Não Te Esquecerei Jamais
20 Declarações de amor
Notas iniciais
Capítulo 19
Estava preparada para passar pela porta assim que a abrisse, mas fiquei paralisada ao ver a figura de Guilherme destruída pelo cansaço. Havia duas manchas escuras localizadas na região inferior dos olhos dele. Uma em cada olho. Mesmo com o cabelo impecavelmente penteado e roupas bonitas, a aparência exausta não melhorou em nada.
— Hello — disse, ao mesmo tempo em que inclinava um pouco a cabeça para o lado, tentando entender por que ele simplesmente não tinha ficado em casa dormindo. — Um de nós teve uma péssima noite de sono. Dica de ouro: não fui eu.
Os ombros deles se moveram um pouco por conta do pequeno som do que deveria ser uma risada.
— Fiquei conversando com meu pai até tarde da noite e perdi o sono.
— Hum... — saí de casa, fechando a porta atrás de mim, mas antes passei as pontas dos dedos sobre o bolso da minha calça para ter certeza de que as chaves estavam lá. — Nossa, poderia ter ficado em casa descansando. Você está péssimo.
Guilherme balançou a cabeça, negando.
— Não tinha nada para fazer em casa. Se eu dormir agora, desregula o meu sono. Você — ele apontou para mim — está encarregada de me deixar acordado, certo?
— Ora, por que eu?
Ele levantou suas mãos grandes e as repousou sobre meus ombros. Não sei exatamente o porquê, mas naquele momento percebi que minha cabeça estava levemente erguida para o alto; só assim para encará-lo. Depois, Guilherme puxou-me para dentro dos seus braços, tendo que curvar um pouco mais as costas porque não tirei meus calcanhares do chão.
— Porque você é a única pessoa em quem confio.
Ele falou baixinho, soprando seu hálito através dos fios dos meus cabelos. Soltei o ar preso em meus pulmões, finalmente entendendo o que tinha acontecido de fato: ele e o pai tinham discutido, com certeza. Envolvi-o com meus braços, controlando minha respiração para que o cheiro dele não invadisse com tanta força meu sistema respiratório. Depois de um tempo, quando percebi que ele não tinha a intenção de quebrar o abraço, levantei os calcanhares do chão e assim pelo menos meu queixo pôde apoiar-se no ombro dele. Mas ele me abraçou mais forte, o que fez meu corpo ficar ainda mais próximo do dele e meus pés quase saírem completamente do chão.
— Tudo bem. Faço isso por você, mas não se chateie quando levar um cascudo.
— Não bateria em um bebê como eu, não é mesmo? — Enquanto ele falava, sentia seu peito vibrar, mesmo estando sob, pelo menos, duas camadas de roupa. — Que tal um carinho no cabelo?
Eu ri da sugestão.
— Aí você entra na Terra dos Sonhos com os dois pés.
Guilherme começou a se afastar e eu voltei a colocar meus calcanhares no chão. Foi no meio desse processo que beijei sua bochecha, deixando-la levemente marcada de lip tint.
— Vai ficar tudo bem.
Falei ao mesmo tempo em que sentia meu coração apertar por dizer algo de que não tinha certeza. Eu odiava quando alguém me dizia essas palavras, porque me pareciam vazias demais; eram mais sobre a fé de que tudo ficaria bem do que, de fato, uma promessa.
— Talvez.
A mão dele tirou a parte do meu cabelo bagunçado que cobria a lateral do meu rosto. Os dedos foram delicados, deslizando pelos fios durante o processo em que os levou para trás do meu ombro, tocando minha bochecha levemente com as pontas dos dedos.
Ele poderia me beijar agora.
O meu coração disparou imediatamente com o pensamento. Só precisaria levantar meus calcanhares, erguer mais a cabeça e a boca dele ficaria bem perto da minha. As minhas bochechas queimaram, fazendo com que o toque dele ficasse mais frio. Segurei a mão que tocava meu rosto e beijei a palma dela, sem saber o que fazer com o sentimento capaz de aquecer todo o meu corpo exposto à baixa temperatura do inverno.
[...]
