Não Te Esquecerei Jamais
2 Surpresa! Integrante novo
Notas iniciais

Capítulo 1
Julho de 2019
A pele exposta ao sol ardia, mas, contrariando os avisos dos adultos, era uma sensação boa. Embora o calor do verão me fizesse suar com facilidade, era maravilhoso andar por aí com roupas leves. Além do mais, era a melhor época para ir à praia; a temperatura abafada aquecia a água do mar, deixando-a perfeita. O céu costumava ficar limpo, com o sol imperando glorioso. Eu sempre preferi esses dias ensolarados aos nublados, porque sentia falta do calor na pele.
Inclinei o corpo para a frente assim que a bicicleta se aproximou da descida íngreme. Desde o dia em que caí e ralei os joelhos, a barriga e os cotovelos, eu só pedalava totalmente protegida. O problema era que as joelheiras limitavam meus movimentos, e eu as odiava. Acho que eram pequenas, já que tinham sido compradas faz um bom tempo.
Quando cheguei ao terreno plano, avistei meus amigos montados em suas bicicletas, com um dos pés apoiado no chão e as mãos firmes no guidão. Bastaram alguns segundos para notar que havia uma pessoa a mais, porém precisei chegar mais perto para reconhecer quem era. Freei de repente, a alguns metros deles, ao identificar o quarto integrante do grupo. Ricardo pedalou na minha direção assim que percebeu que eu não avançaria.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntei, gesticulando com a cabeça em direção ao garoto.
— Convidei ele para pedalar hoje com a gente — Ricardo respondeu, dando de ombros, sem se importar com a minha opinião.
— Mas você não podia ter feito isso. Eu sou a mais velha do grupo.
— Ah, Ariana, deixa disso. O garoto só quer pedalar um pouco, e você sabe como é chato fazer isso sozinho.
Suspirei, resignada, e olhei novamente para o grupo. Guilherme estreitava os olhos por causa da claridade, embora estivesse de chapéu.
— Tá bem.
— E, além do mais, a mãe dele disse que vai convidar a gente para a festa de aniversário dele se ajudarmos ele a se enturmar.
Olhei para Ricardo tão rápido que a ponta do meu rabo de cavalo ricocheteou na minha bochecha. Um suspiro incrédulo escapou da minha boca, cheio de indignação.
— Você está fazendo tudo isso por causa de uma festa de aniversário? — perguntei, com as sobrancelhas erguidas e a boca entreaberta.
Ricardo ergueu as mãos na altura do rosto em um gesto claro: Não é óbvio?
— Uma festa de aniversário é uma festa de aniversário — ele abriu um sorriso tão largo que revelou a janelinha do dente de leite que tinha caído há pouco tempo.
Revirei os olhos, mas não consegui conter o riso. Ricardo não estava mentindo. Pelo que mais um garoto de onze anos teria interesse senão pelos doces e salgados de uma festa? Ele correu para reencontrar os outros, e eu o segui logo atrás.
— Como vocês estão? — perguntei assim que parei a bicicleta.
— Cansados de esperar. Poxa vida, Ariana, você sempre se atrasa — Cristina reclamou. Depois de mim, ela era a mais velha.
— Desculpa. Vocês sabem que eu preciso arrumar a casa antes de sair.
— Por que não começa mais cedo? — questionou João.
Pigarreei antes de falar, mas não consegui impedir que um bico se formasse nos meus lábios. Ignorei as reclamações e mudei de assunto:
— Temos um integrante novo hoje. Acho que você já conhece todo mundo, não é, Guilherme?
Fiz a pergunta sabendo que era desnecessária. Todo mundo ali estudava na mesma escola e morava na mesma vizinhança.
— Sim — Guilherme respondeu, relaxando o corpo sobre a bicicleta. — Então, para onde vocês planejam ir hoje?
— A gente nem sempre vai para um lugar fixo. Às vezes só pedalamos por aí — respondi.
— Por sorte, eu descobri um lugar muito maneiro para onde podemos ir — anunciou Cristina.
— É longe? — perguntei, preocupada.
Ela soltou um suspiro e ergueu os ombros.
— Uns cinco minutos de bike.
— Cristina! Você sabe que não podemos ir muito longe. Somos crianças!
Ela fez uma careta, como se dissesse tá louca?, e rebateu:
— Eu já tenho treze anos, não sou mais criança! — Todos ficaram em silêncio. Observei, irritada, enquanto ela revirava os olhos e cruzava os braços. — Proponho uma votação. Quem quer ir comigo até o lugar que eu descobri?
