Não me deixe ir
5 Capitulo 05 – Irmãos são para essas coisas
Notas iniciais
Não me Deixe ir
05 – Irmãos são para essas coisas
Imerso no meio dos livros o irmão mais novo nem percebeu o telefone vibrando dentro do bolso. Foi só depois do quarto toque que atendeu a ligação no banheiro:
– Qual o problema Dean? Achou alguma coisa?
– Não eu só... -
Parou sem saber por onde começar fazendo Sam preocupar-se:
– Dean o que houve?
– Me encontra no bar de ontem Sam, estou indo ‘pra lá.
Concordando ele largou a pesquisa pela metade. Fosse o que fosse Dean parecia bastante transtornado e Sam sabia que era preciso algo grande para fazer isso com o irmão. Apressando-se o máximo possível chegou ao bar sentando-se à mesa frente a frente com Dean. Ele estava bebendo, mesmo sendo de manhã – outro sinal nada bom.
– Algum resultado na biblioteca? – perguntou o loiro querendo achar um meio de iniciar a conversa.
– Nada de mais, e você?
Ele deu de ombros engolindo a bebida.
– Estaca zero.
– Então o que houve? – perguntou vendo o irmão enrugar a testa aborrecido – Dean?
Bufando o loiro bateu com o copo na mesa quase o quebrando. Como explicar, como ele se quer poderia começar uma discussão desse tipo com Sam? Talvez tenha sido uma má ideia. Seria melhor esquecer tudo de uma vez. Ainda assim ele sabia ser impossível simplesmente passar por cima disso tudo duma hora para outra. E Sam, bom, eles tinham prometido nunca mais mentir um ao outro, certo? Respirando fundo Dean usou toda a coragem de seu ser narrando a história desde o ferro velho. Sam ouviu-o calado apenas mostrando as já esperadas expressões de espanto.
Meia hora depois Dean parecia mais leve apenas esperando as reflexões do irmão. Sam esfregou as mãos em cima da mesa olhando para o nada sem ideia do que dizer. Soltou um longo suspiro tornando a encarar Dean:
– Bem, ele mesmo disse que vai deixar tudo de lado Dean.
– Sam essa não é a questão. – retrucou raivoso – Como vou conseguir trabalhar olhando a cara dele todo santo dia sabendo...
Estagnou numa baforada passando as mãos pelo rosto. Ele desviou a atenção do caçula distraindo-se com o movimento fraco do bar. Sam permaneceu quieto sabendo que o irmão precisava de um tempo e do seu próprio espaço. Fosse qualquer problema Dean conseguiria superar.
Contudo havia algo estranho ali. Dean estava transtornado, porém Sam não conseguia enxergar nem um pingo de amargura por parte do irmão. Parecia mais ceticismo, como se ele fosse incapaz de acreditar nos sentimentos de Castiel. Como se fosse impossível que o ex-anjo gostasse dele dessa forma.
Tossindo uma vez Sam chamou a atenção do loiro ponderando bem as palavras antes de desencadear um ataque de pânico no irmão:
– Dean, quando o Cas te falou isso o que você, sabe, pensou?
– Como assim "o que eu pensei"? – retrucou enrugando a testa – Que ele ficou demente, confuso, sei lá!
– Eu entendi isso, mas quero dizer...
– Quer dizer o que Sammy?! – cuspiu a pergunta num tom rouco ficando impaciente frente à demora do caçula e a inquietação dele.
Jogando o cabelo para trás Sam encarou Dean. Respirou fundo vomitando a sentença em cima dele sem dar espaços para pausas:
– Só me pareceu que você ficou mais incrédulo do que contrariado. Como se o fato de Cas gostar de você fosse algo impossível de acontecer. Mas ao mesmo tempo não te deixa infeliz.
– Que merda você tá falando Sammy?! – esbravejou batendo a mão na mesa.
Sam se exaltou recuando o tronco, porém permaneceu firme no banco:
– Estou só dizendo o que percebi Dean, mais nada.
– Percebeu porra nenhuma, deixa de falar besteira!
– Dean! Me escuta!
Chamou-o, no entanto o loiro já tinha se levantado jogando algumas notas em cima da mesa. O caçula o seguiu querendo evitar um escândalo no meio da rua, contudo Dean dificultava as coisas por demais. Sam sabia o quanto ele detestava esse papo sentimentalista, ainda mais se tratando da relação um tanto quanto complicada entre ele e Castiel.
