Não Te Esquecerei Jamais
19 Qual a sua série preferida, Guilherme?
Capítulo 18
Foi realmente difícil me manter concentrada no início da aula, mas logo fiquei preocupada demais em conseguir respirar e manter a postura correta todas as vezes em que agachava para tocar a ponta do cone de plástico. A professora passou o período inteiro berrando na nossa orelha: “Olha essas costas, meninas! Olha esses joelhos! Joelhos para fora! Empine o bumbum! Peito para a frente!”. Como era difícil! Por isso as pessoas costumam dizer por aí que vão treinar para esquecer os problemas da rotina. Mas é claro que esquecem. Você é obrigada a manter a execução dos movimentos impecáveis, ou a lesão é o caminho certo. Não é que a gente esqueça os problemas magicamente; a mente apenas desvia o foco para outra coisa por puro instinto de sobrevivência.
Às terças-feiras, o Guilherme tinha treino oficial na equipe de natação; portanto, eu seria obrigada a fazer o trajeto de volta para casa completamente sozinha . Havia dias em que eu acumulava coragem suficiente para mofar na arquibancada esperando o treino dele acabar, mas aquela terça-feira com certeza não era um dia de muita audácia. Para completar, eu sentia um desejo incontrolável, misturado a uma ansiedade absurda, de chegar logo no meu quarto para poder analisar minuciosamente o desenho que tinha sido guardado dentro da minha mochila com o maior cuidado do mundo. Ele coube perfeitamente no compartimento acolchoado onde deveria ser guardado um notebook.
No caminho de volta, percebi o quanto estava aliviada por saber que a Mirela não estaria em casa para me interrogar. Como qualquer proletária, minha irmã estaria presa no emprego até às dezoito horas, por causa do trânsito caótico daquele horário. Eu ainda não sabia se mostraria aquele desenho misterioso para ela. Na verdade, estava em dúvida se teria coragem de contar sobre o armário para alguém. Fiquei extremamente animada com o fato de não ter a menor ideia da identidade do meu pretendente. Eu queria ser a minha própria detetive e descobrir sozinha quem era o autor. Queria eu mesma procurar as pistas ocultas e ligar os pontos no mapa; porém, eu sabia perfeitamente que, no instante em que a Mirela ou a Cristina colocassem os olhos em cima daquela folha, elas dariam um palpite certeiro e estragariam toda a graça do mistério.
Assim que cheguei em casa, sentei-me na cadeira da minha escrivaninha e liguei de imediato a luz da luminária de mesa, embora naquele dia específico o céu estivesse completamente limpo e a luz natural do sol iluminasse o quarto com muita facilidade. Levei o prato do almoço que minha mãe tinha deixado separado na cozinha direto para o quarto, mas acabei deixando a comida de lado; a sensação elétrica que revirava as minhas entranhas e elevava meu ritmo cardíaco tinha roubado a minha fome de uma maneira surreal. Totalmente consciente de que a minha refeição esfriaria em poucos minutos por conta do clima rigoroso do inverno, empurrei o prato para a outra extremidade da madeira: em hipótese alguma eu correria o risco de sujar aquela obra-prima com uma gota de molho.
Infelizmente, não consegui extrair mais nenhuma informação nova da ilustração. Não havia mais nenhuma pista escondida nas bordas da folha A2. Todos os detalhes eram tão evidentes que qualquer pessoa que olhasse para o papel por dez segundos chegaria exatamente às mesmas conclusões que eu. Tudo o que eu sabia sobre o rapaz misterioso até ali podia ser resumido em três pontos cruciais: ele tinha o cabelo preto e ondulado, era alto à beça e era fã daquela série de motoqueiros .
