Não pare a Música
19 Capítulo 19 - A queda
Notas iniciais
Konohamaru estava estranho, Gaara conseguia saber disso sem muita dificuldade, afinal, parecia que o garoto travava uma luta interna sentado na área de descanso dos sets. Sentou-se ao lado dele, em silêncio, não era uma pessoa invasiva, apesar de se preocupar e querer saber o que tanto afligia o outro.
— Está tudo bem? — indagou após longos dez minutos sem que Konohamaru nem o olhasse.
— Se você soubesse de algo importante, mas alguém te pedisse para não contar porque vai mudar, o que faria? — Konohamaru virou-se para ele aflito.
Gaara esperou que ele desse mais detalhes e, quando não o fez, refletiu por um instante.
— Você confia nessa pessoa? Acredita que vai mudar?
— Sim — Konohamaru respondeu convicto.
— Então você não conta e a ajuda a cumprir o que falou.
— Mas e se ela não cumprir?
— Você confia ou não nela?
Konohamaru jogou o corpo para trás no puff e cobriu o rosto com as mãos enquanto grunhia sem saber o que fazer.
— Como está o ensaio com Ino? — ele preferiu mudar de assunto.
— Bem.
— Bem? — insistiu ao tirar as mãos do rosto para sorrir malicioso para Gaara.
— O que você quer ouvir, Konohamaru?
— Não sei… — Ele cantarolou ao se sentar direito no puff e então apoiar os cotovelos no joelho. — Algo interessante talvez…. Por falar nisso, vocês não começariam a primeira sessão de fotos hoje?
— Sim… — comentou e checou o celular de novo com um suspiro cansado. — Acho que ela vai se atrasar. Já se passaram dez minutos do horário combinado.
— Mas eu a vi já aqui agora há pouco. — Konohamaru franziu o cenho, e Gaara virou-se para ele em clara confusão. — Ela passou voando por mim faz uns vinte minutos.
— Sabe pra onde ela foi?
— Não… ela tava com o celular na mão e não parecia muito bem para ser sincero. Só que eu tinha acabado de falar com a Hanabi e não prestei muita atenção. Talvez ela tenha ido tomar um ar, parecia que precisava disso.
Gaara se levantou com uma expressão preocupada. Havia mandado uma mensagem para Ino mais cedo, e ela tinha confirmado o ensaio fotográfico, mas a mensagem confirmando se ela já havia chegado ao set continuava marcada como “não recebida”.
— Obrigado.
Se ela estava no prédio, bastava procurá-la, havia poucos lugares para onde ela poderia ir se quisesse ficar sozinha ou tomar um ar, e felizmente ele os conhecia de quando Konan ainda tinha o péssimo hábito de fumar e precisava fazer isso em um lugar aberto. Decidiu ligar para Ino depois de conferir três andares, mas em vão, caía em caixa postal sem nem ao menos tocar antes. Sem sinal, e só tinha um lugar naquele prédio que não possuía nada de sinal ou internet.
Deixou o elevador e então abriu a porta para o terraço. Ventava um pouco, mas o sol se destacava no céu entre as nuvens. Gostava daquele lugar, apesar de fazer tempo que não o visitava. Dois passos foram o suficiente para achar Ino. Ela estava com os braços cruzados no parapeito, o olhar no horizonte, de costas para ele. O vestido dela balançava com o vento, assim como o cabelo loiro, mas ela apenas colocava uma mecha ou outra atrás da orelha e erguia a cabeça para olhar o céu.
Caminhou, as mãos no bolso enquanto lamentava não ter sua câmera ali para registrar aquele momento. Seria lindo… conseguia imaginar o azul claro dos olhos de Ino combinando com o céu, os cabelos soltos deixando o vento os carregar naturalmente, o sorriso a iluminar a fotografia até mesmo mais que o próprio sol. Entretanto, essa imagem se quebrou assim que Ino se virou após um longo e pesado suspiro.
Ela não o esperava ali, o espanto e o paralisar deixavam isso mais que claro, assim como ele não esperava pelos olhos um pouco inchados, o nariz avermelhado e os lábios trêmulos.
Ino pegou o celular de repente e soltou um palavrão pelo horário, tinha perdido totalmente a noção do tempo enquanto estava ali. Engoliu em seco e limpou a garganta antes de sorrir para Gaara e caminhar na direção dele.
