Não Te Esquecerei Jamais
4 Mesmo Momento, Percepções diferentes
Notas iniciais

Capítulo 3
O auge daquela tarde foi a nossa brincadeira de Sete Pecados. Costumávamos jogar na rua de casa, e qualquer criança da vizinhança podia entrar. As regras eram simples: um de nós jogava a bola para trás e gritava um nome enquanto corria. O objetivo era lançá-la o mais longe possível, porque, assim que a pessoa chamada agarrava a bola e gritava "pare!", todos tinham que congelar imediatamente. Em seguida, com a bola em mãos, quem foi chamado dava sete passos na direção do jogador mais próximo para tentar queimá-lo. Cada erro rendia um "pecado". Ao acumular sete pecados, o castigo era o paredão: ficar de costas, com as mãos apoiadas na parede, recebendo sete boladas.
Ricardo era o menor e mais ágil do grupo, mas ficava em desvantagem quando o chamavam, já que suas pernas curtas limitavam o tamanho dos passos. Guilherme era o oposto. Por ser o maior, tinha uma passada enorme, embora fosse um pouco mais lento por conta do peso. No entanto, o posto de mais devagar do grupo não ficou com ele. Esse ficou comigo. Para mim, correr tinha se tornado um desafio desconfortável.
Há uns dois ou três anos, apostar corrida era a coisa mais divertida do mundo. É um pouco assustador notar a velocidade com que o nosso corpo muda. Ainda me lembro do dia em que tudo começou. Eu estava correndo na escola quando meus seios, que mal existiam, sofreram uma pancadinha boba. Senti uma dor fina e incômoda. Ao chegar em casa, confusa, contei para minha mãe. Ela sorriu com ternura e tocou meu rosto.
— Ah, minha filha está crescendo — ela disse, passando as mãos por cima da minha blusa, tocando a base do pequeno volume que começava a se formar. — Não tem nada de errado com você. Seus peitos estão se desenvolvendo. Logo você vai precisar usar algo para proteger. Faz tanto tempo que passei por isso que nem lembro quanto tempo demora para crescer de verdade.
Precisei esperar até ganhar um pouco mais de corpo para receber meu primeiro sutiã. Admito que, antes disso, eu desejava ardentemente que esse dia chegasse. Mas, quando finalmente aconteceu, me senti uma verdadeira palhaça. Sabe aquele filtro do Instagram que pinta nosso rosto de palhaço? Foi exatamente assim que me senti. Usar a peça íntima tão sonhada não tinha nada de glamouroso. Era desconfortável, pinicava e apertava. Depois de cinco minutos de uso, minha única ansiedade era chegar em casa para arrancá-lo.
O real problema, porém, se revelou em uma aula de educação física. O professor exigiu uma sequência de polichinelos seguida de uma corrida entre os cones. No primeiro salto, percebi que o sutiã, embora parecesse apertado no tórax, não oferecia sustentação nenhuma para movimentos bruscos. A cada impacto, meus seios balançavam, e aquilo me gerou um constrangimento absurdo. Desde aquele dia, decidi que não me esforçaria mais para correr rápido ou pular.
Obviamente, aquela tarde de brincadeiras não foi exceção. Eu morria de vergonha. E se os meninos percebessem o movimento? Eu até podia estabilizar o balanço cruzando os braços na frente do peito ou segurando a blusa, mas aí é que todos notariam o que estava acontecendo. A solução mais segura era simplesmente não correr com força. O resultado da minha escolha foi previsível: fui a primeira a acumular sete pecados. Sem velocidade, era impossível desviar das boladas.
— Vai, Ariana. Tá na hora de ir pro paredão — Cristina cobrou assim que o João me acertou.
Talvez eu esteja ficando velha demais para essas brincadeiras, pensei.
— Tudo bem, mas não esqueçam que não vale jogar com força.
— A gente sabe — João resmungou.
Apresentando pouca resistência, caminhhei até o muro da construção e apoiei as palmas das mãos na parede áspera. Ali, sem conseguir encarar o rosto de nenhum deles, esperei o impacto. De fato, os primeiros arremessos foram tranquilos, mas a última bolada veio com tanta fraqueza que mal bateu na minha panturrilha e rolou pelo chão.