Olhei para o céu através do vidro impecavelmente limpo da minha janela, sem prestar atenção de verdade em absolutamente nada do que se movia lá em cima. Minha mente pensava em mil possibilidades ao mesmo tempo e não demorou muito para que meus olhos se arregalassem com um pensamento lógico que invadiu o meu cérebro. A grande verdade era que eu não conhecia muitos garotos na escola; dava para contar nos dedos de uma única mão aqueles com quem eu mantinha conversas frequentes ou algum tipo de convívio social. E tinha que ser alguém conhecido, tinha que ser alguém do meu meio, porque o rapaz tinha feito questão de escrever no cartão dourado que eu reconheceria a caligrafia dele no momento em que batesse o olho na folha .
De repente, tive a nítida sensação de que não seria tão difícil assim descobrir a identidade do meu admirador secreto.
— Hum... Isso está começando a ficar realmente interessante — sussurrei para mim mesma, com um sorriso de canto.
[...]
Eu tinha combinado com a Cristina que passaria na casa dela às duas da tarde em ponto. E, às quatorze horas e cinco minutos, eu já me encontrava em frente ao prédio do condomínio dela, apertando o botão da campainha do apartamento.
— Olá? Quem é? — A voz dela saiu completamente chiada e metalizada por causa do interfone de péssima qualidade da portaria.
— Sou eu, Cris! Abre aqui.
— Wow! Já está aí? — revirei os olhos ao escutar a surpresa genuína no tom de voz dela. — Bem, eu não esperava de verdade que você fosse chegar no horário hoje, por isso ainda não terminei de me arrumar por aqui. Mas estou quase! Só preciso finalizar a minha maquiagem.
O trinco do portão zuniu com o sinal eletrônico e eu consegui empurrá-lo para entrar. Adentrei o saguão do prédio dando de cara com a escadaria principal que levava ao corredor dos blocos, onde eu poderia escolher entre pegar o elevador ou subir os degraus. Como a minha amiga morava logo no segundo andar e eu sabia por experiência própria que aquele elevador antigo demorava um bocado para descer até o térreo, optei pelas escadas mesmo.
Cristina já me esperava com a porta do apartamento entreaberta quando alcancei o seu andar. Passei pelo portal observando detalhadamente se ela realmente estava "quase pronta", como tinha jurado pelo interfone. Ela ainda usava aquela tiara de pelúcia que costumávamos colocar na cabeça para afastar os fios do rosto na hora de maquiar, deixando todo o seu cabelo jogado para trás. Entre os dedos da mão direita, ela segurava um pequeno cilindro de plástico rosinha e, ao notar o traço preciso contornando seus lábios, entendi de imediato que se tratava de um lápis de boca. Segundo as teorias estéticas da minha amiga, o contorno evitava que o batom borrasse ao longo do dia e, de bônus, criava a ilusão ótica de lábios mais carnudos.
Quando terminei de avaliar o progresso daquela produção, minhas sobrancelhas se franziram quase que instantaneamente. Ela tinha feito uma maquiagem extremamente elaborada e pesada para uma simples ida à tarde de cinema no shopping; entretanto, apenas dei de ombros mentalmente. Estávamos falando da Cristina, afinal. Ela simplesmente amava o processo de se maquiar, não importava o destino.
— Quanta produção para um sábado à tarde, hein! — comentei, desabando de qualquer jeito no sofá da sala.
Ela sorriu de lado, balançou levemente os ombros com uma postura vitoriosa e rebateu:
— Esse é o meu jeitinho, Ariana. Vem comigo para o quarto porque eu preciso do espelho grande para finalizar.
Fiquei realmente surpresa quando, poucos minutos depois, a garota ergueu os ombros, pressionou os lábios um contra o outro em frente ao espelho e arrancou a tiara da cabeça com um puxão rápido. Cristina balançou a cabeleira para desfazer a leve marcação que o acessório tinha deixado nos fios, jogou o franjão com a mecha rosa para o lado, pegou a bolsa tiracolo em cima da cama e anunciou:
— Estou prontinha! Vamos?
— Você já terminou tudo mesmo? — perguntei, genuinamente chocada, enquanto ela balançava a cabeça confirmando. — Nossa, quando eu invento de fazer uma maquiagem dessas, levo uma eternidade para dar o acabamento.