— Meu Deus, me desculpe, estamos atrasados, não é? Eu realmente não vi que aqui não tinha sinal e acabei me desligando do mundo um pouco — justificou-se, mas parou assim que Gaara segurou seu braço ao tentar passar por ele.
— O que aconteceu com você? — ele perguntou, a voz calma enquanto a analisava de perto. Podia ver o rastro das lágrimas na pele, a maquiagem levemente borrada, e o sorriso pequeno que ela lhe dirigiu não o deixou nem um pouco mais tranquilo.
— Nada importante, eu já resolvi.
— Mesmo?
— Sim, não tem o que fazer na verdade, só… — Ela riu, sem humor, e ergueu a cabeça em seguida. — Nada, esquece. Podemos ir?
— Foi alguma coisa aqui dentro? Porque, se for, Konan sempre pode ajud-
— Não foi nada aqui — ela o cortou, firme. — E eu não quero falar disso…
— Eu posso ajudar de alguma forma?
Ino fechou os olhos e os apertou ao balançar a cabeça em frustração.
— Ino?
Ela o encarou e sorriu com ironia. Queria sim gritar tudo para fora, sufocava com a própria agonia, com as palavras que se obrigava a engolir apenas para manter a boa pose, para não incomodar ninguém. Os olhos verdes a olhavam com tanto carinho e atenção que ela se sentiu ceder… Gaara não era Sasuke ou Neji, ele não tinha motivos para ficar de cabeça quente ou explodir com os problemas dela, ele apenas a ouviria e, naquele momento, como ela desejava alguém para poder desabafar tudo o que vinha lhe atormentando...
— Estou cansada, ok? Cansada de ser motivo de piada… — ela disse, a tranquilidade na voz não enganando ninguém e fazendo Gaara atentar-se ainda mais a ela e à raiva que via surgir aos poucos nas feições delicadas. — De agora saber que o meu nome está na internet para as pessoas rirem de mim e fazerem pouco caso do meu esforço! De acharem que, só porque não sou a porra de uma mulher magra, eu não tenho direito de conseguir o que quero! — ela falou mais alto, a mão passando no rosto com certa força ao secar a lágrima desobediente, e o riso vindo amargo ao erguer o queixo. — As audições são em três dias! Três! E tudo o que a merda dessas pessoas sabem fazer é ficar falando sobre com quem eu vou dormir para conseguir o papel que quero ou como Pain deve ter tido pena de mim e me incluído na cota da empresa para diversidade! Quer saber? Eu estou cansada! E nem isso posso mostrar porque quanto mais eles souberem que me importo, mais vão me infernizar ou porque Sasuke e Neji são dois putos sem cérebro que vão se meter em confusão para me defender como se eu fosse a droga de uma garotinha indefesa! E eu sei que eles só querem ajudar, mas… grrrr!! Eu suporto essas piadas há anos, sorrio e entro de cabeça erguida na porra daquela sala repetindo para mim mesma que o dia vale a pena e que não vou deixar ninguém dizer o contrário, já passei por mais do que vocês podem imaginar, olho no espelho todo maldito dia me convencendo de que não preciso ouvir Orochimaru nem ninguém dando opinião no meu corpo ou nas minhas roupas. Mas sabe… é difícil pra caralho manter a confiança quando ta todo mundo gritando que você simplesmente não se encaixa nisso ou naquilo por causa da porra do seu peso! Eu cansei! Sério… cansei...
Gaara tinha os olhos arregalados quando ela terminou de falar. Ino estava arfante, o rosto corado enquanto tentava respirar fundo e se acalmar, o choro preso nos olhos úmidos. Ela tremia, ele conseguia sentir isso por ainda a segurar pelo braço. Não pensou ao puxá-la para si, abraçou-a com força, a mão mergulhou no cabelo dela, trazendo-lhe a cabeça ao peito sem saber o que dizer para tudo aquilo. Não era bom com palavras, sabia que lhe faltava tato e que muitas vezes era simplista demais e que isso frustrava as pessoas… Sentiu-se aliviado quando Ino o abraçou de volta e deixou-se estar daquela maneira pelo tempo que fosse necessário.