A madeira da fogueira estalava alguns metros à minha frente; as faíscas subiam no ar e eram consumidas rapidamente pelo ar gelado, desaparecendo. O grupo que costumava se reunir na velha casa abandonada havia crescido ao longo dos anos. Às vezes estávamos todos juntos, mas na maioria das vezes o local era frequentado por grupos menores. Agora mais velhos, tínhamos mais responsabilidades, fazendo com que nossos horários fossem completamente diferentes.
Formávamos uma roda em volta do fogo e, em um ponto do círculo, Ricardo dedilhava um violão. Naquele momento em específico, ele tocava Ana Júlia porque havia atendido ao pedido de um dos meninos que estava com a namorada — e o nome dela era Ana Júlia. Achei estranho o pedido dele. Embora fosse cômico o fato de o nome dela ser o mesmo da música, a letra em questão não era nada romântica.
— Talvez tenha sido uma música importante no início do relacionamento deles — Guilherme sussurrou ao meu lado.
Virei o rosto em sua direção com o cenho franzido e a boca torta em interrogação.
— Eu te conheço tão bem que sei que pensou: "Nada a ver dedicar uma letra nada romântica à namorada" — continuou. — Mas o início de um relacionamento pode ser marcado por qualquer coisa, inclusive por uma letra que não fala de um amor correspondido, embora ainda seja sobre ele.
— Você fica muito reflexivo quando está cansado. Isso é curioso.
Ele sorriu sem mostrar os dentes, enquanto os olhos baixos demonstravam o quanto tinha sono. Guilherme estava estranho. Nunca o tinha visto com tanto sono. Isso o deixou letárgico, curiosamente mais sincero e reflexivo, ou seja, estava completamente sem freio.
— Acho melhor eu pilotar a bicicleta e você ir de carona dessa vez — eu disse quando ainda estávamos em frente à minha casa, depois que o abraço acabou e nos aproximamos da bicicleta dele.
Ele me respondeu com um suspiro misturado a uma risadinha, deu três batidinhas na cela e disse:
— Se você alcançar os pedais, pode ser.
Lembrei da situação, entretanto, tive o fluxo da lembrança interrompido quando a mão esquerda dele tocou meu cabelo, enrolou um cacho no dedo indicador enquanto a fogueira estalou forte outra vez.
— Seu cabelo parece aceso sob a luz do fogo. — Os olhos dele se fixaram nos meus; olhamos no fundo dos olhos um do outro. Mesmo que eles estivessem baixos de sono, brilhavam, e não por causa das chamas, era por causa de sentimentos. — É lindo.
— Obrigada — ri baixinho. — Você está parecendo minha irmã quando bebeu duas taças de vinho rápido demais. Tem certeza de que isso é só sono?
Ele aproximou a cabeça, ficando próximo demais.
— Está sentindo cheiro de álcool? Tomei muito energético antes de sair. Acho que ele mexeu um pouco com meus sentidos.
— Você acha?
O garoto se afastou, coçou os olhos e soltou um bafinho de riso preso.
— Ariana, posso descansar no seu colo?
— O quê?
— Eu estou morto — disse, já caindo sobre mim. Com o rosto virado para cima, encarou-me com os olhos pequenos.
— Se você está tão mal, por que veio? Do jeito que está, duvido que teria desregulado o sono.
— Eu vim porque queria ver você. Tinha saudade.
Ele fechou os olhos, parecendo totalmente confortável. Levei uma das minhas mãos até o rosto dele e afastei os fios que tinham ficado presos em seus cílios volumosos. Aproveitei para pentear o cabelo com meus dedos; fazia aquilo com frequência. Era bom sentir os fios passando entre meus dedos. Eram macios e tinham a mesma sensação gostosa de quando alisava o lençol macio da minha cama.
[...]
Para a infelicidade dos namorados, o dia 14 de fevereiro seria em uma segunda-feira. Acredito que eles tinham a mesma sensação, ou pelo menos era algo bem semelhante, de quando o aniversário caía no início da semana.
— Será que vão deixar a decoração até o fim do mês?
Não esperava uma resposta, mas Cristina pegou o pedaço do balão que tinha estourado e caído em seu cabelo, dizendo:
— Decorações com balões não nasceram para durar tanto tempo. Estou surpresa que ainda tenha balões bonitos por aí.
— Pelo menos temos as fitas e os corações de TNT brilhantes.