— É porque quando você tocou o interfone lá embaixo, eu já estava praticamente no final do processo, Ariana. Mas tudo isso aqui — ela apontou o dedo indicador para as próprias bochechas iluminadas — demorou um tempo considerável para ser construído, more.
— Mas é claro que deve ter demorado. Uma produção desse nível exige dedicação. Eu só passei um negocinho brilhoso nos lábios e achei que já estava pronta para o mundo.
Cristina passou por mim a passos rápidos, mas não pegou o corredor em direção à saída do apartamento. Em vez disso, caminhou até a porta do cômodo ao lado e colocou a cabeça para dentro.
— Mãezinha, estou de saída!
Houve uma sequência de ruídos de passos lá dentro e, logo em seguida, a mãe dela apareceu na abertura da porta, limpando as mãos em um pano.
— Está levando a sua chave, Cristina?
— Sim, mãe.
— Dinheiro? Cartão?
— Não posso esquecer o principal, né? — ela cantarolou no corredor, balançando a carteira de couro no ar com um sorriso.
— Certo, certo. Vê se não volta muito tarde para casa hoje, ok? — Os olhos da mulher se transferiram para mim logo em seguida, exibindo uma expressão terna. — Cuida bem da minha bebê por aí, Ariana.
Abri um sorriso largo de orelha a orelha e passei o braço ao redor dos ombros da minha amiga, abraçando-a de lado.
— Pode deixar tudo comigo, tia. Ela está em mãos seguras.
Cristina soltou o ar pela boca em uma bufada fingida de puro deboche e voltou a caminhar, daquela vez apontando direto para a porta de saída do apartamento.
[...]
A sequência de acontecimentos esquisitos ao longo daquela tarde estava começando a me deixar com a pulga atrás da orelha. A Cristina simplesmente não demonstrou o menor interesse em escolher nenhum filme no painel do shopping, embora fosse óbvio que deveríamos garantir nossos ingressos para a sessão das dezoito horas antes que as entradas esgotassem. Nenhuma de nós tinha carro próprio, e muito menos éramos habilitadas para dirigir. O transporte público da ilha ficava extremamente restrito e escasso após as vinte horas e, para completar o cenário, era sábado — os ônibus costumavam pular horários e demorar o dobro do tempo nos finais de semana. Outro detalhe me chamou bastante a atenção: ela não desgrudava os olhos da tela do celular por um segundo sequer, seja para conferir as horas obsessivamente ou para checar se havia novas notificações chegando.
Após computar todos esses sinais de alerta no meu cérebro, pousei o copo de milkshake de Oreo que eu bebia com força na mesa da praça de alimentação e a encarei com os olhos semicerrados de pura desconfiança. A garota me retribuiu o olhar de imediato, mas, no lugar da habitual provocação dela, vi uma pontada nítida de nervosismo e aflição. Soube no mesmo milésimo de segundo que a Cristina estava escondendo alguma coisa muito grande de mim.
— Cristina, fala agora o que está acontecendo aqui, porque nós certamente não viemos até este shopping para assistir a nenhum filme, ou a gente já teria comprado as entradas na bilheteria faz tempo.
— O quê? Do... do que você está falando, Ariana? Ficou maluca? — ela respondeu gaguejando, a voz subindo um tom de puro nervosismo.
Coloquei minha cabeça para funcionar, ligando as pistas. Cristina estava excessivamente arrumada, com uma maquiagem impecável de festa e eu mesma tinha visto a garota praticamente derramar metade de um vidro de perfume por cima do pescoço antes de sairmos. Ela jamais faria uma produção daquele nível apenas para bater perna comigo no cinema de tarde. A garota estava vestida e perfumada como se estivesse indo a um...
— Eu não estou acreditando nisso! — exclamei, a boca se abrindo em completa indignação. Minha revolta aumentou ainda mais quando notei que ela nem sequer tentou formular uma mentira para negar. — Você me usou de álibi e de desculpa para ir a um encontro, Cristina! Meu Deus, você não tem nem a decência de negar na minha cara!