Seu coração batia depressa e agoniado, a percepção do pelo que Ino estava passando o atingiu como um tapa e o fez se lembrar de novo da reação dela ao ver as fotos do booking, do modo como tinha tentado se esconder da câmera ao vestir o cropped. Aquilo o irritava, ver qualquer um tentar ofuscar Ino apenas por ela não ser igual ao que tentavam pregar genuinamente lhe tirava do sério, ainda mais porque ela era melhor que todos eles!
Ino respirou fundo, o peito parecia mais leve, e ela se recriminou por ter guardado tudo aquilo por tanto tempo. Era como se agora parte do peso que vinha carregando deslizasse para longe de seus ombros, o calor dos braços de Gaara a confortavam, a mão em seu cabelo a fez suspirar e inspirar o perfume dele, e ela tinha certeza de que nada no mundo a tinha acalmado tão rápido quanto a segurança que aquele abraço lhe oferecia.
Soltou as costas dele, só percebendo agora o quão forte tinha se segurado na camiseta que Gaara vestia. Respirou fundo e sorriu ao dar um passo para trás e desfazer o contato.
— Chega... — ela sussurrou ao se afastar.
Gaara a viu limpar o rosto de maneira firme, os olhos azuis não mostravam mágoa, mas uma determinação diferente enquanto ela soltava o ar dos pulmões de uma única vez e sorria.
— Nós temos um ensaio a fazer e quer saber? — Ela deu de ombros e ergueu a cabeça, sorrindo animada novamente. — Vai ser incrível! E eu vou colar as fotos que você tirar na cara de cada um desses filhas da puta porque vão estar lindas! Porque eu vou ficar foda! Me desculpe, mas sobrou para você agora, vai ter que fazer um trabalho excepcional para me ajudar. E você ainda tá me devendo uma dança e faço questão de cobrar isso hoje! Não pense que eu esqueci.
Gaara sorriu discreto, segurou a mão de Ino e limpou o último rastro de lágrima que terminava próximo ao sorriso que ela lhe exibia.
— Vai ser um prazer te ajudar.
* * *
Aquele ensaio seria diferente, Gaara soube disso assim que Ino se posicionou no meio do set, vestida e com uma maquiagem que ela mesmo tinha feito, já acostumada a isso graças às apresentações. O set onde estavam era diferente dos outros, as paredes eram em um preto fosco, bem como o chão, Ino reparou no pequeno aparelho de fumaça, muito semelhante ao que usavam no ballet, e nos três pontos de luz. Havia um pequeno cenário montado em forma de “U”, nada muito chamativo, mas que harmonizava com o sentimento que deveriam passar graças às flores claras e delicadas. Lírios brancos e azuis, uma escolha interessante já que ela dançaria a morte de Giselle e as flores significavam amor eterno.
Gaara a observou se posicionar ao centro enquanto ele arrumava melhor a intensidade da luz e a posição do refletor central e dos outros dois auxiliares, precisava do lugar claro, com o jogo de sombra certo para que depois pudesse trabalhar bem na edição das imagens. A roupa que Ino usava para aquela fotografia tinha ficado linda, o collant era azul celeste, acinturado, a parte de cima na frente era delicada, comum, as alças finas passando pelos ombros de Ino e descendo pelas costas que deixavam um pouco mais que dois terços expostas. Para o começo das fotos, ela ainda usaria um casaco de tecido leve e fino, maleável, que caía em um corte solto até a cintura, mais curto nas costas e mais longo à frente, fechado apenas por duas finas faixas que se entrelaçariam sem eclipsar todo o collant. As sapatilhas de ponta eram as rosas, e até ele, que era leigo no assunto, podia ver a diferença entre elas e as salmão quando Ino as experimentou pela primeira vez.
O conjunto todo trazia delicadeza e contemporaniedade, a iluminação estava perfeita, o cenário casava perfeitamente com o figurino, estava tudo em seu devido lugar para que agora o restante dependesse apenas da dança de Ino e da capacidade de Gaara de registrar cada detalhe dela. Ino já tinha lhe mostrado a coreografia, ele gravara e já havia decorado cada trecho, cada expressão dela, cada momento que teria que ser capaz de eternizar.
