Não me deixe ir
17 Capítulo 17 - Vidas Domésticas
Notas iniciais
Não me deixe ir
17 – Vidas domésticas
Castiel ajeitou-se no quarto depressa. Não careceu de muito, afinal nem tinha suas próprias roupas, ou qualquer outro tipo de... Coisa. Desde a visita à casa de Bobby ele apenas possuía aquele par de jeans velho, duas camisas e um casaco, uma ou duas boxers limpas e... Só. Não é como se o ex-anjo tivesse condições de conseguir um emprego atrás do outro, ao menos não um lícito, sem documentos. Se usasse o nome de Jimmy Novak – seu receptáculo – a polícia poderia o rastrear e sua vida daria uma revira volta absurda. Perguntas, interrogatórios, reportagens. Nada bom. Ainda, Jimmy tinha uma família que acreditava em sua morte. Castiel não podia provocar esse tipo de tristeza a eles, sobretudo com seu conhecimento da magnitude dos sentimentos humanos.
Não, ele seria melhor que isso.
Mas esse ‘melhor’ havia sido noites mal dormidas em carros juntos de mendigos, abrigos comunitários, e casas de estranhos como Aprill – nota mental, ele jamais aceitaria ajuda de estranhos outra vez.
Sendo assim seu quarto se constituída de escassíssimas coisas: uma cômoda, onde ele empilhou alguns dos livros da biblioteca, cadernos e canetas, a cama, uma pequena mesinha de café junto com duas cadeiras. Paredes brancas sem nada pendurado ou que demonstrasse que aquele lugar pertencia a alguém. Muito dali lembrava o cômodo de Sam. Parecia com o quarto de um hotel, algo temporário, não uma casa.
A verdade é que Castiel ainda sentia-se uma espécie de intruso no Bunker. A hospitalidade de Dean e Sam nos últimos dois dias desde a sua chegada diziam o contrário. Cas era um bom amigo, companheiro que os ajudou em inúmeros momentos e os dois irmãos sempre atestavam o quanto ele era importante, mesmo sendo humano, mesmo sem sua graça.
Contudo, faltava algo em Castiel. Ele sentia-se um pouco perdido, sem um caminho, sem propósito. Sentia-se vazio.
Como um humano haviam coisas a serem perseguidas, a razão de ser de cada um. Mortais ambicionam por algo, seja construir uma família, ou simplesmente ter um bom emprego, qualquer coisa valia a pena ser almejada, desde que o propósito existisse até ser alcançado, até uma nova meta ser erguida. Entretanto, Cas jamais precisou preocupar-se com estes detalhes, pois um anjo devia obedecer às ordens do Senhor, cumprir sua missão e retornar ao céu.
O que ele devia perseguir agora? Qual seria seu objetivo? Ficar com Dean? Não apenas isso, ele queria mais, ajudar mais, servir uma causa maior.
E qual era a única coisa que ele guardara desde a sua queda – além de seus sentimentos por Dean? O conhecimento de séculos, acumulado dentro de sua mente. Ainda conseguia lembrar-se de todas elas, mesmo que levasse mais tempo para evocar as memórias, mas lá estavam as línguas antigas, as imagens do passado de civilizações, e tudo o mais.
Por isso, nestes últimos dois dias, Castiel enclausurou-se em seu quarto debruçado sobre os livros mais complexos da biblioteca, os analisando, traduzindo e estudando a fim de auxiliar a pesquisa de Kevin na tradução das tábuas. E o profeta precisou admitir o avanço nesse curto espaço de tempo. Não, ele ainda não havia traduzido muito mais do que antes, porém pode descartar muitos erros bobos cometidos e isso sim valia muita coisa. Agora eles saberiam onde procurar ao invés de perambular por hipóteses.
