Capítulo 2

Aconteceu em uma noite fria de inverno, a exatos quatro dias para o meu aniversário de doze anos. Guilherme e eu estávamos reunidos na casa de um garoto da nossa escola porque nossos pais, junto com os de outras crianças, participavam de uma reunião qualquer de adultos. Como não havia ninguém para cuidar de nós, fomos todos mandados para uma sala enquanto eles discutiam seus problemas.

Éramos apenas sete — um número ímpar e desproporcional no quesito gênero. A roda era formada por quatro meninas e três meninos, todos com mais ou menos a mesma idade: alguns prestes a completar doze, outros recém-chegados à idade e alguns quase nos treze. Quando alguém sugeriu jogar a garrafa, ninguém se opôs. No início, todos exibiam sorrisos ansiosos, mas a timidez logo tomou o lugar da empolgação assim que o objeto foi girado pela primeira vez.

Eu não conhecia os dois primeiros sorteados. Eles não estudavam na mesma escola que eu, mas moravam perto, já que eu costumava cruzá-los no supermercado do bairro. Ainda me lembro da sensação de ver todo mundo vidrar os olhos neles. Eu estava ansiosa para ver o beijo, mas, ao mesmo tempo, me perguntei como conseguiriam. Era uma pressão enorme beijar na frente de tantas pessoas. E se eu fizesse algo errado? E se eu beijasse feio? E se o assunto espalhasse tanto que chegasse aos ouvidos dos meus pais?

Os dois, no entanto, não pareciam se importar com nada disso. Estavam tímidos, mas sem grandes preocupações. Observei com atenção enquanto se aproximavam. Na época, achei que sabiam exatamente o que fazer ao inclinarem as cabeças em direções opostas; hoje, revendo a cena na memória, percebo que estavam exageradamente inclinadas, em um ângulo que parecia até desconfortável.

Lembro-me do momento exato em que os lábios deles tocaram. O quarto ficou em um silêncio absoluto. Prendi a respiração por alguns segundos, com os olhos fixos naquele único ponto pelo tempo que o beijo durou. Foi um selinho simples, mas, para nós, pareceu a coisa mais empolgante do mundo.

Uma explosão de comemorações ecoou pela sala assim que o momento terminou. Quando os ânimos se acalmaram, um dos garotos segurou a garrafa pelo meio, pronto para fazê-la girar de novo. Os sorrisos agora tinham um toque de expectativa renovada. Provavelmente era a primeira vez de todo mundo em um jogo daqueles.

Era estranho sentir o coração acelerar a ponto de atrapalhar minha respiração. Meu peito subia e descia de forma ofegante, do mesmo jeito que eu ficava nas aulas de educação física ou quando apostava corrida com o Guilherme. Era a pura ansiedade para ver quem seriam os próximos sorteados. E, lá no fundo, a expectativa secreta de que fôssemos nós dois.

Ah, o início da adolescência... Tudo era novidade, inclusive o instinto de desenvolver sentimentos românticos por alguém. Nós éramos melhores amigos, sempre grudados em brincadeiras infantis e servindo de companhia um para o outro nas breves aventuras que eram o caminho de ida e volta da escola. De repente, em um dia qualquer, meu coração disparou só com o pensamento de vê-lo, e me peguei imaginando diversas situações em que ele se declarava para mim.

A garrafa deu suas rodadas finais, diminuindo a velocidade em um giro lento. Lancei um olhar disfarçado na direção dele, incapaz de parar de pensar se ele tinha alguma preferência entre as garotas da roda. E, se tinha, será que era eu? Foi a primeira vez na vida que desejei ter o poder de ler mentes. O objeto cilíndrico finalmente parou e, para o meu desespero e surpresa, as extremidades apontavam exatamente para mim e para o Guilherme.

— Tá apontando para o Guilherme ou para o Carlos? — uma das meninas perguntou, estreitando os olhos.

— Eu acho que é para o Guilherme — respondeu o filho da dona da casa.

— Espera, vou ver.