Olhou-a. Diferente de todas as outras vezes, ela estava como ele sempre achou que deveria estar: segura. Talvez por estar cansada dos demais, talvez por se sentir acolhida na dança como ele já tinha visto acontecer mais de uma vez, talvez por confiar um pouco que fosse nele, Ino andava pelo set sem constrangimento, testando as sapatilhas e marcando partes da coreografia. Segurou melhor a câmera em mãos, acompanhando Ino ao lugar onde sabia que ela começaria a dançar, e então ativou pelo controle a música.
Os olhares se cruzaram por um segundo antes de ele erguer a câmera, Ino respirou fundo, concentrando-se e esperando pela entrada e, quando ela soou pelo set, o mundo todo era apenas música, dança e os flashes, o mundo era eles, somente os dois e nada mais. Havia sintonia, a interpretação de Ino era intensa, e ela olhava para a câmera nos momentos corretos sem que ele precisasse aconselhá-la. Sentia-se na plateia mais uma vez diante do espetáculo que aquela mulher conduzia com excelência, como se ela soubesse desde sempre como atrair a atenção do público, como se tivesse nascido para isso. A lente era dela, os olhos dele eram dela, a atenção era dela, e a cada segundo, a cada flash, a cada movimento, Gaara estava mais que convencido que ele por inteiro pertencia a ela.
Ino era graciosa, expressiva, inerte no papel que desempenhava apenas para ele. Via a cabeça dela buscar a câmera, como se dirigisse a ela toda o sofrimento pelo coração partido ao descobrir que o homem que amava estava noivo e a tinha enganado. Acompanhou o sofrimento, registrou-o depressa à medida que a loucura então abraçava Giselle. Notou os lábios trêmulos, as mãos a abraçarem o próprio corpo, os olhos baixos semicerrados enquanto ela percorria o set na meia ponta e o casaco deslizava pelos braços até cair.
Ligou a máquina de fumaça à distância pelo controle. Não precisava de muita, afinal, as sapatilhas não podiam ficar ofuscadas, e um pequeno ventilador ao fundo direcionava a fumaça para cima, onde ele realmente a queria.
Abaixou-se, ciente de que a coreografia tendia ao final e que Ino logo a finalizaria no chão. Aproveitou o novo ângulo, esperava já pela hora que ela subisse nas sapatilhas de ponta, curvasse o corpo para frente, as mãos estendidas ao chão antes de subi-las ao peito. A súplica no olhar, o desespero, a música ao fundo a atingir o seu clímax enquanto Ino enfim pendia ao chão, a queda programada que indicava a morte da personagem.
Ela era incrível, a dança era tão envolvente que ele queria entender como viam algo errado nela, como conseguiam deixar padrões ultrapassados ofuscarem o talento que transbordava dela. Não era ingênuo, sabia que padrões estavam presentes em todos os lugares, que a sociedade impunha regras insanas que ele preferia fingir que não existiam, contudo, Ino parecia tão dona de si, tão talentosa, tão maravilhosa… que ele não tinha imaginado que aquilo a atingisse também. Por um momento, recriminou-se por desejar protegê-la de toda aquela sujeira, ela mesmo já havia dito que sabia lidar com aquilo sozinha, contudo, era impossível não querer ajudá-la, mesmo que fosse apenas para ouvi-la gritando sobre o assunto, mesmo que fosse para apenas se mostrar presente, ali, por ela, para o que fosse preciso.
Ah, merda, aquilo já estava saindo tanto do seu controle...
Aproximou-se. Não usaria nenhuma foto com ela no chão, sabia disso, mas já não era ele quem ditava o que deveria ou não fotografar. Sua câmera tinha se tornado refém, uma mera escrava a servir a Ino pelo tempo que ela desejasse. A música terminou, os olhos de Ino se abriram na direção dele, e um último flashe escapou de suas mãos.
Ino não desviou o olhar, inconscientemente umedeceu os lábios e se sentou sob a atenção da câmera, que tornou a disparar. Sorriu. Estavam próximos, pouco menos de um metro os separava, e pareceu ainda menos quando Gaara desceu a câmera da frente do rosto.
