Não Te Esquecerei Jamais

18 O Desenho no armário


Notas iniciais
Hello. Espero que gostem do capítulo. Quais são as expectativas de vocês para o furuto?

Capítulo 17

Eu estava sentada no chão do quarto, com as costas apoiadas na madeira da minha cama e vestida com meu pijama felpudo mais quente. Comecei a espalhar e a examinar as fotografias do meu aniversário assim que cheguei em casa. Embora já passasse da meia-noite, a ansiedade para olhar cada registro não me deixava pregar o olho. Amanhã seria segunda-feira e, graças ao acontecimento inédito de ter ganhado permissão dos meus pais para faltar à aula, eu tinha um passe livre para estender a madrugada organizando minhas fotos.

Foi uma agradável surpresa notar que havia tantas imagens ali. Eu não me lembrava de ter visto tantas pessoas circulando com câmeras pelo salão, e a possibilidade de todos aqueles cliques terem vindo de apenas dois aparelhos me pareceu inviável, ainda mais por conta das imensas reclamações da Mirela sobre o preço dos rolos de filme.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo bipe comercial de mensagem do meu celular. A tela acendeu na penumbra, me permitindo visualizar parcialmente o texto enviado pelo Guilherme. Puxei o aparelho para perto do rosto e, de forma automática, encaixei o polegar no leitor de digital para desbloquear a tela. A mensagem trazia anexada uma foto do próprio rosto dele afundado no travesseiro: o cabelo estava completamente bagunçado, os olhos semicerrados pelo sono e a luz forte do flash tinha iluminado suas feições de uma maneira esquisita, mas que, ainda assim, resultava em uma foto incrivelmente bonita.

“Nem todo mundo está de folga amanhã, infelizmente. Eu queria muito ter feito uma chamada de vídeo para te desejar, outra vez, um feliz aniversário, mas o cansaço me venceu por completo. Estou moído e acabado, usando minhas últimas forças para enviar esta mensagem. O dia de hoje foi incrível e você estava maravilhosa naquele vestido esvoaçante de uma cor azul meio estranha. Você sorriu muito mais do que o normal, o que com certeza é um bom sinal. Só desejo as melhores coisas do mundo para a sua vida. Tenha uma boa noite.”

Eu sorri ao terminar de ler. Mas foi um sorriso completamente diferente do habitual. Ele não nasceu de uma pura gratidão por ter recebido os parabéns ou porque ele me desejava coisas boas; foi o significado implícito das outras palavras que fez meus lábios se curvarem daquele jeito. Puxei a câmera do smartphone, bati uma foto das imagens espalhadas pelo meu tapete e enviei como resposta:

“Acho que não vou conseguir dormir tão cedo por aqui.”

Não tive mais retorno. Ele não chegou nem sequer a visualizar a minha resposta. Sorri outra vez, reconhecendo a ironia da situação: geralmente, era eu quem acabava adormecendo no meio das nossas conversas noturnas, mas, desta vez, eu estava tão eufórica com os flashes da festa que me faltava um pingo de sono.

Ao me dar conta daquele sorriso bobo estampado no meu rosto, acabei relembrando um momento específico da noite que eu vinha tentando evitar a todo custo. Os pensamentos confusos e conflitantes me atropelaram no instante em que revivi a performance do Guilherme no palco. Uma coisa era inegável: eu não conseguiria fugir daquele confronto interno por muito tempo, embora não esperasse ter que encará-lo tão cedo.

Não dava para ignorar o fato de que o jeito que ele olhou para mim, cantando um trecho tão abertamente romântico, tinha sido extremamente suspeito. No entanto, uma parte de mim se recusava a levar os acontecimentos para esse lado, por mais que o significado de tudo fosse óbvio demais. Muita coisa passava a fazer sentido quando eu parava para analisar a evolução da nossa relação; entretanto, era infinitamente mais confortável e seguro fechar os olhos e fingir que eu não percebia nada.

Seria muito mais fácil se o desfecho daquela possível história de amor não estivesse com um fim triste e selado de antemão. Eu vou ficar presa aqui na ilha e ele vai embora! Ponto final.