— E por que eu gastaria saliva negando o óbvio? — ela rebateu, soltando os ombros com um suspiro de alívio. — Na verdade, você acabou de facilitar a minha vida descobrindo o mistério antes da hora.
E, em um passe de mágica, toda aquela expressão de aflição e tensão que tomava conta das feições impecáveis dela sumiu por completo, dando lugar ao seu habitual sorrisinho folgado.
— Ah! Como se fosse possível não descobrir as suas tramoias, né? Cristina, você é uma péssima atriz, sério. Faz horas que você está agindo de um jeito totalmente esquisito e checando esse celular de cinco em cinco minutos. Por que você não me falou logo de uma vez que tinha conhecido alguém no colégio?
— Porque eu tinha a mais absoluta certeza de que você ia encher o meu saco e ficar pegando no meu pé assim que soubesse quem ele é — ela justificou, cruzando os dedos em cima da mesa.
Cruzei os braços de forma pesada contra o peito e comecei a analisar o peso daquelas palavras, estreitando os olhos.
— E por que eu falaria alguma coisa negativa sobre o cara? — indaguei, genuinamente curiosa.
Cristina mordeu o lábio inferior, hesitando por um segundo antes de soltar a bomba:
— Porque ele é o tecladista que tocou no aniversário do Guilherme.
Ela falou aquela frase de forma tão corrida e atropelada que meu cérebro demorou alguns instantes para conseguir processar a informação que as palavras formavam.
— Peraí... Aquele cara que é tipo dez anos mais velho que a gente? — perguntei, arregalando os olhos.
— Eu não falei? — ela bateu com as duas mãos nas coxas e revirou os olhos de forma entediada. — Você já está aí destilando os seus julgamentos, Ariana. Nem todo mundo gosta de garoto com cara de bebê que toma Leite Ninho, tá? O Guilherme só tem uma fisionomia mais madura e uma postura de homem velho, mas ele só é um pouco mais velho que você, inclusive.
— Oito meses, Cristina! A minha diferença de idade para o Guilherme é de exatos oito meses. E o que diabos eu e o Guilherme temos a ver com essa sua situação? Desde quando você e esse músico estão conversando, afinal?
— Nós trocamos os números de celular logo no dia da festa, quando nos conhecemos na pista — ela confessou, dando de ombros. — Mas faz uns dois meses que ele começou a me seguir no Instagram e a interagir com os meus stories. A gente começou a conversar direto desde então.
— E você não sente medo? — perguntei, deixando minha preocupação falar mais alto. — Você mal conhece o sujeito direito, Cris, e ele já está em outra fase da vida, é bem mais velho.
Ela sorriu de lado, exibindo um sorriso completamente torto e confiante, como se a mera ideia de perigo fosse uma piada e ele é quem devesse ter medo dela.
— Amiga — o tom de voz dela caiu para algo perfeitamente calmo e seguro —, eu sei muito bem me cuidar, tá? É claro que eu não tenho tanta experiência de vida assim, sei que posso ser uma completa tonta e inocente em algumas situações, mas eu não sou estúpida. Eu fiz questão de marcar o nosso primeiro encontro oficial em um local público e movimentado por um motivo bem óbvio, né? Eu não pretendo sair de dentro deste shopping com ele para lugar nenhum, juro para você.
— Tá... Mas se você vai passar as próximas horas grudada na companhia dele, como é que eu fico nessa história? Vou ser abandonada no meio do corredor? Fui usada como álibi e agora vou ser descartada na praça de alimentação?
— Ah, vai dar umas voltas pelas lojas, Ariana. Olha as vitrines! É uma pena que o Guilherme esteja competindo no campeonato de natação hoje, né? — ela lamentou, com uma falsa cara de pena. — Seria a oportunidade de ouro para vocês dois irem a um encontro de casais também.