Uma garota de cabelos longos cor de caramelo, que usava um laço enorme prendendo algumas mechas, levantou-se. Ela caminhou até os meninos, agachou-se e, com o dedo indicador, traçou uma linha reta do fundo da garrafa até encostar no joelho de um deles.

— Com certeza é o Guilherme — anunciou, voltando para o seu lugar vago.

Senti meu corpo inteiro queimar. Não apenas porque todos os olhares oscilavam entre nós dois, cheios de expectativa, mas porque agora eu precisaria beijar o meu melhor amigo — o meu crush. Minhas bochechas, mãos e pés pareciam ferver.

Meu corpo se moveu no instante seguinte ao dele. Foram movimentos quase automáticos; no fundo do cérebro eu tinha consciência do que fazia, mas não parecia que era eu mesma comandando as ações. Precisávamos acabar com a distância entre nós, e terminamos bem no meio da roda.

Eu precisava ficar de pé ou de joelhos já estava bom?

Guilherme sorriu e passou as mãos pelos cabelos, completamente descontraído, sem demonstrar um traço sequer de nervosismo. A maneira como meu emocional reagiu àquela calma foi confusa. Pensei que a ausência de timidez dele só podia significar uma coisa: ele não sentia o mesmo por mim.

— Você está vermelha como um tomate, Cenourinha — ele comentou quando ficamos frente a frente.

— Não estou, não. Eu sempre fui assim — menti, encostando o dorso da mão na bochecha e constatando o quanto ela queimava.

— Parece que correu uma maratona — ele rebateu, encostando as pontas dos dedos na minha pele quente.

Ainda de joelhos, Guilherme inclinou a cabeça na minha direção. Inclinei a minha também, mas deixei que ele cobrisse a maior parte da distância. Molhei os lábios com a língua um milésimo de segundo antes de nos tocarmos. A sensação foi completamente nova. O toque era mais macio e quente do que eu jamais imaginara. Algo se acendeu dentro de mim, e agora eu queimava por fora e por dentro.

Após alguns segundos, senti que as mãos dele pousaram nos meus ombros, deixando dois pontos de calor sobre a minha pele. Eu já me preparava para encerrar o momento quando os lábios dele se abriram. Foi um movimento inesperado. Até então, eu só tinha visto pessoas encostando as bocas fechadas. Meu coração deu um salto.

Os lábios de Guilherme se uniram aos meus mais uma vez, mas, agora, meu lábio inferior estava preso entre os dele. Entrei em desespero, sem saber se aquilo estava certo. Assim que tive a chance, afastei um pouco a boca, sentindo a leve pressão de mais um toque. O movimento seguinte dele me assustou de verdade: suas mãos tentaram me puxar para mais perto, e minhas palmas foram direto para o tórax dele, empurrando-o de leve quando senti sua língua roçar na minha.

Tive a nítida impressão de que ele seria capaz de ouvir o som do meu coração, que batia tão rápido a ponto de eu sentir minhas veias pulsando pelo corpo. Minhas sobrancelhas estavam erguidas e meus olhos arregalados, formando a expressão perfeita de puro choque. O momento que começou com uma expectativa inocente tinha acabado de ultrapassar todos os limites do que eu conhecia.

— Uuuuuu!

Ouvi o grito uníssono e animado da plateia e retornei correndo para o meu lugar. Completamente envergonhada, evitei olhar para o Guilherme, mas, sempre que meus olhos não resistiam à tentação e buscavam o garoto, ele já estava me encarando de volta.

A recordação cruzou minha mente em questão de segundos. Foi um flash tão forte que precisei lutar para lidar com a instabilidade que ela causou no presente. Para piorar, meu cérebro demorou mais do que o necessário para entender o que estava acontecendo ali. Pisquei várias vezes enquanto absorvia a realidade e, quando recuperei a lucidez, meu corpo desequilibrou brevemente na escada de madeira.