Soltei um suspiro profundo, obrigando minha mente a recuperar o foco nas fotos espalhadas. Juntei um punhado delas nas mãos e fui passando os papéis entre os dedos devagar, observando os detalhes de cada registro por alguns segundos antes de movê-los para o final do monte. Muitas eram flagrantes dos meus amigos em cima do palco, berrando as letras de suas músicas favoritas. Outras congelavam o pessoal dançando na pista, e algumas eram os resultados dos meus próprios cliques aleatórios. Mas, no meio de tantas poses premeditadas e cantorias amadoras, havia três imagens específicas que certamente não tinham sido capturadas por mim.

Separei o trio de fotografias na palma da mão e olhei por cima do ombro na direção da outra cama, erguendo o quadril ao perceber que não conseguiria visualizar a figura inerte da minha irmã na penumbra. Mirela estava entregue a um sono profundo. Tinha sido ela. Minha irmã tinha tirado aquelas fotos em segredo.

E, num estalo, tudo voltou a desmoronar. Todos aqueles pensamentos que eu tinha acabado de expulsar da mente retornaram com força total. Eu ainda me sentia surpresa pelo fato de a Mirela não ter feito um único comentário ou piada sobre o olhar intenso do Guilherme durante o karaokê. Talvez ela estivesse cansada demais para puxar assunto, sabendo perfeitamente que eu reagiria de uma forma extremamente infantil e defensiva. Ela odiava a maneira como eu me esquivava sempre que ela insinuava que o Guilherme e eu tínhamos uma química óbvia e que deveríamos ficar juntos logo.

Mas o que eu poderia fazer? Ela simplesmente não entendia que eu não fazia a menor ideia de como me expressar de maneira madura sobre aquilo. Eu não me sentia nem um pouco confortável em aceitar a possibilidade de sentir algo romântico por ele; só de cogitar a ideia, meu peito pesava de preocupação. Acho que era apenas um mecanismo de defesa automático, uma barreira que eu vinha adotando desde o dia em que descobri que ela era eficiente para me proteger de sofrer.

Mirela respirou fundo na cama, mudando de posição no colchão, e eu voltei a me sentar direito no chão, focando nas imagens. Na primeira foto, eu aparecia com parte do cabelo preso em uma presilha que insistia em embolar nos meus fios ruivos; lembro que, em determinado momento da festa, desisti de tentar ajeitar o acessório sozinha e pedi socorro ao meu amigo. Guilherme tinha soltado a presilha com um cuidado milimétrico para evitar o menor dano às minhas mechas. O registro fotográfico tinha congelado exatamente o instante em que ele recolocava o enfeite no meu cabelo: dava para notar a delicadeza dele no gesto. Ficou lindo.

Na segunda fotografia, o acessório já estava firme no lugar; eu aparecia olhando para outra direção, totalmente distraída, enquanto o Guilherme afastava uma grande mecha ruiva para trás do meu ombro, exibindo um sorriso radiante com os olhos fixos no enfeite.

A terceira foto tinha registrado o momento exato em que dei um rodopio bobo no meio do salão, só porque queria testar se a saia do vestido rodava no ar. Lembrava de ter sido uma ação completamente aleatória, e foi uma surpresa perceber que a Mirela estava realmente empenhada em gastar os papéis fotográficos caros com registros espontâneos e especiais. Eu nunca imaginei que estaria sendo vigiada pela lente naquele instante, e a imagem estampada ali me fez recordar imediatamente da mensagem do Guilherme, quando ele escreveu que eu estava mais sorridente do que o normal.

Eu queria pendurar todas as fotos no meu mural do quarto, mas não tinha certeza se haveria espaço suficiente para o volume. Teria que caber, no mínimo, um registro de cada um dos meus amigos. Terminei aquela longa noite indo dormir esperançosa de que tudo coubesse perfeitamente naquele espaço que, agora, me parecia minúsculo diante de tantas memórias.

[...]