A porta do refeitório era dupla; por isso, entramos juntas. O lanche daquele dia era especial, o que me fez levantar o bumbum da cadeira da sala de aula. Nunca havia me questionado, mas, depois de comentar com uma colega do curso de desenho que a minha escola fazia decoração e tudo mais para essa data, ela reagiu de maneira incrédula e disse que o Dia dos Namorados na escola dela era só mais um dia normal de aula. Desde esse dia, comecei a me questionar o porquê de uma escola dar tanta importância a uma data como aquela. Não era a comemoração de um fato histórico, não era o dia de nenhum santo.
— Antes que o Guilherme chegue... Me conta. Tá rolando alguma coisa entre vocês?
Rolei os olhos e cruzei os braços. A garota levantou as mãos no ar, com as palmas viradas para mim.
— Desculpe pela pergunta — ela baixou as mãos e inclinou a cabeça para ficar mais próxima do meu ouvido. O primeiro motivo era porque o ambiente começava a ficar muito barulhento; o segundo era porque ali era mais seguro e ninguém ouviria o que conversávamos. — Mas é que vocês estão agindo diferente. Certo que vocês nunca foram amigos convencionais... — arregalei os olhos. — No sentido de comportamento, amiga! — completou.
— Não está rolando nada entre a gente — respondi. Sem olhar para ela, mordi o lábio e apertei os olhos, analisando rapidamente se deveria continuar falando. — Mas ele está agindo estranho mesmo faz uns dias. Quer dizer, a gente sempre foi grudado... mas é diferente.
— Hum... Você me contaria se acontecesse alguma coisa, né? Eu tenho que ser a primeira a saber. Torço por esse casal há muito tempo.
— Hum... Do mesmo jeito que você me contou do seu namorado tecladista?
— Não é a mesma coisa, Ariana!
— Claro que é, e ainda por cima você me usou. Fui enganada. Já imaginou se ele fosse um doido e te fizesse mal? Como eu ia ficar depois? Isso não se faz, Cristina.
— Desculpa, amiga — ela deu três pulinhos. — Juro que não fiz por mal. Mas eu sabia que ele era um cara legal.
Bufei e revirei os olhos.
— Não é assim que as coisas funcionam. Se fosse assim, todas as mulheres enganadas por esses estelionatários da internet não teriam sido enganadas. Se ele pedir dinheiro ou o seu corpinho, foge.
Cristina cobriu os seios quando cruzou os braços e encolheu de leve os ombros.
— Tá doida? Meu corpinho, não.
Eu ri alto.
— O dinheiro está tudo bem, né?
A careta de horror no rosto dela sumiu e ela disse entre os dentes:
— Ele está vindo. Muda de assunto.
Movi a cabeça, virando de leve o ombro, o suficiente para vê-lo vir em nossa direção.
— Você não gostava mais quando nosso assunto não era só sobre garotos? — Cristina perguntou baixinho.
— A gente poderia conversar sobre vários doramas, séries e filmes, mas o seu gosto é muito cult e você não gosta de clichês.
— Eu gosto, sim. Assisti a Casamento às Cegas Brasil esses dias.
— A primeira temporada? — voltei a olhar para ela.
— Sim — ela balançou a cabeça levemente, piscou os olhos e fez um bico. Era um dos raros momentos em que a achava fofa e, segundo ela, era totalmente involuntário. — Eu só não acho que vai sair nenhum casal dali. É muita doideira uma pessoa casar em noventa dias com alguém praticamente desconhecido.
— Doideira total. Eu não teria coragem.
— Amiga, você não tem coragem de beijar nem o boy que conhece há não sei quantos anos.
— Cristina! — repreendi.
— Relaxa, ele parou para conversar com um amigo. Mas tá, parei, porque ninguém sabe, né? Ele é tão rápido que chega aqui em instantes. Aliás, amei esse seu lip tint.
— Eleé maravilhoso. Acredita que ele é preto? A proposta é ficar de uma cor diferente de acordo com o pH da boca.
— Sério? Já quero — ela me bateu de leve no meu ombro. — Para essas coisas você não me chama, né?
— Fala sério! Você tem um monte de batons.
— Mas nenhum deles é preto que fica rosa.
