá-lo mil vezes quando ele devolveu sua pergunta:
— E por que não você?
— Você é cego?
— Graças a Deus, não, sou fotógrafo, lembra?
— Ah, eu desisto! Você… é impossível! Hey, o quê? Gaara! Hey!
Ele não a ouviu. Ino sentiu as costas no sofá e arregalou os olhos quando Gaara ficou sobre ela.
— Você quer saber o porquê, não é? Porque é você e não nenhuma outra pessoa — ele perguntou, e Ino arfou quando a boca dele desceu por seu rosto até o pescoço para beijá-lo. — E eu perguntei por que não seria você? — A boca dele desceu ao colo, a mão deslizando pela lateral do corpo dela e os dedos brincando com a borda rendada do sutiã escuro. — Eu me apaixonei por você. Qual o problema nisso?
Ino fechou os olhos, as mãos fechadas com força no sofá enquanto sentia Gaara ajeitar-se entre suas pernas e correr os lábios por seu corpo. “Eu me apaixonei por você”, ele dizia tão fácil… “Qual o problema nisso?”, idiota…
— Ino. — A mão dele estava em seu rosto, sentia a face dele contra a sua, esperando que ela abrisse os olhos e o encarasse. E, quando fez, foi impossível conter o rubor que lhe queimou a face quando Gaara sussurrou, com os lábios tocando os seus — Você é linda… Sabe disso, não sabe? Você é simplesmente tão maravilhosa que eu devo ter mais fotos suas do que de qualquer outra pessoa ou lugar… Eu não consigo tirar os olhos de você, seja dançando, rindo, andando, não importa… eu não consigo olhar para outra coisa quando você está comigo.
— Mas-
— Ino — chamou, o tom sério dessa vez. — Por que você está comigo?
— O quê? — Ela arregalou os olhos, e Gaara esperou, calmo, enquanto os dedos enrolavam mechas do cabelo dela. — Como assim? Se você está falando do que Sasori disse, eu juro q-
— Ino, as últimas pessoas no mundo que eu vou ouvir são Sasori e modelos gananciosos. — Gaara riu, baixo. — Eu perguntei por que você está comigo? Por que eu?
— Eu-... isso não faz sentido! O problema não é você aqui! Ou é! Porque com certeza você tem um parafuso a menos ou dois!
— O que você considerou para estar comigo? Para me ligar e vir aqui hoje? No que você pensou sobre mim?
Ino respirou fundo, os olhos verdes tão próximos que ela conseguia ver seus detalhes, as olheiras que se estendiam na face de Gaara, o modo como a boca dele parecia levemente curvada em um sorriso doce, como se soubesse cada resposta para as perguntas que fazia.
— Você por acaso pensou na minha altura em algum momento? No meu peso? Na cor do meu cabelo?
— Não…
— Então, por que eu deveria pensar nisso? Não são essas coisas que nos fazem nos apaixonar… Você se apaixona por quem a pessoa é. E eu achei que você soubesse disso, mas estou vendo que vou ter que repetir por um tempo porque, Ino, você é linda.
Ino mordeu o lábio, e Gaara piscou surpreso quando os olhos dela encheram-se de água e as lágrimas começaram a correr sem explicação.
— Ah, eu-... Ino…
— Cala a boca e me abraça — ela resmungou cobrindo o rosto com as mãos, e Gaara sorriu ao deitar-se do lado dela no sofá e puxá-la para seus braços.
Ele respirou fundo o aroma do shampoo que ela usava, as mãos adorando tê-la perto o bastante para que pudessem segurá-la e mantê-la para si. As palavras de Konan, quando começaram a trabalhar com Ino, voltavam à cabeça. Ela era segura de si, até que tudo a fizesse se questionar… Precisava aproveitar aquele tempo com Ino, tirar qualquer insegurança ou dúvida que estivesse a perturbando, deixá-la o melhor possível para a semana seguinte… E, se Sasori fizesse algo… Talvez Ino não tivesse entendido bem o quanto ele estava preocupado, o quanto lhe desagradava a ideia de que ela ficasse perto de alguém que com toda certeza não tinha nada de bom para oferecer a ela… Não, ela não havia entendido, porque, se Sasori fizesse algo, não seriam só os amigos dela a agir...
Beijou mais uma vez o rosto dela e repetiu isso até que ela risse entre as lágrimas e buscasse por sua boca. Suspirou, e ficaram naquilo até que o sono viesse, até que ele adormecesse primeiro sem nem mesmo perceber, com uma facilidade que há muito não possuía...
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