Nenhuma palavra foi dita, as respirações eram o único som que repercutiam entre aquelas paredes. Ino notou o constrangimento de Gaara surgir conforme os segundos passavam, e isso a fez sorrir confiante e achar graça. Quem o visse pela primeira vez certamente seria enganado ao se deixar levar por sua aparência, era engraçado alguém que parecia tão sério e rebelde se mostrar sereno e quieto. Levantou-se junto dele, agradecendo ao fato de a mente estar irritada e pronta para calar sem hesitação qualquer pensamento que a pudesse fazer reconsiderar suas atitudes. Caminharam até uma pequena mesa redonda alta, onde Gaara colocou a câmera e abriu o notebook.
— Posso ver? — pediu e tocou-lhe o braço para que ele mostrasse o display da câmera.
Gaara respirou fundo ao concordar, passou as fotos sem pressa, mostrando uma a uma a Ino enquanto explicava com poucas palavras como pretendia editá-las para a campanha. Em certo momento, ele sentiu quando a atenção dela já não estava na câmera, mas ignorou, manteve-se com os olhos no visor, apesar de se sentir analisado.
Aquilo era novo… Em todos aquele tempo como fotógrafo, nunca tinha cruzado qualquer linha com uma modelo, nunca tinha misturado seu trabalho com seus próprios interesses. Mas Ino era diferente, ele queria ainda que soubesse que não devia…
Suas mãos ficaram frias, e ele desistiu de falar ao perceber que não havia mais o que e para quem dizer. Ino sorriu de canto, segurou o queixo de Gaara sem força apenas com os dedos, convidando-o a virar o rosto para si. Sentiu-o soltar o ar, e isso lhe deu a impressão de que toda a relutância dele se foi junto. Deslizou a mão para a nuca dele, dando-lhe tempo de se afastar se quisesse, mas ele não o fez; em vez disso, fechou os olhos enquanto a segurava pela cintura e subia a mão devagar ao rosto dela.
Não era hipócrita para negar que queria aquilo mais do que admitiria a qualquer um, não se faria de idiota mesmo que sua consciência ainda pedisse que ele recuasse e fizesse aquilo fora da empresa. Se Konan ou qualquer outra pessoa entrasse ali, seria um problema, ele sabia que sim, mas… Ino estava na ponta das sapatilhas, a altura agora igual a dele, os braços passando-lhe pelo pescoço à medida que as respirações se aproximavam e mesclavam. E aquilo era tão sedutor... A boca dela próxima à sua, os dedos em sua nuca, os cílios longos revelando o desejo dos olhos azuis enquanto o observava.
As mãos dele apertavam seu corpo, Ino sentia-as em suas costas lhe dando equilíbrio e suspirou quando a distância entre eles se extinguiu. Vê-lo fechar os olhos e inclinar a cabeça havia sido o sinal que estava aguardando, e ela não perdeu tempo após isso.
O contato das bocas foi um divisor de águas, nada antes desse momento agora importava. Gaara se esqueceu de onde estava ou das implicações que aquilo poderia lhe causar e puxou Ino para si enquanto a mão alcançava a nuca dela. O beijo acionou uma castacata de eventos, como se Ino tivesse enfim derrubado o primeiro dos muitos dominós em sequência e agora só os assistisse ruir. Ela não era uma pessoa calma, muito menos passiva, o beijo tinha um ritmo intenso que ela fazia questão de aumentar à medida que Gaara cedia e o corpo dela vibrava pelas novas sensações.
O alívio no gemido baixo que Gaara deixou escapar fez Ino sorrir satisfeita, as mãos se infiltrando nos cabelos ruivos e os puxando de leve enquanto era girada. O corpo se arrepiou por completo ao sentir a parede em suas costas e, a melhor parte, o corpo de Gaara à frente. O collant era fino, as costas nuas, ela conseguia sentir perfeitamente cada toque de Gaara em si, cada aperto, o correr dos dedos pela cintura, a vontade com que agora ele unia os corpos.
Arfou, o coração disparando mais rápido enquanto as pernas acolhiam a coxa de Gaara entre elas. Não sabia dizer de onde tinha vindo aquela explosão, o motivo pelo qual beijava Gaara de maneira afoita como se eles não tivessem tempo e, ainda assim, precisassem descobrir tudo um do outro. Era desejo, ela reconhecia, um tão avassalador que a fez corar por nunca ter sentido, pelo coração enlouquecido no peito ser algo totalmente novo para si.