— Você ficou maluca de vez, menina? — rebati no mesmo instante, sentindo meu coração palpitar mais forte contra as costelas e minhas bochechas queimarem. — Eu e o Guilherme somos apenas melhores amigos. Só isso.
— Olha só para isso... Ficou até vermelha como um tomate — ela suspirou profundamente, pegando a bolsa. — Ai, tudo bem. Pense e fale o que você quiser, Ariana. Você só está tentando atrasar o inevitável, porque todo mundo sabe que vocês dois ainda vão acabar ficando juntos.
Ela disparou as últimas palavras já com os olhos fixos na tela do celular, que tinha acabado de acender com uma nova notificação.
— Ai, amiga, ele acabou de me mandar mensagem dizendo que estacionou. Ele chegou! Estou indo lá encontrar com ele. Beijinhos!
— Cristina, não vai! Não me deixa aqui sozinha na praça! — Tentei agarrar a mão dela por cima da mesa, mas foi um movimento completamente inútil. Ela se desvencilhou do meu toque com agilidade e começou a se afastar a passos rápidos. — Eu nunca mais saio com você na minha vida, ouviu bem?! — gritei.
Tenho a mais absoluta certeza de que ela ouviu meu berro perfeitamente, mas fez a linha egípcia e fingiu que já estava distante demais para conseguir compreender qualquer palavra.
[...]
Fiquei um bom tempo sentada na cadeira, digerindo aquela nítida sensação de abandono. No fundo, bem lá no fundo, eu conseguia compreender o lado da Cristina. Afinal, cada um de nós tem o direito de guardar os seus próprios segredos. Eu tampouco tinha tido a coragem de abrir a boca para contar a ela sobre o desenho misterioso no meu armário ou sobre o encontro marcado para o dia doze de março. Mas a diferença crucial era que eu não a tinha manipulado ou enganado para alcançar meus objetivos particulares, e era exatamente isso o que mais estava me deixando chateada. A Cristina sabia perfeitamente que sair comigo era como um passe livre automático dado pela mãe dela; tanto que ela não foi questionada em nenhum momento em casa sobre o visual ou o horário.
Durante o tempo em que fiquei presa àquela cadeira do shopping por pura chateação, remoendo a nossa discussão, o fato de ela ter mencionado que o Guilherme estava competindo hoje acabou me arrancando daqueles sentimentos ruins. Lembrei-me de que eu precisava ligar para ele para ficar a par dos resultados do campeonato de natação. O torneio tinha acontecido em uma cidade bem distante da ilha, e a equipe de esportes teve que pegar a estrada por algumas horas, o que impossibilitou que qualquer amigo do colégio fosse até lá torcer por ele.
O Seu Cícero, avô de um dos nadadores da equipe, tinha aceitado emprestar a sua icônica Kombi amarelinha, fabricada em 1974, mas com uma condição rígida: ele mesmo faria questão de dirigir o veículo no trajeto. Tinha que ter muito jeito e manha para guiar aquela relíquia mecânica, e não era qualquer motorista moderno que sabia como fazer as marchas entrarem direito. Essa exigência acabou roubando a única vaga que sobraria no transporte, já que eles ainda precisaram dar carona para dois competidores de outra escola da região.
Puxei o fone de ouvido de fio que estava guardado dentro da caixinha plástica que o protegia dos nós diários, conectei a entrada no meu celular e digitei o número dele. Já passava das dezessete horas da tarde. Me peguei perguntando se ele seria capaz de atender ou se a Kombi já estaria na estrada fazia tempo, em alguma zona rural sem cobertura de rede móvel. Minha dúvida foi respondida de forma instantânea quando ouvi o clique da linha e a voz dele ecoando antes mesmo do terceiro toque.
— Olá... — o tom de voz excessivamente baixo e sussurrado adotado por ele me pegou totalmente de surpresa. Parecia o resultado claro de um cansaço extremo misturado a uma tentativa desesperada de privacidade dentro do veículo. Aquele som inesperado fez um sorriso brotar nos meus lábios no mesmo segundo, e um pouco de ar escapou entre meus dentes.
