Não Te Esquecerei Jamais
17 Tem abraço bom, tem abraço ruim e tem o seu
Notas iniciais
Capítulo 16
O som estridente de microfonia ecoou exatamente seis vezes pelo salão antes que conseguissem finalmente ajustar a caixa de som. Assim que o ruído agudo e insuportável cessou, todos suspiraram aliviados; tudo graças à sorte de termos alguém por perto que entendia do assunto, porque eu mesma não saberia nem por onde começar a mexer nos cabos.
No início, estávamos todos tomados por uma timidez compreensível, e ninguém se atreveu a se aproximar do palco improvisado por um bom tempo. Talvez, se houvesse menos pessoas no recinto, alguém já teria soltado o gogó logo de cara. O problema foi que resolvi convidar alguns colegas do meu curso de desenho, e eles não conheciam a minha turma da escola. Por conta disso, aquele clima travado de recém-conhecidos acabou perdurando entre os convidados por um tempo.
Para compensar o gelo inicial, as conversas seguiam regadas à muita comida — afinal, petiscos são sempre o melhor acompanhamento quando estamos mantendo um papo interessante e cheio de detalhes. A música tocava ao fundo, uma faixa atrás da outra, sem descanso e em uma variação incrivelmente caótica. Um pouco perturbada com aquela transição brusca de ritmos, me peguei perguntando se alguém tinha montado uma playlist excessivamente eclética na tentativa de agradar a todos os gostos musicais (o que seria a cara da Cristina) ou se o aplicativo de streaming estava simplesmente rodando no modo aleatório.
De repente, as pessoas começaram a se movimentar no salão, concentrando a atenção em um único ponto. Segui o fluxo dos olhares e, em questão de segundos, entendi o que estava acontecendo. Cristina tinha subido decidida no palco. Ela segurava o microfone firmemente em uma das mãos enquanto cochichava algo no ouvido do João, que operava os comandos do som. Em poucos instantes, o título de uma canção foi projetado na parede branca do fundo: A Thousand Years.
Era uma música lançada originalmente em 2011, mas que possuía incontáveis versões por fazer parte da trilha sonora de uma das franquias cinematográficas mais famosas do mundo: a saga Crepúsculo. Nós não tínhamos idade para viver o auge daqueles lançamentos nos cinemas, mas eu já tinha ouvido minha irmã contar histórias fascinantes sobre a época. Segundo a Mirela, o primeiro filme estreou de maneira tímida; afinal, naquele tempo, poucas adaptações literárias infantojuvenis conseguiam fazer um alvoroço real nas bilheterias — se não me falha a memória, a primeira a conseguir esse feito tinha sido Harry Potter. Mas, com a popularidade estrondosa do romance entre o vampiro e a humana, o segundo filme da saga já provocou filas quilométricas nas bilheterias. Minha irmã contava, inclusive, que precisou assistir ao último filme da franquia (Amanhecer: Parte 2) sentada direto no chão da sala de cinema, porque na época não havia um controle digital rígido na venda de assentos e os funcionários venderam bem mais ingressos do que a capacidade de cadeiras disponíveis. Mesmo com esse perrengue, ela jurava de pé junto que a experiência tinha sido maravilhosa.
A herança daquela obsessão acabou sendo passada de irmã mais velha para irmã mais nova. Sabendo da minha tendência natural para romances dramáticos, Mirela tinha me convidado para assistir a uma maratona de Crepúsculo em casa. E embora ela mesma já tivesse assistido ao mesmo longa incontáveis vezes — ao ponto de saber decorada praticamente cada linha dos diálogos da versão dublada —, eu nunca tinha parado para prestar atenção de verdade do início ao fim. Sim, eu já tinha espiado algumas cenas soltas na televisão; portanto, eu sabia exatamente como e quando determinados acontecimentos marcantes da trama iriam se desenrolar.
A Cristina era incrivelmente boa em inglês. Diferente de mim, ela tinha uma pronúncia limpa das palavras e conseguia compreender o que era cantado com muito mais facilidade. Mas eu também sabia que ela tinha ensaiado aquela música específica um milhão de vezes em frente ao espelho do quarto. Minha amiga era exatamente o tipo de pessoa que fazia o mínimo possível nas tarefas que não lhe despertavam interesse, mas dava a própria alma quando se tratava de algo que ela realmente amava fazer. Essa característica se refletia nitidamente até nas suas notas no colégio: as matérias com assuntos mais interessantes recebiam o triplo da sua atenção.
Os longos cabelos ondulados dela exibiam duas grandes mechas pintadas em um tom de rosa-pink vibrante. Uma delas ficava localizada bem na nuca e, sempre que ela amarrava os fios em um rabo de cavalo alto, o contraste ficava em grande expressão. Aquela coloração só não chamava mais atenção do que o seu franjão rebelde, que vivia caído sobre a lateral do rosto e raramente aparecia preso atrás da orelha. Cristina atraía olhares por onde passava devido à escolha incomum da cor das madeixas. O maior sonho da vida dela era encontrar um namorado músico que soubesse tocar teclado, para que os dois puden sem formar uma dupla oficial, fazer covers acústicos em barzinhos e se sustentar com a arte.