Dean ficara satisfeito ao assistir o entusiasmo de Castiel. Ele falava animadamente durante o jantar sobre suas leituras, conversava com Kevin ao telefone contando suas descobertas, e o loiro relutou em admitir isso, mas a pequena vida doméstica fazia bem a Cas. Antes ele lamentava-se sobre sua impotência, mas desde a última caçada, desde a chegada ao Bunker, o ex-anjo conseguiu se encher de vigor outra vez. E ele também tinha seus motivos para estar mais... Leve. Dean não tinha de se preocupar com uma legião angelical perseguindo Castiel, tão pouco se alarmava com Sammy, pois os resultados da cura de Ezekiel mostravam-se no ânimo de seu irmão ao dormir menos, comer bem e a própria vivacidade em seu rosto. Kevin, igualmente, ligava todos os dias em três horários diferentes. Charlie ainda está junto dele, o que melhora a situação. Ela tentou explicar o sistema de segurança arquitetado ao redor das paredes do quarto do motel, mas Dean recusou ouvir mais uma palavra sobre softwares antes que seu cérebro explodisse.
Sua família estava bem e segura, isso era o que importava. As caçadas podiam esperar mais umas duas semanas.
Sam, por sua vez, nem ligou para a falta de ação. Da visita à fazenda até hoje eles mal tiveram uma pausa para respirar, indo à caçada atrás de caçada, resolvendo a grande questão dos anjos caídos, procurando acabar com todos os problemas do mundo. Fato era que eles não dariam conta sozinhos. A maior ajuda no momento seria traduzir o máximo possível da tábua de Deus. Vendo por esse ângulo, sim, Sam podia muito bem relaxar um pouco – talvez até mesmo inconscientemente, um leve empurrão em sua nuca que o dizia para relaxar. Estranho.
Claro, o caçula gostava desse tipo de calmaria, pois já tinha a vivido antes de aceitar que a vida de caçador seria sua realidade eterna. Mas nada o impedia de aproveitar estes breves momentos, sem contar na proximidade do natal. Apesar da amargura de Dean para com as festa de fim de ano – e convenhamos ele tinha uma boa razão – Sam acreditava que conseguiria convencer seu irmão do contrário.
Dean nem notava o quanto sua guarda ficava baixa ao redor de Castiel. Se ele discutisse algo, a raiva momentânea aluviava ao ver de soslaio o moreno andando pelas estantes à procura duma nova leitura. Sam nem insistia mais no assunto, apenas rindo por dentro – e, oh, nas suas mensagens com Louis. Como os dois se divertiam implicando internamente com os dois.
O celular em seu bolso vibrou na mesma hora e Sam já sabia quem era:
Louis C.:
Ei Sam! Como vão as coisas? (10:21)
Sam W.:
Calmas, d boa. E por aí? (10:23✓)
Louis C.:
Na mesma. O Dean e o Cas já se declararam? xD (10:23)
Sam W.:
Nah! Acho q eles estão indo aos poucos. (10:24✓)
Louis C.:
Ah! Vc acha q nenhum deles disse algo ainda? (10:24)
Sam W.:
Provável, o Dean é meio lento p coisas
desse tipo. ‘Sentimental demais’, ele diria. (10:25✓)
Louis C.:
Hahaha! Bom, espero q os dois se acertem logo. (10:25)
Sam W.:
Eu tb cara, ver os dois nessa dança infinita tá me irritando já. (10:25✓)
Louis C.:
Tranquilo, qualquer cosia vc pode desabafar comigo ;) (10:26)
Sam W.:
Rs. Claro Louis, sempre. (10:26✓)
Louis C.:
Ah! O carteiro chegou! Vou ver se minha revista veio. (10:28)
Sam W.:
Revista teen? =p (10:28✓)
Louis C.:
Palhaço. Não, de animas. (10:29)
Sam W.:
Animais? (10:29✓)
Louis C.:
Sim, uma revista científica sobre animais... Eu gosto. (10:30)
Sam W.:
Certo, certo! Rs. Divirta-se então! (10:30✓)
Louis C.:
Okay! Nos falamos mais tarde? (10:32)
Sam W.:
Claro, eu t mando um sms. Abs. (10:32✓)
Louis C.:
Abs Sam. (10:32)
Depois de ler as últimas mensagens Sam deparou-se com o olhar perdido de Dean sobre a mesa. A cerveja pela metade em sua garrafa, uma expressão tranquila direcionada a Castiel, que lia um novo livro no sofá do outro lado do Bunker, anotando coisas ali e aqui. Dean não sorria, nem um pouco. Contudo, Sam reconhecia o pequeno brilho no fundo os olhos dele, sabendo que esse olhar era a maneira calada e escondida de seu irmão mostrar o quão satisfeito estava.
