Não Te Esquecerei Jamais
5 O modelo vivo
Notas iniciais
Capítulo 4
Por fim, chegamos à minha casa. Eu não queria ser mal-educada, mas simplesmente não sabia como me despedir dele. Será que um "a gente se vê por aí" era o suficiente? Comecei a ficar nervosa aos poucos, preocupada com o desfecho daquele encontro. Situações esquisitas costumam me deixar travada; eu não queria passar a impressão de que estava louca para me livrar dele, mesmo que essa fosse a mais pura verdade.
Minha mãe não estava me esperando na porta, o que era um ótimo sinal. Quando estava brava, ela costumava ficar plantada na calçada. Às vezes, alguma vizinha saía para papear, mas os olhos dela continuavam atentos a qualquer movimento na rua. Era como o olhar de uma águia, pronto para me interceptar assim que reconhecesse minhas feições.
Subi a bicicleta na calçada e apoiei parte do peso dela no meu quadril quando parei de frente para o Guilherme. Forcei uma expressão amigável.
— Chegamos — avisei. Por dentro, odiei a entonação da minha voz. Soou simpática, me lembrando aquelas protagonistas de dorama que ficam totalmente tímidas ao se despedirem do crush, torcendo para terminar o encontro da melhor maneira possível. — A gente se vê por aí.
Por que eu não podia simplesmente ter dito isso e entrado de uma vez?
Virei o corpo, arrastando a bicicleta comigo. Os segundos que levei para caminhar até o portão e apertar a campainha deveriam ter sido suficientes para ele dar as costas e ir embora, mas Guilherme continuou ali parado, com as mãos afundadas nos bolsos.
Parecia que ele queria dizer algo.
Ai, meu Deus! Tomara que não saia mais nenhuma palavra daquela boca para iniciar outra conversa estranha.
Fiz o que faço de melhor: ignorei a figura dele ali parada, como uma estátua colada ao solo.
— Se eu te vir na escola, posso falar com você? Dar um oi? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
Por essa eu realmente não esperava.
— Claro. Eu te dou um aceno — respondi.
Eu tinha plena consciência de que ele poderia interpretar minhas palavras de duas maneiras: ou acharia que eu pretendia ignorá-lo por oferecer de volta apenas um aceno, ou entenderia que eu sabia que ele se limitaria a um cumprimento distante. Eu captei o que ele quis dizer, e sabia que ele também tinha me decifrado.
— Bye Bye — disparei, desejando ardentemente que ele se afastasse antes que alguém abrisse a porta da minha casa.
Evitei me concentrar na expressão dele para não analisar quais sentimentos aquela curta conversa tinha despertado. Tinha medo de vislumbrar a sombra de algo ruim causado pelas minhas próprias atitudes.
— A gente se vê — ele disse, finalmente se virando e seguindo o seu caminho.
O que eu mais temia aconteceu: uma onda pesada de culpa me atingiu. Eu até podia ter evitado os olhos dele, mas não tive como evitar a sua voz. E ela tinha saído carregada de desânimo.
Fiquei pensando nos últimos anos, o período em que deixamos de ser amigos. Guilherme não parecia ter um grupo de verdade como o meu. Não que eu ficasse procurando saber sobre a vida dele, mas são coisas que a gente nota quando convive no mesmo ambiente e se vê todos os dias na escola. Ele participava das brincadeiras no recreio, mas não parecia ter um vínculo profundo com ninguém.
Ai, Ariana! O garoto só quer ter um grupinho de amigos, pensei, sentindo pena. Mas tinha que ser logo o meu? Suspirei, sentindo o peso do dilema. Eu conseguiria olhar na cara dele sem lembrar daquela cena ridícula do passado?
Soltei outro suspiro, ainda mais profundo.
Nós não precisamos ser melhores amigos, não é?
Terminei aquela breve reflexão decidida a ser um pouco mais receptiva se o Guilherme fosse corajoso o suficiente para se aproximar outra vez.
[...]
A quarta-feira e a sexta-feira eram os únicos dias em que minha mãe não precisava se preocupar em me acordar. Não foram poucas as vezes em que, por o quarto estar silencioso demais, ela supôs que eu ainda estava dormindo; ao abrir a porta, no entanto, me encontrava de pé, terminando de me arrumar.
Felizmente, as aulas de desenho oferecidas pela escola tinham mudado de horário, o que me permitia dormir uma hora a mais. Conferi pela terceira vez se todo o meu material estava dentro da mochila, traumatizada com o dia em que esqueci minhas canetas Nanquim. Foi uma aula difícil; afinal, apontador, lápis de cor e lapiseira são fáceis de conseguir emprestado com a secretaria, mas material técnico não.
Saí do quarto com a minha mochila gigante nas costas. Eu sempre optava pelo maior modelo que encontrava para acomodar tudo o que precisasse. Odiava carregar coisas nas mãos, então, se era para usar uma mochila, que fosse uma onde coubesse o mundo inteiro.
Não precisei nem chegar à cozinha para sentir o cheiro reconfortante do café. Sabia que meu pão com queijo também já estaria pronto na mesa. Essa certeza me lembrou de um comentário curioso feito pela Cristina dias atrás. A irmã mais velha dela tinha se casado havia alguns meses, e a maior reclamação da recém-casada era ter que acordar cedo para passar o café antes de ir trabalhar. Eu tinha que concordar com ela: ter que pular da cama mais cedo só por causa do café da manhã devia ser um porre.
— Obrigada pelo café, mãe. Eu valorizo muito isso — comentei, deslizando para a cadeira.