Eu já sabia sobre a tradição da escola, mas confesso que não estava psicologicamente preparada para a decoração massiva que foi instalada para o Mês dos Namorados. A equipe deste ano claramente tinha se empolgado, caprichando tanto que o resultado beirava o exagero visual. Havia corações de cartolina, flechas douradas e desenhos de cupidos espalhados por absolutamente todas as paredes. Os corredores apareciam literalmente banhados de vermelho, resultado das centenas de fitas metalizadas e balões infláveis colados por toda a extensão do teto. Todo mundo caminhava normalmente por entre aquele mar de cafonice romântica, mas eu precisei travar os pés por alguns segundos para conseguir absorver o cenário.

Guilherme parou a caminhada alguns passos à frente assim que percebeu que eu não o acompanhava mais. Com as duas mãos agarradas firmemente às alças da minha mochila nas costas, meus olhos foram passando devagar pelos detalhes daquela extravagância: passearam pelos murais, observaram os alunos e finalmente chegaram à figura dele, que me encarava de volta exibindo uma enorme interrogação no rosto. Só então, ao notar o quanto estava agindo de forma estranha no meio do corredor, foi que meus pés voltaram a se mover.

— Caramba, a equipe de decoração deste ano estava com os hormônios à flor da pele — comentei, tentando quebrar o gelo. Dei um chute leve em um balão vermelho que tinha acabado de desgrudar do teto, bem no instante em que fechei a boca. — Mas duvido muito que esses balões aguentem cheios até o dia quatorze.

— É — Guilherme concordou, voltando a caminhar ao meu lado. — A melhor forma de grudar esses balões no teto é por meio da energia estática, mas assim que o atrito gerado acabar, a carga elétrica se dissipa e todos eles vão cair no chão. Definitivamente não é o melhor método científico para algo que precisa durar tantos dias seguidos.

O pensamento, a idealização daquela cena digna de cinema, assim como a expressão empolgada em meu rosto, não duraram muito tempo porque compreendi rapidamente a lógica das palavras dele. Era um comentário técnico sobre Física, uma área na qual eu tinha pouquíssimo conhecimento e que era de difícil entendimento para a minha pessoa. Rompendo o transe, abri um sorriso orgulhoso e dei um tapinha afetuoso no ombro dele.

— Você é tão inteligente! — apertei os lábios e funguei alto, fingindo segurar o choro de tanta emoção dramática. — Me mata de orgulho desse jeito.

Eu não estava mentindo para inflar o ego dele. O Guilherme realmente era muito bom nessas disciplinas doidas e cheias de fórmulas complicadas. Se por acaso consegui pescar que ele estava falando sobre os princípios da eletricidade estática, isso se devia exclusivamente ao fato de termos passado horas trancados estudando para a última prova de Física, oportunidade em que ele conseguiu me explicar a matéria usando exemplos práticos e palavras bem menos complexas. Obviamente, eu continuava longe de ser uma craque como ele, mas ao menos consegui absorver o básico para arrancar uma nota azul e passar de ano.

Guilherme revirou os olhos verdes, mas não escondeu o sorriso de canto ao afastar minha mão do seu ombro. Ele voltou a marchar pelo corredor, dando passos longos e rápidos com aquelas pernas compridas. Quando ele entrava naquele ritmo de turbina, eu era obrigada a dar pequenas corridas e passos gigantescos para não ser deixada para trás.

— Ai, cansei! — protestei, diminuindo drasticamente o ritmo dos meus passos e ficando automaticamente para trás. — Desse jeito, eu acho que você vai acabar virando o próximo Usain Bolt — completei, ofegante, falando baixinho.

Houve uma época da minha vida em que estive genuinamente empenhada a caminhar tão rápido quanto ele, e cheguei a treinar meu sistema cardiovascular por meio de corridas diárias pelo bairro. Eu tentei de verdade, juro. Trabalhei o meu condicionamento físico quase todos os dias e até conquistei uma melhora notável na minha resistência, mas ficou nítido que eu nunca alcançaria o nível natural dele. Mesmo se o Guilherme decidisse se tornar um completo sedentário, a amplitude das pernas longas dele venceriam o ritmo das minhas pernas curtas. Ele simplesmente tinha ficado alto demais.