Eu tinha levado a minha câmera instantânea a tiracolo e passava o tempo tirando fotos aleatórias de momentos ou detalhes que me chamavam a atenção pelo salão. Dei um clique na Cristina bem no momento em que ela soltava a voz, com a cabeça e o microfone levemente erguidos em direção ao teto. Senti-me uma verdadeira fotógrafa profissional quando vi o pedacinho de papel ser cuspido pela máquina; eu tinha conseguido eternizar um instante perfeito. O pé esquerdo dela aparecia na ponta, o joelho levemente flexionado e as luzes coloridas do salão refletiam de um jeito lindo no tecido brilhante da sua calça colada. Por causa da inclinação sutil da cabeça, os cabelos pareciam flutuar no ar, deixando as duas mechas rosas bem visíveis na imagem.
Assim que ela terminou a performance e desceu sob os aplausos, o João colocou uma música dançante para rodar, esperando que mais alguém se sentisse confortável para assumir o palco. Ninguém se surpreendeu quando o ritmo agitado foi bruscamente interrompido e a letra de outra canção começou a ser exibida na projeção. Nós só precisávamos de uma única pessoa corajosa para quebrar o estigma inicial de que era vergonhoso cantar na frente de um monte de gente — principalmente na frente de desconhecidos. Após a segunda pessoa subir e perder a vergonha, os papéis com pedidos de música começaram a acumular na mesa do som; de uma hora para outra, todo mundo queria a sua vez no microfone.
Eu gostava particularmente de fazer fotografias aleatórias porque as expressões espontâneas eram sempre as mais bonitas. Para a minha sorte, a Mirela também circulava pelo salão com a câmera dela a postos. Ela já tinha me avisado que me daria de presente todas as fotos que tirasse durante a festa, mas me pediu para ser mais prudente com os meus próprios cliques porque, segundo a sua análise crítica, eu gastava filme fotografando "coisas sem nexo". Ela vivia me lembrando que aqueles papéis fotográficos custavam uma nota.
Eu a observava se movimentar devagar entre os convidados, mantendo a máquina pendurada por uma corda preta ao redor do pescoço. Não sei se porque eu estava distraída demais conversando ou se porque ela realmente selecionava muito bem cada clique, mas quase não a vi disparando o flash ao longo da noite.
Avistei Cristina caminhar na minha direção, exibindo um sorriso radiante de orelha a orelha. O ambiente estava imerso em uma luz baixa e colorida, mas consegui identificar a silhueta dela de longe por causa das unhas pintadas em um tom neon de rosa-pink. Os pontos brilhantes das suas mãos balançavam no ar, acompanhando os movimentos ritmados que minha amiga fazia com o corpo enquanto andava.
— Deixa eu tirar uma foto sua? — ela pediu, apontando para a câmera azul-mar na minha mão.
Ergui as sobrancelhas de imediato, em uma expressão de dúvida que acompanhou minhas palavras:
— Por quê?
— Ariana, hoje é o seu aniversário de dezesseis anos e eu só estou vendo você registrar os outros! — ela reclamou, me dando uma bronca light. — Tem que ter fotos da aniversariante também, né?
Antes que eu pudesse ensaiar uma resposta, a câmera foi carinhosamente surrupiada das minhas mãos e, no segundo seguinte, já estava alinhada ao rosto da Cristina. O aparelho estava pronto para congelar mais um fragmento do tempo.
Eu estava me sentindo particularmente linda e confiante naquele dia. Desde pequena, sempre tive o desejo secreto de usar um vestido esvoaçante e bem rodado, mas ainda não tinha encontrado a oportunidade perfeita na rotina. Sempre pensei que usaria algo daquela natureza na minha tradicional festa de debutante, mas, por causa do orçamento e dos imprevistos, ela nunca chegou a acontecer. Agora, um ano mais tarde, meu gosto pessoal tinha mudado um pouco; o modelo que eu teria escolhido aos quinze anos com certeza não era o mesmo que eu aceitaria vestir agora, embora a essência do estilo permanecesse intacta.
A barra do meu vestido passava um pouco da linha dos joelhos. Um tule delicado na cor grey blue — um azul-cinzento lindo — completamente bordado com pequenas flores cobria toda a extensão da peça. O corpete estruturado ficava bem colado ao meu busto, mas os detalhes frisados e os relevos do tecido disfarçavam o aperto. O modelo ficava bem mais soltinho e fluido logo após a região abdominal e, por baixo do tule rendado, havia um forro feito de um tecido mais encorpado, o que impedia que a saia rodada subisse com qualquer lufada de vento ou movimento mais brusco na pista.