Rapidamente, Guilherme segurou minha outra mão, restabelecendo o meu equilíbrio. Meu peito subia e descia depressa, consequência do coração disparado e do nervosismo de não ter a menor ideia do que fazer.

Aquela sensação de paralisia não dava trégua; parecia se renovar a cada segundo em que eu me perdia no fundo daqueles olhos verde-escuros. Não tenho certeza de quanto tempo se passou até que baixei o olhar para os meus pés, puxando minhas mãos devagar e quebrando o toque.

— Que apelido mais clichê! Que falta de criatividade! — reclamei, tentando disfarçar o impacto. — Meu cabelo nem chega a ser da cor de uma cenoura.

— Posso conseguir outro — ele rebateu com um sorriso. — Que tal Covinhas?

Meus pés tocaram o chão firme no exato instante em que ele fechou a boca. Ergui o rosto, forçando uma expressão totalmente dura e séria. Guilherme sustentou o olhar, sorrindo sem dar o menor sinal de intimidação diante da minha cara amarrada.

— Prefiro que me chame pelo meu nome.

Você não vai me iludir de novo, Guilherme Martins!

Ignorei por completo qualquer reação que meus amigos pudessem esboçar; no fim das contas, eles não entenderiam nada mesmo. Sem dar uma única olhada para trás, dei as costas para a casa da árvore. Encarei a construção abandonada que seria o nosso próximo destino e, assim que vi os outros se movimentando com a aproximação de Guilherme, apertei o passo em uma caminhada rápida.

De longe, tentei mapear a melhor forma de entrar na propriedade. A porta e as janelas do térreo estavam bloqueadas por tábuas que pareciam velhas, mas resistentes, e me perguntei se o grupo estaria disposto a vandalizar o lugar para conseguir entrar. Ergui os olhos para o andar superior. A obra claramente tinha sido interrompida pela metade; havia dois grandes vãos abertos onde deveriam ficar as janelas do segundo andar.

Se encontrássemos uma escada perdida por aqui, seria perfeito.

Não tive tempo de concluir o raciocínio. Um estrondo violento ecoou pelo terreno, quebrando minha linha de pensamento. Foi um susto rápido: em um segundo eu estava com a testa franzida em uma análise séria, e no outro, meus olhos e boca estavam completamente arregalados.

— O que você fez? — perguntei, encarando João.

— Arranquei as tábuas da janela para a gente entrar, ué — ele respondeu, com a maior naturalidade do mundo. Em seguida, revirou os olhos de forma entediada. — Não estressa, Ariana. O lugar está abandonado. Eu só me pergunto como ninguém fez isso antes.

Cruzei os braços, profundamente insatisfeita. Custava pensar um pouco mais e tentar não quebrar nada? Eles eram impacientes demais. Não era difícil entender por que tínhamos tantas briguinhas; éramos incompatíveis em situações que exigiam mais calma. Eu preferia fazer as coisas de um jeito mais demorado, desde que fosse o certo, enquanto eles queriam o caminho mais rápido, mesmo que causasse estragos. Era óbvio que entraríamos de qualquer forma, mas, na minha cabeça, seria bem menos grave se não destruíssemos a propriedade alheia.

João jogou as pernas para o alto e pulou para dentro em um movimento ágil. Ciente de que eu jamais conseguiria reproduzir aquela acrobacia, apoiei a planta do pé direito no batente inferior da janela, segurei firme na madeira desgastada e impulsionei meu corpo. Com os dois pés no topo do batente, saltei para o interior da velha construção, amortecendo a queda com a parte frontal dos pés e mantendo os calcanhares levemente suspensos.

Abri um pequeno sorriso de satisfação ao aterrissar com sucesso. Lembrei-me de que, na última vez que tentei algo parecido nas aulas de educação física, caí de mau jeito e foi doloroso. Foi lá que aprendi a saltar corretamente: os calcanhares devem ficar um pouco erguidos e os joelhos flexionados, agindo como uma mola para que o peso do corpo não sobrecarregue as articulações.