– Dean! – gritou segurando o braço dele o forçando a se virar.
– Quer levar um soco Sammy? – perguntou irônico já fechando o punho.
– Olha, você queria minha opinião então eu disse. Agora pare de bancar o macho alfa e me ouve: Cas pode até estar equivocado depois que virou humano, mas eu acho que você também está.
– Eu?! Seu filho da...
– Me deixe acabar! – interrompeu-o – Você vive tempo demais enfurnando no mundo da caça e se tranca às pessoas a sua volta. Fez isso comigo, com Bobby, por Deus até mesmo com Liza!
Puxando abruptamente o braço das mãos de Sam, Dean o empurrou contra uma parede o fazendo tossir devido ao baque. Enfiou um dedo na cara do irmão mais novo mostrando a expressão contrariada de seu rosto:
– Não fala da Liza. Você não tem esse direito.
– Okay, já saquei, desculpe. – respondeu no ato – Mas é o que eu penso Dean; é o que eu vejo quando você ‘tá perto do Cas e ele de você, como se tivesse algo não dito entre os dois e...
– Chega! Eu só queria desabafar cara, não ficar ouvindo você cagar pela boca. Volte às pesquisas e esqueça esse papo!
Sam estalou a língua, inconformado, entretanto preferiu encerrar a briga por ali. Pessoas demais já estavam olhando os dois no meio da rua. Dean afastou-se alguns passos enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta:
– Vou dar uma volta por aí e ver o que descubro Sam. Faça algo de útil também.
O caçula concordou dando meia volta à biblioteca apenas pedindo a Dean que o avisasse pelo telefone de qualquer coisa. O loiro nada respondeu entrando no impala se afastando do centro da pequena cidade ficando imerso nos próprios pensamentos, nas palavras de Sam flutuando por sua mente. Apertou os dedos sobre o couro do volante acelerando o carro até a estrada. Precisava espairecer e a melhor maneira seria dando uma volta.
Avançou aos limites da cidade tornando a visitar a parte arborizada. Antes Sam e Castiel estavam com ele, aproveitando o clima ameno, entretidos numa conversa sem sentido algum, mas que faziam os três rirem à toa.
Por tanto tempo foi apenas ele; Dean à procura de seu pai até então reencontrar Sammy. Passaram por mais dificuldades do que conseguia se lembrar. Meteu-se em problemas por Sam, salvou sua vida inúmeras vezes e no fim das contas, aos trancos e barrancos, continuavam ali, um pelo outro. Então Cas chegou e começou a fazer parte deste mesmo cenário.
Nem parecia que anos haviam passado desde o dia em que o apocalipse tornou-se uma realidade em sua vida. Lembrava perfeitamente quando conheceu Castiel, na sua descrença ao lhe dizer ser um anjo e o quanto se questionava sobre o porquê ter sido salvo, porque ele era tão importante assim nos planos do tão magnífico Deus. Cas dizia não entender também. No fundo o anjo só sabia de uma coisa: que ele acreditava na palavra do Senhor e mais ainda, acreditava em Dean.
Castiel sempre foi capaz de olhar dentro dele, no ponto mais íntimo de seu ser atestando a bondade do caçador. Aqueles olhos azuis perscrutavam sua alma, vendo-o desnudo com todos os seus defeitos e qualidades – as quais Dean naquele tempo acreditavam não existir.
Era amaldiçoado, pensava, condenado a uma vida de amargura. Mesmo que Sam ou Bobby lhe dissessem o contrário nunca se convenceu disso. Só tinha o dever de trabalhar e ajudar quantas pessoas pudesse. Pois ele sabia melhor do que muitos o que uma vida repleta do sobrenatural pode fazer. Ela pode te quebrar em milhões de pedacinhos. Dean não permitiria esse tipo de destino se espalhar e destruir famílias – tal qual aconteceu com a sua.
Ainda assim cada vez que se olhava no espelho só via desesperança. Foi quando conheceu Castiel e um pouco do seu ceticismo cedeu.
Anjos eram... Um bando de babacas metidos, pior até do que alguns demônios. Menos Cas. Ele tropeçou, sim, algumas vezes, mas Sammy também pendeu ao lado do inimigo e voltou. O anjo fez o mesmo, culpando-se tanto, buscando concertar seus erros e pecados, jurando se redimir com ele.