— Ah, Guilherme, assim não vale! — Ricardo protestou na hora. — Nem eu, que sou o mais fraco da turma, faria uma jogada tão medíocre.
— Vocês falaram para não jogar com força — ele se defendeu, dando de ombros.
— Pronto! Todo mundo já jogou — avisei, girando o corpo e saindo da mira deles. — Ninguém vai acertar mais nada em mim.
— Você é muito arregona — João comentou, fazendo uma careta.
Apontei para o muro e dei um passo para o lado, desafiando-o:
— Então vai você para o paredão, João, o corajoso.
— Eu não. Eu não tenho sete pecados.
— Sei — suspirei, consultando o visor digital do meu relógio. — Está na hora de ir embora.
Eu tinha começado a usar um relógio de pulso fazia pouco tempo. Como estávamos no auge do verão, o sol demorava muito para se pôr, então não dava para usar a escuridão como aviso para voltar para casa. Como ninguém ali tinha celular, o relógio era a única salvação.
— Em outra situação eu reclamaria, mas meus pais me deram a maior bronca da última vez que cheguei tarde. Não quero ficar de castigo de novo — Cristina cedeu, com um leve espremer de olhos, claramente lutando contra o próprio orgulho para aceitar o fim do passeio.
Ao notar que não haveria mais discussões, corremos em direção às bicicletas. Peguei meus equipamentos de proteção, mas me dei ao trabalho de prender apenas o capacete; as cotoveleiras e joelheiras ficaram penduradas no meu braço. Fui a última a arrancar por conta do tempo que gastei organizando as tiras, mas o terreno plano facilitou o ganho de velocidade para alcançar os outros.
Por alguns minutos, o único som na estrada de terra foi o ranger dos pedais e o atrito dos pneus. Não estávamos muito longe de casa quando um estalo metálico ecoou. No segundo seguinte, o ato de pedalar se tornou incrivelmente leve, e uma sensação ruim se instalou no meu peito. Freei a bicicleta, olhei para baixo e identifiquei o desastre: as duas pontas da corrente de ferro tocavam o chão, completamente partidas.
Guilherme parou a bicicleta dele ao meu lado. Olhou diretamente para o problema, depois ergueu os olhos para mim com uma expressão clara que dizia: Já era.
— Pessoal, ajuda aqui! — chamei, vendo meus amigos darem meia-volta com as bicicletas. Uma parte da minha mente já gritava em desespero: Ninguém aqui sabe consertar isso! — Minha corrente quebrou.
— E agora? Vai ter que ir a pé — Cristina constatou o óbvio.
— A gente avisa para a sua mãe que a corrente partiu e que você está a caminho — Ricardo sugeriu, já virando o guidão.
— Valeu, Ricardo.
Eu não esperava que nenhum deles ficasse para trás. Quem trocaria uma corrida de bicicleta por uma caminhada lenta com um estorvo? Desci da cela e comecei a empurrar a estrutura pesada enquanto os três voltavam a acelerar. Levei alguns segundos para processar o fato de que os pneus de Guilherme continuavam parados ao meu lado.
— Você não vai com eles? — perguntei, controlando a voz para que não transparecesse a pontada de pânico que começava a me sufocar.
— Não. Vou acompanhar você — ele respondeu, mantendo os olhos fixos na estrada à frente.
— O quê? Não precisa. Sua bicicleta está funcionando perfeitamente.
— Mas eu quero — Guilherme finalmente virou o rosto na minha direção, oferecendo um sorriso contido.
— Por quê?
O garoto soltou um suspiro demorado antes de responder.
— Porque eu quero conversar.
— Sobre o quê? Não tenho nenhum assunto pendente com você.
— Senti uma tensão a tarde inteira. É como se você não gostasse de mim. O que é estranho, porque nós já fomos muito amigos.
Arregalei os olhos, sentindo minha boca se abrir ligeiramente. Voltei o rosto para a frente, tentando formular uma resposta que não entregasse o quanto eu estava abalada. Não demorei para rebater:
— Não se faça de bobo, Guilherme. Você sabe perfeitamente por que eu reagi assim.
— Está falando do beijo?