Como eu odiava quando ele fazia aquilo! E o pior era que ele agia assim de propósito, acelerando o passo só para me ver furiosa e resmungando atrás. Durante muito tempo, fui teimosa e insistia em ir até o limite tentando emparelhar com ele, até o dia em que percebi que em alguns filmes de comédia romântica havia personagens que faziam exatamente o que eu estava fazendo. Geralmente, a pessoa que andava rápido era alguém que não queria papo com quem a seguia, e eu achava ridícula a maneira como o personagem mais lento saía esbarrando nas outras pessoas e nos objetos do cenário apenas para manter um ritmo impossível para os seus próprios pés. Decidi que não passaria por esse papelão.

Mudei a direção dos meus passos e caminhei em direção ao meu armário de metal. Eu teria aula de Educação Física no primeiro horário do meu contra-turno e não queria ficar carregando o fardamento específico para aquela atividade dentro da mochila durante as aulas regulares. Apesar de consistir em apenas um short de tactel e uma camiseta de algodão, o uniforme causava um volume chato e desnecessário na bolsa e, além do mais, eu odiava que as pessoas vissem minhas roupas de ginástica toda vez que eu abrisse a mochila para pegar algo dentro dela..

Observei de longe a silhueta da Cristina vindo na minha direção. Ela estava com o cabelo firmemente preso em um coque alto outra vez, o que era totalmente anormal para uma manhã de terça-feira. Minha amiga caminhava fazendo pequenos movimentos ritmados com a cabeça, como se estivesse escutando alguma música contagiante, mas não havia fones de ouvido plugados em suas orelhas. Terminei de guardar o que precisava no compartimento e bati a porta de metal do armário instantes antes de ela chegar perto o suficiente para falar.

— Hello! Bom dia, flor do dia! Dormiu bem? — ela disparou, animada.

— Bom dia, Cris. Eu dormi muito bem, sim, obrigada por perguntar.

— Vamos ao cinema neste sábado? Só eu e você, as bests together dominando o shopping.

— Hum... Qual filme você está planejando ver? — perguntei, encostando o meu ombro no metal gelado do armário para relaxar a postura.

— Ah, podia ser como nos velhos tempos, sabe? A gente chega lá na bilheteria e escolhe o filme na hora, de acordo com o cartaz.

— Hum... — levei uma das mãos ao queixo, encarando-a com desconfiança. — Você se lembra perfeitamente do porquê de termos parado de fazer isso, né? Nove entre dez vezes a gente acabava pegando um filme horroroso por falta de opção de horário.

— Amiga, por favor! Eu estou muito a fim de dar uma espairecida da rotina de estudos, sabe? Me dá esse desconto.

— Mas a gente não tinha combinado um encontro com o pessoal do grupo neste sábado?

Cristina soltou um suspiro teatral e arregalou os olhos, dando uma ênfase exagerada na correção:

— O rolê do grupo é no domingo, Ariana! — Ela esticou o braço e encostou o dedo indicador direto na minha testa, me empurrando de leve. — Eu já te falei um milhão de vezes que seria muito melhor se você comprasse uma agenda para organizar esses seus compromissos. Você sempre faz a maior confusão mental com as datas!

— Ai, Cris, não ia adiantar de muita coisa — brinquei, rindo do gesto dela. — Eu tenho certeza absoluta de que ia acabar esquecendo a agenda em cima da mesa, porque eu teria que criar o hábito diário de ficar lendo as anotações. A única solução real para a minha vida seria ter uma secretária particular em tempo integral. Mas, como me falta dinheiro para isso, eu me contento com você cumprindo o papel mesmo.

Calei-me imediatamente e olhei de rabo de olho para ela, exibindo um sorriso de canto porque eu sabia perfeitamente o que viria a seguir. Cristina odiava quando eu brincava com aquilo. Primeiro, meu braço esquerdo foi atingido por um tapa estalado dela; em seguida, uma sequência de murmúrios e resmungos de desaprovação saíram da boca da minha amiga.