Guilherme chegou até nós segundos depois, sorrindo lindamente e com os cabelos ainda úmidos da chuva que pegou no caminho da escola.
— Aish. Ainda bem que gripe e resfriado são vírus — levei uma das minhas mãos até os cabelos dele e os baguncei de leve. — Você sabe que tem que olhar a previsão.
— É muita vontade de estudar, né, Guilherme? — Cristina disse, piscando o olho esquerdo.
— Eu ainda ofereci carona no meu guarda-chuva, mas ele não quis.
Ele bufou.
— Só se fosse para nós dois chegarmos molhados. Aquele guarda-chuva é minúsculo.
— Ele tem razão, Ariana.
— Tá bem. Então vou comprar um desse tamanho — abri os braços o máximo que pude — para caber eu, o Guilherme e você.
— Que bobagem — ela deu um tapinha no ar. — Ele só precisa ser grande o suficiente para vocês. Ai, andam assim, coladinhos... — empurrou nossos ombros até eles se encostarem. — Ai, que cena mais linda. Fofos — e começou a fazer coração coreano com os dedos.
— Onde você aprendeu a fazer coração coreano? Pensei que não assistisse a doramas.
— Não assisto. Vi no TikTok — disse, enquanto continuava fazendo o gesto com os dedos.
[...]
Quando o sinal da última aula tocou, eu já estava com minha mochila arrumada. Eu amava quando a aula de inglês era a última, porque o professor sempre terminava o conteúdo uns dois minutos antes de o sinal soar. Então era quase certo que tudo estivesse pronto no momento do toque.
Guilherme e eu saímos juntos da sala de aula, no entanto, ele apressou os passos até a lata de lixo mais próxima, sacou de dentro da mochila uma pilha considerável de papéis de diferentes tamanhos e a jogou dentro do lixo. Eu, que estava atrás dele, pude ver, assim que ele saiu da frente, o conteúdo de quase todas as folhas. Eram declarações do Dia dos Namorados.
Não era incomum que cartas ou bilhetes de amor fossem deixados no seu armário antes do dia 14 de fevereiro, tanto que recebi um lindo desenho no armário com alguns dias de antecedência. Entretanto, o dia oficial dos apaixonados era aquele com mais fluxos de declarações.
Encarei os papéis recém-jogados no lixo. O de cima era uma colagem de papel crepom; as bolinhas pequenininhas de cor vermelha formavam um coração bem desenhado. Embaixo, do lado direito, estava escrito: by: Daiana Maia. Não fazia a menor ideia de quem era aquela moça, mas senti meu coração apertar um pouco, por pura pena. Tentei arrancar todos os papéis de uma vez, mas, por causa dos diferentes tamanhos, alguns escaparam. Meti a mão de novo no lixo e puxei apenas um dos papéis fujões.
— O que você está fazendo?
Ergui a cabeça, imediatamente encarei Guilherme.
— Pelo menos joga em um lixo fora da escola, né? Aqui qualquer pessoa pode ver.
Ele deu de ombros.
— Eu não me importo — disse, frio.
— Se fosse ao contrário, acho que você não ia gostar que vissem um bilhete de amor seu no lixo. Você sabe como são os adolescentes. Alguns não têm compaixão alguma e iam te zoar até só Deus sabe quando — salvei o resto dos papéis que haviam ficado para trás. — Compaixão, Guilherme.
E, para além disso, havia o sentimento de rejeição, que iria ser mais intenso. Uma coisa é ser rejeitada silenciosamente ao esperar uma resposta que nunca chegaria; outra, muito diferente, é saber que a sua cartinha foi para o lixo.
— Mas tem algumas que me mandam todo ano. Acho que já ficaram mais do que claras as minhas intenções — disse ele, um pouco bravo.
— A esperança é a última que morre e você ainda não está comprometido. Pelo menos elas tentam — suspirei e fiquei reflexiva. — Seria mais fácil se recebesse uma carta de alguém de quem gostasse.
— É melhor esperar sentado e na sombra — disse, baixinho.
— O que você disse? — pendi a cabeça para o lado, tentando encará-lo, mas ele desviava os olhos todas as vezes. — Está apaixonado por alguém?
Os olhos dele baixaram no instante seguinte. O conjunto da sua expressão era meio incrédula.