Louis estava certo. Os dois deviam se declarar duma vez. Sam estava cansado de ver seu irmão e Castiel trocando os olhares sem fim, os rápidos risos. Dava para sentir a vontade dos dois de pularem um em cima do outro e... Ew... Sam não queria pensar em seu irmão desse jeito.
Mudando logo a linha de raciocínio ele chamou por Dean algumas vezes, até falar num tom mais alto:
– Dean, acho que deveríamos dar um pulo na cidade. – sugeriu o caçula.
– Hm? – resmungou o loiro, quebrando a atenção de Castiel para voltar-se à Sam segundos depois – Na cidade? Por quê?
– Bem, se Cas vai ficar por aqui acho que ele vai precisar de algumas coisas.
– Tipo o que?
– Roupas, ‘pra começar.
Sim, Sam estava certo. Há dois dias Cas usava as roupas de Dean – já que as de Sammy ficaram grandes demais nele. Mesmo que o loiro não se importasse, nem um pouco, em ver Cas usando suas camisas velhas, seria bom parar com as tantas lavagens de roupa.
Concordando, Dean apanhou as chaves do carro e os três pararam em uma loja simples de usados e novos. Mais um bazar do que outra coisa.
– Isto é realmente necessário Dean? – indagou Castiel segurando a barra de um casaco do mostruário.
– Cas, na boa, eu não tenho tantas roupas assim.
– Oh... Sinto muito, não havia notado o quão desconfortável era emprestar suas roupas.
– Que? N-não! Não é isso Cas, eu, uh...
"Eu gosto de te ver em minhas roupas." Foi a frase que Dean travou na última hora antes dela sair pela boca. Limpando a garganta, Sam interrompeu seu irmão e a visível falta de tato dele:
– O que o Dean quer dizer Cas, é que você precisa ter suas próprias coisas. Você é humano agora, certo?
– Compreendo. – disse meneando a cabeça — Basta escolher algumas vestimentas então?
– Sim, veja do que você gosta.
Concordando, o moreno começou a rodear devagar entre as prateleiras apanhando meia dúzia de camisas repetitivas – azul, preto e branco – três pares de calças jeans, meias, um pacote de boxers, um novo casaco de moletom pesado, duas camisas sociais, um par de sapatos novos, e acharam ser o suficiente por enquanto.
– Algo mais Cas? – Dean perguntou com as mãos nos bolsos.
O moreno analisou outras prateleiras, mas nada lhe chamava a atenção. Exceto... Desvencilhando-se de Sam e Dean, Castiel passou a mão entre os cabides até parar com os dedos sobre uma camiseta preta. Apanhou-a com um rápido sorriso nos lábios a dobrando sobre as demais. Sem nada entender, os irmãos deram de ombros, indo terminar as compras. No meio do caminho, Dean acrescentou um par de lençóis novos azul-claro. Era pouco, mas ao menos daria ao quarto de Cas uma cor diferente na cama branca, uma aparência de ‘casa’.