— Eu não vou nem me dar ao trabalho de falar nada, Ariana, até porque eu sou a melhor secretária e assessora que alguém desorganizada como você poderia desejar ter na vida.

— Eita — foi a única coisa que consegui responder entre risos, antes que o sinal estridente indicando o início do primeiro período ecoasse pelo corredor. — Deixa eu ir estudar que é o melhor que eu faço da vida.

[...]

O intervalo de uma hora entre o meu almoço e o início da aula de Educação Física passou voando, parecendo durar meros minutos. Quando me dei conta do horário no visor do relógio, precisei apertar o passo e caminhar a passos largos e firmes em direção ao meu armário de metal. Meu plano era simples e direto: pegaria meu fardamento de ginástica de forma rápida e me trocaria no banheiro feminino na velocidade da luz. Era uma meta bem fácil de executar, na verdade.

Meus dedos ágeis rodaram a combinação do código secreto no cadeado, fazendo o bloco metálico destravar com um estalo seco. Puxei a porta do armário e, de forma instantânea, uma folha grande de papel no formato A2 escorregou lá de dentro e caiu direto em cima dos meus pés. Ela era feita de um material visivelmente especial; não era mole e maleável como as folhas de papel sulfite comuns que costumávamos usar em impressões de escritório. O material era bem mais grosso e encorpado, exatamente do tipo técnico que eu costumava selecionar para fazer meus desenhos de encomendas particulares, porque era mais resistente e podia ser emoldurado em um quadro sem maiores problemas. A folha tinha caído em pé, com o lado completamente em branco virado para a minha direção.

Completamente surpreendida pela surpresa, curvei o corpo o suficiente para alcançar o objeto no chão. Usei a ponta dos dedos para erguer o papel com cuidado e depois deslizei as palmas pelas laterais, sentindo a textura perfeitamente lisa, mas rígida da folha. A face que estava virada para mim não exibia nenhum traço, então girei o papel no ar, sem ter a menor noção do que encontraria do outro lado.

Nem nos meus maiores e mais loucos delírios eu imaginei visualizar um desenho tão lindo e bem executado. No exato milésimo de segundo em que meu cérebro processou o que meus olhos estavam de fato contemplando, minha cabeça deu um sobressalto para trás. Fiquei em choque. Meus olhos varreram cada centímetro daquele corredor na tentativa de pescar algum rastro, à medida que fui dando uma volta completa em meu próprio eixo. Voltando à posição inicial, cravei meus olhos novamente no desenho, agora prestando uma atenção minuciosa aos mínimos detalhes da obra.

A placa de entrada da tradicional Feira 25 de Março tinha sido reproduzida na folha com uma perfeição cirúrgica, assim como vários dos brinquedos clássicos de parque de diversões que costumavam fazer parte do evento anual. Os objetos estavam desenhados em perfeita harmonia artística, servindo como uma representação lírica, porque obviamente aquela disposição de roda-gigante e carrossel não ficava exatamente daquele jeito no espaço real da feira. Mas o que realmente me tirou o fôlego foi o que estava sobreposto a todo aquele cenário: havia um casal desenhado bem no centro. E a garota do casal foi facilmente identificada por mim, porque se tratava da minha própria pessoa.

Meus cabelos longos, volumosos, cacheados e ruivos tinham sido reproduzidos com um realismo tão gritante que parecia que eu estava segurando uma fotografia revelada em alta definição entre as mãos. Meus braços apareciam laçados ao redor dos ombros de um garoto de quem eu não conseguia discernir o rosto, porque ele tinha sido desenhado completamente de costas na ilustração. Na imagem, eu aparecia na ponta dos pés — tão na ponta dos pés que o rapaz mantinha os dois braços firmemente envolvidos ao redor da minha cintura, dando-me o equilíbrio mecânico necessário para me manter suspensa tão no alto. Meu queixo repousava com carinho no ombro esquerdo dele, meus olhos estavam desenhados fechados, mas meus lábios exibiam um sorriso tão lindo, tão radiante e feliz que cheguei a me questionar se algum dia na vida real eu já tinha sido capaz de estampar uma expressão daquelas de verdade.