As bocas se afastavam com frequência, do mesmo modo que se buscavam logo em seguida. Não existia espaço entre eles, as mãos de Ino amassavam a roupa dele enquanto que as de Gaara passavam pela meia calça sem se importar se a estragariam pelo modo como puxava Ino pelos quadris ou os arranhava. O cabelo loiro caía pelos ombros, o penteado desfeito e bagunçado, e nenhum dos dois pareceu reclamar; pelo contrário, Ino arfou e tombou a cabeça para o lado com os olhos fechados em prazer quando sentiu as mão de Gaara se fechar em seu cabelo.
Sentiu-se quente, sentiu-se desejada, sentiu-se como se o mundo inteiro desaparecesse e não valesse de nada. Só eles importavam, somente a vontade de ter a boca de Gaara descendo por seu pescoço era o que ocupava seus pensamentos, apenas o desejo das mãos quentes dele em suas costas, apertando, conhecendo o corpo dela, era que a fazia suspirar e gemer baixo antes de reivindicar-lhe a boca.
Os olhos verdes estavam mais escuros quando cruzavam com os dela, as bocas tratavam de obedecer ao pedido mudo que as respirações descompassadas deixavam no ar, e Ino perdeu de vez qualquer resquício de razão que ainda pudesse haver no corpo em chamas quando sentiu que não era mesmo só ela que estava excitada.
Segurou a mão de Gaara em sua cintura, o sorriso malicioso brincando nos lábios avermelhados e um pouco inchados enquanto ela esfregava propositalmente o corpo contra a ereção que a calça dele não mais escondia. Arrepiou-se ao senti-la contra o tecido fino do collant, ouviu o gemido grave que Gaara deixou escapar e lambeu os lábios enquanto o via fechar os olhos e arrastar a boca por seu pescoço. A mão entrelaçou-se à sua, e ela fez questão de subi-la pelo próprio corpo, gemendo um pouco mais alto quando pousou a dele sobre o seio e o sentiu apertá-lo enquanto a língua subia pelo pescoço ao lóbulo da orelha.
Gaara perdeu-se, queria mais, muito mais. O gosto da pele de Ino estava em sua boca, a língua percorreu o pescoço até a alça fina do collant, a palma da mão sentiu o enrijecer do mamilo antes que ele o prendesse entre os dedos e voltasse a acariciar o seio coberto. Só que foi o abrir do botão de sua calça que o fez cair em si.
Não podiam, não ali pelo menos. Era arriscar sua carreira, por em jogo a de Ino junto, não podia deixar um escândalo por tudo pelo que lutaram a perder. Balançou a cabeça frustrado e só Deus sabe o quanto teve que se convencer a deslizar as mãos para longe do corpo de Ino e se erguer para beijá-la uma última vez.
— Não se atreva a parar — ela sussurrou, a língua passando pelos lábios dele em um convite a que ele não sabia como diria não. — Gaara…
— Aqui não… — Engoliu em seco, o corpo ainda pulsava junto do dela, fazendo-o se retrair cada vez que ela ondulava os quadris, os braços em torno de seu pescoço. — Ino…
— Me beija, mais uma vez, agora — ela demandou, e ele não pensou antes de se ver obedecendo.
Ino se afastou da parede, tocou os cabelos ruivos como se quisesse ter bem na memória a textura deles e a imagem de Gaara excitado com os cabelos revoltos. O beijo terminou devagar, como se as línguas buscassem aproveitar até o último segundo o deslizar uma sobre a outra.
Não se afastaram por completo, respiravam de forma irregular enquanto piscavam e tentavam entender o que tinham feito naquele exato momento. Ino foi a primeira a se recompor, recuando até que as costas sentissem de novo o frio da parede, e encarou o estado aéreo de Gaara. Penteou o cabelo com as mãos, jogando-o para trás e suspirando contente.
— Vou trocar de roupa — ela falou baixo para sua própria surpresa.
Gaara a encarou e concordou de modo automático. Viu-a sair do set e bagunçou os cabelos ao se deixar sentar no chão mesmo sem saber o que fazer. Ainda precisavam de mais uma sessão de fotos naquele dia, e ele agradeceu com todas as forças pelo tema da próxima ser apenas alegria.
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