— Será que estou? — perguntou, com as sobrancelhas erguidas, e eu não sabia como responder.
Sim. Estava sendo cínica, porque era tudo muito óbvio. Claro como a água.
— Também recebi uma carta de uma pessoa hoje — disse, em vez de responder à pergunta, e comecei a andar.
A maioria dos alunos tinha ido embora e alguns deles viram, sim, eu meter a mão no lixo. Só não sei se sabiam que tentava resgatar declarações de amor.
— Quando?
— Hoje.
— De quem? Gostou dela? — parecia estar curioso.
— Da Cristina. Sim, gostei. É bem fofa.
— Ah, tá. Foi da Cristina — ele fez uma careta de interrogação. — Ela gosta de mulheres?
Gargalhei alto.
— Não. É só o jeitinho dela de pedir desculpas.
— Vocês brigaram?
— Não, mas ela me enganou quando disse que íamos assistir ao filme quando na verdade ficou provando roupa.
— Ahhh.
Não sei se alguém diria mais alguma palavra, porque fui surpreendida por uma força que arrancou do meu ombro a mochila. Meus olhos se arrastaram pelo chão até subirem ao nível da figura que corria em uma velocidade impressionante com a minha mochila já equipada em suas costas.
Enquanto pensava em mover minhas pernas para ao menos tentar alcançá-lo, Guilherme reagiu e começou a se mover primeiro. Embora eu tenha começado a correr quase no mesmo instante que ele, Guilherme logo ganhou vantagem e começou a se distanciar. O fato de ele ser competidor de natação deu vantagem respiratória, porque não demorou muito para que meus pulmões começassem a arder e os músculos das minhas coxas queimassem, dando a sensação de que iriam enrijecer.
Ele usou os braços no movimento e isso fazia parecer que estava saltando. As costas foram ficando cada vez menores por causa da distância. A escola ficava em uma zona cheia de prédios e casas, sem um grande núcleo de vendas próximo ou algum ponto turístico, por isso, quase não se via ninguém na rua. Eu queria gritar: "Pega o ladrão!". Mas só conseguia usar meus pulmões para uma atividade por vez e, naquele momento, ele precisava me manter respirando.
De longe, avistei quando Guilherme agarrou a mochila nas costas do ladrão. Eles correram juntos por alguns metros, no entanto, logo pararam. Meu amigo agarrava forte e soube disso porque o ladrão tentava andar, mas era como se estivesse com uma tonelada amarrada à cintura. Ao chegar mais perto, vi o corpo de Guilherme levemente inclinado para trás e soube naquele momento que a situação acabaria em merda.
Encurralado, o rapaz se desvencilhou do objeto nas costas com uma rapidez impressionante e fugiu. Como consequência, Guilherme caiu para trás, as mãos largaram a mochila que caiu de lado. Eleusou os braços para amortecer a queda; vi os braços rasparem no chão e depois o tronco tocar o solo, mas a cabeça, felizmente, não bateu. Levou alguns poucos segundos até alcançá-lo de fato e, quando o fiz, Guilherme ainda estava no chão.
— Oh, meu Deus! Guilherme, você está bem? — foi uma pergunta estúpida, porque a expressão de dor no rosto dele dizia tudo. Meu coração batia tão forte sob meu peito, porém o excesso de velocidade que impus às minhas pernas não foi a única causa. Era óbvio que um acidente como aquele não representaria grandes problemas, mas ainda assim foi assustador.
— Acho que estou bem, sim — ele fez menção de se levantar e quis ajudá-lo. Foi quando toquei no cotovelo que ele reagiu, afastando-se do toque imediatamente enquanto que de sua boca saíam gemidos de dor. Quando Guilherme ergueu-o para cima, pôde-se ver um grande arranhão. Levando em consideração a posição em que caiu, o outro estaria igualzinho.
Movi meu corpo, posicionando-o em sua frente. Estendi minhas mãos. O garoto ergueu as dele na minha direção e encaixou cada uma delas nas minhas. Levei um dos meus pés para trás e inclinei o corpo, concentrando toda a minha força nos meus braços e abdômen para que pudessem dar o máximo de ajuda possível. Guilherme dobrou os joelhos e deu um impulso que o levou para o alto. Dei mais um curto passo para trás, ajudando-o.