Busquei desesperadamente no traço do desenho algum detalhe oculto que revelasse a identidade do desenhista, mas não encontrei nada óbvio. Nada além de uma jaqueta preta de couro que o rapaz vestia, exibindo o símbolo de uma série de televisão estampado nas costas. Sons of Anarchy era uma produção sobre motoqueiros da qual eu já tinha ouvido falar pouquíssimas vezes por aí. Ela definitivamente não fazia o estilo de gênero que eu costumava consumir; por isso, eu não sabia de maiores detalhes sobre a trama ou os personagens. Ao retribuir o abraço no desenho, a cabeça do garoto tinha pouca visibilidade na folha, e a única coisa que consegui notar foi que ele exibia cabelos pretos como o carvão e levemente ondulados.

Estarrecida de pura surpresa e sentindo um frio na barriga, comecei a revirar o interior do armário em busca de mais pistas. Tinha que haver mais alguma coisa escondida ali dentro. Eu conhecia muito bem a Feira 25 de Março; o evento estava previsto para iniciar agora no mês de março e se estenderia até abril. Mas o que diabos aquele desenho misterioso significava? Um convite para um encontro real? Se sim, quando seria? Em qual horário?

Com a respiração completamente cortada e o coração batendo em um ritmo acelerado por causa do susto, do nervosismo e da ansiedade para desvendar aquela declaração secreta, meus olhos avistaram um pequeno pedaço de papel. Havia um cartão meio apoiado entre as minhas roupas de ginástica e meio suspenso no ar, preso em uma fresta do metal.

Agarrei o papelzinho no mesmo instante, deparando-me com uma imitação perfeita de letra cursiva digital. A mensagem tinha sido impressa em um cartão dourado de brilho metalizado:

“Queria poder ter feito isso através de uma carta escrita à mão, Ariana, mas eu sabia que você reconheceria a minha caligrafia na hora em que batesse o olho no papel. Você aceita ir a um encontro comigo? Dia 12 de março, às 14h, bem em frente à roda-gigante.”

Meu corpo inteiro estremeceu e deu um sobressalto quando duas palmas violentas reverberaram alto pelo corredor deserto. O som estalado foi acompanhado imediatamente por um berro imponente e autoritário da professora de Educação Física, que exigia a presença de todas as alunas na quadra de esportes no mesmo segundo.

— Ariana, minha filha? — a professora gritou, surgindo na ponta do corredor com as mãos espalmadas no ar, as sobrancelhas arqueadas e a boca aberta em puro sinal de impaciência. A expressão corporal dela terminou de falar todas as palavras duras que não tinham sido verbalizadas. A mulher bateu as palmas das mãos com força nas laterais das próprias coxas e deu meia-volta abrupta. — Cinco minutos, Ariana! E eu quero você trocada na quadra!

Eu queria desesperadamente continuar exatamente onde estava. Queria abrir o armário de novo, vasculhar as frestas, analisar o traço do desenho milímetro por milímetro e tentar decifrar quem era o autor daquela obra de arte. Mas eu simplesmente não podia. Naquela situação escolar, eu não tinha poder de barganha algum com a disciplina e sabia que me meteria em graves problemas com a diretoria caso burlasse as regras rígidas do contra-turno.

Além do mais, a parte mais sensata da minha mente me alertou de que eu precisaria de tempo e silêncio para conseguir analisar tudo com a devida calmaria. Se eu tentasse bancar a detetive no estado de completo espírito e agitação em que meu coração se encontrava agora, com certeza deixaria passar alguma pista crucial.

Puxei meu fardamento de Educação Física de dentro do compartimento com pressa, prendendo o tecido do short e da camiseta embaixo da axila. Com o máximo de cuidado e delicadeza para não amassar as bordas duras, depositei o desenho A2 e o cartão dourado brilhante de volta no fundo do retângulo de metal. Bati a porta do armário com força, travando o cadeado, mas não antes de permitir que meus olhos dessem uma última e demorada espiada naquela imagem perfeita do abraço.