João foi o primeiro a levantar a mão. Ele era totalmente destemido e topa qualquer loucura. Tinha a sorte de ter pais modernos que não batiam nele, apenas o colocavam de castigo, o que significava que ele passaria as próximas duas semanas trancado em casa. O segundo a votar foi Ricardo; por ser o mais novo, topava tudo o que os mais velhos propunham, buscando apenas aprovação.
— Bem — Guilherme começou —, já estou aqui mesmo — completou, erguendo o braço.
Cristina me encarou com um sorriso satisfeito. Seus lábios, que já eram finos, pareceram sumir de tão vitoriosa que se sentia.
— Você pode vir com a gente ou voltar para casa. Você decide — disse, dando a primeira pedalada.
Observei um a um segui-la. Fui a última a partir, com os dentes trincados de revolta.
Ainda assim, foi reconfortante sentir o vento fresco no rosto. A brisa natural se uniu à velocidade da bicicleta, balançando meu rabo de cavalo e espalhando alguns fios pelas minhas costas. Quando chegamos a mais uma descida, esta não tão íngreme quanto a primeira, soltei o guidão e abri os braços. Uma pequena parte da minha consciência me alertava sobre o perigo, mas eu a ignorei completamente.
Soltei uma risada alta ao atingir o terreno plano, um pouco incomodada com o ritmo que meus pés precisavam manter, já que a joelheira apertada machucava um pouco. Mesmo assim, continuei e ultrapassei todo mundo. Logo, outra bicicleta passou por mim: era Ricardo. O corpo magro estava inclinado para a frente, o quadril longe da cela, e as pernas giravam mais rápido do que eu jamais tinha visto. Pronto, tínhamos transformado o passeio em uma competição.
— Quem chegar por último é a mulher do padre! — João berrou ao me ultrapassar, deixando para trás uma nuvem de poeira.
— Esperem! Nós não sabemos onde fica esse lugar! — gritei.
— É só seguir reto! — ouvi Cristina dizer lá na frente, antes de também desaparecer da minha vista.
No mesmo instante, notei que a única pessoa que faltava me passar era o Guilherme. Dei uma espiada boba por cima do ombro, o que me fez perder o ritmo. Nesse milésimo de segundo, ele passou por mim como um jato.
— Mas que porcaria! — murmurei, tentando aumentar a velocidade das pedaladas.
No entanto, já era tarde demais. Minhas pernas não eram rápidas o suficiente para alcançá-los. Pedalei por mais algum tempo até que ouvi o grito de Ricardo:
— Tem uma casa na árvore?!
Finalmente cheguei ao destino. Todas as bicicletas já estavam largadas de qualquer jeito na grama, e os quatro corriam em direção ao terreno. Diante de nós, erguia-se uma casa aparentemente abandonada; a pintura branca estava manchada e uma das paredes aparecia completamente coberta por trepadeiras. Ao lado dela, havia uma árvore imensa e, bem no meio de sua copa cheia, escondia-se uma estrutura de madeira. Dava para ver que alguns galhos entravam pelas janelas e que a madeira velha estava tomada por musgo.
Meus amigos já subiam pela escada, que tinha dois degraus quebrados. Ricardo já estava lá dentro; eu conseguia ver apenas o topo de sua cabeça cheia de fios pretos. Cristina foi a segunda a entrar. Arranquei com pressa o capacete, as joelheiras e as cotoveleiras e corri. Guilherme estava na metade da subida quando alcancei a base da árvore, e me perguntei se aquela madeira desgastada pelo tempo não seria frágil demais.
— Sobe logo, Ariana! — reclamaram lá de cima.
Peguei impulso, mas minhas pernas e braços tremeram. Era ridículo; todo mundo tinha subido, por que logo eu estava com medo?
— Ei! — Uma voz me chamou. Ergui o olhar. — Quer ajuda?
Acima de mim, Guilherme estendia a mão. O boné estava com a aba virada para trás, deixando seu rosto totalmente iluminado, livre de sombras. Olhei diretamente em seus olhos verdes, tentando decifrar suas intenções. Hesitei por apenas alguns segundos, só para ter certeza de que estaria firme antes de soltar o degrau.
Estendi uma das mãos, e ele a envolveu. A pele estava quente.