— Certo. Mas espero que valorize as outras coisas que eu também faço por você — ela rebateu, com o seu habitual tom prático.
— Eu valorizo!
Ouvi de longe os passos arrastados da minha avó se aproximando da cozinha, e um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios. Eu amava o fato de ela morar com a gente, principalmente porque, na maior parte das vezes, ela era a minha maior defensora. No dia em que cheguei com a corrente da bicicleta arrebentada, minha avozinha acalmou os ânimos da minha mãe dizendo que aquele tipo de imprevisto acontecia. Argumentou que, se a corrente tinha quebrado, era sinal de que eu usava muito a bicicleta, o que significava que o dinheiro do transporte não tinha sido em vão e que, de quebra, eu ainda me exercitava.
Suspirei ao lembrar que a bicicleta só poderia ser consertada no começo do próximo mês. Pelo menos faltavam menos de quinze dias. Até lá, teria que ir a pé para as aulas de desenho e ainda precisava bolar um plano de como me reunir com meus amigos nos finais de semana. Provavelmente teria que pedir carona para algum deles.
— O que aconteceu para ela estar acordada tão cedo? — minha avó perguntou assim que entrou na cozinha e me viu à mesa.
— Hoje é quarta — minha mãe respondeu de forma óbvia.
Tentei sorrir para a minha avó, mas minha boca estava completamente cheia de pão. Desisti de tentar falar "bom dia", sabendo que ela me repreenderia por falar de boca cheia. Tratei de mastigar o mais rápido que pude enquanto ela se acomodava.
— Ah, as aulas de desenho — a idosa compreendeu.
— Bom dia, vozinha do meu coração! — exclamei assim que consegui engolir.
— Bom dia — ela respondeu, ajeitando o tapete de yoga debaixo do braço. — Já que você está acordada, antes de sair, coloca a minha aula na televisão, por favor. A tela do notebook é pequena demais para os meus olhos.
— Deixa que eu faço isso, mãe. A Ariana tem horário para chegar — minha mãe interveio, me encarando de repente. — É melhor você sair logo. Hoje você vai a pé, lembra?
Balancei a cabeça, concordando freneticamente. Levantei-me e virei os últimos goles de café. O líquido quente desceu queimando o meu peito, me deixando aquecida por dentro e me fazendo lembrar, mais uma vez, que aquela sensação era mil vezes melhor no inverno.
Como em qualquer manhã de verão, o sol brilhava com força total no céu. Naquele dia, havia algumas nuvens branquinhas e volumosas, idênticas ao algodão-doce que eu costumava comprar do Seu Zeca. Ele mantinha uma barraca icônica na frente da escola, sempre lotada de alunos. Teve um dia em que desisti de comprar só porque a fila estava enorme. A cada dia o algodão tinha uma cor diferente e, quando calhava de ser branco, parecia que ele tinha arrancado um pedaço do céu para colocar no palito.
Apressei o passo o máximo que pude, torcendo para encontrar os portões da escola ainda abertos. Cheguei a dar pequenas corridas ao longo do caminho, sentindo meu cabelo balançar de acordo com a intensidade dos meus passos. Quando finalmente atravessei o portão, me arrependi amargamente de não ter feito uma trança ou um rabo de cavalo simples. Tinha poupado tempo em casa deixando os fios soltos, mas agora não fazia ideia de como estava o estrago na minha cabeça.
Passei as mãos rapidamente pelos fios ruivos, ajeitando uma mecha rebelde que caía insistente sobre os meus olhos. Eu gostava de como meu cabelo ficava sob a luz direta do sol; ganhava um brilho vivo, parecendo fogo puro. Sem a iluminação natural, ele assumia uma coloração bem mais escura e discreta.
Só tive tempo de largar minha mochila pesada no chão e me sentar no banquinho antes que a professora Michele entrasse na sala. Ela tinha comentado na última semana que as próximas aulas seriam focadas na anatomia e nos traços do rosto, momento em que colocaríamos em prática toda a teoria que vínhamos estudando. Para isso, estávamos esperando um modelo vivo.
Foi então que percebi uma figura humana caminhando silenciosamente, alguns passos atrás da professora.
Era um garoto, com certeza. Precisei de apenas alguns instantes para identificar quem era. Meu coração, que já estava agitado pela correria que fiz para não me atrasar, manteve o ritmo acelerado assim que o rosto de Guilherme entrou em foco.
De todas as pessoas do mundo, ele era o modelo daquela aula? Em qual disciplina ele estava precisando de pontos extras?
Era de conhecimento geral que os voluntários para os cursos de verão costumavam receber bônus em alguma matéria da grade curricular. Mas quem sacrificaria as férias inteiras para ficar ali parado, sendo que ele nem sequer era aluno do curso de desenho?
Não. Pensando bem, aquilo não fazia o menor sentido. O ano letivo regular já tinha acabado. Nós estávamos prestes a entrar no Ensino Médio. Íamos mudar de escola! Ele não podia ser um voluntário atrás de nota.
Guilherme se mostrou surpreso quando seus olhos encontraram os meus. Consegui ler claramente em sua expressão — nas sobrancelhas erguidas e no leve sorriso torto — a pergunta muda: Você por aqui?
Meus ouvidos simplesmente bloquearam o som das palavras que saíam da boca da professora Michele. Só registrei que ela o apresentava formalmente como o modelo do dia. Respirei fundo enquanto me ajeitava no banquinho, vendo-o assumir sua posição de destaque no centro da sala.
Depois que ele se acomodou, minha mente conseguiu se concentrar em apenas duas certezas: ainda bem que eu não estava sentada na primeira fila, e vamos a isso.
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