De pé, ele verificou os dois cotovelos e constatou que os dois estavam feridos como pensei; no entanto, o ferimento do direito era maior e mais profundo, tanto que dele escorria secreção. Não era sangue. Ao nosso redor, algumas pessoas pararam para nos observar, mas meu cérebro não registrou a presença delas de verdade.
— Eu tenho água na minha garrafa. Precisamos lavar esses ferimentos — disse, baixando o tronco para alcançar a mochila que tinha ficado no chão. Minha respiração ainda estava irregular, então pronunciei as palavras entre respirações pesadas.
Abri o zíper da mochila e puxei de lá a garrafa de dois litros. Eu costumava beber todo o líquido que levava; entretanto, naquele dia não consumi tudo, restando um pouco menos que a metade.
— Vou precisar ser cuidadosa porque essa água precisa dar para os dois braços.
A expressão estampada no rosto dele era estranha. A dor estava lá; no entanto, ele também sorria. Não era o mesmo sorriso de sempre de quando sorria largo ao ponto de mostrar os dentes ou aquele meio torto e sexy. O brilho que ele carregava nos olhos transformou o sorriso nos lábios. Inicialmente pensei que o maxilar contraído era consequência da dor; porém, vi seus lábios levemente apertados e cheguei à conclusão de que poderia ser a mistura dos dois: dor e autocontrole de risada.
— Sabia que foram poucas as vezes que vi essa ruga de preocupação na sua testa? — levei a ponta dos dedos até minha testa, mas obviamente não consegui sentir nada porque era algo mais visual. — Fiquei até lisonjeado por saber que ficou preocupada comigo.
— Mas é claro. E se ele estivesse armado, Guilherme? Todo mundo sabe que não se deve reagir a assalto.
— Ainda bem que não sou todo mundo — fez a piada com um sorriso maroto nos lábios. — Estou brincando — ergueu os braços por causa do meu olhar fuzilador.
— Isso é sério, Guilherme! Poderia ter se machucado sério.
Abri a garrafa de água e derramei cuidadosamente, tomando cuidado para não o molhar. Usei mais quantidade no braço mais machucado porque era o que mais precisava de atenção.
— Acha que devemos lavar isso com álcool? — ergui o olhar para encará-lo.
— Não — balançou a cabeça junto com a palavra. — Não se deve fazer desinfecção com álcool, ele queima a pele, o que não é adequado. Mesmo assim, não acho que foram ferimentos tão graves que precisem de desinfecção.
— Uma vez caí de bicicleta e meu joelho ficou assim. No outro dia eu não conseguia dobrar minha perna.
— É provável que aconteça o mesmo comigo — ele me encarou e exibiu o sorriso sexy. — Você vai cuidar de mim?
Eu gargalhei de nervoso.
— Não sei se teria espaço para mim, porque quando sua mãe vir isso, ela vai ficar louca.
Ele suspirou profundamente porque sabia que era verdade.
— Pelo menos valeu a pena. Recuperei sua mochila.
— É. Ainda bem que deu tudo certo. Mas nunca mais reaja a um assalto. É perigoso.
O olhar brilhante e o sorriso meigo foram oferecidos a mim como resposta. Encaramo-nos tal e qual aquelas cenas de romances quando os olhos brilham e um leve sorriso desabrocha nos lábios.
[...]
Olhar a previsão todos os dias tinha sido um hábito excelente de ser adquirido; desde então, era muito difícil que fosse surpreendida por qualquer chuva. Ontem, fui dormir desapontada com a previsão de sábado. O dia de encontrar meu admirador estava quase chegando e, infelizmente, uma onda de chuva se iniciou. Ainda faltavam três dias, mas a previsão de cinquenta por cento de probabilidade de chuva me deixou chateada. Queria que fizesse um sol de rachar, mas, pelo visto, na melhor das hipóteses, vai estar nublado.
Através da enorme vitrine da cafeteria, acompanhei a chuva cair. Não estava forte ao ponto de quebrar guarda-chuvas e nem fraca o suficiente para não se molhar caso estivesse sem o apetrecho.
— Você está chateada. Alguma coisa aconteceu.