O quarto de Cas... Dean prendeu o pensamento nessa frase achando-se um idiota por ficar contente em saber onde Castiel estava – que eles estavam perto um do outro – ao invés da incerteza de antes. Tossindo, o loiro balançou a cabeça andando de volta ao carro. Era besteira sentir-se calmo com esse tipo de ideia, mas ainda assim a vida doméstica acometia Dean com uma estranha calmaria. Foi como quando morou com Liza e ele tinha uma rotina, coisas a fazer que envolvessem tarefas de família. É, Dean gostava disso.
– Obrigado, aos dois.
Castiel disse ao chegarem ao Bunker.
– Não ha de que, Cas. – respondeu Sam, sorrindo.
– Irei devolver suas roupas assim que possível Dean.
– Nah, não esquenta com isso. – falou, piscando, só notando o tom de flerte, segundos depois. Deus! Tomara que Sam não tenha visto!
– Certo. – ao menos Cas parecia não ter percebido.
Dando meia volta, Castiel foi ao seu quarto carregando as sacolas sendo seguido pelo olhar perdido de Dean. Sam o encarou pelo canto dos olhos percebendo a pequena curva nos lábios do loiro — a porção de alegria instalada neles — e riu. Bufando, Dean voltou-se a ele revirando os olhos:
– Qual seu problema Samantha?! Você anda muito risonho pro meu gosto!
– Eu? Risonho? – riu – Olha quem fala.
– Como assim?! — Dean ergueu uma das sobrancelhas sem entender.
– Nada Dean, nada. Mas é bom ver como você está feliz.
– F-feliz?! – quase engasgou cruzando os braços.
Sam apenas o fitou de cima a baixo desviando – propositalmente – os olhos na direção do quarto de Castiel, retornando a encarar seu irmão. E pronto, as orelhas de Dean só faltaram pegar fogo, porque já podiam ser usadas como lenha.
– Para de falar merda, Sammy!
– Mas eu não disse nada.
Oh, certo, ele realmente não havia dito e... Dean entregava os pontos mais uma vez. Gênio Winchester, simplesmente gênio.
– Vai à merda, Sam!
Falou girando os calcanhares, saindo da cozinha. Sam retornou ao seu notebook, mais rindo do que outra coisa.
Dean esfregou os olhos, passando os dedos à nuca antes de bater na porta do quarto de Castiel. Que estava fazendo? Agindo tão impensadamente na frente de Sam? Okay, seu irmão o conhecia muito bem para notar suas mudanças de humor. O loiro relutava, mas ele sabia que era transparente demais quando acometido por... Por... Por esse redemoinho indo da barriga ao peito, do peito ao rosto, do rosto de volta ao abdômen cada vez que pensava em Cas. E às vezes o redemoinho esquentava, descendo ainda mais até o baixo ventre, bombeando sangue nos lugares errados.
Limpando a garganta, Dean abriu bem os globos livrando-se destes pensamentos quando Cas abriu a porta:
– Olá Dean. – falou no seu timbre costumeiro.
– Ei. Já acertou tudo? Precisa de mais alguma coisa Cas?
– Creio que não. – respondeu, voltando para dentro do quarto analisando a cômoda.
A porta permaneceu aberta e Dean achou aquele um convite silencioso para adentrar no cômodo. As paredes continuavam sem graça, mas ele pode ver os lençóis azuis esticados na cama. Isso fez um formigamento gostoso espalhar-se por seu rosto.
– Oh, talvez...
Castiel irrompeu chamando a atenção de Dean:
– O que Cas?
– Sinto meu rosto pinicar. Acredito ser preciso um novo corte.
– Ah! – Dean sorriu – Tranquilo Cas. Podemos fazer isso.
– Obrigado Dean. Humanos fazem isso com frequência?
– É, mas depende. Tem gente que gosta de deixar a barba grande.
– Entendo. Isso teria relação com os cuidados com os cabelos? Como Sam?
Dean engasgou uma gargalhada engolindo seco, porém seus lábios continuaram esticados:
– Por aí Cas.