Coloquei uma das mãos delicadamente na cabeça e a outra na cintura. Fechei os olhos, abri um sorriso aberto e ergui o queixo alguns centímetros, alinhando a coluna e empinando o bumbum de leve na pose clássica. Segurei-me firme naquela estátua até ouvir a voz da minha fotógrafa avisar que eu já podia me mexer. Fiz mais algumas poses divertidas para ela, mas fiz questão de não olhar o resultado de nenhuma delas conforme saíam da máquina. Em vez disso, pedi para a Cristina guardar todas as fotos viradas para baixo em um dos recipientes de acrílico espalhados pelas mesas do salão. Eu amava surpresas e queria ter a experiência de sentar no meu quarto no dia seguinte, com calma, para ver cada registro pela primeira vez. Embora eu já tivesse espiado um ou outro clique ao longo da noite, a grande maioria dos papéis continuava intacta no quesito mistério.
De repente, a música dançante e animada cessou por completo, e todos no salão souberam imediatamente que um novo show estava prestes a começar no karaokê. Chegava a ser engraçado o contraste da festa: uma batida pesada do Pedro Sampaio tocando no último volume era interrompida sem qualquer aviso e, do nada, os primeiros acordes de uma melodia lenta começavam a ecoar pelas caixas.
Estiquei o pescoço e tirei os calcanhares do chão, ficando na ponta dos pés para conseguir ter uma visão clara de quem cruzava o espaço em direção ao palco. Quando meus olhos finalmente identificaram a silhueta, meu coração deu um salto violento contra as costelas. Ele já estava com o microfone firme na mão, as luzes focando em seu rosto, no exato milésimo de segundo em que o play da melodia foi acionado.
Não precisei sequer olhar para o que estava sendo projetado na parede branca para saber exatamente qual música era; meu cérebro identificou a acústica instrumental com rapidez. A banda Soulstripper tinha se desfeito havia anos, mas o seu legado indie ficou gravado para sempre na internet. Em um dia qualquer do passado, navegando sem rumo pelo YouTube, acabei caindo em um clipe amador de uma música chamada O Conto do Nerd e Seu Coração Partido. Gostei tanto do ritmo que fui imediatamente procurar outros trabalhos deles na plataforma. Encontrei várias faixas incríveis, inclusive aquela que o Guilherme estava prestes a cantar.
É Sobre Seu Abraço estava firmemente instalada no meu top três de melhores músicas deles. A minha favorita em primeiro lugar era A Ruiva — por motivos óbvios —, seguida por essa e, em terceiro, O Conto do Nerd. Lembro-me perfeitamente do dia em que dividi um dos lados do meu fone de ouvido com o Guilherme para que ele pudesse escutá-la comigo. Quando a faixa terminou de rodar, ele fez o seguinte comentário:
— Como é o nome dessa banda mesmo?
— Soulstripper.
— Uou... Soulstripper é exatamente igual ao amor: bobo, simples, confuso e fofo.
Aos poucos, as pessoas no salão foram voltando a atenção e os olhares diretamente para ele. As pessoas ao redor não conheciam a canção. Provavelmente, no salão inteiro, só eu conhecia a letra. Por conta disso, todos permaneceram em um silêncio atento, processando o sentido das frases que saíam do microfone. Diferente de outras composições mais zombeteiras da banda, É Sobre Seu Abraço tem uma poesia puramente romântica e fofa, justamente por falar sobre o fato de amar ser algo contraditório. A letra traz sentimentos mistos, mostrando que isso não é uma coisa ruim.
O som da guitarra típica nas composições da Soulstripper, marcando o meiozinho da canção, ecoou mais rápido do que eu esperava. A sensação nítida que eu tinha era de que a música tinha acabado de começar, mas o cronômetro da parede já indicava que estávamos na metade. Os olhos do vocalista improvisado varreram a pequena multidão espalhada. Eles tinham urgência. Uma pressa nítida que parecia ter atingido o pico máximo assim que o pequeno solo instrumental começou. Guilherme procurava alguém na pista.
“Não existe um jeito certo de abraçar
Mas se existisse esse jeito
Seria igual ao seu”
— Exatamente igual ao seu — repeti baixinho, tal e qual na música. Eu sempre tive o hábito automático de cantar todas as vozes e apoios presentes em qualquer canção que estivesse reproduzindo, mesmo que isso significasse ficar completamente sem ar no final do refrão.
O que eu nunca poderia esperar era me deparar com o olhar do Guilherme cravado direto em mim, segundos antes de o trecho principal começar. Foi um impacto instantâneo em todo o meu corpo: meu pulso acelerou num sobressalto, meu rosto ferveu de vergonha e minha barriga congelou por completo.
“Tem abraço bom
Tem abraço ruim
E tem o seu”
Foi o último trecho tocado antes de a melodia se dissipar. Assim que a música terminou, houve um breve momento de silêncio absoluto no salão que, para o meu coração, pareceu quase eterno. No fim das contas, a sensação avassaladora era de que o mundo tinha sumido e somente eu e ele habitavam aquele espaço.
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