— Nossa, Guilherme... Você parece estar incrivelmente cansado.
— Eu estou completamente moído, sim — ele sussurrou de volta. — E você aí, rindo da minha desgraça física.
— Não foi nada disso, juro! Eu só não esperava que você fosse me atender com um sussurro tão fofo desse jeito — fiz uma pausa de um segundo e voltei a disparar as palavras, não dando tempo para ele formular nenhuma provocação contra mim. — Mas me conta logo de uma vez: como foi a competição?
Ele limpou a garganta do outro lado da linha, mas, quando voltou a falar, sua voz continuava extremamente baixa, um sussurro quase inaudível. Precisei pressionar o fone contra o ouvido e me esforçar para decifrar as palavras, porque havia muito barulho e falatório ao meu redor na praça de alimentação.
— Eu me esforcei muito durante os tiros de treino no aquecimento... e consegui ficar em primeiro lugar nos cem metros livre.
Ao ouvir aquilo, levantei-me da cadeira num salto, decidida a caminhar em direção à área externa do shopping, porque o barulho interno estava atrapalhando a conversa.
— Sério mesmo? Que coisa maravilhosa, Guilherme! — Minhas mãos livres deslizaram pelo ar e se uniram instintivamente perto do meu coração, enquanto um sorriso gigante e orgulhoso puxava meus lábios. — Parabéns! Ai, como eu queria muito ter estado lá para presenciar esse momento tão emocionante. Você faz ideia de como eu teria me vestido para torcer por você se eu pudesse ter viajado nessa Kombi?
Ouvi o som dele sorrindo do outro lado da linha. Eu sabia perfeitamente que ele estava sorrindo porque a voz dele adotou aquela nuance abafada característica, aquela que todos nós assumimos quando tentamos falar enquanto os lábios estão esticados demais para se moverem livremente com a boca aberta.
— Não faço a menor ideia, Ariana. Como?
— Eu teria feito duas marias-chiquinhas bem altas no cabelo, colocado aquela luva gigante de espuma com o número um e pintado a sua inicial com tinta vermelha direto nas minhas bochechas. Bem no estilo torcedora fanática da Lara Jean!
— Não acredito em você — ele soltou uma risada abafada. — Isso parece ser extravagante e espalhafatoso demais, e um papelão desses está fora dos limites aceitáveis até para os seus padrões de drama.
— Pior que não, estou falando super sério! E sabe do que mais? Eu teria pulado as cadeiras da arquibancada e gritado muito quando você batesse a mão na borda da piscina e ganhasse a medalha.
Ele gargalhou baixinho no meu ouvido, o som vibrando na linha.
— Ainda bem que você não pôde viajar com a equipe, então. Toda essa sua comemoração espalhafatosa com certeza me deixaria muito distraído na raia de partida.
Estalei a língua na boca, fingindo descontentamento.
— Tá bem, tá bem. Eu poderia até abrir mão da luva de espuma gigante, eu admito. Mas a maria-chiquinha no cabelo e a inicial pintada em pelo menos uma das bochechas com certeza teriam que rolar.
— É uma cena que eu realmente gostaria de ter visto — ele confessou, a voz caindo para um tom mais terno.
Atravessei as portas automáticas de vidro do shopping, deixando para trás o barulho ensurdecedor das diversas conversas misturadas e a música ambiente dos alto-falantes da praça.
— Onde você está agora, Ariana? Estava a maior barulheira ao fundo e agora ficou tudo calmo de repente.
— Eu vim ao shopping com a Cristina — encolhi os ombros por instinto ao sentir o vento gelado da área externa, já que o sol estava se pondo e, com o crepúsculo, o frio de rachar os dentes do inverno tinha chegado. — Ela queria muito assistir a um filme em cartaz, mas acabou que a gente passou as últimas horas entrando nas lojas, experimentando roupas e olhando maquiagens que ela não tem dinheiro para comprar — menti, descaradamente, para proteger o segredo da minha amiga. — Aí eu lembrei do horário do seu campeonato e vim aqui para o terraço externo para conseguir ouvir a sua voz melhor.