Ponderando, o moreno deixou o olhar vago tornando a encarar Dean:
– Preferiria manter o tamanho curto, Dean.
– Okay. Vou buscar uma lâmina.
– Agradeço.
– Cara, relaxa, não é trabalho algum.
– Acredito nisso. Ainda assim fico realmente feliz em saber o quanto vocês se importam.
Dando um passo adiante, Dean parou propositalmente dentro do espaço pessoal de Castiel – afinal naquela altura os dois já haviam esquecido estes limites.
– Lembra o que eu disse no ferro velho Cas? – indagou vendo o moreno anuir – Somos família; cuidamos um do outro. Sempre.
Abrindo um sorriso, Cas arriscou levar a mão na altura do cotovelo de Dean dando um sutil aperto sobre o tecido.
– Obrigado.
Ah. Ele ficava tão singelo com essa expressão pacífica. Dean precisou morder o interior da boca antes que avançasse- Ei. Ele agora podia avançar, não é?
Envergando o torso para frente, Dean tocou os lábios de Castiel num estalo, porém o moreno não permitiu que o maior se afastasse puxando Dean pelo braço a um beijo menos casto, cheio de línguas agitando-se, hálito quente um contra o outro. O maior levou a palma ao maxilar de Castiel afagando a barba mal feita. Quase colando os troncos, Dean deu mais um passo à frente explorando com sua carne o interior do moreno, o céu de sua boca, as laterais, sentindo a língua de Cas– suave e gentil — deslizar com a saliva cáustica sobre a sua. Sem espaço algum entre as bocas, os gemidos e suspiros ofegantes saíam da garganta de ambos ronronando na pressão do ósculo.
Num rápido arquejo separaram-se. Castiel abriu as pálpebras com as íris enegrecidas revestindo o espaço azulado de seus olhos, já não tão brilhantes, mas sim exalando um desejo lascivo. Ao encarar Dean ele, oh, reparou o quão dilatadas as pupilas do caçador estavam – tanto quanto as suas, se não pior. As bocas continuavam entreabertas soltando o ar quente junto da leve vermelhidão alastrando-se no rosto de ambos.
Dean desceu a mão à cintura de Castiel o puxando para si. E, ah sim! O loiro pode claramente sentir o contorno da linha acentuada no meio da calça jeans de Cas. O menor bem tentou disfarçar, girando os quadris para o lado, porém Dean o prendeu no aperto, comprimindo seu próprio volume sobre o do moreno.
Um grunhido satisfatório escapou de Castiel e agora ele mesmo investia no toque, odiando a quantidade de roupas os separando. Dean notou sua inquietação levando os dedos à barra de sua calça folgada. A mente enevoou-se, e nada mais fazia sentido, não existia um quarto ao redor dele, nenhum material sólido, nada mais importava; só ele e Cas ali. Ao ter a ponta da falange de Dean tocando a pele acima do osso da cintura Castiel estremeceu com uma forte corrente gelada espalhando-se por seu corpo, indo do baixo ventre até as extremidades de seus membros.
Um beijo estalado no pescoço do menor e logo depois Dean separou os lábios beijando o ombro de Castiel em pequenos vácuos molhados, mordiscando a pele aos poucos. O ex-anjo enlaçou os braços ao redor da nuca do loiro chegando à cabeça para trás, dando-lhe mais espaço para as carícias languidas. Seus olhos ainda estavam cerrados, mas Cas abriu-os levemente ao sentir a nova mordida abaixo de sua orelha.
Os dois ficaram um bom tempo sem se encarar, até por fim os olhares se encontrarem – o azul no verde – e Dean precisou repousar sua testa contra a de Castiel, numa tentativa de acalmar seus ânimos. Aquilo estava acontecendo. Mesmo.
Sam estava bem e seguro, Kevin igualmente. Castiel não iria embora, pelo contrário: ficaria ali. Com ele.
– Então é isso?