Levei a xícara de café até os lábios. Dei um gole moderado enquanto encarava Guilherme do outro lado da mesa. A pequena quantidade de vapor que subiu da xícara teria deixado as lentes dos meus óculos escuros embaçadas se estivesse com eles.
— A chuva anda me chateando. Estava tão bom quando estava sol. E, além disso, tenho um compromisso importante no sábado e seria bem mais interessante se não chovesse.
— O que vai fazer no sábado?
— Vou sair com a Cristina. Iremos à Feira 25 de Março.
Observei a reação dele, mas ele, esperto como sempre, não se deixou abalar e respondeu:
— A gente foi lá ano passado.
— Verdade. A gente foi. Inclusive lembro daquela máquina de força. A única certeza que tenho é que com certeza tenho mais força do que aquela máquina registrou. Bati com o martelo de mau jeito.
Ele sorriu largo ao ponto de estreitar os olhos.
— Todo mundo fala isso.
— Nada a ver. Olha aqui os meus bíceps — ergui os braços e contraí os músculos.
— Eles estão tão grandes que, quando a gente sair daqui, você tem que andar de lado.
Respondi com um riso falso e então me lembrei do acidente de alguns dias atrás.
— Como é que estão seus ferimentos?
— Bem melhor. Já até consigo dobrar os braços — Guilherme dobrou os braços algumas vezes.
— Como sua mãe reagiu quando viu seus cotovelos esfolados?
— Que exagero! — falou entre as risadas. — Ela passou um remédio de um cheiro horroroso, mas muito eficiente, porque, como deve ter percebido, consegui dobrar os braços normalmente.
— As mães têm uns conhecimentos que só Deus explica.
Os ânimos na escola tinham se acalmado depois que o mês de fevereiro acabou e toda aquela expectativa romântica se findou. Mas ela continuou vivíssima dentro de mim, sendo constantemente alimentada pelo encontro. Não tinha a certeza do porquê. Ele em nenhum momento confirmou ser o rapaz do desenho, mas as pistas eram tão claras que nem precisei que ele falasse alguma coisa a respeito.
— Quer saber uma novidade? — Guilherme me perguntou.
— Com certeza. O que aconteceu?
— Meu pai quer que eu vá passar parte das minhas férias com ele.
— Você vai viajar para São Paulo!
— Sim. Vou passar quinze dias de agosto lá. As passagens já foram compradas.
— Não está feliz? — perguntei, confusa com as expressões negativas exibidas por seu rosto.
— Estou feliz porque vou ver meu pai, mas vai ser uma pequena amostra de como vai ser quando morar longe da minha mãe.
— Hum. Entendo. É realmente complicado — dei mais um gole no café antes de continuar. — Morar com seu pai vai ser bom para você.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha opinião.
— Por que acha isso?
— Porque São Paulo é bem maior do que nossa ilha; consequentemente, há mais oportunidade de emprego e construir uma boa carreira profissional. Existem ramos profissionais lá que são muito limitados aqui.
— Mas por que está falando disso agora?
— De emprego?
— Sim.
Suspirei enquanto ajeitava meu corpo na cadeira.
— Não sei exatamente o que aconteceu, mas já sinto as responsabilidades da vida adulta bem aí. Estamos quase no último ano, depois disso são só coisas de adultos. Até mesmo se você for para faculdade. Faculdade é coisa de adulto — eu o encarei por um momento e depois apoiei meu queixo em uma das mãos. — Você nunca pensou que profissão quer seguir?
— Meu pai quer que eu faça Direito...
— Mas você quer? — o interrompi. — Já pesquisou sobre a carreira para ver se tem alguma afinidade?
— Não. Nunca pensei nada sobre o assunto. Você é a primeira pessoa da minha idade que falou sobre isso.
— Deve ser porque eu tenho uma irmã mais velha que está arrancando os cabelos porque não sabe o que quer estudar. Ela não quer continuar no emprego atual, mas para mudar para um emprego melhor precisa estudar alguma coisa relevante. Ver ela tão confusa me fez questionar.
— Eu queria ter um irmão mais velho.
Soltei um risinho.
— Não ia, não, porque não seria tão mimado pela sua mãe. Teria que dividir tudo com ele.
Ele fez uma careta pensativa.