— Putz... Deve estar sendo um passeio bem chato para você, então. Todo mundo no mundo já caiu nessa armadilha de shopping com uma amiga em algum sábado — ele comentou com ironia porque eu já tinha feito isso.
— Verdade — rimos juntos, em perfeita sintonia.
— Olha, nós já estamos pegando a estrada de volta para casa. A Kombi passou faz pouco tempo pelos limites de uma cidadezinha do interior, por isso eu acho que o sinal da rede móvel pode cair a qualquer momento na serra.
Olhei para o céu acima de mim, que já exibia um degradê lindo de tons alaranjados e roxos. Fitei a paisagem urbana lá embaixo, sentada em um banco de concreto do terraço, balançando os meus pés no ar enquanto me apoiava com a palma de uma das mãos na pedra gelada. Atrás de mim, de súbito, ouvi uma risada feminina clara e, em poucos segundos, um casal de namorados passou caminhando pelo meu campo de visão. O homem mantinha um dos braços flexionados, criando um espaço por onde a mulher tinha encaixado o seu braço com carinho.
— Que piada mais sem graça, amor — ela comentou, rindo.
— Então por que você está rindo tanto desse jeito? — ele rebateu, exibindo um sorriso largo.
A garota continuou rindo e tocou o braço dele de leve com a palma da mão que estava livre. Eles se acomodaram em um banco de concreto bem próximo ao meu, e o braço do rapaz percorreu a extensão dos ombros dela para, em seguida, puxá-la para mais perto do seu próprio corpo. A mulher se aconchegou o máximo que pôde contra o peito dele e repousou a cabeça confortavelmente no ombro do sujeito.
— Alô? Ariana? Você ainda está na linha? Consegue me ouvir? — a voz do Guilherme perguntou direto no meu fone, me trazendo de volta à realidade.
— Sim, sim! Estou conseguindo te ouvir perfeitamente — respondi depressa, desviando meus olhos do casal de namorados ao lado.
— Você ouviu o que eu acabei de dizer sobre a ligação poder cair a qualquer segundo por causa do sinal na estrada?
— Ouvi sim, desculpa. É que eu acabei me distraindo com um cachorrinho fofo que passou caminhando por aqui agora — menti de novo, voltando a olhar de relance para os dois no banco. — Guilherme, posso te fazer uma pergunta? — lancei a dúvida no ar.
— Com certeza. Manda ver.
O braço do rapaz ao lado já não estava mais repousado sobre as costas da namorada. O vento gelado do inverno soprou forte no terraço do shopping, fazendo o cabelo longo da garota voar desalinhado, e algumas mechas rebeldes permaneceram presas sobre o rosto dela. A mão do namorado então viajou pelo ar e alcançou os fios. Com uma delicadeza extrema, ele colocou todo o cabelo dela para trás dos ombros, para logo em seguida inclinar o rosto e beijá-la com ternura. A cena era idêntica à foto que a Mirela tinha tirado de nós dois no meu aniversário.
— Qual é a sua série favorita de televisão? — perguntei direto, ciente de que aquela era uma pergunta completamente aleatória e sem nexo para o contexto da nossa conversa.
Mas eu precisava saber. Se o garoto misterioso de jaqueta de couro desenhado no meu armário fosse realmente o Guilherme, ele saberia naquele exato segundo que eu desconfiava dele, ou, no mínimo, que ele tinha acabado de entrar no topo da minha lista de suspeitos.
— Eu... assisto a muitas... s... ries... — a frase dele saiu completamente picotada pela interferência da linha e, logo em seguida, um ruído constante e estático foi reproduzido no meu ouvido. A ligação tinha caído de vez.
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