Castiel foi um dos poucos a sempre acreditar em Dean, mesmo estando no fundo do poço, perdido e desamparado. Quando os leviatãs tomaram conta de Cas ele achou que nunca mais veria o anjo. Guardou o trenchcoat feito uma lembrança ao "soldado" perdido. E qual foi sua felicidade ao reencontrar o amigo! Cas havia se tornado seu braço direito. Sammy seria seu irmãozinho pelo resto da vida, mas Castiel conquistou sua confiança além dos laços sanguíneos.
Gostava de Castiel. Foi o anjo quem os ajudou nessa bagunça toda, que preferiu salvar Dean indo contra ordens superiores, sempre, sempre intercedendo por ele. A tristeza do caçador ao acompanhar as decisões difíceis de Cas vinha seguida duma felicidade esquisita; porque o anjo tinha o escolhido.
Piscando rapidamente os olhos, Dean repreendeu-se batendo contra o volante, xingando inúmeros impropérios. Acelerou o carro ansiando livrar-se deste incômodo apertando seu peito, embaralhando sua cabeça.
Num estalo recordou-se. Foi numa estrada assim enquanto dirigia que avistou o vulto de Cas logo após ter aceitado sua morte. O via em todo canto, em todo lugar, achando que ficara louco. E o alívio ao encontra-lo vivo foi... Imensurável! Sentia falta de Castiel, da maneira tola com a qual ele se perdia nas suas piadas sem as entender, da ajuda sincera, do altruísmo, o fato dele jamais perder a esperança e ser capaz de reavivar as suas.
Dean parecia querer dizer isso ao anjo a todo instante, reafirmando a importância dele em sua vida. Mas mesmo pensando assim jamais se deixava levar pelas emoções.
Do nada a frase de Sam cravou na sua cabeça repetindo-se feito uma oração:
"é o que eu vejo quando você ‘tá perto do Cas e ele de você, como se tivesse algo não dito entre os dois...".
Abrindo bem os olhos Dean acordou do leve transe. Freou o carro percebendo o quão acelerado estava derrapando no asfalto recém-úmido devido a uma chuva de fim de tarde. O carro saiu da estrada, indo parar num pedaço de terra, travando na lama antes de acertar as árvores na sua frente. Paralisado o loiro suspirou jogando a cabeça para trás a recostando no banco. Soltou uma das mãos do volante esfregando o rosto mirando o teto de couro do impala. A voz de Sam vinha em repetidas sentenças ecoando na sua cabeça sem parar:
"Como se o fato de Cas gostar de você fosse algo impossível de acontecer. Mas ao mesmo tempo não te deixa infeliz.".
Infeliz? Longe disso. Nem passou pela mente do loiro ficar deprimido. Foi mais como... Um momento surreal demais. Castiel mal sabia sobre o que falava no ferro velho. Declarou-se a Dean sem nem ao menos perceber. Depois, no bar, veio à confusão por conta da bebida, e então o soco bem dado no moreno dentro daquela casa – ah! O loiro ainda se arrependia amargamente do soco. No quarto do motel as coisas se tornaram tangíveis a Dean pela primeira vez.
Cas gostava dele; mais do que devia, mais do que as barreiras da amizade permitiam. E mesmo que Castiel fosse um cara ingênuo, jamais se enganaria por algo assim. Respirando fundo o loiro tampou a face com ambas as mãos escondendo-se na escuridão dessa curta sombra.
"Cas pode até estar equivocado depois que virou humano, mas eu acho que você também está".
– Droga!
Berrou batendo o punho fechado contra o volante. Que droga! Porque Sammy tinha de ser tão direto? Falando essas besteiras. Ele só queria desabafar, só isso! Bela porcaria de irmão consolador! Merda! Merda! Merda!
O clima começou a esfriar de repente e Dean achou melhor sair da estrada o quanto antes. Chega de auto sofrimento, não tinha tempo para esse tipo de coisa. Precisava resolver o caso antes que mais alguém morresse.
"Você vive tempo demais enfurnando no mundo da caça e se tranca as pessoas a sua volta".
Ele soltou um urro de raiva pisando na marcha ré, fazendo o caminho de volta à cidade, odiando seu maldito cérebro que insistia em lhe fazer refletir sobre o que Sam falara. Não podia se deixar levar por aquilo, não devia.
Estava tudo mudando aos poucos, e Dean nem ao menos conseguia aceitar isso. Respirou fundo novamente trancando os olhos no asfalto. Era bom descobrir alguma pista do caso ou ia acabar se afogando nas próprias indagações.
Continua
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