Dean manejou dizer entre as ofegantes respirações. Seu estômago revirou com o novo bolo de palavras formando-se, incapaz de completar a frase ou seu raciocínio. Aquilo deveria bastar.
E para Castiel bastava, porque ele conhecia todos os detalhes não ditos intercalados na tão pequena sentença de Dean.
Então é isso, nós dois Cas, eu e você daqui ‘pra frente, matando coisas, salvando o mundo, e essa merda toda. Então é isso. Eu e você Cas.
Castiel esticou os lábios soltando uma rápida risada. Era isso mesmo que ele imaginava se passando pela cabeça de Dean.
Quanto ao loiro, as mesmas palavras ocultas valiam. Ele e Cas. Então é isso. Pronto. Nada mais precisava ser dito.
– Sim Dean.
Foi à única e necessária resposta de Castiel. Dean esticou os lábios, os selando em Cas. O beijo poderia seguir adiante a uma coisa ‘bem maior’, já que os dois estavam obviamente zonzos demais com a súbita certeza instalada sobre eles; mas então os globos de Castiel pairaram na porta ainda aberta de seu quarto e ele notou a forte luz vinda da sala, ouvindo som do teclado de um computador batendo.
Relutante, o ex-anjo respirou fundo, dando pequenos beijos no pescoço de Dean, chegando a sua mandíbula, e finalmente parando num estalo em sua boca:
– Sam ficará bem com isso?
Oh! Merda! Sam! A maneira com a qual Dean cerrou seus olhos sugando o ar pelos dentes dizia tudo a Castiel. Ele nem tinha tocado no assunto com o irmão.
– Dean? – chamou-o num tom acusatório.
Bufando, o loiro enfiou as mãos nos bolsos da calça saindo do quarto:
– Tá, tá! Já saquei! Que coisa chata! Puta merda!
Chata, mas seria preciso, afinal ele não ia ficar andando pelo Bunker ouvindo as já tão frequentes insinuações de Sammy. Seria melhor por tudo ‘pra fora duma vez e ver a cara atônita do seu irmão quando ouvisse a notícia. Oh sim, este pensamento fez Dean alegrar-se de novo.
Sam debruçava-se sobre a grande mesa do Bunker sorrindo para a tela do celular. Sério, Dean não o via com aquele tipo de sorriso há um tempo. Bom, Sam sempre foi melhor do que ele em fazer amizades. Cara, já era difícil para Dean imaginar que ele mesmo havia feito amizades ao longo desses anos. Mas no fundo sabia que Sammy era o responsável por manter os contatos. Dean só tinha em seu telefone o numero dos caçadores conhecidos, Sam, Charlie e Kevin. Porra! Pensando agora ele tinha de dar um celular novo a Cas, o dele estava bem velho.
Oh certo, Cas. Tinha resolver o assunto duma vez por todas.
Bem, tudo havia se acertado, correto? Ele e Cas estavam... Juntos. Ah, quando Charlie soubesse ela ia pirar. Primeiro, ia tirar sarro dele, depois pirar. Dean riu por dentro imaginando a cena. Ás vezes estes pequenos detalhes em sua vida o distraiam das criaturas, dos monstros dos problemas e do peso do mundo em suas costas. Ele não se esquecia dos seus deveres, não era isso. Contudo, ponderava se mesmo ele, Sam e Castiel mereciam instantes de calmaria na correnteza. Mesmo que a calmaria ficasse concentrada nesses curtos momentos.
Ainda assim, Cas vinha lhe proporcionando muitos desses momentos. Mesmo antes. O ex-anjo sempre o rondava, sempre o ajudava quando preciso, sabia quando o impedir, quando o deixar ir em frente, e, nos casos — que não eram poucos — bater em Dean até rachar seu crânio quando ele fazia as maiores besteiras de sua vida. E, oh, como Cas batia, mesmo sem sua graça. O maldito tinha um soco de direita pesado.