Talvez o sangue ainda corresse rápido demais nas minhas veias, ou era apenas o calor daquele dia de verão. Guilherme segurou minha outra mão assim que os degraus acabaram, tornando minha entrada na casa da árvore surpreendentemente fácil.
— Obrigada — sussurrei.
Sustentei meu olhar no dele apenas pelo tempo que levei para pronunciar a palavra. Logo me virei em direção à janela, com o coração acelerado. Será que ele se lembrava do que tinha acontecido dois anos atrás? Será que ele também pensava no jogo da garrafa?
— Vocês têm noção da quantidade de coisas que dá para fazer aqui? — A animação na voz de Cristina era contagiante, sem qualquer traço de preocupação. — Esse pode ser o nosso clube!
Enquanto os outros conversavam eufóricos, listando as infinitas possibilidades de diversão, meus olhos se perderam nos detalhes daquela casinha. As tábuas de madeira tinham uma coloração esbranquiçada, cobertas por uma camada de algo que não consegui identificar, tanto por fora quanto por dentro. Algumas áreas eram mais escuras que outras. A parte menos afetada me lembrava uma folha de papel manchada por pó de grafite.
Apertei os olhos e me aproximei de uma parede específica. Havia algo ali que tinha me chamado a atenção. Perto o suficiente, percebi traços escondidos sob a substância escura. Quem mais usaria uma casa na árvore senão crianças? Sujei as pontas dos dedos ao tentar limpar o desenho, curiosa para ver melhor. Era um bando de crianças. Quem quer que tenha desenhado, fizera questão de representá-las em tamanhos diferentes. Um sorriso bobo surgiu nos meus lábios.
Será que os tamanhos representavam as idades, ou quem desenhou só quis mostrar a altura de cada um?
Meus pensamentos foram interrompidos por um baque súbito que fez meu coração saltar no peito. Fixei o olhar em Ricardo, que tinha acabado de dar um pulo desnecessário, estremecendo a estrutura de madeira sob nossos pés. Ele continuava paralisado na posição de pouso, com os joelhos semi flexionados, enquanto a poeira que ele levantou flutuava lentamente ao nosso redor.
Com uma risadinha sem graça, ele murmurou:
— Foi mal.
— Tá, e o que a gente faz agora? — perguntou João, sentando-se direto no chão poeirento.
— Vamos tentar entrar naquela casa — sugeriu Guilherme, apontando para a estrutura abandonada logo em frente e atraindo a atenção de todos.
— Ótima ideia! — Cristina concordou, apontando o indicador na direção dele.
— Se vamos vir aqui com frequência — comecei, arrastando o pé no chão para mostrar o quanto estava imundo —, precisamos dar uma limpada. Trazer uns panos velhos para cobrir o chão, sei lá.
Como se quisesse confirmar minhas palavras, Ricardo soltou um espirro alto assim que fechei a boca.
— Tem razão — ele conseguiu dizer, antes de espirrar de novo.
— É melhor sair daqui antes que a alergia do Ricardo piore — Guilherme falou, e eu balancei a cabeça, concordando. — Vamos dar uma olhada na casa principal.
Prontamente, uma pequena fila se formou em direção à saída. Como sempre, eu fiquei no final. Com os dedos entrelaçados, passei os olhos pelos detalhes que variam a idade daquela construção. O teto era bem baixo. Se algum dos meninos crescesse demais no futuro, provavelmente teria dificuldades para entrar ali.
Dei um passo automático para a frente, certa de que o espaço estava livre e eu seria a próxima a descer, mas dei de cara com um obstáculo. Minha atenção voltou-se para o que estava na minha frente de forma instantânea. No segundo em que entendi o que estava acontecendo, meus olhos se arregalaram de surpresa. Fiquei de boca entreaberta, sem saber o que dizer. Não era como esbarrar em um estranho qualquer na rua. Dei meio passo para trás, sentindo minhas bochechas queimarem.
— Primeiro as damas — Guilherme, que tinha parado bem na saída, deu um passo para o lado, me dando passagem.
— Valeu.
Posicionei-me para descer e passei a primeira perna pela abertura, mas parei quando ele segurou uma das minhas mãos. Ergui o olhar rapidamente, assustada com o toque repentino. Guilherme sorriu, mostrando os dentes de leve. Notei que o canto direito do seu sorriso era mais elevado que o esquerdo. Naquele instante, olhando bem no fundo daqueles olhos, tive a certeza absoluta de que ele se lembrava de tudo.
— Você é muito distraída, Cenourinha.
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