Ao pousar, permaneci de costas para a janela, fingindo uma atenção profunda aos detalhes internos da casa. A verdade é que meu cérebro mal registrava o cenário velho e acabado — nada que eu já não soubesse só de olhar pelo lado de fora. Eu só precisava parecer ocupada o suficiente para não me fazerem perguntas e, acima de tudo, para ter uma desculpa para não olhar na direção dos meus amigos e do Guilherme.

Não prestei atenção na ordem em que os outros entraram. Apenas continuei desviando o olhar de Guilherme durante todo o processo, mesmo depois que o grupo se reuniu no centro do cômodo. Com todos juntos, ficou mais fácil evitá-lo, já que havia outros três rostos para os quais eu podia olhar. Senti um alívio imenso ao perceber que meu coração mantinha o ritmo normal. Guilherme não tinha mais aquela influência avassaladora sobre mim. Se um dia tive uma queda por ele, aquilo já era passado.

Enquanto tentava me convencer disso, busquei na memória os motivos exatos que me fizeram gostar dele na infância, mas não consegui lembrar. Eu sabia que éramos muito amigos e que o jeito atencioso dele tinha despertado meus sentimentos, mas o processo em si havia se apagado. As atitudes que tanto me encantavam na época agora pareciam comuns. Ele me tratava bem e era engraçado, mas nada além disso.

Parei em frente à estrutura que levava ao segundo andar. Dali, dava para notar claramente que a parte superior estava inacabada. Ao contrário do térreo, as paredes não tinham reboco, e os tijolos expostos estavam escurecidos pela ação do tempo.

— Nós temos muito espaço aqui — comentou Cristina, maravilhada. — Podemos até chamar mais gente para cá.

— Você acha uma boa ideia? — Ricardo rebateu, preocupado. — Se alguém mais velho descobrir esse lugar, podemos dar adeus ao nosso clube.

Olhei para Ricardo, compreendendo o seu receio. Por ser o mais novo de três irmãos, ele tinha uma espécie de trauma com os mais velhos. Aos onze anos, seus momentos de glória na infância tinham chegado ao fim; agora ele estava na fase de ser explorado pelos irmãos mais velhos, enquanto tentava desesperadamente ser aceito no mundo dos adolescentes.

— Eu só achei que seria uma ótima oportunidade para nos enturmarmos com o pessoal dos anos seguintes — Cristina justificou.

— Se eles descobrirem, esqueçam a casinha — Guilherme interveio, chamando a atenção. — Um lugar assim é perfeito para festas e rolês.

Aquela foi a primeira vez que olhei diretamente para ele desde que descemos da árvore, e só então percebi que meu comportamento poderia ter transmitido a impressão errada. O fato de eu não olhar na sua cara não significava que eu ainda sentia algo por ele; apenas me incomodava que ele se lembrasse daquele beijo ridículo da infância. Eu me sentia envergonhada.

Dei de ombros mentalmente, decidida a não me importar. Não fazia a menor diferença se ele lembrava ou se tinha sido estranho. Eu nunca precisara processar aquele incômodo antes porque ele simplesmente não fazia parte do meu ciclo social. Tudo voltaria ao normal assim que ele fosse embora.

No entanto, ao observar a facilidade com que meus amigos se sentiam confortáveis ao lado dele, uma pontada de realidade me atingiu. Guilherme se encaixava sem esforço, e eles estavam se divertindo. A verdade era que, se não fosse por aquele fantasma do passado, até eu estaria aproveitando a companhia dele.

Soltei um suspiro profundo diante daquela constatação. Os outros provavelmente acharam que eu estava apenas concordando com o argumento de Guilherme sobre o potencial do lugar, mas, na verdade, era a minha ficha caindo: se dependesse da vontade dele, a presença de Guilherme seria muito frequente — para não dizer assídua — na nossa rotina.

Notas finais
Hello, então? O que estão achando da história? Eu sei o ritmo continua um pouco lentinho, mas eu garanto que vale a pena. Não se esqueçam; tem capítulo novo toda segunda e sexta ao meio dia.