Ah! Droga! Cas! Precisava começar essa conversa com Sam!
Pigarreando, Dean sentou-se na beirada da mesa frente a Sammy. O caçula ergueu o olhar a ele num aceno, tornando a digitar no teclado. Torcendo o pescoço, o loiro levou a mão à nuca esfregando a palma ali. Oh, merda, aquilo ia ser complicado... Bufando, Dean abriu a boca, depois a fechou, abriu outra vez e por fim disse:
– Sam, eu, uh, tenho... Que te falar uma coisa.
Seu irmão o fitou com interesse, largando o celular sobre a mesa, pois Dean parecia sério:
– Algo ruim?
– Ah... Não, não, nada ruim.
– Okay.
Sam aguardava, ao passo em que Dean só conseguia coçar a nuca e limpar a garganta. Quais palavras usar?
'Ei Sam, Cas e eu estamos no rala e rola.'
Não.
'Cas, eu, nós dois, isso ai!'
Péssimo.
'Sam, aqueles filmes que você curte assistir...'
Puta merda nem pensar!
'Ei Sam! Sabia que o Cas tem uma bunda gostosa ‘pra cacete?'
Caralho... As frases só se embolavam mais e mais na cabeça já tornando a coisa toda uma grande comedia, daquelas que Sam gosta de assistir.
Além do mais, não era uma questão de ‘sair do armário’. Não se sentia assim em relação a outros homens, nem antes nem agora. Afinal, por Deus era Cas! Dean só conseguia pensar nele como... Cas! Essas regras e mais regras lhe pareciam cada vez mais idiotas. Oh, bem, Dean adorava quebrar normas, certo?
– Dean?
Sam chamou-o e o loiro levantou o olhar vago pela primeira vez encarando os do irmão. As letras viraram sílabas, depois palavras, frases e então, puta merda, o bolo saiu num único fôlego:
– Cas-e-eu-estamos-juntos-tipo,juntos-mesmo-não-faça-um-drama-sobre-isso-vou-sair-e-comprar-uma-pizza.
Num só segundo vieram cada palavra emendada uma na outra, sem pausas, nem freios. Tudo jogado ‘pro ventilador. Sam entreabriu os lábios, vendo Dean sair de cima da mesa andando até a cozinha.
– Cas, vamos ate a pizzaria!
Chamou o loiro vendo o menor sair do seu quarto com um livro em mãos:
– Para o jantar?
– É gênio, anda logo e põe o casaco.
O moreno o fez encarando Sam e seu estado catatônico na mesa. Seus orbes bem abertos, a boca semicerrada, uma palidez sem igual e uma expressão que dizia: terror. Terror em seus olhos...
– Dean?
Disse o nome do loiro mais num tom interrogativo auto sugestivo que dizia: que-porra- esta-acontecendo-com-seu-irmão?
Revirando os olhos, Dean apenas abriu a porta fazendo seu caminho ao impala. Castiel ainda tentou decifrar Sam, porém algo lhe dizia que seria melhor o deixar lidar sozinho com qualquer que fosse sua crise particular, seguindo o mesmo caminho que Dean.
Solitário no Bunker, Sam permaneceu inerte. O celular em mãos, a face atônita, e um milhão de sentenças, perguntas, questões pulando uma na frente da outra no cérebro o fazendo pifar.
Completamente paralisado, Sam não acreditava no que acabava de ouvir, no que seu irmão havia dito. Não, não era isso. Sam não conseguia crer que Dean havia desistido do pedestal de 'senhor eterno mestre das curvas femininas' e tinha, enfim, admitido sua mais do que obvia queda por Castiel. Puta merda, mais que isso, ele disse que os dois estavam juntos!
J-u-n-t-o-s
Cinco minutos depois de um monumental silencio, em alto e bom som, um sonoro e pausado 'puta.que.o.pariu' ecoou pelos quatro cantos do Bunker.
Continua
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