Apertei as mãos com força ao redor do metal do guidão e respirei fundo. Aquela estava se tornando a conversa mais difícil da minha vida. Por mim, nós dois simplesmente fingiríamos que aquele inverno nunca existiu.
— Você não podia só fingir que aquilo nunca aconteceu?
— Não.
Encarei-o de lado, surpresa com a resposta curta e firme. Se eu estivesse no lugar dele, teria enrolado, desconversado ou, na verdade, teria ignorado o assunto por completo e corrido para alcançar os outros lá na frente.
Bufei, revirando os olhos com irritação.
— O que você quer, Guilherme? Fala a verdade, porque por mim essa baboseira de beijo e de amizade do passado está morta e enterrada.
Ele não respondeu de imediato, o que me deu a certeza de que minhas palavras brutas o tinham pego de surpresa.
— Eu quero ser amigo de vocês — ele explicou, a voz calma contrastando com o meu nervosismo. — Dos quatro.
Um riso irônico e sem humor escapou dos meus lábios.
— Você não pode simplesmente impor uma amizade assim. Talvez os outros não tenham problemas em ter uma relação amigável com você, mas eu estou fora.
— Mas não vai ser legal ficar em um grupo onde uma das pessoas claramente me odeia.
— Não é que eu não goste de você — soltei, finalmente deixando a verdade escapar. — É que é constrangedor! Nós nos beijamos, foi o meu primeiro beijo e foi simplesmente ridículo. Isso tudo não teria acontecido se tivéssemos continuado amigos, mas você se afastou. Agora, é como se eu tivesse tido o meu primeiro beijo com um desconhecido. E quando eu passo por uma situação ridícula com um estranho, a única coisa que quero é nunca mais vê-lo na vida. Nem pintado de ouro! Porque é óbvio que a pessoa vai lembrar do desastre que foi.
— Eu não sei do que você está falando — Guilherme balançou a cabeça, negando com convicção. — Até porque eu não lembro de ter sido um desastre.
— Claro que foi! Eu surtei, empurrei você.
— Para mim, foi legal — ele rebateu, a voz mansa. — Lembro disso até hoje. Mas não porque foi ridículo, e sim porque foi bom.
Prendi a respiração por alguns segundos. Desviei os olhos dele imediatamente, fixando o olhar na estrada de terra para esconder o choque.
— Definitivamente, nós não estamos falando da mesma situação.
Guilherme não respondeu. Em vez disso, soltou uma risadinha baixa, o que me deixou furiosa.
— Do que você está rindo?
— É só que... é muito engraçado como duas pessoas conseguem guardar o mesmo momento de maneiras tão diferentes.
Aquelas palavras me pegaram totalmente de surpresa. Precisei de um instante para digerir o impacto, respirar fundo e recuperar minha máscara de seriedade.
— Pois é. Hilário.
— Eu não consegui lidar com o que aconteceu na época — ele continuou, o tom de voz caindo para algo mais pesado. — Por isso eu me afastei.
Eu sabia exatamente do que ele estava falando, e não tinha nada a ver com o nosso beijo. Aquilo era sobre a separação dos pais dele, sobre as brigas e o fato de o pai dele ter ido embora para outro país de uma hora para outra.
— Eu sei que foi difícil — comentei, mantendo os olhos fixos na linha do horizonte. — Nem sei como eu reagiria se os meus pais se separassem. Mas foi tudo muito de repente. Tinha acabado de acontecer um marco na minha vida, e tinha sido com o meu melhor amigo. Fiquei preocupada com a forma como aquilo afetaria a nossa amizade, porque, mesmo sendo um jogo, nós tínhamos ultrapassado um limite. O jeito que a gente lidaria com o que aconteceu definiria tudo.
Ele soltou um suspiro dolorido.
— Eu estraguei tudo, não foi?
— Sim — admiti, sem rodeios. — Ficou muito estranho.
O silêncio voltou a se instalar entre nós por um longo período. Enquanto caminhávamos lado a lado, empurrando as bicicletas, usei o silêncio para refletir sobre quem nós éramos naquele inverno frio.
— Sabe... eu poderia ter ajudado você — falei baixinho, ainda sem encará-lo. — Se você tivesse me contado o que estava passando em casa.
— Eu sei — ele sussurrou de volta.
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