— Acho que não me importaria.
— Bem, de qualquer forma, se sua mãe tivesse outro filho, você seria o irmão mais velho.
— Ah, não. Esse fardo é muito pesado — balançou a cabeça em negação.
Gargalhei bastante das palavras dele; entretanto, mudamos de assunto mais algumas vezes. Assuntos mais leves, só para que pudéssemos rir de bobagens. Quando começamos a ter a sensação de que já tínhamos ficado ali por tempo demais, fomos embora.
— Ah, não! — exclamou Guilherme quando saímos do café. — Roubaram o meu guarda-chuva — disse, revirando o depósito.
Em dias de chuva, era costume os estabelecimentos terem um depósito de guarda-chuva na porta de entrada. Isso impedia que entrássemos com o objeto pingando, já que tínhamos onde guardá-lo.
— O meu está aqui. Acho que alguém pegou o seu por engano.
— E agora?
— Agora você pega carona comigo. Hoje eu vim com um guarda-chuva maior.
Desci a pequena escada fazendo splash e abri o objeto quando já estava exposta às gotas de chuva. Apontei o indicador na direção dele e cantei enquanto balançava meu corpo ao tentar imitar a apresentação de Tom Holland no Lip Sync Battle, quando fez uma bela interpretação de Umbrella.
— “You can stand under my umbrella. You can stand under my umbrella. Ella, ella, eh, eh, eh. Under my umbrella.” — terminei o trecho com um balançar de cabeça que o convidava a vir para debaixo do guarda-chuva. — “It's rainin', rainin'. Ooh, baby, it's rainin', rainin'. Baby, come here to me. Come into me. It's rainin', rainin'.”
Guilherme desceu a escadinha sorrindo da palhaçada que foi minha interpretação e, quando chegou perto o suficiente, precisei erguer o braço em uma altura desconfortável. Era inviável que fosse eu a pessoa que carregasse o guarda-chuva; então, passei para ele o bastão do objeto. O garoto segurou com uma mão e passou o braço livre sobre meus ombros para me trazer para mais perto dele.
Começamos a caminhar, calados. Embora já tenham acontecido inúmeros momentos em que tivemos carinhos muito suspeitos para amigos, não existia nada mais romântico que dividir um guarda-chuva.
Quando chegamos próximo à minha casa, Guilherme parou de andar. Ficamos de frente um para o outro. Eu não estava entendendo o que ele estava fazendo. Para mim, iríamos até o portão da minha casa e de lá, ele seguiria com o guarda-chuva. Se não fosse assim, não fazia sentido ter dividido o espaço do objeto.
— O que você está fazendo? — perguntei quando ele fez o gesto para me entregar o bastão.
— Entregando o guarda-chuva para você ir para casa? — disse, como se fosse óbvio.
— Guilherme, vamos juntos até minha casa, de lá você vai para sua casa. Não faz sentido a gente ter dividido se for para você se molhar no final.
Ele sorriu meio constrangido, entregando que não tinha tido esse raciocínio. Voltamos a caminhar sorrindo com a situação e, em poucos minutos, chegamos em frente à minha casa. Abri o portão, mas não entrei. Em vez disso, subi no batente da entrada para ficar mais alta, embora ele não fizesse tanta diferença na minha altura porque tinha poucos centímetros.
— Todas as vezes que nos encontramos parece que você cresceu dez centímetros.
— É que você parou de crescer cedo demais — ele deu de ombros.
Fiz uma careta de desdém, mas parei quando vi uma gota de água pingar na camiseta branca que ele vestia.
— Olha só. Você ainda se molhou.
— Parece que o guarda-chuva não é tão grande assim.
— É, mas podia ser pior.
O momento de silêncio se prolongou. Nenhum dos dois queria se despedir, mas era preciso.
— Devolvo na próxima vez que a gente se encontrar.
— Combinado.
Ele começou a se afastar pela calçada úmida no exato instante em que girei o corpo para entrar em casa. Assim que o portão de ferro bateu e travou com um estalo seco, impedindo que eu conseguisse enxergar a silhueta dele sumindo na esquina da rua sob a chuva, encostei as costas no metal, fechei os olhos e sussurrei em um sopro fraco contra o vento:
— Vejo você na feira, Guilherme.
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